Psicopata
9 Capítulo 9

Horas transcorreram diante das palavras de Gray, o conteúdo dos interrogatórios era extenso e quase inútil, o primeiro a ser apresentado à mesa de reuniões foi o do proprietário do prédio, Kevin Bristow, 61, viúvo e doente, o câncer de pulmão descoberto há poucos meses fazendo seu trabalho de destruí-lo por dentro impecavelmente, eu mesma o havia interrogado, dois dias após o enterro de Tony Brexton, e Kevin não pode descrever nenhum perfil para mim sobre qualquer uma das pessoas que alugaram um apartamento na semana que antecederam o assassinato, sua memória falha e seu desinteresse em relação ao corpo apodrecido encontrado em um dos apartamentos de seu prédio nas horas que passei à sua frente na pequena e claustrofóbica sala de interrogatório me levaram a deixá-lo falar sobre sua doença para as paredes, outro policial tomou meu lugar mas não conseguiu mais nada que nos fosse útil, a coisa mais relevante que nos chamou a atenção foi que, alguns dias antes do corpo ser encontrado, Kevin notou uma pessoa passar pelo térreo com duas sacolas de lona manchadas.
Ele não conseguiu sequer dizer qual era a cor do cabelo daquela pessoa.
Logo depois de Gray ter terminado o relato do interrogatório de Kevin, ele partiu para os dos moradores dos outros apartamentos do prédio e para os vizinhos da área, aquilo somente consumiu o tempo com inutilidades, ninguém percebeu nada, viu ou ouviu alguma coisa suspeita e as buscas em suas moradias não nos revelou coisa nenhuma.
Os garotos que encontraram o corpo mutilado de Roberto Sylvia haviam sido interrogados, quatro disseram a mesma coisa, que haviam se embrenhado na floresta para caçar uma bola de futebol perdida e assim acabaram se deparando com o corpo, o único que não disse a mesma coisa que os outros, David Muller, 16, foi o que fez todos serem detidos por porte de drogas.
— Não há mais nada. — Gray finalizou, sua voz soou frustrada e ele encarou os papeis na mesa com tensão nos ombros.
Gageel soltou um pejorativo alto que fez Makarov franzir a testa pra ele.
— Resumindo tudo: uma perda de tempo. — Natsu verbalizou o que eu estava pensando com um tom irritado, ele estalou a língua e se esticou na cadeira, estalando as juntas rígidas. — Nem mesmo a parte em que Kevin diz ter visto uma pessoa suspeita foi de alguma utilidade, o velho não pôde nos fornecer nenhum detalhe sequer.
— Não podemos culpá-lo, a debilidade causada pelo câncer o afetou muito. — Levy disse, a voz de psicóloga querendo dar razões à tudo.
— Ele está doente não cego. — falei, sem nenhum pingo de compaixão, a frustração não deixava espaço para mais nada. — E também pude perceber que não estava nenhum pouco interessado em nos ajudar.
Levy encolheu os ombros, a expressão no rosto retraída por minhas palavras duras, soltei um suspiro longo e esfreguei a lateral do rosto, no mesmo segundo mordi os lábios com força para segurar o grito de dor, havia me esquecido que tinha levado um tiro de raspão mais cedo.
— Então estamos estancados ainda na estaca zero. — Makarov disse, o estrondo barulhento de um trovão abafou suas próximas palavras, ele se calou e esperou até que o som se desvaneceu. — As marcas de pá no corpo de Roberto, elas também foram encontradas no de Tony?
— Não. — limpei a garganta e estreitei os olhos embaçados de lágrimas de dor. — Parece que nosso assassino percebeu que retirar os órgãos com a ajuda de uma pá era mais fácil quando matou Roberto.
Makarov me encarou por alguns momentos, as rugas parecendo mais profundas nos cantos de seus olhos preocupados.
— Dr.ª McGarden. — Gray chamou a atenção da psicóloga. — Você tem algum perfil do nosso assassino?
Toda a atenção convergiram para Levy que mordeu os lábios, pensativa.
— Um homem, talvez não mais velho que 35 anos. — começou, conferindo suas anotações em um bloco fino de papel. — Com ótima lábia e um carisma falso que engana as pessoas ao seu redor, seguindo os estudos feitos sobre psicopatas, sabe muito bem esconder seu verdadeiro eu em uma máscara de sentimentos quase genuínos, é inteligente e metódico sem ser chato. — retirou os óculos e esfregou os olhos, continuando a falar. — Não é exatamente um perfil útil, isso o que lhes disse foi o que consegui lendo as duas cartas, o assassino revelou somente o que queria que nos soubéssemos dele... Pode se dizer que ele está conduzindo nossa investigação ao seu bel prazer.
Trinquei os dentes. Ele estava mesmo brincando conosco.
— Que ótimo. — Gageel murmurou, os lábios comprimidos em uma linha fina. — Essa reunião não prestou para nada então, me retirarei agora, Makarov.
E dizendo isso, levantou-se, empurrando a cadeira com força para trás e fazendo-a bater na parede, saiu da sala a passos pesados. Olhei de esguelha para Natsu, na esperança de que ele fosse atrás do moreno, mas ele continuou sentado, as pernas esticadas e uma expressão pensativa no rosto, ele me olhou de esguelha também, flagrando meu olhar em si, e abriu um lento sorriso que me fez rapidamente desviar meus olhos, encarei tudo, mesmo ele novamente.
— Creio que devo encerrar essa reunião. — Makarov disse, a voz revelando o cansaço que os olhos não revelavam. — Iremos marcar outra quando tivermos feito algum progresso. Lucy, você pode ficar um pouco?
Assenti, Gray bagunçou meus cabelos úmidos antes de sair, Levy acenou com a cabeça, catou alguns papeis e acompanhou o moreno logo depois, Natsu se levantou lentamente, senti-o se curvar na minha direção.
— Estarei esperando lá fora. — sussurrou, com a voz grave.
Não o olhei quando deixou a sala.
— O que foi, chefe? — falei, fingindo um tom alegre na voz. — Serei repreendida por minha conduta de mais cedo?
Makarov não sorriu e eu desmanchei o sorriso falso que havia posto em meus lábios.
— Pedi a Levy para chamar alguém que possa arrumar seu curativo. — disse. — Está sujo.
Toquei com as pontas do dedo o local dolorido, eles voltaram manchados de sangue, pisquei.
— Desculpe-me, eu não percebi.
— Lucy. — os olhos de aço do velho chefe de policia me encaravam com intensidade. — Devo dizer que estou decepcionado com você.
Abri a boca para dizer alguma coisa, mas tornei-a fechar, desculpas não iriam servir para nada.
— Colocar-se em perigo a cada chance que têm me faz perceber que não está tão bem quanto insiste em dizer. — continuou. — Porquê você odeia tanto a vida que ele salvou?
Engoli em seco. Pensei em várias mentiras para lhe dizer, brincadeiras falsas para desviar o assunto da conversa, mas não consegui expulsar nenhuma por minha boca, era impossível enganar Makarov Drayer, o velho me conhecia há muito tempo, não só os nove anos que eu trabalhava como investigadora em sua delegacia, mas desde que eu era tão pequena que podia ser carregada em seus braços, Jude e Makarov foram amigos e parceiros policiais por muito tempo, antes do meu pai sair e ele se tornar o chefe de policia, Makarov me viu crescer, me formar, ajudou-me a convencer meu pai a me deixar seguir a carreira da investigação criminal, me buscou de festas que meus pais não sabiam que eu tinha ido e me encobriu quando matei aulas da universidade para sair com amigos.
Makarov me consolou quando os perdi e me sustentou com seu carinho e amor nas horas que mais necessitei, ele é o meu segundo pai... E eu não podia mentir para ele.
Lambi meus lábios ressecados, com os olhos postos em minhas mãos pálidas e magras, demorei alguns minutos para conseguir dizer alguma coisa:
— Sinto muito. — odiei-me ao perceber que tudo o que podia sair da minha boca eram desculpas vazias. — Eu... Eu...
A porta se abrindo interrompeu o que quer que eu fosse dizer, uma policial de cabelos ruivos e olhos claros entrou, com uma maleta de kit de primeiros socorros nas mãos.
— Desculpe a intromissão, mas o senhor me pediu para cuidar da investigadora Lucy. — disse, formalmente, ela olhou de mim para Makarov, parecendo perceber o clima. — Eu... Posso voltar depois, se vocês quiserem.
Makarov balançou a cabeça e afastou a cadeira da mesa, se colocando de pé com um estalo audível de sua coluna.
— Não, tudo bem. — ele lançou um olhar paternal e triste para mim. — Seus pais ficariam infelizes se a vissem agora, investigadora Lucy.
O som da porta se fechando pareceu ecoar por muito tempo na sala de reuniões.
***
A chuva havia amenizado quando sai da delegacia, soltei a respiração pela boca, vendo a fumacinha branca se espiralar e desaparecer à minha frente, o céu estava escuro, nublado pelas nuvens grossas, desamarrei a jaqueta em minha cintura e a vesti, catei o celular de dentro do bolso e olhei as horas, já passava das três da tarde, caminhei pela calçada molhada, sentindo as gotas frias da chuva escorrer por minha nuca e invadir o interior das minhas roupas.
Um carro esportivo parou logo a minha frente e Natsu saltou dele com elegância.
— Não está querendo fugir do nosso almoço, está?
Pisquei algumas vezes, tinha me esquecido.
— Onde está Gray? — perguntei, olhando para os lados, à procura de sua viatura e dele, na vontade de que ele aparecesse e me resgatasse.
O sorriso que se insinuava nos lábios de Natsu se apagou.
— Está querendo me trocar por ele, parceira? — não havia nenhum tom de brincadeira em sua voz, passou os dedos no cabelo, empurrando os fios molhados para trás. — Parece que um roubo aconteceu à algumas quadras daqui, ele e mais um outro policial foram para lá.
Soltei um gemido baixinho. Parece que não tinha outro jeito a não ser ir com aquele cara.
— Está bem, está bem. — murmurei. — Me leve para onde quiser.
Outro sorriso, dessa vez malicioso, se insinuou e se fixou em seus lábios.
— Não fale desse jeito. — aproximou-se com passos predadores. — Ou então posso te levar para algum lugar diferente do qual você está imaginando.
O olhei com raiva.
— Vou embora. — estava prestes a dar-lhe as costas, mas ele agarrou meu pulso.
— Estou brincando, estou brincando! — riu e me puxou na direção do seu carro.
Entrei pelo banco do motorista e me sentei no do carona, enquanto ele se sentava e fechava a porta, passei o cinto de segurança e me acomodei no estofado macio.
— Tome. — olhei para o lado e vi uma cartela de remédios na palma da mão estendida de Natsu. — Irá aliviar a dor.
Catei a cartela, olhando para os pequenos e brancos remédios com desconfiança.
— Isso não é um boa noite Cinderela não né?
Natsu virou o rosto para mim, rindo.
— Não. — depois parou e me encarou com tanta intensidade que quase me senti nua. — Mas se você quiser um...
— Você quer ser preso, agente Dragneel? — perguntei, com a voz doce.
Ele arreganhou os dentes em um sorriso ferino.
— Não iria ficar por muito tempo. — olhou para trás, dando a partida no carro e manobrando-o para pegar uma rua atrás de nós. — Daria meu jeito de sair e começaria a planejar a minha vingança com quem me jogou lá.
O que ele disse me fez pensar, vingança, hã? Balancei a cabeça e coloquei a cartela dentro do bolso da minha jaqueta, ignorei qualquer pensamento que envolvesse todos os criminosos que ajudei a colocar atrás das grades e que quando recebessem a liberdade poderiam querer se vingar de mim, olhei para frente com concentração, negando o pensamento que aflorou em minha mente de um determinado criminoso.
Aquele cara ainda apodreceria na prisão por uns bons anos.
— Vai ficar com rugas se continuar a franzir a testa desse jeito. — Natsu me chamou para a realidade, tocou minha testa e esfregou seu indicador na dobrinhas que surgiam sempre que a franzia.
Espantei sua mão.
— Rugas tem seus charmes.
Ele riu, diminuiu a velocidade, deixando um carro ultrapassá-lo pela esquerda.
— Então você será uma velha enrugada bem charmosa.
O olhei e sem querer, deixei escapar uma gargalhada, tampei a boca com a mão, tentando controlar o riso que parecia borbulhar em minha garganta, lágrimas embaçaram minha visão por causa do esforço. A lateral esquerda do meu rosto ardeu em dor.
Quando consegui parar, Natsu me encarava com veemência.
— É a primeira vez que você ri na minha frente e por minha causa. — disse lentamente, ainda com os olhos escuros fixos em mim. — Fica mais linda assim.
Um rubor quente invadiu minhas bochechas, desviei o rosto, para escondê-lo dos olhos perscrutadores de Natsu.
— Preste atenção no trânsito, agente Dragneel.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, encarei a janela embaçada pela chuva que havia voltado a ficar forte.
— Nós dois somos parecidos. — disse de repente.
Franzi o cenho.
— Parecidos como?
Ele demorou alguns segundos para responder:
— Nós dois somos quebrados.
Não voltamos a conversar até chegarmos ao restaurante que Natsu escolheu, ele estacionou e abriu um sorriso, convidando-me a sair, batemos as portas do carro e corremos na direção da porta dupla do estabelecimento, quando entramos, o calor nos acolheu com lufadas calorosas, as paredes de um vermelho fosco e mesas de madeira escura dava um ar bastante aconchegante no pequeno restaurante, escolhemos uma mesa desocupada nos fundos, assim que nos sentamos, um garçom de camisa preta e calças vermelhas apareceu, com um sorriso mecânico enfeitando o rosto neutro, fizemos nossos pedidos e enquanto esperávamos, encarei Natsu que brincava com o arranjo de flores falsas na mesa.
— O que você quis dizer com aquilo? — perguntei, com uma sobrancelha arqueada.
Ele ergueu os olhos para mim. Sombrios.
— O quê?
Continuei a encará-lo, tentando desvendar o enigma que ele me oferecia, balancei a cabeça.
— Nada.
Com um sorriso, ele se curvou na minha direção, invadindo meu espaço pessoal e não se importando com isso.
— Está curiosa em relação à mim? — sussurrou, seu hálito de menta soprando em meu rosto. — Vamos fazer um acordo?
Afastei-me dele, pregando minhas costas no encosto macio da cadeira.
— Não.
Natsu fingiu uma expressão magoada.
— Mas você nem me deixou dizê-lo. — murmurou e se curvou ainda mais na minha direção, tanto, que a ponta de seu nariz encostou-se na ponta do meu antes que eu me inclinasse para trás.
— Sente-se direito, agente Dragneel.
— Se você me deixar falar o acordo, eu me sento, Lucy.
Fitamos-nos por alguns momentos. Suspirei, derrotada.
— Ok, agora se sente direito.
Ele abriu um sorriso gigante e fez o que pedi, apoiou o cotovelo na mesa e colocou o rosto na mão.
— A cada coisa que eu lhe disser sobre mim, você deverá dizer algo sobre você.
— Isso é... — fui interrompida pela chegada do garçom que colocou nossos pratos na mesa de forma robótica, encheu os copos com água e saiu, continuei. — Isso é ridículo.
Natsu deu de ombros, não se importando com o que eu achava de seu acordo. Estalei a língua e mexi o garfo na massa que havia pedido, o cheiro estava ótimo mas a vontade de comer ainda não havia dado as caras, passei alguns segundos encarando o prato, depois levantei os olhos, minha atenção chamada por Natsu.
— Coma. — ordenou, os olhos sérios.
Franzi o cenho. Ao invés de fazer aquilo, peguei a cartela de remédios e destaquei três de uma vez, a dor estava insistente e deixava a lateral do meu rosto um pouco dormente, joguei-os na língua e os engoli com ajuda da água. Por alguns breves momentos, lembrei-me de um pote de comprimidos vazio e de dias cinzentos na cama de um hospital.
— Não devia ter tomado três, parceira. — Natsu disse, brincando com o garfo, seus olhos sérios se tornando perigosos. — Eles dão sonolência.
O olhei com indiferença.
— Não importa.
E levei o garfo até a boca, não sentindo o gosto da comida.
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