Psicopata
3 Capítulo 3

Gray costurava o trânsito em uma velocidade impressionante, com a sirene da viatura acionada, ele forçava passagens entre motos, carros e ônibus, furava sinais vermelhos com tanta confiança de que não ia nos arrebentar em algum veículo ou muro que passei a não mais imaginar como nossos corpos ficariam desfigurados caso isso viesse a acontecer, tendo somente o cinto de segurança para impedir que meu corpo voasse na direção do painel do carro, pensei nas poucas informações que recebi do policial enquanto Gray fazia uma ultrapassagem perigosa, invadindo por alguns momentos tensos a contramão, o corpo de um homem, ainda não identificado, foi encontrado por um grupo de garotos no Parque Central de Magnólia, mais para o fundo da mata, onde árvores grossas e velha dificultavam a visão, pelo que havia entendido do policial, que tinha um tom de voz que ia do chocado ao horrorizado, o corpo estava preso pelos tornozelos em uma árvore.
A viatura saltou quando as rodas da lateral direita subiram na calçada, jogando meu corpo para cima, minha cabeça bateu no teto.
— Caralho, Gray! — exclamei, esfregando a parte dolorida.
Ele soltou uma risada pelo nariz.
— Desculpe, o carro da frente não quis dar caminho. — disse, enquanto virava o volante com tudo para a direita, os pneus guincharam no asfalto.
— Um dia você ainda vai nos matar desse jeito.
— Não se preocupe. — começou, bagunçando meu cabelo. — Eu te garanto que você morrerá bem velhinha e rabugenta.
Espantei sua mão.
— As duas mãos no volante, por favor. — mas, ao invés de fazer o que pedi, ele se curvou um pouco no banco, procurando algo debaixo dele, não diminuiu a velocidade de 90Km/h. — É assim que você garante minha morte por velhice?
Ele riu e se arrumou, jogando um saco pardo no meu colo.
— Toma. — abri o saco, dentro, havia alguns bolinhos de chocolate da padaria Dream's que ficava em frente a delegacia, amassados. — É pra você, eu ia te dar a uma semana atrás, mas esses dias foram tão loucos que acabei esquecendo. — meu olhou de rabo-de-olho. — Acho que ainda estão bons.
— Gray... — comecei, querendo lhe dizer que não tinha estômago para comer nada, mas ele me cortou.
— Cala a boca e come logo. — seus olhos escuros ficaram sérios. — Você já se olhou no espelho, Lucy?
Comprimi os lábios.
— Eu sei que não estou... — me cortou mais uma vez.
— Você tá horrível.
— Nossa, obrigada. — falei com sarcasmo.
— Lucy. — demorei um pouco para encará-lo. — Você não tem comido quase nada desde que encontramos Tony e a carta do assassino.
Amassei o topo do saco pardo
— Como você quer que eu coma? A perversidade daquelas palavras quase me faz vomitar novamente sempre que coloco algo na boca — argumentei, desviando meus olhos dos seus e olhando para a janela, para a paisagem que passava velozmente por nós. — Olhe pra frente, Gray.
Ele estalou a língua.
— Não mude de assunto. — reclamou, vi seu reflexo soprando as mechas negras e um pouco compridas de seu cabelo da frente dos seus olhos. — Se você continuar a não se alimentar direito, irei pedir a Makarov que passe este caso para os agentes do FBI.
Virei-me pra ele, chocada.
— Você não faria...
Ele me lançou um olhar duro.
— Sim, você sabe muito bem que eu faria isso.
Trinquei os dentes. Furiosa.
— Esse caso é meu! — exclamei. — Aquele assassino deturpado estava se comunicando comigo quando escreveu aquela carta!
Gray freou com violência no sinal vermelho, parando pela primeira vez desde que saímos da delegacia às pressas, graças ao cinto, eu não voei de encontro ao painel do carro, o moreno se virou pra mim, o corpo rígido de raiva.
— Então é por causa disso que você vem trabalhando tão obsessivamente nesse caso. — ao contrário de muitas pessoas que gritam quando estão com raiva, Gray falava de uma maneira calma, que evidenciava muito mais sua cólera do que se estivesse elevado sua voz. — Porque você acha que aquele psicopata está falando com você.
— Eu não acho, tenho certeza.
— Você está sendo muito arrogante. — disse, olhos gelados. — Não se esqueça do que aconteceu da última vez quando você foi tão arrogante assim.
Encolhi quase que automaticamente, como se as palavras dele fossem chicotes que vinham em minha direção.
— Aquilo... — não consegui completar, amassei ainda mais o saco de bolinhos em minhas mãos, quase o rasgando. — Não tem nada a ver com isso. — completei com dificuldade.
Gray me fitou com decepção.
— Pensei que você tivesse mudado. — virou o rosto. — Mas acho que me enganei.
O sinal abriu, mas ele não acelerou a viatura.
— Eu não posso ser dispensada desse caso. — falei, quebrando o silêncio angustiante. — O assassino quer brincar conosco, por isso deixa as cartas, ele quer saber se somos mais rápidos do que ele, como em um jogo de pega-pega. — aliviei a pressão dos dedos no saco, o abri. — Os jogadores são ele, a polícia e as futuras vítimas, os pegas somos nós e ele, as vítimas são as que serão pegas por ele, uma atrás da outra, se a polícia não o pegar o quanto antes. — peguei um bolinho e mordi, estava duro mas ainda bom, mastiguei, engoli e continuei. — E se eu me considero uma investigadora profissional, não posso deixar ter o caso tirado das minhas mãos pelo FBI ou ser feita de boba por um psicopata.
— Agora você está sendo orgulhosa. — Gray murmurou, passando a marcha e acelerando no sinal vermelho, desviou habilmente dos carros que vinham das ruas paralelas a da que estávamos, não recebendo nenhuma buzinada ou xingamento. — Cuidado para não se sufocar com essas companheiras aí.
O olhei.
— Gray...
Balançou a cabeça, recusando minhas palavras antes de as receber, suspirei, encarando o bolinho mordido em minha mão, pisquei quando a mão de Gray envolveu a minha e a empurrou na direção da minha boca, a abri e mastiguei o resto do bolinho duro.
— Se você não quer ser dispensada, então trate de se alimentar. — falou, tirando a mão da minha e colocando-a no volante. — Ficar doente não é uma opção para você e... — fez uma pausa, encarei-o, colocando o segundo bolinho na boca. — Só se lembre que eu tô aqui, tá bom? Não vá repetir a mesma merda daquela vez.
Não o respondi, não precisei, já que ele entendeu meu silêncio como uma afirmação acanhada, continuamos o resto do caminho em silêncio.
A rua que dava para a entrada do Parque Central estava congestionada, obrigando-nos a descer e seguir a pé, tivemos que empurrar alguns curiosos, jornalistas e cinegrafistas para que conseguíssemos alcançar a área com o cerco da polícia, mostrei minha credencial para um dos policiais e me foi concedida a passagem, Gray cumprimentou seu colega de farda e me seguiu, fomos abordados por um policial no caminho, que nos levou até onde foi encontrado o corpo, uma trilha havia sido aberta para que o acesso à ele ficasse mais fácil.
— Alguém o tocou? — perguntei, enquanto tirava um galho que havia se enroscado em meu cabelo.
— Não, como a senhora instruiu, deixamos o cadáver do mesmo jeito que foi encontrado. — respondeu com o rosto pálido. — Os cinco garotos que o encontraram estão em uma viatura, dois deles passaram mal e foram levados para o hospital, dois policiais os acompanharam, já que ambos serão interrogados assim que forem liberados.
Assenti.
— O que esses garotos estavam fazendo nesse mato? — Gray perguntou, abaixando-se para não bater a cabeça no galho de uma árvore.
O policial deu de ombros.
— Eles disseram que estavam procurando uma bola de futebol que havia caído aqui por perto. — disse. — Mas encontramos dois cachimbos e alguns saquinhos de maconha em seus bolsos.
Não demoramos a chegar no lugar onde o corpo estava, pendurado pelos tornozelos por uma corda grossa amarrada em um galho forte de uma árvore.
— Santo Cristo, isso é doentio. — o policial chiou, virando-se de costas.
O cadáver não estava em um estado avançado de putrefação mas o fedor doce e horrível dela permeava o ar ao seu redor, nu da cintura para cima, tinha o peito aberto, as duas metades da pele como cortinas de um show puxadas para o lado, os braços haviam sido decepados juntamente com a cabeça, os três se encontravam logo abaixo do corpo pendurado, os braços postos um em cima do outro, como se estivessem cruzados, as palmas das mãos sem dedos viradas pra cima e a cabeça pousadas em cima delas, sem os olhos, a boca havia sido cortada dos dois lados até atingirem as órbitas vazias, em um sorriso horroroso, o couro careca estava grosseiramente mutilado, em algumas partes, os cortes eram tão profundos que era possível enxergar o branco do crânio.
Uma mochila de camping verde estava encostada na árvore.
Com o cenho franzido, me aproximei, olhando atentamente o chão de terra escura, desviei-me dos dedos cortados espalhados por ele e parei em frente ao corpo, observei a pele e a carne do pescoço serrilhadas e o lugar vazio onde estavam os órgãos, as costelas serradas haviam sido equilibradas em suas outras metades dentro do cadáver, fui até a mochila de camping, pegando uma luva de látex no bolso da minha jaqueta e colocando-as, agachei-me, peguei a alça, puxando-a pra mim e abri o fecho de metal.
Os olhos do cadáver me fitou, opacos, por cima de todos os órgãos.
Fechei-a com o estômago embrulhado, vasculhei os outros bolsos da mochila, encontrando o que eu procurava dentro de um bolso lateral, levantei-me, segurando o envelope preto, caminhei até Gray, que me observava atentamente, parei ao seu lado sem falar nada e comecei a abrir o envelope.
Mas minhas mãos tremiam tanto que dificultava aquele simples objetivo.
As mãos enluvadas de Gray pegaram o envelope das minhas, sem comentar nada, descolou o adesivo preto simples que o selava com cuidado e tirou um papel pardo dobrado de dentro dele, havia letras no seu verso, desdobrou-o e o aproximou de mim, permitindo-me ler.
Já fazem dez dias. Estava com saudades, investigadora Lucy Heartfilia.
As TVs não param de falar daquele nosso amigo, Tony, não é? E também não param de passar a cena que você vomita no arbusto, tenho que pedir desculpas, porque eu estou rindo nesse exato momento, nunca achei que faria uma profissional como você passar mal.
Então, você ainda não tem nenhuma pista que leve você até mim? Devo dizer que estou decepcionado, esperava mais de você, Lucy.
Mas, tudo bem, sei que encontrará algo cedo ou tarde, agora resta saber quantas pessoas morrerão até que você me identifique, me prenda ou me mate.
Sem mais enrolação, certo? Esta é a minha segunda presa, não a conheço também e de novo, ela teve o azar de encontrar comigo.
Devo admitir que foi complicado pendurá-lo na árvore, o corpo humano apagado é como um peso morto ainda vivo.
Não farei mais isso.
A primeira parte que tirei dele foi os dedos, e como você sabe, cortei-os bem lentamente, dando oportunidade ao nosso novo amigo de apreciar a dor, não cauterizei os ferimentos, deixei-o sangrar.
Os gritos dele foram bem altos, fiquei fascinado com as nossas cordas vocais, elas são bem poderosas, não me preocupei em silenciá-lo, porque esse parque é tão deserto de madrugada que não havia perigo de que alguém o ouvisse, raspei seu cabelo e sentei-me para ficar mais confortável enquanto fazia minha arte, quando ele parou de gritar e estrebuchar, pensei que estava morto, mas me surpreendi ao ver que ainda estava vivo com a respiração fraca saindo como um chiado da boca cheia de sangue.
Ele devia ter morrido logo, pelo menos isso o pouparia de sentir seu peito ser aberto, suas costelas serem serradas e de seus órgãos serem arrancados, morreu finalmente quando arranquei seus pulmões depois dos intestinos.
Arrumei tudo dentro de uma mochila de camping, e voltei minha atenção para a cabeça, cortei-a bem devagar, envolvido pelo som da lâmina em contato com o osso.
Quando a tirei, um jato de sangue caiu como água cai de uma torneira no chão, espirrando algumas gotas quentes em meu corpo, dessa vez, decidi fazer algo diferente, para te agradar, Lucy. Decepei os braços e os arrumei cruzados, desenhei um sorriso no rosto do nosso amigo, pegando seus olhos antes de acomodá-la nas palmas das mãos.
Ele está feliz em te ver.
Coloquei os olhos dentro da mochila, a fechei.
E fim.
Terminei de ler sentindo-me tonta, agachei-me deixando a cabeça baixa, apertei os olhos e respirei pela boca grandes bocados de ar, fiquei por um minuto inteiro desse jeito, quando percebi que estava melhor, me levantei e encarei Gray, que estava com a pele meio esverdeada, ele retribuiu o olhar, gelado.
— Vamos descobrir quem é esse desgraçado. — rosnou. — E vamos deixá-lo apodrecer na solitária.
Com toda a certeza.
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