Psicopata
7 Capítulo 7

O copo de café queimava minha mão, troquei-o para a outra, aguardando impacientemente o paramédico acabar de fazer o curativo em mim para que enfim eu pudesse tomar um gole do líquido preto, estava sentada na traseira de uma ambulância olhando por cima do ombro do jovem paramédico, quando vi Steven sendo colocado dentro de uma viatura, seu nariz quebrado, o rosto sujo de sangue e o queixo roxo por causa da joelhada que lhe dei piorava ainda mais sua aparência já ruim, após o policial entrar, a viatura partiu rumo à delegacia, olhei ao redor, nenhum curioso estava espiando por janelas ou frestas de portas, aparentemente, os moradores daquele lugar estavam acostumados em verem seus vizinhos serem presos que nem mais se importavam.
— Pronto, investigadora. — o paramédico disse, enquanto se punha de pé e me oferecia um sorriso. — Você teve sorte, não precisa de pontos, o ferimento foi quase superficial.
— Obrigada. — agradeci, tentei retribuir o sorriso, mas somente dei-lhe uma careta de dor.
O rapaz riu.
— Seu rosto ficará dolorido por umas duas ou três semanas, mas nada que um analgésico não resolva.
Confirmei com a cabeça e me levantei, levei o copo de café até a boca, tomei rápido demais e queimei a língua, tossi, com lágrimas nos olhos por causa do ardor na língua e a dor na bochecha.
— O que custa esperar o café esfriar? — Natsu perguntou, aparecendo do nada do meu lado e me dando um susto, ele acenou para o paramédico que entrava na ambulância e partia, me olhou de rabo-de-olho. — Você tá bem?
Tomei mais um gole de café, dessa vez não tão rápido.
— Estou ótima. — respondi e fui até onde seu carro estava estacionado. — Steven será interrogado assim que chegar a delegacia?
— Não, vai ser levado ao hospital. — respondeu, já logo atrás de mim.
Olhei-o por cima do ombro.
— Porquê? Ele pode ser de grande ajuda para a investigação!
— Você trincou a mandíbula e quebrou o nariz do cara, Lucy. — disse, com um brilho de orgulho nos olhos negros. — O inchaço vai impedi-lo de abrir a boca por alguns dias, teremos que aguardar um pouco.
Resmunguei alguns palavrões e Natsu riu, destravou o carro e eu entrei, afundando no estofado macio do banco, quando o carro se pôs em movimento meu celular vibrou em meu bolso, catei-o e atendi, não tive tempo de falar alguma coisa antes da voz do outro lado exclamar:
— Você é louca por acaso?! — o tom de Gray estava gelado e furioso. — O que você estava pensando ao enfrentar um homem armado?!
Encolhi-me no banco.
— Foi só de raspão... — comecei, mas fui cortada bruscamente pelo moreno.
— Não importa! Teremos uma conversinha depois da reunião.
E desligou. Encarei o celular.
— Aquele policial é bem protetor, não é? — Natsu falou, engatando a terceira marcha e acelerando, as ruas ainda sem tráfego não nos impedindo em furar alguns sinais.
Guardei o celular e irritada, tomei o restante do café em dois goles longos, não me importando quando o líquido desceu queimando por minha garganta.
— O nome dele é Gray. — murmurei, encarei-o. — Você contou pra ele o que aconteceu?
Natsu me olhou com uma sobrancelha arqueada.
— Você acha que eu tenho o número dele? E mesmo se tivesse, você acha que ele me ouviria? — abriu um sorriso de escárnio. — Liguei para Makarov para informar o que aconteceu, seu chefe deve ter dito à ele.
— Droga.
Eu não estava muito animada para o fim da reunião.
— Então, será que posso saber porque dele ser tão protetor com você? — voltou a perguntar, parando em um sinal vermelho, me espiou com olhos curiosos. — Ou isso não me interessa também?
Olhei-o com sarcasmo.
— O que você acha?
Natsu olhou para frente, o rosto sério.
— Como posso ganhar sua confiança?
Olhei para fora, a paisagem feia daquela parte do bairro dando lugar à uma mais bonita conforme nos aproximávamos do centro de Magnólia.
— Porquê a quer? — perguntei, encostando a cabeça no banco e fechando os olhos, estava com sono. — Somos somente parceiros numa investigação mórbida, caçando um maldito psicopata que brinca conosco deixando suas cartas nojentas. — fiz uma pausa. — Não precisamos nos envolver um com outro, saber demais um do outro, isso apenas desviará nossa concentração do caso.
Ficamos quietos, somente nossas respirações e o som grave do motor do carro não permitindo que o silêncio fosse total.
— Você se afasta das pessoas. — disse, de repente, me pegando de surpresa. — Não quer deixar ninguém entrar em sua vida e saber sobre ela, é fria e agressiva com quem tenta, eu somente queria saber, porquê?
Abri os olhos e me sentei com o corpo curvado para o painel, o cinto de segurança apertou meu peito mas não me importei, apoiei os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos. Encarei-o.
— Nossa. — comecei, com um sorrisinho desdenhoso nos lábios que fez toda a lateral esquerda do meu rosto doer. — Você é bem observador, já que conseguiu dizer tudo isso de mim sendo que apenas nos conhecemos ontem, estou impressionada.
Natsu não me olhou, continuou com os olhos postos na rua, mas vi seu maxilar travar, ele havia captado a minha provocação.
— Então estou correto? — disse, com a voz neutra. — Irá responder minha pergunta? Ou irá ser fria e agressiva comigo?
Travei os dentes, irritada.
— Somente me responda uma coisa, agente Dragneel. — esperei que me fitasse, quando o fez, continuei. — Porquê tanto interesse em mim?
Ele continuou a me fitar por alguns segundos, a cor negra de seus olhos não revelando nenhuma emoção, então piscou e os desviou de mim, um sorriso esquivo brincando em seus lábios.
— Curiosidade. — respondeu e algo em sua voz me deixou desconfortável. — Quando fico curioso com alguém, busco saber mais sobre, acho que pode até me chamar de stalker, já que ás vezes exagero em minha busca por informações sobre determinada pessoa.
E se calou. Sentei-me direito e voltei a olhar para a janela.
— Um conselho, agente: não invada minha privacidade, vai se arrepender se o fizer.
Natsu soltou uma risada fria.
— Estou preparado para as consequências, parceira.
***
O clima da sala de reuniões estava pesado quando entramos, Makarov com Levy ao seu lado lia alguns dos vários papéis que estavam espalhados pelo tampo escuro da mesa, fotos dos corpos mutilados de Tony e Roberto apareciam por baixo de um ou outro laudo da perícia e do legista, Gageel, sentado no mesmo lugar que outrora, ergueu os olhos e encarou seu ex-parceiro com uma careta, Natsu que estava ao meu lado lhe ofereceu um sorriso amarelo, caminhei até a grande mesa e me sentei ao lado de Gray, que não levantou os olhos para mim ou respondeu ao bom dia que lhe dei, mordi os lábios e comecei a reunir o restante das informações que não pude acabar de dar na reunião de ontem, quando me ergui, percebi que Natsu havia se sentado na cadeira desocupado do meu outro lado, ele me olhou, desviei os olhos.
— Makarov. — chamei a atenção de meu chefe, ele pousou o papel que lia e me fitou. — Posso?
Ele confirmou com a cabeça.
— Continuando a reunião de ontem, 15 de Julho. — comecei e peguei as fotos da panela e da mochila de camping que continham seus conteúdos macabros. — Como vocês já estão cientes, temos outra vítima, Roberto Sylvia, 47, encontrado por um grupo de garotos numa parte isolada do Parque Central de Magnólia, pendurado pelos pés em uma árvore, Roberto foi cruelmente torturado com os mesmos requintes de crueldade e modo que Tony, mas dessa vez, os braços foram decepados juntamente com a cabeça e arrumados de uma forma zombeteira, com a cabeça equilibrada nas palmas das mãos e a boca rasgada, imitando um sorriso.
Sinalizei para as fotos que foram tiradas da cabeça de Roberto.
— Os órgãos e olhos foram retirados e colocados em uma mochila de camping do mesmo jeito que os órgãos e olhos de Tony foram postos em uma panela. — apontei para as fotos. — Não sabemos qual o objetivo do assassino em fazer algo assim, mas... — me interrompi e olhei para Levy. — Poderia nos dar sua visão nesse assunto, Levy?
Ela balançou a cabeça, concordando, seus dedos ágeis encontraram as cópias das duas cartas que o assassino havia escrito.
— O objetivo dele é você, Lucy. — falou, direta.
Vacilei um pouco mas manti a expressão vazia quando senti os olhares de Gray, Natsu e Gageel em mim.
— Porquê acha isso, Drª. McGarden? — Makarov perguntou, as sobrancelhas franzidas.
— Por causa do conteúdo das cartas. — respondeu. — Eu já tinha isso em mente desde que li e analisei a primeira carta, mas não estava muito certa sobre isso, já que o assassino não parecia ter muito certeza de que, quem ele queria que lesse suas palavras, de fato as iria ler, então guardei essa opinião até que ela fosse confirmada, coisa que aconteceu quando a segunda carta foi deixada na cena do crime. — fez uma pausa, seus olhos passeando rapidamente na cópia da carta. — Já no começo, quando ele cita seu nome, mostra que o alvo do que estava escrito era você, na parte em que ele cita: "Então, você não tem nenhuma pista que leve você até a mim?", dá a entender que ele deseja que você o encontre.
Foi Gageel quem falou primeiro, logo depois de Levy se calar e da sala ficar em silêncio.
— Mas por qual razão ele gostaria de ser encontrado? — os olhos rubros estavam fixos na psicóloga. — Que eu saiba, assassinos sempre se esforçam para não serem encontrados pela polícia.
— Existem aqueles que gostam de competir. — Gray falou pela primeira vez desde que a reunião começou, o olhei, mas ele estava concentrado em Levy. — Querem saber quem é mais inteligente: eles ou nós?
A azulada confirmou com a cabeça.
— Eles são movidos pela certeza de que não serão pegos porque são mais inteligentes ao cometerem seus crimes aos quais chamam de perfeitos.
— Então você quer dizer que ele quer competir comigo? — falei, com o canto dos lábios virados para baixo. — Ele quer saber quem é mais inteligente: eu ou ele? É isso?
— Não exatamente. — dessa vez foi Natsu quem falou, o olhei e ele devolveu meu olhar. — Acho que não é só uma competição, tenho a impressão de que ele quer algo mais.
Franzi o cenho. Desconfortável.
— E o que seria? — Gageel perguntou com o tom de voz incisivo.
Natsu deu de ombros, ainda me encarando, algo em seus olhos me deixou nervosa.
— Não sei. Resta nós descobrirmos, não é?
Fale com o autor