Psicopata
10 Capítulo 10

Era um sonho. Eu sabia disso, mas a dor que queimava em meu abdômen parecia real demais, o sangue empapava minha camisa, mesmo com a pressão da minha mão, ele escorria abundante por entre meus dedos, pingava no assoalho de madeira escura daquela casa e sumia por entre as rachaduras que nele havia por conta da velhice, mesmo na penumbra daquele cômodo, meus olhos conseguiam enxergar com detalhes a arma que estava apontada para mim, o cano ainda fumegante do tiro que havia disparado à poucos segundos, a mão que segurava aquela arma estava firme e o sorriso perverso que povoou meus pesadelos pelos anos seguintes me afligia o mais puro horror que jamais havia sentindo até aquele dia.
Tentei acordar. O que vinha logo depois daquilo era uma cena que revivi muitas vezes em meus pesadelos, mas que continuava tão terrível quando aconteceu, há quatro anos.
Mas não consegui à tempo, a figura que portava a arma riu e quando estava prestes a apertar o gatilho, uma sombra se pôs à minha frente, um tiro, dois, três, quatro tiros, todos em sequência, com somente um segundo de pausa, o sangue dele espirrou em meu rosto quando seu corpo despencou ao meu lado, o choque travou minha língua e meus olhos não conseguiram se desviar de seu rosto pálido, morto, então veio a fúria e uma dor que apagou a que eu estava sentindo, minha mão agarrou o cabo da minha arma, abandonada ao meu lado e os tiros que efetuei junto com o meu grito fizeram coro para o meu ofego quando acordei, suor frio escorria por minha testa e nuca, minhas roupas ainda úmidas por causa da chuva me fizeram tremer, mesmo com o ar quente que o carro emanava, pisquei algumas vezes, confusa por alguns instantes antes de virar para o lado e me deparar com o olhar negro de Natsu em mim, encarando-me com tanta intensidade que temi ser incinerada.
— Pesadelo. — não perguntou.
Somente assenti e desviei meus olhos dos seus, minha respiração ainda saia em ofegos curtos, respirei fundo, encostando a cabeça no banco, não fechei os olhos, as lembranças que foram invocadas como um pesadelo ainda estavam frescas, dolorosas, e seu eu fechasse os olhos, mesmo que por um segundo, elas me assaltariam, contei dez respirações profundas e me vi finalmente controlada o bastante para voltar a olhar para Natsu, que ainda me encarava, abri um sorriso amarelo.
— Dormi demais?
Pela janela, a tarde avançava em tons cinzentos e escuros, o céu nublado mas o tempo estiado, o carro estava estacionado na rua onde meu prédio meio torto ficava, a grama molhada e marrom cobrindo o espaço que tinha entre o asfalto e sua entrada, outros prédios residenciais se erguiam ao lado dele, tão ou mais tortos, aquele não era um bairro pobre como muitos outros que se espalhavam por Magnólia, mas também não era um dos muitos ricos que pareciam se multiplicar pela cidade, famílias boas viviam ali, pessoas que trabalhavam duro e conseguiam se sustentar com esforço.
— Pouco mais que uma hora. — respondeu Natsu, sem o cinto de segurança, ele se curvou com os braços cruzados no volante, seus olhos somente parando de me fitar quando piscava. — Mas parece que você não descansou muito.
Esfreguei os olhos, sabendo que olheiras escuras estariam manchando minha pele. Meus movimentos estavam lerdos, o sono ainda querendo me cravar suas presas.
— Não. — soltei o cinto. — Você ficou todo esse tempo me vendo dormir? Porquê não me acordou?
— Você não ficaria acordada por muito tempo. — disse, dando de ombros. — Nem parece que consegue ficar agora.
Não tive vontade de concordar com ele, apesar da forte sonolência, a dor incômoda na lateral do meu rosto havia desaparecido.
— Bem, obrigada pelo almoço. — coloquei a mão na maçaneta, tentei abrir, mas a porta estava travada.
— Você nem comeu direito. — resmungou com a voz fria. — Aquilo não valeu como um almoço.
O olhei por cima do ombro. Seu rosto estava inexpressivo, mas seus olhos me encaravam com voracidade.
— Desculpa, não estava com tanta fome. — falei lentamente, a língua embolando por causa do sono que parecia querer colar minhas pálpebras a cada vez que piscava. — Pode destravar a porta, por favor?
Natsu não fez nenhum movimento de que ligaria o carro, ainda curvado sobre o volante.
— Você chorou. — começou, o tom de voz um pouco surpreso. — Somente uma lágrima, aqui. — se aproximou e fez o caminho percorrido pela lágrima com o dedo indicador a poucos centímetros de distância do meu rosto, do olho esquerdo até o meu curativo.
Meu corpo enrijeceu por causa de sua proximidade, mas me forcei a permanecer com o rosto neutro perante aos seus olhos espreitadores.
— Chorei? — indaguei depois dei de ombros. — Não foi nada demais.
Ele não se afastou, ao contrário disso, inclinou-se mais, seu rosto perigosamente perto.
— Não parecia ser nada demais. — murmurou, a voz rouca. — Seu rosto estava pálido, está ainda, e seus olhos estavam assustados, furiosos e feridos, tudo ao mesmo tempo, por alguns segundos, suas mãos tatearam a sua cintura. — seus olhos se estreitaram. — Quem você gostaria de matar, Lucy?
Minhas mãos tremiam quando as coloquei em seus ombros e o afastei de mim, ignorei o ácido em minha garganta, eu, realmente, havia procurado aquela arma?
— Não invada meu espaço pessoal, agente Dragneel. — falei com a voz mais firme que pude, engoli em seco. — Agora, será que poderia destravar a porta?
Natsu trincou os dentes com força o bastante para eu escutá-los, seus olhos, duros, se desviaram dos meus e ele ligou o carro, destravando a porta.
— Não se esqueça de acordar amanhã, parceira. — sua voz parecia uma navalha, lisa e cortante.
Não falei nada, apenas sai e bati a porta do carro, dei a volta e caminhei na direção da portaria do prédio, não olhei nenhuma vez para trás, pois conseguia sentir o peso dos olhos de Natsu em mim, me seguindo até que a porta de metal e vidro fosco me tirou de sua vista, soltei o ar que não percebi estar prendendo, caminhei pelo saguão deserto e subi as escadas com lentidão, tropeçando nas bases dos degraus e quase caindo, quando enfim abri a porta do meu apartamento, tudo que ansiava era por um banho quente e minha cama macia, fechei a porta e não cheguei a dar dois passos no hall quando pisei em algo macio.
Olhei para o envelope pardo e fino, agachei-me e o catei, olhei sua frente e verso, não havia nem remetente nem destinatário, franzi as sobrancelhas. O abri.
Uma foto de um corpo mutilado me saudou com todo o seu horror, a cabeça decepada estava pousada no colo do cadáver masculino, com feios e compridos rasgos em sua careca, buracos negros onde deviam estar os olhos e um sorriso dilacerado que mostrava toda sua arcada dentária superior, estava sentado em uma cadeira, com pulsos e tornozelos firmemente presos por tiras grossas de um pano que parecia lençóis de cama.
O tórax estava aberto e vazio, com as tiras de pele penduradas em suas laterais, moles e podres, sangue negro pintava o pouco do chão que a foto mostrava, pela cor do cadáver e o inchaço em sua carne, aquele homem devia ter sido assassinado há poucos dias. Olhei o verso da foto, em letras caprichosas e conhecidas, um endereço estava escrito.
O sono foi expulso e a fúria tomou seu lugar. Ele sabia onde eu morava.
Levantei-me, cambaleando um pouco por causa da repulsa, busquei meu celular no bolso da minha jaqueta, fitei a tela por alguns poucos segundos antes de decidir, procurei o número de Natsu nas chamadas recebidas e percebi que ele era confidencial, trinquei os dentes e dei meia volta, abri a porta do apartamento, lembrando-me apenas de batê-la enquanto disparava em uma corrida escada abaixo, pulei os degraus que minutos antes eu havia tropeçado e atravessei o saguão, bati o ombro esquerdo na porta para abri-la e quase caí no chão em minha pressa, torci para que Natsu ainda estivesse ali e fiquei mais nervosa ao encontrar seu carro estacionado e ele sentado no capô do que não encontrá-lo, um pensamento desconfortável me fez parar onde estava, encarando-o.
Porquê não foi embora?
Mas ele não me segurou por muito tempo, lembrando-me da foto que parecia queimar minha mão, corri até Natsu, que me encontrou na metade do caminho, seu semblante preocupado e alerta.
— O que foi? — agarrou meus cotovelos com mãos de aço.
Ofegante, lhe mostrei a foto.
Ele a pegou com uma mão, enquanto a outra ainda continuava em um dos meus cotovelos, olhou por segundos, leu o endereço no verso e me puxou para o carro, tive que dar dois grandes passos para não ir ao chão.
— O que você acha? — perguntou, entrando no carro depois de mim. — Alguma armadilha?
Neguei com a cabeça.
— É um convite. — procurei o número de Makarov na lista de contatos, Natsu deu a partida e o carro cantou pneus enquanto disparava à alta velocidade. — Ele deve ter se cansado de esperar que nós encontrássemos o corpo.
Natsu soltou uma risada sem humor.
***
A casa onde nos encontrávamos era velha e parecia prestes a desabar em um monte de escombros e pó, de telhado esburacado e paredes de madeira podre, ela se erguia envergada para a direita, como se o primeiro andar dela a forçasse para aquele lado, o terreiro cercado por arames farpados enferrujados era de terra seca, nem mato conseguia sobreviver na rocha que a terra havia se tornado, um portão de latão meio preso meio escorado nos arames estava aberto, Natsu, passando à minha frente com um olhar de cautela na minha direção, empurrou-o mais, caminhei forçadamente atrás dele, que tinha sua Glock em mãos, os três degraus que davam para a porta da frente, que não existia mais, apenas o vazio onde antes ela ficava, estalaram bem altos quando pisamos neles, o cheiro de mofo e algo mais me fez franzir o nariz assim que entramos, o chão coberto por uma espessura grossa de poeira gemia a cada passo nosso e a escuridão não nos deixou enxergar um palmo de distância.
— Dessa vez você vai ficar atrás de mim, parceira. — Natsu falou, mesmo sua voz estando baixa, ela pareceu ecoar muito alta no cômodo.
Estalei a língua.
— Como quiser, parceiro.
Peguei meu celular de dentro do bolso e liguei o flash da câmera, usando-o como lanterna para iluminar tudo ao nosso redor, a não ser por uma mesa com duas pernas quebradas abandonada em um canto, nada mais havia no que eu achava ser a sala de paredes com a tinta descascando e teias gigantes de aranhas nas quinas, uma janela tampada por tábuas de madeira ficava próxima a uma escada estreita que subia para a escuridão do andar de cima, um corredor seguia logo à nossa frente, com duas portas à sua esquerda, fomos até ele, a primeira porta estava encostada, Natsu a empurrou devagar, ela estalou alto ao se abrir e revelou uma escada que ia até o porão, um fedor pútrido de algo morto nos alcançou.
— Deve estar lá embaixo. — Natsu disse, a voz apática. — Não desceremos agora.
Virei o celular para o corredor.
— Ele não está aqui. — murmurei, tentando ignorar meu estômago que embrulhava, caminhei atrás do rosado quando ele foi até a segunda porta. — Aquele desgraçado já deve estar sentado na frente da TV, somente esperando a notícia de seu assassinato.
— O que te faz pensar que ele não está aqui?
Demorei algum tempo para entender o que Natsu havia dito, a segunda porta mostrou um banheiro apertado, sem janela, com somente um vaso sanitário quebrado e o cano de um chuveiro, cheio de lodo verde.
— O que você disse? — perguntei, dando alguns passos para trás para evitar bater nas costas de Natsu quando ele saiu do banheiro. — Como ele poderia estar aqui? Esse psicopata é inteligente demais para ficar na cena do crime.
Com ajuda da luz da câmera, chegamos ao fim do corredor curto que dava em uma cozinha pequena, um fogão enferrujado era tudo o que havia ali.
— Nós não sabemos nada sobre esse assassino, parceira. — respondeu por fim, virando-se para mim, apontei o celular para o chão e seu rosto ficou no escuro, negando-me a chance de ver sua expressão quando continuou. — Ele pode ser qualquer um, estar em qualquer lugar. — soltou uma risadinha sombria. — Ele poderia até ser eu ou seu amiguinho policial e você não saberia.
Desconfortável com o que ele disse, afastei-me e voltei para a sala, com Natsu bem em meus calcanhares.
— Não diga besteiras. — grunhi, olhando para o chão, pisquei, agachei-me e olhei com atenção para a camada de poeira remexida. — Há pegadas além das nossas.
Os joelhos de Natsu estalaram quando ele se agachou ao meu lado, sua mão pegou a minha que estava segurando o celular e a levantou, fazendo o facho de luz abranger mais o espaço para ser iluminado.
— Não dá para diferenciar. — sua mão era quente na minha. — Tiraremos fotos quando descermos ao porão, lá as nossas não interferirão.
Acenei com a cabeça, mesmo sabendo que ele não veria no escuro, Natsu me soltou lentamente, os dedos escorregando pelas costas da minha mão. Levantei-me com rapidez, de repente nervosa demais em ficar perto dele, caminhei na direção da estreita escada.
— Irei dar uma olhada no andar de cima. — falei com a voz trêmula.
Os dois primeiros degraus estalaram bem alto quando pisei neles, ignorei o aviso que eles me deram e continuei a subir, o sexto degrau cedeu, engolindo meu tornozelo e me fazendo cair de joelho no quinto, gemi de dor, tentei me apoiar no corrimão, mas ele praticamente se desfez em minha mão, fazendo-me perder o equilíbrio, só não caí pra trás por causa dos braços fortes que envolveram minha cintura bem na hora.
— Meu Deus, você é tão descuidada, parceira. — Natsu resmungou, divertido, seus lábios próximos à minha orelha, provocando arrepios.
Meu rosto aqueceu, estalei a língua.
— Não é minha culpa se a escada está caindo aos pedaços.
Ele riu, fazendo seu peito vibrar em minhas costas, pude sentir o punho de sua arma cutucando a base das minhas costas também, apertando os braços ao meu redor, ele me ergueu com facilidade e meu tornozelo deslizou para fora do buraco, Natsu me carregou escadas à baixo, os estalos e gemidos da madeira velha ameaçando ceder sob seus pés, ele não me largou quando chegamos ao térreo, ao invés disso, se sentou, colocando-me bem ao seu lado, uma de suas mãos encostou em meu tornozelo dolorido.
— Está doendo? — perguntou, seus dedos apertando de leve o local.
Dei de ombros, arrepiada.
— Uma torção, somente. — falei, meu celular havia caído dentro do degrau e a escuridão nos rodeava. — Me empreste seu celular, iremos ao porão.
Natsu não disse nada enquanto me puxava gentilmente para cima, fomos até a porta que dava ao porão, eu fazendo de tudo para não mancar e ele com um de seus braços ao redor da minha cintura, seus dedos pressionando minha carne, ele me entregou seu celular e o flash de sua câmera iluminou os degraus que desciam para o escuro, o fedor que subia por eles era insuportável.
Parecia que descíamos pela garganta de um horrendo monstro que havia acabado de comer.
Não havia poeira nos degraus e por consequência também não havia pegadas, eles rangeram mas permaneceram firmes, quando chegamos ao chão escuro do porão, paramos para absorver o que era mostrado pelo flash, sangue escuro e seco havia formado uma crosta na madeira do chão ao redor da cadeira onde o corpo estava sentado, pequeninas larvas brancas lotavam a boca rasgada do cadáver e a cavidade vazia dos olhos, a pele quase preta pela decomposição parecia despregar dos ossos ao redor do pescoço e ombros, vi borrões escuros correrem para longe da carne putrefata quando a claridade a atingiu, trinquei os dentes por causa do nojo, com a mão no nariz, aproximei-me do corpo, Natsu me acompanhou, relutante, iluminei ao redor dele, procurando o recipiente ao qual devia ter sido usado para acomodar os órgãos, algumas caixas de papelão mofadas se erguiam rente à parede atrás dele, estavam vazias, a não ser por uma que aparentava estar úmida.
— Tem algo de diferente. — Natsu falou alto, antes que eu fosse até a caixa.
— O quê? — perguntei.
Seus dedos apertaram minha cintura.
— Ilumine o chão.
Fiz o que ele pediu, a crosta de sangue havia se rachado com sons secos quando pisamos nela, varri o chão com o facho de luz.
— Os dedos. — murmurei, levantei o celular, iluminando agora as mãos e os pés do cadáver, os dedos estavam em seus lugares mas esmagados à ponto dos ossos se tornarem uma massa indistinguível junto com a carne e pele. — Jesus.
Natsu grunhiu um palavrão.
Com as mãos trêmulas, me virei na direção da caixa, manquei até ela, com o estômago embrulhado e o gosto azedo da bile na ponta da garganta. A caixa estava fechada, suas abas estavam duras por causa do sangue negro que as contornava, agachei-me, ignorando tanto a fisgada de dor em meu tornozelo quanto a mão de Natsu que deslizou pela lateral do meu corpo e descansou em minha nuca, entreguei o celular para ele, que o segurou acima da minha cabeça, procurei alguma luva de látex nos bolsos dos meus jeans e jaqueta, encontrando somente uma, coloquei-a na mão direita e levantei as abas. Uma nuvem de moscas, gordas, escaparam de dentro da caixa.
E olhos castanhos escuros me encararam, zombeteiros.
Fitei-os por alguns segundos, a cor deles era igual a dos meus, deixei esse pensamento desaparecer no meio de outros e olhei para os órgãos podres amontoados na caixa.
— Lucy. — os dedos quentes de Natsu pressionaram a pele fria da minha nuca.
Pisquei algumas vezes, percebendo que havia ficado tempo demais encarando aquele horror, levantei-me, meu tornozelo falhou e eu caí para trás, meu corpo foi amparado pelo o de Natsu, permaneci por um segundo desse jeito, sentindo o calor do agente me envolver como um agasalho quente em um dia gelado.
— Você viu alguma carta? — perguntei com a voz lenta, desencostando-me dele.
Sua mão retirou alguns fios de cabelos que estavam grudados em minha testa por causa do suor, a afastei, não me permitindo mais fraquejar em sua presença.
— As paredes. — seu tom de era voz frio. — Olhe e encontrará sua carta.
Ele moveu o celular para as duas paredes laterais do porão, iluminando palavras escritas em sangue.
Fale com o autor