Psycho
4 Profetizando o fracasso: herdamos o fio de Ariadne
Blake pareceu prender a respiração. Seus olhos fuzilavam aquele homem sentado na arquibancada.
– Hermes – Disse entre dentes, enquanto o restante de nós fazia uma desajeitada reverência que era completamente ignorada pelo deus mensageiro.
– Vê isso? – Ele apontou para cima, fazendo um movimento circular com os dedos.
O dia estava escuro e desanimado, como se até mesmo o sol estivesse sem vontade de aparecer. Era possível sentir a atmosfera de angústia, pesada, como se o mundo estivesse prestes a ser palco de algo muito ruim.
– O que quer que eu faça? – Disse Blake, ele parecia estar confiante, mas eu podia jurar que por baixo daquele impecável aparência poderosa, estava se escondendo um menino frágil e amedrontado.
– A civilização ocidental pode cair e você vem me perguntar o que deve fazer? – O deus brilhava como se fosse explodir em raiva e matar a todos nós – Eu quero que você, em nome de Zeus, tome coragem e peça uma missão e vá procurar o que está perdido!
Encolhemos mediante as palavras poderosas do deus, exceto Blake, que ainda apostava em sua postura orgulhosa. Hermes o olhava furioso e ele retribuía aquilo com uma rara e impossível calma.
– O senhor Zeus me disse ser impossível. Depois do que aconteceu, embora eu nem mesmo possa dizer quando foi, aquilo dificilmente poderia ser recuperado por um herói.
– Pois nós, o restante dos representantes do conselho olimpiano, achamos que está mais do que na hora de descobrir se isso é mesmo verdade ou não. Estamos mais do que dispostos a dar inicio a uma guerra para depor Zeus e recuperar a chama, antes que toda a civilização definhe.
A expressão orgulhosa de Blake se desfez. Assim como eu imaginei, debaixo daquilo havia apenas medo e resignação. Fez-me sentir pena ao lembrar o que ele havia contado quando chegou, como ele parecia, de certa forma, inocente. Olhei para Gus e ele me devolveu um olhar assustado, Pan parecia perdida, olhava para nós aparentemente em busca de respostas.
– Atena acha que quem quer que a tenha escondido depois que você a tirou do Olimpo, pode fazer com que ela escape de nosso olhar, mas talvez você possa procurá-la, em uma missão. Afrodite disse que você terá algo que vai movê-lo na direção certa, apesar de tudo. Algo que já causou guerras e desfechos trágicos, assim como moveu situações aparentemente impossíveis à solução.
Blake engoliu em seco. Seu olhar vagou para cada um de nós, em aparente busca de amparo, mas não havia nada ao nosso alcance, até porque, se analisasse por nossa perspectiva, todas as variáveis envolvidas apontavam para o fato de que em nossa frente havia um furioso e brilhante deus mensageiro pronto para explodir qualquer semideus metido. Em resumo, ficamos no mais absoluto silêncio e mais uma vez senti pena de Blake.
– Farei isso – Ele disse por fim, a expressão de coragem voltando – Sairei em missão e farei de tudo para recuperar a chama.
– Assim espero – Respondeu Hermes, seu rosto frio e indecifrável – Para o bem ou para o mal, tenho certeza que nos veremos outra vez, filho de Zeus.
O deus desapareceu em algo brilhante, nos deixando apenas segundos para virar o rosto e não ser desintegrado. A arena parecia impossivelmente silenciosa, como se todo o acampamento houvesse parado de respirar, se amedrontado com Hermes. A cor sumira completamente do rosto de Blake, seus olhos azuis fixos em um ponto qualquer do lugar, sua expressão indicando varias coisas como medo, descrença, raiva e por mais impossível que fosse, traços do mais puro ultraje. Ele se sentia acima de tudo ofendido e naquele momento eu soube que ele faria o possível e o impossível para recuperar a chama.
O filho de Zeus seguiu arrastando-se para a casa grande, Gus e eu o seguimos, inventando qualquer coisa para Pan, que foi deixada para trás totalmente às escuras, sem saber o que estava acontecendo. Contamos a Quíron o acontecido, o velho centauro ouviu a tudo atento.
– Creio que deva visitar o oráculo, senhor Madison – Falou ele, o rosto milenar demonstrando preocupação – Vá em frente, suba ao sótão. Se sobreviver, conversamos depois.
Blake lançou um olhar que julguei como sendo cético para o centauro, mas mesmo assim não disse nada. Entrou na casa com passos firmes e ruidosos. Acompanhei-o com o olhar até que desaparecesse do meu campo de visão, então encontrei Quíron me estudando cauteloso, ao ver-me retribuindo o olhar curioso, o velho sorriu, passando então a tamborilar os dedos no cercado da varanda, como que nervoso, e seguiu assim até que Blake voltasse.
Se é que é possível, o menino voltou ainda mais pálido, como se houvesse passado uma temporada no Hades. Seus olhos azuis faiscando, brilhando perigosos como um cartaz de mantenha distancia.
– Bem, meu jovem, e então?
O garoto respirou fundo, fixando o olhar em mim, como se compreendesse algo. Depois de vários minutos, ele finalmente falou.
– Essa foi uma experiência realmente, realmente perturbadora. Tinha umas pessoas de névoa falando em uma voz estranha, tenho certeza que as...
– A profecia garoto, qual foi? – Perguntei seca, revirando os olhos.
– Ah, é... A canção de loucura e paixão outra vez será ouvida, quando pelas mãos de Nêmesis a maldição for repetida.
Ele parou, engolindo em seco.
– Não gosto disso, isso sobre Nêmesis – Admitiu, batendo os pés nos chão, um típico surto de TDAH, eu poderia dizer — No labirinto sem fim arde a chama ocidental, raio e vinho unidos em uma busca mortal.
Senti o coração acelerar quando notei o olhar de Blake fixar em mim outra vez, como que mandando uma mensagem que eu não compreendia.
– O mesmo que levou há de mostrar o caminho preciso, ou para algo pior que a morte um será para sempre perdido – Findou ele, respirando fundo outra vez.
Eu parecia já ter ouvido algo como aquilo, apenas não consegui lembrar onde. Mas no todo, aquilo não parecia uma boa coisa. Foi então que algo me ocorreu.
– Quíron? – Chamei o centauro, que parecia completamente perdido em pensamentos.
– Sim?
– Labirinto sem fim, isso não quer dizer aquele labirinto, certo? – Perguntei nervosa.
– Temo que seja criança, mas vamos torcer para estarmos errados.
– E que ótimo lugar seria para esconder algo, não? – Gus completou meio receoso, fitando o nada de repente, obviamente compreendendo meu raciocínio.
– Mas... Mas isso é suicídio! É uma missão fadada ao fracasso! Não se entra no labirinto e saí vivo para contar a história!
Eu deveria estar soando inacreditavelmente covarde, mas era a verdade. Não haveria como obter sucesso em tal missão aquilo era... Loucura.
– Alguém vai dizer-me sobre o que estão falando? – Blake exigiu, olhando-nos nos olhos, encarando friamente de modo que me fez pensar que ele poderia nos agredir fisicamente para conseguir sua resposta.
– O labirinto de Dédalo – Quíron falou, desanimado e pensativo, cansado e preocupado.
– Mas isso é...
– Impossível? Acho que não – Disse Gus, olhando para Quíron de maneira especulativa, certamente buscando respostas, sabendo que Quíron deveria estar escondendo algo.
– Certo, e onde fica esse labirinto? – Blake lançou a Gus um olhar de desprezo.
– Em todo lugar, certamente – Foi Quíron quem respondeu – Por todo o país, talvez até mais, é impossível dizer, mas ele está logo abaixo da superfície do mundo mortal.
– Por todo o país?
O centauro assentiu, olhando-o aflito.
– Ele tem crescido por milhares de anos, atando sua forma debaixo das cidades ocidentais, conectando tudo pelo subterrâneo, mesmo após a morte de Dédalo, ocorrida há muito lá dentro mesmo.
– E você pode ir pra qualquer lugar pelo labirinto – Completei, vendo o fascínio tomar seu rosto – Ele pode levá-lo praticamente para qualquer lugar.
– E ele lê seus pensamentos – Gus completou depressa – Ele foi desenhado para fazê-lo de idiota, enganá-lo e matá-lo, se desejar que tenha um final bom, senão... – O garoto estremeceu. Um destino pior que a morte, com certeza, mas ele nem precisou dizer.
– Mas se você for esperto o suficiente, pode fazer o Labirinto trabalhar paravocê – Falei, mas nem eu mesmo conseguia crer muito nisso.
Blake assentiu enquanto tentava assimilar toda a informação. A compreensão começava a tomar seu rosto, ao mesmo tempo em que o medo puro e simples achava seu lugar ali.
– Isso é mesmo suicídio – admitiu por fim – Do modo como vocês falaram, dá para se dizer que a coisa tem vida própria.
– E têm, de certa forma. Quero dizer, o lugar meio que se constrói e transmuta sozinho, não? – Lancei-lhe um olhar interrogativo, ele deu de ombros, sem resposta.
– E você tem que ir para lá comigo – Disse de repente – Digo, é você, não é? Raio e vinho, eu e você suportando a maldição de uma deusa e correndo o risco de ter como recompensa algo pior que a morte?
Eu queria responder, mas nada estava ao alcance de minha mente, as palavras haviam simplesmente me abandonado. Aquilo me assustou, mas por outro lado, eu estava terrivelmente excitada com a idéia, ansiosa para me lançar no labirinto e ver o que acontecia, mas também podia sentir que aquela ansiedade não vinha de mim, exatamente. E isso me preocupava.
– Bem, meu jovem Blake, profecias não são fáceis de interpretar, ainda mais de maneira tão precipitada. Devo concordar que ela muito provavelmente se refira a você e Sury, mas...
– Eu aceito – Me ouvi dizendo, como que em resposta automática – Eu aceito a missão Quíron, vou com Blake recuperar a Chama do Olimpo no labirinto.
Blake quis levar também Lexy, porque ele a impressionara na arena. “Oh, ela tem habilidades, lança maldições e blá, blá, blá, ela vem conosco”. Eu quis argumentar, insisti para que ele levasse Gus, que sabia muito sobre o labirinto, mas nada feito. Lexy Harlowe e eu em uma mesma missão, aquilo estava ficando cada vez melhor. Talvez morrer fosse a melhor coisa a me acontecer, no fim das contas.
– E aí, perdedora? – Ela me deu um soco no ombro logo após o convite de Blake – Animada para a missão? Vamos nos divertir tanto.
Você é um nojo, pensei amarga, mas não cheguei a verbalizar. Dei-lhe as costas enquanto ela me lançava uma torrente de insultos e achava graça, rindo como uma hiena. Provavelmente não chegaria a verbalizar, mas na realidade torcia para que a parte do “para algo pior que a morte um será perdido” se aplicasse a ela.
Tive uma noite inquieta, passei muito tempo pensando na missão e na história que Blake contou ao chegar. A chama do Olimpo que ele aparentemente ajudara a perder em sua estúpida idéia de vingança aos deuses ou qualquer coisa assim. E ainda tinha a profecia girando em minha mente, fazendo qualquer vestígio de coragem sumir.
A canção de loucura e paixão outra vez será ouvida
Quando pelas mãos de Nêmesis a maldição for repetida
No labirinto sem fim arde a chama ocidental
Raio e vinho unidos em uma busca mortal
O mesmo que levou há de mostrar o caminho preciso,
Ou para algo pior que a morte um será para sempre perdido
Eu poderia morrer, ou pior, poderia não morrer. Poderíamos ficar perdidos no labirinto, ser amaldiçoados e tantas outras possibilidades que eu preferia não mais pensar. Quando enfim consegui dormir, tive outro sonho estranho com o menino carregado pelo vento, dessa vez ele chorava nos braços de uma mulher cujo rosto eu podia ver parcialmente, mas me parecia familiar. Ela o segurava de qualquer jeito, parecendo que fosse o deixar cair a qualquer momento, murmurava em uma língua antiga, mas pareciam palavras mágicas que de alguma forma entendi como sendo votos de uma vida longa. Se ela parecia o odiar, como estava desejando uma vida longa? Talvez eu tivesse entendido errado. Então o menino foi novamente arrebatado pelo vento e enquanto a mulher dava gargalhadas, ele desapareceu em um lugar escuro e eu acordei ofegando.
Partiríamos na primeira hora do amanhecer daquele dia.
– Eu tenho uma boa e uma má notícia – Anunciou Dionísio, surgindo na varanda quando nós reunimos lá com Quíron.
– Mas que surpresa – Riu Quíron – O senhor jamais acorda antes das dez, Sr. D.
– Vim dar boa sorte a minha filha Samy, centauro – Resmungou o deus, vestindo pijamas roxos de seda com uvas douradas e um enorme “D” bordados no bolso da camisa. Tudo que eu consegui pensar foi: como minha mãe se apaixonou por isso? – E as noticias, certamente.
– A boa primeiro – Falei.
Ele jogou uma mochila velha para Blake. Ele a abriu, e dentro havia um emaranhado de fios de ouro, brilhando a fraca luz da manhã.
– Isso é o que eu estou pensando? – Perguntei assustada. Não poderia ser – É o... Nossa! Obrigada pai.
Fiquei tão, mas tão emocionada que até o chamei de pai. Foi apenas emoção, que fique claro.
– Não me agradeça, Sophia. Ariadne estava de bom humor ontem. Bom, ela também falou alguma coisa sobre não querer ver a civilização definhar, ou qualquer coisa do tipo.
– Por favor, não finja que não se importa, é sua civilização também – Lancei-lhe um olhar ofendido. Ele deu de ombros.
– Bem, bem, vamos às más notícias, huh? Como vou dizer isso? Ah, bem, vocês não tem muito tempo, certamente.
O deus agitou uma das mãos e uma pequena caixa de suco uva se materializou ao seu lado. O encaramos furtivamente, mas ele parecia não ligar.
– Então? – Incentivei.
– Oh, sim, de que falávamos mesmo? – Ele me olhou realmente em dúvida – Ah! O tempo. Então, temos esses monstros primordiais terríveis se agitando com essa história toda de chama se apagando e blá, blá, blá. E acredite, quando eu digo terríveis eu quero dizer terríveis. Criaturas do caos e da noite, enfim, terríveis. Ah, e não podemos esquecer de que o subterrâneo não é lugar para uma chama, mas isso é obvio, não? Quero dizer, pode ser eterna e toda aquela conversa, mas ainda é uma chama, certo? Certo. De qualquer maneira, eu me apressaria se fosse vocês.
– Por que agora que já sabemos onde ela está um de vocês deuses simplesmente não faz poof e vai lá pegar? – Falei irritada, vendo Dionísio dar de ombros outra vez.
– Existem essas regras antigas das quais eu não estou interessado em saber, já que sou um deus novo e tudo mais, essas que restringem e proíbem coisas e isso tudo, perguntem a Atena ou qualquer coisa assim, não sou abrigado a saber tudo, ela é quem é paga para ser a deusa da sabedoria. De qualquer forma, sei que se vocês demorarem, não sei, talvez mais de duas ou três semanas, o fogo é quem faz poof, e os monstros terríveis darão conta do resto, certamente.
Depois dessa explicação esclarecedora, nos deparamos com um dilema: Por onde começar a busca? Precisávamos, antes de mais nada, encontrar a entrada para o labirinto.
– Tem esse problema – Falei, quase verbalizando meus pensamentos sem perceber- Quero dizer, como entraremos no labirinto? Gus deve saber – Lancei um olhar irritado na direção de Blake, que apenas deu de ombros, como se o fato de Gus saber muito sobre o labirinto pouco importasse.
– Há rumores desde os tempos antigos, — Quíron falou, batendo os cascos no chão – De que há tantas entradas quanto se é possível imaginar, basta saber encontrá-las.
– Certo – Lexy rugiu – E como, exatamente, saberemos encontrá-las?
– Acredito que a busca faça parte da missão, já que não lhes foi dado um ponto de partida exato. Vocês terão que buscar a marca de Dédalo.
– A marca de Dédalo? – Blake semicerrou os olhos, analisando Quíron com extrema cautela – E o que essa marca seria?
O centauro estava sério, seu rosto demonstrando preocupação. Com uma das unhas desenhou uma letra grega em uma das colunas de madeira da varanda, o delta: Δ.
– Argos vai deixá-los em Manhattan, depois procurem o delta, então acredito que saberão o que fazer. Como já dissemos, o labirinto parece pensar por si mesmo, talvez tente atraí-los, facilitando a busca. Senão...
Ele não disse mais nada, mas nem precisava. Falhar não era bem uma opção. Nós três assentimos ansiosos, arrumando as mochilas nas costas e rumando para a colina. Permiti-me seguir atrás de Blake e Lexy, que se mantinham a uma distancia segura um do outro, como se a proximidade perturbasse a ambos.
Quando iniciávamos a subida da colina, senti uma mão pesada no meu ombro esquerdo, eu ao me virar peguei um Dionísio olhando-me aflito.
– Sury – ele falou, respirando pesadamente e estudando-me com cautela. Fiquei realmente surpresa por ele esquecer-se de fingir que não sabia meu nome, mas não disse nada – Eles duvidam de você, eu sei e você sabe. Mas veja, como um mortal eu nunca fui um grande guerreiro, atleta ou poeta. Eu só fazia vinho. As pessoas da minha vila riam de mim. Elas diziam que eu nunca conseguiria nada. Bem, olhe para mim agora, imagino ter chegado mais longe que qualquer um deles. Então, não se deixe intimidar, às vezes pequenas coisas podem tornar-se de fato muito grandes, querida, lembre-se sempre disso. E boa sorte, não esqueça, hoje é dia 10 de agosto, então você sabe, três semanas e ahn, devo dizer que o tempo passa de forma diferente no labirinto, você sabe, tempo e espaço colidindo, sugiro que sejam rápidos.
Assenti, mesmo sem compreender muito. Vi Blake virar em minha direção, sorrindo e perguntando se estava pronta para ir. Eu assenti, selando o nosso acordo de missão e despertando Loucura, para meu completo espanto.
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