Psicopata
2 Capítulo 2

Não havia outra coisa que se falassem se não do assassinato com requintes de crueldade de Tony Braxton, em todos os noticiários, jornalistas de várias emissoras tagarelavam com tons de vozes que iam do chocado ao excitado, fazendo suposições do porquê do homem de família ter sido morto tão brutalmente, entrevistando os moradores do prédio onde o corpo foi encontrado, incomodando a família em luto, filmando o enterro que havia acontecido há dois dias e não parando de mostrar a cena que eu vomitava em um arbusto.
— Fontes nos informaram que a mulher que passou mal se chama Lucy Heartfilia, uma investigadora competente e conhecida pela comunidade quando ajudou a identificar e prender o infame assassino em série, Tomaz Brendon, o Estrangulador, que vinha aterrorizando as pessoas. — um apresentador jovem falava freneticamente com os olhos pregados na câmera, enquanto mostrava a filmagem de Gray se aproximando de mim e puxando meus cabelos pra cima, uma de suas mãos em minha costas, apoiando-me. — A imprensa foi proibida de entrar no apartamento, mas não precisamos filmar para sabermos que, o que a investigadora viu, foi tão terrível que fez uma mulher de aço como a Heartfilia perder a frieza e neutralidade que sua profissão exige.
Trinquei os dentes.
— Será que você pode desligar essa merda?! — perguntei entre dentes para o jovem policial que passava ao meu lado.
Ele se empertigou, assustado.
— S-sim senhora! — bateu continência e correu para desligar o aparelho de TV no exato momento que eles repetiam meu momento de vergonha.
— Não precisava assustar o novato, Lucy. — Gray, que caminhava comigo, disse, sorrindo levemente para mim.
— Eu não o assustei. — falei, grossa, tirando alguns fios de cabelos que haviam escapado do meu rabo-de-cavalo do rosto. — O que há com esses jornalistas? Eles parecem um bando de cães que encontraram uma cadela no cio.
— Você os conhece, eles adoram esse tipo de crime. — falou, o tom de voz não ultrajado mas acostumado. — Quanto mais macabro for, mais excitados eles ficam, é claro, não são todos que reagem da mesma maneira.
— Você só fala isso porque sua namorada é uma jornalista. — desdenhei, Gray ficou calado, eu também, por fim, suspirei e o olhei por cima do ombro. — Desculpe, acordei com o pé esquerdo hoje.
— Sem problemas. — piscou um olho, ficou alguns segundos em silêncio. — Como você está?
Voltei a olhar pra frente, apertando a pasta com documentos em minhas mãos.
— Péssima. — respondi. — Não consegui dormir, estou cheia de cafeína e fome, mas não consigo comer nada porque sempre que tento, as palavras naquela carta me voltam a cabeça e meu estômago embrulha.
Continuamos a caminhar, em um silêncio desconfortável, para a sala de conferência, uma reunião havia sido marcada para daqui alguns minutos.
Cinco dias haviam se passado desde que o corpo de Tony Braxton foi encontrado e três dias para que ele finalmente fosse liberado pelos legistas para que os familiares lhe dessem um velório, o laudo dos legistas não revelaram nenhuma substância tóxica nos órgãos que foram levados a eles dentro de uma panela, mas não era um resultado muito confiável, o estado de putrefação do estômago estava avançado demais, dificultando as chances de se encontrar alguma coisa, a causa da morte de Tony, apesar de todos as torturas que havia sofrido, foi sufocamento pelo sangue, sua boca amordaçada, impediu a saída do líquido e consequentemente a entrada do ar.
Além das que haviam ao redor dos pulsos e tornozelos, não havia mais nenhuma marca que revelasse sinal de luta, isso indicava que Tony havia sido incapacitado sem chance de reação quando foi pego por seu algoz.
Os resultados das análises de sangue que estava no assoalho logo na porta de entrada, no chão do banheiro e em toda a volta do corpo, revelaram dois DNAs, o da vítima e outro ainda desconhecido, os dentes podres ainda estavam sendo processados e os resultados ainda demorariam a sair, os peritos não conseguiram localizar os cabelos que foram raspados da vítima, também não foi achado um único fio de cabelo, fibra da roupa ou digital do assassino na carta que havia deixado.
Não havia câmeras de segurança no prédio, por ser velho e ficar na periferia da cidade, elas seriam rapidamente roubadas ou danificadas.
— Ele deve ter trocado de roupas quando saiu do apartamento. — falei, parando em frente a porta da sala de conferência, olhei o relógio, ainda faltava cinco minutos para o começo da reunião. — Estava ensopado de sangue, como revelou na carta, foram feitas buscas na terreno onde fica o prédio?
Gray, acostumado com minhas perguntas surpresas, afirmou com a cabeça.
— Sim, num raio de 300 metros. — olhou para o teto, enquanto falava. — Não tínhamos mandados de buscas que nos permitissem revistar os prédios e estabelecimentos mais próximos, então, vasculhamos os becos, lotes vagos, latas e caçambas de lixos à procura de alguma coisa suspeita, não achamos nada. — suspirou, esfregando os olhos que possuíam olheiras roxas como as minhas. — Quando recebemos os mandados, três dias depois, montamos equipes de buscas de três policiais, eles tanto revistaram os imóveis quanto interrogaram os moradores. Nada. Nenhum indício de que o assassino pudesse ter entrado e se livrado das roupas em alguma das casas e prédios vizinhos, nenhum morador relatou que ouviu, viu, alguma coisa estranha nos dias que antecederam o assassinato.
— Vocês aumentaram o raio das buscas? — perguntei, mesmo já sabendo da resposta.
— Sim, para 400, estamos agora indo para os 500 metros, mas duvido que encontraremos algo. — disse, olhando frustrado para mim. — Já se passou um pouco mais de uma semana e ainda não temos nenhuma pista confiável que nos leve à algum suspeito.
Mastiguei o canto dos lábios.
— O laboratório está trabalhando para identificar o dono do segundo DNA encontrado no apartamento. — falei, pegando na maçaneta e a girando. — Devemos torcer para que consigam encontrar e ele nos dê uma trilha pra seguir.
Gray fez um barulhinho de consentimento e fechou a porta quando entrou, a sala, muito clara por causa da grande janela com as persianas levantadas, estava ocupada por quatro pessoas, dois homens de terno escuros e óculos de sol, não precisei olhar duas vezes para saber que eram agentes do FBI, caras que trabalham para aquela agência sempre tinham um ar de arrogância que era impossível de não notar, Levy McGarden, a psicóloga criminal que montava o perfil do criminoso com base de suas ações, cumprimentei-a com um aceno de cabeça, ela sorriu profissionalmente para mim, e por último, o delegado-chefe, Makarov Drayer, com sua costumeira expressão séria.
Todos estavam sentados na mesa redonda com lugares para até dez pessoas, sentei-me na cadeira vazia perto da porta, Gray foi até a mesinha no canto onde tinha duas garrafas de café e encheu dois copos grandes com o líquido quente, sentou-se ao meu lado, empurrando um dos copos para mim, agradeci-o com um sorriso cansado.
— Como sempre, pontual, investigadora. — Makarov foi o primeiro a falar assim que dei o primeiro gole no café, estava amargo, ele sorriu seu sorriso pequeno com rugas ao redor do olhos afiados.
— Acho que não sou a única pontual, senhor. — falei, retribuindo o sorriso, olhei para os homens de terno, que pareciam me observar já que ainda estavam com o óculos escuros. — Então, o FBI já veio se intrometer?
Gray se engasgou com o café mas disfarçou com uma tosse, quando parou, me lançou um olhar severo, o ignorei.
— Parece que sim. — Makarov comentou, nem um pouco defensivo para com os agentes, ele os olhou. — Devo apresentá-los ou vocês querem ter a honra?
Um deles, alto, forte e de cabelos longos pretos e rebeldes se levantou, tirou os óculos, revelando olhos vermelhos, abriu um sorriso frio.
— Sou o agente especial, Gajeel Redfox. — disse com uma voz grave. — Esse é o meu parceiro, Natsu Dragneel.
O outro, um pouco mais baixo e com cabelos de um forte tom de rosa, continuou sentado, apenas tirou os óculos e me fitou, atentamente, com olhos negros, oferecendo um aceno com a cabeça depois de alguns segundos me analisando, lhe devolvi o aceno somente por educação.
— Investigadora Criminal, Lucy Heartfilia. — apresentei-me, sem me levantar. — Esse do meu lado é o policial Gray Fullbuster. — Gray também fez um aceno, seco, para os dois agentes, continuei. — Então... O FBI veio para nos ajudar a investigar o assassinato ou tomar o caso de nossas mãos?
Gajeel se sentou novamente, encarando-me com frieza.
— Fomos mandados para averiguar os procedimentos que estão sendo tomados para identificar e prender o assassino, ter certeza de que tudo que é possível ser feito está sendo feito. — disse. — Pelo o que foi nos informado, a polícia ainda não tem nenhuma pista do suspeito, nada que dê uma direção para a investigação prosseguir e ter êxito em solucionar o caso. — passou a mão nos cabelos. — Alguma coisa foi descoberta entre o momento que você entrou e se sentou, investigadora?
Não respondi e nem me irritei com o tom de sua voz, algo entre um leve deboche e seriedade, ao invés disso, abri a pasta e tirei os documentos que nela estava, cópias da carta que o assassino havia escrito, fotos de diversas posições do corpo, da panela com os órgãos, dos dedos espalhados pelo chão, dos dentes e das manchas de sangue na entrada e no banheiro, os testemunhos colhidos dos vizinhos do apartamento, principalmente do dono do prédio, que foi interrogado ontem por mim, uma lista com todos os objetos que estavam no apartamento, cópias do laudo do legista e do resultado dos DNAs, os relatórios das buscas feitas nas imediações do terreno, dos apartamentos e estabelecimentos vizinhos, escorreguei para cada um dos presentes as cópias e deixei as fotos no centro da mesa.
— Eu marquei esta reunião para que todos os detalhes que sabemos do assassinato possam ser analisados e contestados. — comecei, puxando as mangas da minha jaqueta pra cima. — O corpo de Tony Braxton foi encontrado na noite de 5 de Julho de 2015, depois de vizinhos reclamarem do crescente mal cheiro que o apartamento exalava, a polícia foi acionada às 21:49 por Robert Pilsen que havia arrombado a porta para descobrir a causa do fedor.
Peguei a foto que enquadrava todo o corpo de Tony, sinalizei-a para que todos a pegassem as cópias.
— Em um estado já avançado de decomposição, o corpo apresentava sinais de tortura, com elementos de sadismo e crueldade. Tanto a cabeça quanto os órgãos foram removidos, a cabeça foi posta no colo da vítima enquanto os órgãos foram postos dentro de uma panela junto com os olhos. — havia frieza em minha voz, permaneci com ela. — Os dedos das mãos e dos pés foram cortados, os ferimentos foram cauterizados para que Braxton não morresse de hemorragia, a pele e carne do pescoço estavam serrilhadas, evidenciando que a arma usada para decepar a cabeça, tanto quanto para infligir todas as outras mutilações, foi uma Faca Taue 228, usada ao contrário, para causar mais sofrimento a vítima. — parei de falar quando Gajeel levantou a mão, como um aluno educado em uma sala de aula. — Sim?
— Como sabemos o tipo específico da arma? — perguntou, franzindo o cenho, enquanto olhava para a foto. — As lesões poderiam ter sido feitas com uma faca de cozinha qualquer.
Procurei entre as dezenas de fotos até achar a que eu precisava, a da parte do pescoço.
— Não poderiam. — neguei. — Está vendo as marcas de "dentes" na carne? — passei o indicador no local. — Elas foram feitas centenas de vezes para que rompessem a pele, a carne e por fim, o osso. Nenhuma faca de cozinha, mesmo sendo de serra e sendo bem amolada, teria corte o bastante para cortar a vértebra cervical, o assassino teria tido mais facilidade se tivesse usado a lâmina na direção certa, mas resolveu usá-la ao contrário, um processo que com certeza demorou algumas horas, e somente facas militares teriam capacidade de fazer dano ao osso se usadas dessa maneira ininterrupta.
— Mas como vocês tem certeza que foi uma Taue 228? E não uma 218, 708 ou as outras centenas que tem por aí? — indagou, incisivo.
Peguei outras duas fotos, as das perfurações logo abaixo do pescoço e dos cortes horrendos no couro careca da cabeça.
— Analisando os cortes. — falei em um tom que faria qualquer um pensar que aquilo era óbvio. — Foram feitas análises de todas as facas militares que estavam nos bancos de dados, repetiu-se três vezes a análise, para se ter certeza absoluta, quando a lâmina da Taue 228 bateu com as marcas de cortes. — olhei-o, inquisitiva. — Mais alguma dúvida relacionada a arma usada?
Gajeel balançou a cabeça, os ombros revelando rigidez.
— Continuando, os pulsos e tornozelos de Braxton estavam bem amarrados, o que causou marcas na pele, somente elas foram encontradas pelo legista, nenhuma outra que pudesse sugerir que ele lutou quando foi capturado, e isso deixa espaço para especulações, Braxton foi nocauteado, perdendo a chance de se defender, pelo seu assassino? Ele o conhecia de algum lugar? — peguei uma cópia da carta. — O assassino diz: "...não tenho nada contra esse homem. ", "O que eu fiz, nada tem haver com uma retaliação ou acerto de contas, francamente falando, eu o vi pela primeira vez quando sai pra caçar." — parei, com os lábios apertados em uma linha fina. — Ele afirma não conhecer Tony Braxton, mas, como vamos saber se realmente ele está falando a verdade?
Dessa vez, quem levantou a mão, foi Levy, acenei com a cabeça, instigando-a falar.
— Ele está dizendo a verdade. — falou, com a voz calma de uma psicóloga. — O tom que usa na carta, o tom de uma criança que fez algo que não devia mas que não se sente nenhum pouco culpada por ter feito, revela não só uma falta de empatia extrema, mas uma crua sinceridade. — empurrou alguns fios azulados de seu cabelo para longe do óculos que aumentavam um pouco seus olhos castanhos. — Então podemos afirmar que ele realmente não conhecia a vítima.
Coloquei a carta na mesa, permanecendo em silêncio por alguns segundos, pensando no que Levy havia acabado de dizer, puxei com as pontas dos dedos as fotos da panela e de seu conteúdo macabro.
— Ok, então... — fui interrompida pela vibração do meu celular no bolso do meu jeans. — Me deem um minuto, por favor. — pedi, afastando-me da mesa e ficando no canto da sala, atendi. — Lucy falando.
Escutei por dois minutos o que o policial, frenético, dizia pelo outro lado da linha, desliguei e guardei o celular de volta no bolso.
— O que foi? — Gray falou pela primeira vez desde que entramos na sala, notando minha expressão sombria.
Olhei para Makarov.
— Houve outro assassinato. — contei, todos na sala ficaram rígidos. — O senhor me dá a permissão para ir ao lugar?
Makarov se levantou, apesar de sua altura muito baixa, sua cabeça quase não alcançava o topo da mesa, porém, a presença que ele possuía ocupava o lugar da altura que não tinha.
— Você a têm. — ele acenou com a cabeça para Gray, que entendendo rápido, colocou-se de pé e veio para o meu lado. — Remarcarei essa reunião para amanhã, as 9:00 horas.
Assenti e saí da sala à passos rápidos, com Gray na minha cola.
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