Provocativo
21 Sensível
Notas iniciais
Eren
Então... foi isso... A nossa reunião terminara bem agora. Eu ainda estava inquieto, mexendo uma mão na outra. Lembrando de tudo. Pensando em tudo.
Tudo o que poderia ter acontecido e não aconteceu... E tudo que aconteceu e não precisava ter acontecido. E eu me sentia culpado... Principalmente pela morte deles.
A missão foi executada, mas não cumprida. E deixou muitas feridas que ainda doíam e parece que não cicatrizariam tão cedo. Muitas pessoas se foram, bem diante de meus olhos, e eu não fiz nada para salvá-las. Eu me sentia horrível com tudo isso... Senti a primeira lágrima prestes a escorrer pelo meu rosto. Novamente tentei me segurar ao máximo para não chorar de novo. Mas eram tantas emoções naquele momento... culpa, tristeza, ódio, angústia, lástima e até mesmo vergonha... eu simplesmente não conseguia me conter.
Levi olhou para mim de canto, percebendo minha inquietação. Ele foi o único que continuou na sala comigo depois da reunião. Meus amigos, Hanji, Mike e comandante Erwin já haviam se retirado. Eu abaixei a cabeça ao sentir o olhar penetrante sobre mim.
Heichou, ainda sentado a três cadeiras de distância de mim, deu a ultima golada em seu chá, segurando a xícara em sua maneira característica. Logo levantou-se da cadeira, vindo em minha direção. De forma vagarosa e manca... Ver isso me fazia ficar pior ainda. Heichou se machucou ao ir me salvar...
Eu, que segurava o choro até agora, não resisti muito mais. Deixei as lágrimas escorrerem e os soluços escaparem, como sempre acabava fazendo.
– Eren... – Ele puxou a cadeira ao meu lado e sentou-se. Eu continuei de cabeça baixa, evitando fitá-lo.
– H-heichou... Eu... Eu não... – Tentava falar algo, mas não sabia o que dizer naquele momento. Só me desabei mais ainda em lágrimas. – Desculpe, heichou! – Minha voz saia em meio aos soluços, e quase num grito. De fato, o que eu fiquei segurando a reunião inteira, excarcerei agora. – Foi minha culpa! A missão falhou e eles morreram por minha culpa...! – Eu limpava o rosto com a manga da blusa. Tentava parar de chorar, mas não conseguia.
– Olha pra mim, Eren. – Ele disse num tom calmo, apoiando a ponta de seus dedos em meu queixo e me fazendo olhá-lo. – Chega de chorar agora. – Falava num sussurro. Levi pegou um lenço de seu bolso, segurou meu rosto e começou a enxugá-lo, sem muita delicadeza. –Seus olhos já estão inchados...
– Por favor, me perdoe heichou... Se... Se eu tivesse feito a escolha certa naquele momento... Talvez agora...
– Eren! – Ao ouvir seu chamado mais forte, fiquei quieto, mas ainda soluçava baixinho. – Ei, calma aí... Já te falei cinquenta vezes que ninguém tem culpa de nada... Não dá pra saber o resultado de uma missão dessas.
– Hum...
– Estou errado ou não?
– ... Não...
– Então, você não tem culpa de nada.
– Mas se eu tivesse me transformado naquela hora...
– Mas não transformou. – Ele logo interrompeu. – Você preferiu confiar em mim e no esquadrão e seguir o caminho. Não sou contra a sua escolha... Foi uma boa escolha. Teríamos capturado ela. O problema é que... imprevistos acontecem.
– ...
– Chorar e ficar se lastimando não vai trazer ninguém de volta, Eren. – Ele falava sério, mas de forma confortante. – Então seja homem... respire fundo e enxugue essas lágrimas.– Heichou simplesmente disse e se levantou da cadeira.
– Hum... certo... – Passei novamente a manga de minha blusa em meu rosto, respirei bem fundo e tentei parar de chorar de vez.
– Se quer pôr a culpa em alguém... coloque na sua coleguinha. – Levi disse com certo rancor na voz.
– O que?
– Essa que seu amiguinho loiro mencionou durante a reunião.
– Annie?
– Sim. Não foi ela quem causou tudo isso? – Heichou arqueou uma sobrancelha.
– Não! Quer dizer... não sei... não pode ser a Annie...
– Eren... Aceite logo que sua amiga é a titã fêmea.
– Espera, Annie não faria tudo isso...
– Mas ela fez! Causou esse monte de problemas pra nós.
– Eu... ainda não acredito nisso...
– Por que todo esse receio de ela ser nossa inimiga? Isso por acaso... te incomoda? – Ele apertou os olhos ao perguntar.
– Não. Não! Não é nada disso que está pensando, senhor... é só que... isso foi inesperado pra mim...
– Hunf... entendi. – Levi deu meia volta e foi em direção à saída da sala.
– Heichou! Er... você está bravo comigo?
– Não... – Ele respondeu sem me olhar. – Vá tomar um banho e venha para o quarto... Você ainda continua com essa roupa suja da missão.
– Sim, senhor. – Levantei-me da cadeira e fui até a saída também. Levi caminhou para a direção dos quartos, eu iria para o lado oposto do corredor até os chuveiros.
Mas antes que eu desse o primeiro passo, olhei heichou andando vagarosamente e se afastando de mim aos poucos. Sem pensar muito, corri até ele e o abracei por trás, cruzando meus braços em seu peito. Ele arregalou levemente os olhos com minha atitude inesperada.
– Eren...
Eu nada disse. Apenas... tive vontade de abraçá-lo, sem necessidade de falar algo. Queria sentir seu calor. Eu o apertei em meus braços e rocei o lado direito de meu rosto em seus cabelos. “Ainda bem que, ao menos, eu não perdi o heichou...” Pensava comigo mesmo, tentando ver se isso daria algum alívio para mim agora neste momento pós-missão. Logo, soltei-o e fui correndo em direção aos chuveiros, sem olhar pra trás. Mas eu sentia Levi me fitando até que eu sumisse no corredor.
No caminho, fiquei pensando no rosto dele. Pude refletir que... não o vi chorar nenhuma vez desde que voltamos da missão. Não sei de antes, quando eu estava inconsciente, mas creio que Levi não tenha chorado nenhuma vez nesse meio tempo. Mesmo diante da nossa situação complicada de agora.
Sua expressão estava... inexpressiva como sempre. Por isso, eu quase não tinha ideia do que ele estava sentindo agora. Quase. Mas estou certo que ele também esteja abalado com todos os companheiros que perdemos. Dentre eles... Auruo Bossard, Erd Jinn, Gunther Schultz, Petra Ral...
~#~
Fui chegando ao quarto das duchas, já sem camisa e os cintos. Fui me despindo no caminho. Ao adentrar o local, dei de cara com Jean e Armin. Os dois olharam para mim ao mesmo tempo. Por um momento, por causa da baixa claridade do lampião, achei que eles estivessem fazendo coisas estranhas ali, mas eles estavam apenas se banhando normalmente. É que os dois estavam meio... perto demais um do outro nas duchas.
– Eren! – Armin exclamou assim que me viu.
– Ué, pensei que vocês já tinham ido dormir. – Falei.
– Ah, nós também não tomamos banho desde que voltamos da missão hoje. – Justificou Armin.
– E você, Eren? Já passou seu momento emo? – Jean, na sua forma irônica, perguntou.
– Meu o quê? – Arqueei uma sobrancelha.
– É que deu pra notar que você estava bem tenso durante a reunião, e tava prestes a chorar como uma garotinha de novo.
– Não! Eu não chorei! – Falei firme, decidido a não demonstrar mais fraqueza alguma de agora em diante.
– Ah, olha só a sua cara, você chorou pra caramba sim que eu sei.
– Jean... por favor, não fique atormentando o Eren. – Armin falava pacificamente enquanto terminava de lavar seu cabelo.
– Hunf... – Jean fez um bico e continuou a se banhar. – E você, Eren? Vai ficar aí parado olhando ou vai se lavar também?
– Ah... eu já estava indo! – Dito isso, terminei então a tirar minhas roupas e larguei-as num dos banquinhos no canto mesmo sem dobrar. Logo me juntei a eles, indo para a ducha ao lado de Armin.
Assim que liguei, aquele jato forte do chuveiro desceu super frio, como sempre. Eu tremi inteiro por dentro, mas me mantive firme por fora, só pra mostrar que eu aguento um banho congelante sem problemas.
– Hm... tá tudo bem mesmo, Eren? – Perguntou Armin.
– Er... claro, daqui a pouco me acostumo com a temperatura... – Disse tremendo.
– Não estou falando da ducha, mas da missão.
– Ah... er... sim... tudo bem...
– Não parece nada bem. – Jean disse. – Ainda tá com cara de quem vai chorar mais.
– Jean, por favor. – Armin falava. – Olhe, a missão de capturar a titã fêmea ainda não terminou, lembra? Vamos tentar de novo logo. Ainda temos chance de sucesso! – Ele voltou-se para mim, tentando me animar.
– Mas... e a Annie? Acha que ela é mesmo a titã fêmea?
– Hm... Tudo aponta para ela, Eren. Eu também não queria acreditar nisso...
– Mas e se não for?
– Aí é só pedirmos desculpas. – Jean simplesmente disse.
– Não é tão simples assim, Jean. – Armin comentou. – Eu ficaria mal por ela. Mas... é que eu já estou certo que é ela.
Agora eu pensava um pouco na Annie... Quero dizer, será que não dá pra confiar em ninguém mais? Mesmo dentro da própria humanidade temos inimigos horríveis assim... Como a titã fêmea, que assustou e surpreendeu a todos nesta missão. Foi de fato um inimigo muito inesperado. Ela matava sem demonstrar um pingo de hesitação ou arrependimento, além de ser difícil pará-la. Quem estava com mais chance de ganhar dela, naquele momento, seria eu na minha forma titã. Mas eu não me transformei no momento certo, e quando o fiz, eu perdi.
Quanto mais analisava minha luta com a titã fêmea, mais eu me convencia que era a Annie. Mas por algum motivo, eu ainda não queria aceitar isso.
Annie não era do tipo que mostrava emoções também. Ela estava sempre na dela, olhando entediada para todos os outros soldados. E apesar disso, era muito boa em lutas, eu gostava de treinar com ela. E digo que aprendi várias técnicas, eu só... teria que aperfeiçoar mais até ficar bom também... Admito que eu a admirava bastante. Hum... uma baixinha invocada e boa de luta que eu admiro... isso me lembrava alguém... Talvez seja por isso que eu sinta uma simpatia por ela. Mas agora que estou sabendo que ela pode ser aquela titã fêmea, que fez todas aquelas coisas horríveis na missão... Já não sei mais o que pensar da Annie.
– Ah, Eren, Jean, tem uma coisa que eu e o comandante conversamos sobre o plano da captura da Annie. – Armin disse, cortando os pensamentos meu e do Jean.
– O que é? – Jean dava sua enxaguada final.
– Eren, eu e Mikasa vamos levar a Annie até o local combinado. Então... alguém tem que ficar como dublê do Eren dentro da diligência nesse tempo pra ninguém desconfiar.
– Ah, como não pensamos sobre isso antes? – Falei.
– O comandante e eu discutimos e... no final, Jean, você vai ser o dublê do Eren. – Armin falou meio receoso esperando nossa reação.
Eu e Jean simplesmente paramos e ficamos o encarando por breves segundos.
– Er... e aí? – Armin perguntou. Eu e Jean nos entreolhamos um pouco e logo caímos na gargalhada. Dávamos risos bastante altos, creio que até quem estava no andar de baixo nos ouvia. – Ei, tão rindo do quê? É sério o que eu estou falando.
– Não, cara, não pode estar falando sério!... é impossível! – Jean falava em meio aos risos altos.
– Esse cara de cavalo como meu dublê?? – Eu também ria litros.
– Nós somos totalmente diferentes, Armin! – Jean comentou.
– Não. Podem acreditar que vocês têm muitas semelhanças sim! E não zombem do plano! – Armin desligou seu chuveiro e logo saiu, fazendo um bico.
– O que? Você ficou emburrado, loirinho? – Jean perguntou ainda meio rindo.
– Hunf. Vocês não levam as coisas a sério, isso é que vocês tem em comum! – Armin se enrolou na toalha, pegou um lampião e foi saindo do quarto das duchas. Fazendo, de fato, pose de emburrado.
– Espera aí, loirinho. – Jean, ainda meio rindo, também desligou seu chuveiro, pegou uma toalha e foi atrás de Armin.
Eu, também meio rindo, apenas me virei de frente para a parede de novo e continuei meu banho. Bem, se o comandante e o Armin, que são tão inteligentes, decidiram isso... eu não iria contra. Mas eu ainda achava um absurdo Jean ser o meu dublê, era algo pra rir mesmo.
Assim que terminei de me enxaguar, rapidamente desliguei o chuveiro e caminhei até o armário onde ficam as toalhas.
Enquanto enxugava meu cabelo, foi que eu lembrei: não trouxe roupas limpas. Só as sujas estavam ali. E Levi odeia que vistam roupas sujas após o banho, mesmo que fosse só para não andar nu pelo corredor. Ele me mandaria tomar outro banho... Aquelas roupas sujas, deixarei ali mesmo, amanhã as levo para o tanque.
Depois de dar uma boa enxugada em todo meu corpo, enrolei a toalha em minha cintura, fui até a saída e dei uma espiada no corredor, verificando se ninguém passava por ali. Confirmando a barra limpa, peguei um lampião e fui andando de fininho. Bem, não precisava de todo esse cuidado, afinal Jean e Armin também saíram só de toalha e só iam homens para aquele lado do QG mesmo...
Ao dobrar a primeira esquina, dei de cara com Hanji.
– Eren?!
– Hanji-san?! – Ao dar um passo para trás, acabei pisando na barra da toalha, fazendo-a se desamarrar e escorregar da minha cintura. Imediatamente coloquei as mãos na frente de minha intimidade, deixando o lampião cair.
– Oh meu Deus, Eren... Estou vendo que você deu uma encorpada, mas ainda está meio longe de chegar à musculatura da sua forma titã... – Hanji falava me olhando de cima a baixo.
– H-Hanji-san, por favor, agora não. – Disse, envergonhado, abaixando para pegar a toalha e amarrando-a novamente em minha cintura.
– Haha, eu só estou brincando com você. – Ela disse sorrindo e me entregando meu lampião.
– E o que está fazendo aqui há essa hora?
– Ah, eu estava voltando para o meu quarto, mas eu ouvi risos muito altos, então vim ver o que estava acontecendo. Vi seus dois amigos correndo só de toalha pelo corredor agora mesmo.
– Ah... é, eles também esqueceram as roupas...
– Mas também... eu queria mesmo te encontrar pra falar uma coisinha...
– Do quê?
– Sobre o Levi...
– O que tem o heichou? A dor na perna dele piorou? — Perguntei já meio preocupado.
– Não. Calma. Só quero dizer pra não se abalar se achar que ele está agindo de forma meio estranha... depois de algumas missões, dependendo do que acontece, ele fica meio sério assim mesmo. Mas isso uma hora passa, ok?
– Hum... sim... eu notei mesmo que ele estava estranho... – Disse encarando o chão.
– E também queria dizer pra você não se sentir culpado de nada, querido. Imprevistos sempre acontecem. – Hanji deu um sorriso.
– Por que acha que estou me sentindo assim?
– De ver a sua carinha. – Ela deu um riso e apertou meu nariz.
– Ah... bem, obrigado – Abri um sorriso também, mas logo voltei a encarar o chão. – Hanji-san... sabe se o heichou já chorou alguma vez?
– Hu? Chorar... – Ela coçou a cabeça enquanto tentava se lembrar. – Hum... Eu, pelo menos, nunca vi.
– Nunca?
– Ah, Eren, sabe como ele é. Não gosta de demonstrar fraqueza perto de ninguém...
– Mas... mesmo assim...
– Huhu, bem deixe isso pra lá agora, Eren. Vá vestir uma roupa antes que pegue um resfriado. – Hanji disse sorrindo. Mas seu sorriso não era aquela alegria esbanjadora de sempre, foi mais um sorriso confortante. De fato, ela também estava meio abalada depois dos acontecimentos da missão.
– Certo. Então... – Disse e continuei caminhando pelo corredor com ela me acompanhando, já os quartos femininos ficavam na mesma direção que eu iria, só que no andar de baixo.
– Uh, seu traseiro cresceu um pouco ou é impressão minha? – Hanji comentou consigo mesma, só que alto. Meu rosto enrubesceu de novo.
– Hanji-san!! Não fique olhando, por favor. – Ela deu uma gargalhada ao ouvir minha resposta.
– Ai, Eren, estou só brincando. É que as suas reações são bem engraçadas. – Ela comentou.
Até eu ri baixinho. Mas continuava percebendo sua expressão ainda meio abalada por trás daquele largo sorriso. Por outro lado, também, ela parecia bastante ansiosa...
Depois de nos despedirmos fomos cada um para seu devido quarto. Assim que cheguei ao meu... quero dizer, ao quarto do heichou, abri a porta bem devagarinho, dando uma espiada dentro.
Levi já estava dormindo, virado de costas para minha direção. O silêncio era tanto que foi possível eu escutar sua respiração mesmo da porta. Adentrei o cômodo na ponta dos pés e fui até a cama, não deixando de segurar o lampião.
Heichou havia deixado um bom espaço ao seu lado na cama. E colocadas ali, muito bem dobradas, estavam as minhas roupas limpas. Rapidamente, coloquei o lampião sobre o criado-mudo, vesti a camisa e calças brancas e fui pra debaixo das cobertas, junto de heichou.
Apaguei a fraca luz da chama e me acomodei melhor, apoiando a cabeça no travesseiro e ficando de lado. Olhando para a parte de trás da cabeça de Levi, que dormia profundamente, ele nem acordou ou se mexeu ao sentir o colchão dar a leve balançada. Ele voltou de fato bem cansado da missão. Soube que ele e Mikasa haviam ido juntos para me salvar da titã fêmea. E lá, Levi fez o trabalho mais pesado, conseguindo escapar comigo e com Mikasa. Em compensação, ganhou uma perna machucada.
Encarar assim a titã fêmea... realmente foi uma coisa bem imprudente. Mas em se tratando de Levi heichou... Se nem Erd, Petra e Auruo conseguiram trabalhando juntos naquela hora... Apertei os olhos e os punhos ao lembrar disso. Aquele era um dos momentos que eu poderia ter me transformado... e impedido a morte, pelo menos, dos três... Não! Eu devia ter me transformado antes. Quando estava na formação... e heichou junto de nós. Poderíamos ter salvado Gunther também e impedido outras mortes... Poderia... poderia...
Me encolhi debaixo das cobertas. Heichou disse que eu devia parar de ficar lamentando pelo que poderia ter acontecido. Respirei fundo novamente e continuei olhando Levi de costas. Aparentemente um pouco encolhido também em seu canto.
Fui chegando mais perto dele. Levantei um de meus braços, ameaçando abraçá-lo. Mas... depois pensei que isso talvez fosse acordá-lo. E se eu só encostasse a cabeça?
Aproximei-me mais e mais. Então, vagarosamente fui inclinando- me até apoiar minha testa bem no topo de suas costas. Heichou deu uma mexida de leve, mas aparentemente não acordou. Então fui me encostando mais nele. Seu corpo estava bastante quente... gostava de sentir esse calor, e continuar ouvindo sua respiração. Ninguém nem imagina o alívio enorme que eu sentia ao ver que, ao menos... o meu heichou estava muito vivo e ali comigo...
~#~
Depois de certo ponto da noite, eu comecei a sentir bastante calor, e até suava. Remexi-me por um bom tempo no colchão, até achar uma posição bastante confortável, que me fez relaxar mais. Sei que estava ainda em sono pesado e profundo naquele momento... Mas um grito breve e não muito alto, me fez abrir meus olhos.
Ouvi a respiração descompassada, de alguém que acabou de levar um baita susto... Esfreguei os olhos e me virei rapidamente para o lado.
Estava escuro, mas vi heichou sentado no colchão, fitando o lençol, massageando as têmporas, com os braços apoiados aos joelhos levemente dobrados.
– Heichou? Ei, o que foi? – Logo sentei e aproximei-me dele, apoiando minha mão em suas costas. – T-tudo bem aí? O que aconteceu? – Inclinei a cabeça para tentar ver seu rosto, mas ele desviou. – Heichou... Por favor, olhe pra mim... – Pedi com uma voz bem serena, para ver se isso o acalmava.
– ... – Ele apenas juntou mais seus joelhos ao corpo, cruzou os braços sobre eles e escondeu seu rosto ali. Não queria, com certeza, que eu o visse agora.
– Heichou... ei... – Cheguei mais perto, ainda acariciando suas costas e seus ombros. – Fala comigo... por favor, heichou... – Pedia ainda serenamente, num sussurro, e começando a ficar preocupado. Vi-o dar umas estremecidas. E quase não saia som nenhum dele. Será que ele estava... chorando?
Arregalei os olhos ao imaginar isso. Imediatamente, sem dizer nada, segurei de leve a cabeça de heichou, ainda escondida em seus braços, e vim puxando-o até mim. Ele, aos poucos, foi deixando... até encostar em meu peito.
Enlacei meus braços em torno de seu pescoço e apoiei meu rosto sobre o topo de sua cabeça. Sentia ainda a respiração dele mais acelerada.
– Heichou... – Passei a mão em seus cabelos, fazendo um leve cafuné. – Por favor... n-não fique assim... – Deixei as primeiras lágrimas escorrerem de meus olhos. Sem querer. Ver Levi daquele jeito... bem, eu nunca havia visto. Era meio inusitado. Acabou mexendo comigo também...
Não sabia o que dizer mais. Então optei por ficar em silêncio... e só continuar ali. Com Levi em meus braços, sua cabeça apoiada em meu peito, voltando aos poucos a sua respiração normal. Mas era possível ouvir os quase inaudíveis soluços dele.
Ele se movimentou de leve, acomodando-se melhor na posição, mas ainda não mostrava o rosto pra mim. Eu também, nem o questionei. Fiquei acariciando-o, e imaginando que... com certeza ele teve um pesadelo, só não sabia direito com o quê. Imagino que tenha sido com seu esquadrão... sobre a missão ter falhado... o que acontecerá na captura da Annie...
Realmente ninguém é de ferro, até mesmo o temível e inexpressivo Levi heichou, tem seus momentos sensíveis e chora. Mesmo que discretamente e por poucos minutos.
Heichou foi então erguendo o rosto devagar, até me fitar nos olhos. Vi novamente sua expressão normal. Parece nem ter chorado... mas mostrava-se ainda mal. Ainda era noite, mas pela luz da lua vinda pelas frestas da janela, dava para enxergar um pouco dentro do quarto.
– Eren...
– Heichou, tudo bem agora...? – Perguntei num sussurro. Segurando ambos os lados de seu rosto, passando o polegar na parte inferior dos olhos. Senti a leve humidade dali, comprovando que ele de fato chorou.
– Sim... – Ele respondeu olhando para baixo. Abracei-o de novo, bem apertado, dando um beijo em sua testa.
– Ainda bem... você me preocupou. Nunca te vi assim. Isso... me assustou...
– Hum... – Ele abraçou-me de volta. Segurando pelas costas. – Eren... não se preocupe. Já passou. – Ele simplesmente disse. – Acho... que vou lá na cozinha tomar um chá...
– Eu vou com você. – Respondi rápido, voltando a olhá-lo de frente.
– Não. Você vai voltar a dormir ago...
– Por favor, heichou! – Fiz uma expressão pidona. Ele estava ali, todo sensível emocionalmente, sabe-se lá quando que vou poder vê-lo assim de novo. Naquele momento, eu só queria ficar com heichou.
Ele soltou um suspiro.
– Hum... muito bem então... vamos.
Ambos descemos da cama, ele calçou seus sapatos. Eu já fui descalço mesmo até a porta.
– Oe, garoto. Não vai calçar nada?
– Ah, pra quê, senhor? Só vamos até a cozinha...
– Se você voltar para o quarto com os pés sujos, vai dormir no chão.
– O quê? Espera, é que meus sapatos não estão aqui.
– Use estes. – Ele colocou um par novo no chão. – São os maiores que eu tenho aqui, acho que servirão. – Dito isso, eu os calcei. Nunca que eu daria alguma chance de perder meu lugar na cama com Levi.
– Pronto, senhor! – Ele deu um riso ao me ver fazer a continência.
– Certo, vamos então...
– Espera, heichou!
– O que é agora?
– A sua perna. É melhor não se esforçar muito...
– Pirralho, eu já andei este castelo inteiro assi... – Ele mesmo se interrompeu ao me ver agachar em sua frente e estender os braços, pronto para carregá-lo. – O que é isso, Eren...? Você quer me levar de cavalinho? Nem pensar. Eu vou andando...
– Mas, senhor, a cozinha é bem longe do nosso quarto... só não quero que force a sua perna...
– Hunf... não.
– Heichou, já te carreguei de formas mais constrangedoras que esta...
– Ah, tá bom! Eu vou. Mas fale mais baixo... as paredes têm ouvidos a esta hora.
– Haha, sim senhor. – Disse já dando um largo sorriso. Heichou parecia bem melhor agora. Estava até topando tudo.
Ele então subiu em minhas costas, eu segurei firme suas coxas em minha cintura e dei uma inclinada pra frente para não perder o equilíbrio. Heichou se segurou em meus ombros e então fomos... só que eu fui correndo.
– Ah, Eren. Espere aí. Por que está correndo? Desse jeito nós dois vamos cair!
– Confie em mim, senhor, é tudo reto aqui.
– E na escada, como fica?
– De novo, confie em mim.
– Por favor... que não tenha ninguém acordado por aí pra ver isto... – Heichou tampava o próprio rosto dizendo isso.
~#~
Já na cozinha, Levi, ao terminar de preparar o chá, se sentou à mesa com uma cara bem zangada, dando uma leve massageada em sua perna machucada. Já eu, me acomodei à cadeira da frente de cabeça baixa, meio envergonhado e meio rindo.
– Heichou... você ainda está bravo? – Perguntei acanhado.
– Sim, muito.
– Desculpa...
– Eu falei pra você não correr, garoto. Mas você me escuta por acaso?
– Estava muito escuro, não vi aquela elevação no chão...
– Por isso mesmo que falei pra você não correr. Você é muito desastrado, pirralho... – Ele despejou um pouco de chá em duas xícaras, logo entregando uma para mim. – Mas deixe pra lá, pelo menos não caímos na escada...
– Hehe... Obrigado, senhor. – Disse aceitando a bebida quentinha. – Na volta para o quarto... posso te carregar de novo?
– Não.
– Mas...
– Sem “mas”. É “não” e ponto.
– Tá bom... – Respondi fazendo bico. Depois que eu tropecei e nós dois caímos no corredor, heichou preferiu vir andando pelo resto do caminho até a cozinha. Bem, acho que ele tem razão. Eu sou meio desastrado.
Eu quis carregá-lo desta forma como meio de descontração. Talvez tenha funcionado, Levi não parecia mais tão triste agora.
Bebi um gole do chá de erva cidreira feita pelas mãos dele. Pude sentir o aroma característico da planta em meio ao vapor. O sabor também igualmente característico.
– Como está o gosto? – Ele me perguntou.
– Está gostoso. Nunca tomei desse antes...
– É boa pra relaxar... e dormir, obviamente. – Heichou também degustava da bebida quente.
– Heichou... er posso te perguntar um coisa?
Ele então apertou os olhos, soltando um breve suspiro.
– Pode...
– O que você estava sonhando...? – Sei que, talvez, o melhor fosse não perguntar, logo agora que ele melhorou seu humor... Mas quem sabe ele não quisesse desabafar algo?
– ... – Levi ficou encarando seu reflexo dentro da xícara. Coçou a parte de trás da cabeça. Mostrava-se inquieto e ainda abalado de pensar nas coisas.
– Ah... se não quiser dizer, não precisa. Eu só estava curioso...
– Com eles...
– Hã?
– Eu estava sonhando com eles...
– Hum... eu imaginei que fosse... – Como eu havia pensado. Ele ainda estava afetado por dentro pelo que houve com seu esquadrão. – O senhor está melhor agora?
– É... acho que sim.
Eu observei bem melhor agora, com a luz mais forte de um lampião que deixava suas expressões mais visíveis. Ele mostrava-se triste de novo... Com as sobrancelhas um pouco mais juntas do que o normal.
– Eren... – Ele chamou-me, numa forma meio languida. – Hoje... bem, ontem... eu e Erwin fomos pessoalmente... às casas dos familiares dos soldados que não voltaram da missão... dar a notícia.
– Hm... – Eu juntei as sobrancelhas ao ouvir isso. Não sabia que ele tinha feito isso.
– E... – Ele apertou os punhos. – Me doeu fazer isso. Principalmente... aos familiares dos quatro...
– Heichou...
– As expressões deles depois da notícia... de choro, de tristeza e até de pânico... ficaram rodando a minha mente o resto do dia.
Levi deu mais um gole em seu chá. Sua expressão permanecia a mesma até agora, mesmo se abrindo assim para mim.
– Isso de alguma forma mexeu muito comigo... Só de lembrar do choro de desespero da esposa do Erd... ou do choque do avô de Gunther... e eu nem quero me lembrar... das carinhas que os irmãozinhos do Auruo fizeram...
– Ah... – Me doeu ouvi-lo dizer tudo aquilo. Não imaginei que ele e o comandante tinham que se submeter a esse trabalho de dar a notícia aos familiares dos soldados pessoalmente.
– Mas acho que o pior de todos... foi o pai da Petra. – Levi apertou os punhos de novo. – Ele veio falar comigo com tanta certeza... que ela havia voltado junto conosco... Quase desisti de contar a ele. – Ele massageou as têmporas. – Todas essas cenas afetaram meu sono.
– D-desculpe, eu não sabia...
– Hum, pare de se desculpar, garoto... – Levi falava numa voz bem baixinha.
– ... – De novo, senti meus olhos ficarem marejados, mas eu me segurei. Não pensei que veria Levi desse jeito, tão emocionalmente afetado. Ficamos num silêncio breve. Afinal eu não sabia o que responder a tudo isso... Eu só conseguiria pedir desculpas ao heichou.
– Bem... mas deixe para lá. Já foi. – Levi deu sua última golada e levantou-se da cadeira, levando sua xícara à pia. – Vamos dormir agora, Eren. Merecemos um descanso.
– Hum... Uhum... Sim, senhor... – Também finalizei meu chá e coloquei a louça na pia, logo fui atrás dele. Sentindo certa dor no peito agora.
Seguimos rumo ao quarto. Heichou ia mais devagar, continuava mancando. Fui acompanhando o ritmo ao seu lado. Eu até me ofereci para carregá-lo de novo, mas ele recusou lembrando-me o quanto eu era desastrado. Tentei de todas as formas descontrair o clima no meio do caminho. Não queria mais vê-lo daquele jeito triste. E parece que seu humor foi melhorando de novo aos pouquinhos.
E assim, finalmente chegamos ao nosso quarto e à nossa cama. Bem confortável e macia nos esperando. Levi se deitou primeiro, acomodando-se de um lado e sempre deixando um bom espaço para mim. Não era uma cama de casal, mas era bem grande para uma de solteiro. Cabíamos os dois certinho. Assim que também me enfiei em baixo das cobertas fui me arrastando pra perto do Levi, até ficarmos cara a cara.
– Está melhor melhor agora, heichou?
– Por que disse “melhor” duas vezes?
– Se está melhor do que o “melhor” de antes.
Heichou deu um riso.
– Ah, garoto... até que você... me faz melhorar bastante.
– É...? – Corei, bastante, ao ouvir isso numa voz tão serena como a que ele fazia agora.
Heichou deu um sorriso de canto.
– Sabe... você também estava lá.
– Hã? Onde...? – Inclinei a cabeça de lado no travesseiro.
– No meu sonho... Você estava longe de mim, mas eu te via... eu corria, mas não conseguia alcançar vocês... – Ele contava num sussurro. — E você foi “indo embora” junto de Erd, Gunther, Auruo e Petra... pra sempre... Isso me fez acordar.
Eu arregalei os olhos de novo. Agora sim, acho que eu não conseguiria segurar o choro de novo...
– Heichou...
– Estou mal pelo meu esquadrão... muito mal mesmo... mas não sabe o enorme alívio que tenho só de não ter te perdido também. – Levi passou a mão em meu rosto, limpando minha lágrima com seu polegar.
Eu, por impulso, selei meus lábios nos dele, num contato bem breve mas cheio de amor.
– Levi heichou, eu também estou feliz.
Ele deu novamente seu sorriso de canto, passando a ponta dos dedos em meus lábios. Tinha um olhar mais cansado agora.
– Vire-se.
– Hã? – Arqueei uma sobrancelha.
– Quero as suas costas.
Eu, sem questionar, virei-me. Logo senti-o se encostando em mim e apoiando um lado do rosto em minha nuca. Passou seu braço por cima de mim, pousando a mão em meu ombro. Me abraçou com certa possessividade. Uma quase perfeita posição de conchinha. Foi aí que seus músculos relaxaram. Eu sentia leves cócegas da respiração dele entrando pela gola de minha camisa.
– Eren... – Ele chamou-me num tom bastante sonolento. – Eu te amo.
Novamente senti meu rosto esquentar, aliás, meu corpo todo. Me arrepiava ouvir isso vindo do Levi. Só consegui sorrir bobamente como uma criança.
– Eu também, heichou... te amo também.
– Hum. Boa noite, garoto.
– Boa noite... se sonhar comigo de novo... que seja fazendo outras coisinhas... – Disse também sonolento, mas com leve tom malicioso.
– Pare de pensar besteira e durma logo, pirralho de merda.
Fale com o autor