Provocativo
18 Rotina
Notas iniciais
Levi
Finalmente eu havia tomado um bom banho. Refrescante e relaxante como sempre. Não usei a banheira, simplesmente porque estava uma noite bem quente. Uma ducha gelada foi o suficiente para me satisfazer. E agora, estava em meu quarto trocando as roupas. As que eu estava vestindo agora a pouco, durante a limpeza da biblioteca, terei que deixar na lavanderia pra lavar amanhã cedo antes de ir treinar com o Eren.
E eu vou pegar muito pesado com aquele garoto amanhã. É bom ele se preparar, não terei piedade de seu lindo rostinho novamente. Já dei liberdade demais pra ele. Deixei-o fazer o que bem quisesse com meu corpo. Talvez agora ele sossegue e abaixe um pouco esse fogo. Eu ainda sentia dores no quadril...
Bom, deixei isso de lado no momento. Havia terminado de vestir devidamente o uniforme da Tropa, sem a jaqueta logicamente. Estava muito calor. Apenas arregacei as mangas, terminei de calçar as botas e ajeitei bem meu cravat no pescoço. Afinal, mesmo já sendo quase hora de dormir, eu devia ficar no mínimo apresentável para o resto do pessoal durante o jantar. Vi pelo espelho que Eren deixou uma marca bem aparente no lado esquerdo de meu pescoço, era um pouco mais fraco do que as que eu fazia nele, mas ainda assim estava bastante visível. Com certeza na minha nuca também devia ter algumas. Logicamente eu tampei essas marcas o máximo que deu. Devo aparecer no refeitório mantendo a postura de como se nada houvesse acontecido entre Eren e eu na biblioteca.
Passando a mão em meus cabelos, ainda meio úmidos, e os jogando para trás, fui rumo ao refeitório. Eu estava faminto e já era mais de oito horas, julgando que eu sempre jantava lá pelas sete. Mas também, demorou até eu e Eren arrumarmos toda a pequena biblioteca. Terminamos o trabalho umas seis e quarenta mais ou menos. Tá certo, fizemos uma pausa... uma pausa até que boa... Mas não creio que tenha sido esse o motivo do atraso na tarefa, foi mais por eu inventar de fazer tudo sozinho. Teria demorado muito mais se Eren não tivesse me ajudado...
Bem, continuei andando pelos corredores e descendo as escadas calmamente.
Assim que adentrei o refeitório, vi que ainda estava bem cheio. Tive que manter o máximo da minha postura enquanto passava por entre as mesas. Minha expressão era a mesma indiferença de sempre, isso era bem fácil de manter. O problema era a dor que eu ainda sentia no quadril. Deu uma amenizada agora depois do banho, mas continuava... era uma sensação de latejamento. É bom que isso não me deixaria esquecer do bom “castigo” que darei ao Eren amanhã.
Os soldados não prestavam atenção em mim, estavam cada um concentrado em suas devidas conversas e na comida em seus pratos. Fui dando uma boa visualizada em todos até achar a mesa dos amigos do Eren, ao longe. Óbvio que ele estaria sentado ali com eles. E pra variar, ao lado da Ackerman. Ela parecia colocar algo em seu rosto... uma espécie de trouxinha. Devia ser gelo enrolado num pano. Afinal, claro... O machucado em seu rosto.
Eu não poderia deixar Eren sair ileso, não depois do que ele fez comigo. Dei-lhe um belo chute no rosto assim que terminamos de limpar a biblioteca, só pra não perder o costume e pra lembrá-lo que qualquer liberdade que eu desse a ele não era pra sempre. Apesar de eu não estar tão bravo assim, era muita ousadia da parte do garoto e ele tinha que aprender a impor limites em seus atos. Ainda mais comigo, seu superior... Só não dei-lhe uma surra melhor por causa das dores... era bem mais incômodo chutar nessas condições.
Eren logo me avistou ao olhar de canto e virou o rosto em minha direção. Parece que queria me chamar, mas a Ackerman o fez olhá-la novamente para manter o gelo no lugar por mais um tempinho. Penso que ela estava preocupada demais com o hematoma no rosto dele... não tinha com o que se preocupar, ele se regeneraria e ficaria novo em folha ainda hoje.
Mas dei uma rangida nos dentes. Vê-la cuidando do garoto daquela forma me deixou meio irritado...
Desviei o meu olhar deles e logo pude avistar a quatro-olhos sentada sozinha próxima à janela, degustando seu jantar. Aproximei-me dela e vi que em sua mesa tinha pão e uma tigela de sopa a mais... Talvez já tivesse alguém sentado com ela...
– Ah, Levi!! Finalmente chegou! – Hanji gritou com a boca cheia assim que me viu. – Senta aí! Olha, você demorou pra vir, já guardei sua janta aqui pra você, ó! – Ela deu uma piscadinha pra mim e logo voltou a tomar sua sopa, só que olhando-me de forma estranha...
“Então a janta era pra mim...”
Sem dizer nada, apenas fui até a outra cadeira e acomodei-me bem de frente pra Hanji. Ela estranhamente não parava de me olhar, com o queixo apoiado sobre as mãos e fazia uma expressão curiosa. Parecia estar esperando por algo.
– O que foi, quatro-olhos? – Perguntei sem muita paciência.
– Ahhhhhh – Ela de repente começou a gritar e apontar pra mim. O que me assustou um pouco na hora. – Ah, você está rouco!! Eu sabia! Eu sabia que o Eren ia conseguir! – Depois dessa frase, duas veias saltaram em minha testa.
– O que... o Eren... Então foi você?! – Questionei um tanto incrédulo pra ela.
– Hahahaha – Ela não parava de rir. Devia estar se divertindo em me ver naquele estado, mas não era nada de mais. Eu estava apenas rouco. – Bem que notei que você estava andando meio estranho quando se sentou aí. – Hanji fazia várias expressões durante a fala, e continuava a gargalhar.
– Você induziu o Eren a fazer uma coisa daquelas? Não tem vergonha não? – Se eu não estivesse dolorido naquele momento, voaria no pescoço da Hanji.
– O quê?! Que é isso! Quem você pensa que eu sou, Levi? – Ela falava tentando se isentar de qualquer culpa. – Eu só disse a ele que você estava sozinho lá na biblioteca... As atitudes e a coragem vieram tudo dele mesmo.
– Tsc... Sua maldita, você vai ver só amanhã... – Dei uma ameaçada, mesmo não estando muito no pique pra isso, me irritava saber que Hanji poderia enfiar ideias imprudentes na cabeça do Eren. Apenas mordi uma lasca do meu pão e tentaria ver se ela parava de falar nesse assunto se eu desse um gelo nela.
– Então... Como foi? – Ela lançava uns olhares cheios de malícia – Doeu muito? Eren conseguiu arrancar expressões novas de você? Curtiu a sensação...?
– Isso não é da sua conta, quatro-olhos. – Continuei a morder lascas de pão e tomar a minha sopa antes que esfriasse mais. E minha paciência estava no limite.
– Uh... Deve ter sido bom então. Sabia que o ânus tem mais terminações nervosas que os genitais, logo, concluo que essa deve ter sido a melhor experiência da sua vida...
Nesse momento cuspi toda a sopa que tinha em minha boca. Dei uma engasgada mesmo. Pelo visto ela não ia calar a boca.
– Ah, não... Não vou passar meu jantar ouvindo isso. – Me levantei imediatamente com o intuito de ir para a cozinha comer por lá mesmo, talvez junto de Petra.
– Não, espera Levi!! – Ela segurou meu braço. – Me desculpe, foi o calor do momento! Não podia evitar falar essas coisas, é que é muito inesperado imaginar que possa ter perdido a sua virgindade de trás, mas...
– Ah, feche essa matraca, quatro-olhos, quanto mais você fala, mais me dá câncer...
– Por favorzinho, fica aqui comigo... ? – Ela fez uma cara pidona. Olhei aquilo e soltei um suspiro.
– O que você quer? – Questionei, voltando a me sentar ali.
– Me responde umas coisinhas, rapidinho?
– Você quer saber do sexo?! – Perguntei meio que automático, afinal ela estava falando disso, não é?
– Não! Quero saber do Eren. – Ela corrigiu.
– Ah... É aquele questionário? – Revirei os olhos.
– Uhum!
– Eu não vou responder isso.
– Hã? Por que não?
– É desnecessário.
– Não é, não! Vai ser rapidinho, por favor! Você prometeu!
Soltei um breve suspiro. Já me falaram que é bom não contrariar gente louca. Por isso acabei concordando em fazer. Tinha que parar de prometer coisas para os outros, caso contrário poderia acabar dando pro Eren de novo...
– Bem, primeiro... você notou nos treinos com o Eren alguma reação estranha no corpo dele na forma humana? Algo tipo... alguma habilidade titã se manifestar nele enquanto está lutando?
– Hum... não. Só o fato de se regenerar...
– Certo... certo... – Vi que ela anotava o que eu dizia em seu caderno de bolso. – Ele nunca teve nenhum distúrbio estranho nele até agora?
– Não. Ele está sempre do mesmo jeito...
– Bem, alguma vez que ele já continuou a agir como um titã mesmo depois de voltar à forma humana?
– Hun? Não. O que...? Acha que isso pode acontecer?
– Err... são apenas possibilidades que eu suponho... Mas enfim, agora que você sentiu na prática... – Ela olhou bem nos meus olhos. – Quero saber se a força do Eren aumenta de forma anormal quando ele está sexualmente excitado.
– O quê?!
– Hein?? – Ela olhava de forma bem curiosa esperando minha resposta.
– Que pergunta...
– Responde? – Ela pedia. Mas... parando agora pra pensar sobre esse detalhe...
– Hum... É... até que aumenta sim... – Falei refletindo. Até que fazia sentido. Na biblioteca, Eren me prendeu de um modo que eu não conseguia me mexer de forma alguma. Eu normalmente até que escapava de qualquer um naquela situação. Mas com Eren, não. Era realmente uma questão de força anormal vinda dele... e um pouco vinha da minha deixa também...
– Uh, verdade mesmo? Parece que seu lado titã responde a estímulos sexuais. Hehehehe. Interessante... – Hanji ficava empolgada com cada descoberta que fazia sobre o garoto. – E Eren é assim apenas quando é o ativo?
“Não creio que estou respondendo essas coisas...”
– Hum... é... parece que é só nessa condição. – Disse olhando o garoto de longe. Era mesmo muito mais fácil controlar o Eren quando ele é o passivo, parece até que perdia as forças... ou talvez apenas relaxava e me deixava controlar tudo. Mas quando ele que foi o ativo... a força dele pareceu ter dobrado.
Hanji continuou com as perguntas sobre o Eren. Até que estavam “tranquilas” no começo. Eu respondia a todas com uma grande má vontade, mas sempre dizia a verdade. Chegou um momento que as perguntas começaram a ficar meio estranhas... constrangedoras, muito constrangedoras. Fiquei me perguntando como a mentezinha dela tinha a criatividade de imaginar as situações que colocou nas questões. E a incrível curiosidade que ela tinha sobre isso e a falta de vergonha em me perguntar isso tudo na cara. Me recusava a responder algumas coisas. Apenas fui dando umas respostas mais ou menos esperando que ela aceitasse até o final... O problema é que esse questionário parecia não ter final.
Eren
O inchaço em meu rosto diminuiu, sentia não latejar mais. O gelo já havia derretido quase tudo, então deixei o pano molhado sobre a mesa.
– Eren, está melhor? – Perguntava Mikasa.
– Tá sim. Pode ficar menos preocupada. Continua agindo como a minha mãe, Mikasa.
– Só quero ter certeza que está bem mesmo. – Ela simplesmente falou.
Enquanto estava junto do pessoal à mesa, jogando conversa fora, não podia evitar olhar para o heichou de vez em quando. E agora, notei que ele estava fazendo umas caras estranhas e massageava as têmporas enquanto conversava com Hanji-san. Creio que ela devia estar contando piadas ruins para ele. Levi fazia umas expressões daquele tipo quando ouvia piadas ruins. Vindas da Hanji, então...
– Eren, você vai treinar cedo amanhã? – Perguntou Reiner, o que me fez voltar a atenção para o pessoal da mesa.
– Hã...? Ah! Sim, eu treino todo dia. Por quê?
– Ah, vamos jogar baralho hoje, que tal? Sempre fica faltando um pra completar dupla.
– Ah... não sei... – Falava, pensando no Levi. Ele provavelmente fosse querer que eu durma cedo pra acordar descansado pro treino de amanhã.
– Ah, Reiner, ele não vai vir não. Ele tem que dá pro heichou toda noite, esqueceu? – Jean se intrometeu novamente não perdendo a chance de falar sobre isso pra ver minha reação.
– Cara de cavalo!! Não sabe ficar quieto de vez em quando não? – Falei apontando discretamente pra Mikasa.
– Ô, Eren, a Mikasa já...
– Jean!! – Dessa vez Armin chamou sua atenção. – Por favor, vamos mudar de assunto agora... sim?
Jean fitou os grandes olhos azuis de Armin por um breve momento, acabou por apenas desviar o olhar e ficar levemente corado, logo parando de me atormentar. Armin deve ter falado de algum jeito que mexeu com ele. Bom, melhor pra mim. Mikasa ouviu, mas pareceu ignorar qualquer coisa que tivesse a ver com Levi e apenas terminava seu jantar.
– Hm, vou sim então! – Falei decidido, em resposta a Reiner. – Faz tempo que não jogamos juntos, não é? Fiquei mais de um mês aqui sem vocês...
– Aee, beleza então! Hoje rola um truco então. – Connie concluiu.
– Aff, baralho? Como vocês conseguem se divertir com isso? – Comentou Ymir.
– Se vocês quiserem vir também... – Convidou Bertholdt.
– Ah, obrigada, Bertholdt. Mas nós todas estamos cansadas depois de lavar a roupa da Tropa inteira. – Respondeu Christa na sua forma gentil de sempre. Notei mesmo que ela estava bem cansadinha durante o jantar.
– Pois é, então Christa e eu vamos indo para o quarto. Moças delicadas como nós precisamos de descanso. – Pronunciou Ymir. “Delicada? Ela?” – Mikasa, Sasha, vocês vêm também?
– Daqui a pouco. – Respondeu Mikasa.
– Assim que a minha fome acabar – Sasha falava com a boca cheia.
– Vish, é melhor você ir na hora que a Mikasa for, porque se depender de acabar sua fome... – Comentou Connie.
– Nossa, é assim que você me vê? Como uma esfomeada? – Choramingou Sasha.
– Eu? Todo mundo vê assim.
– Hunf. – Sasha virou o rosto, mas continuou a comer loucamente seu terceiro prato. É, ela era uma esfomeada mesmo... todos já haviam acabado o jantar, exceto ela. Ymir e Christa seguiram rumo a seu quarto.
Nesse momento vi Levi se levantar de sua mesa, despedindo-se de Hanji. E logo começou a caminhar rumo também à saída do refeitório, às pressas. Ele parecia meio atordoado.
– Eu já volto. – Avisei somente a Armin, e logo saí da minha mesa também e fui correndo até alcançar o heichou. Passei rapidamente por entre as mesas e já adentrado ao corredor. – Heichou!! – Chamei-o e ele se virou.
– Que foi? – Ouvia sua voz ainda levemente rouca me respondendo.
– Er... o senhor já vai pro quarto? – Perguntei.
– Já. E você trate de dormir cedo, ouviu pirralho?
– Ah... Eu... vou pro seu quarto esta noite? – Eu corei ao perguntar isso. Sei que eu já estava numa fase que não precisava desse acanhamento todo na frente dele, mas ainda agia assim automaticamente. Depois de eu ter feito o que fiz com ele na biblioteca, creio que ainda me sentia meio sem graça de encará-lo. Sei que passei dos limites, mas não estava nem um pouco arrependido. Heichou estreitou os olhos me encarando.
– Depende... O que você pretende fazer lá? – Ele questionou desconfiado.
– Ué... Dormir, heichou. – Respondi.
– Ah... – Ele voltou a olhar de forma mais serena – Bom, nesse caso então pode vir... Anda. – Ele logo fez um sinal para que eu o seguisse.
– Ah, heichou! Eu vou... er... eu posso jogar cartas com os meus amigos antes? – Pedi tímido.
– Hum... – Ele ficou um tempinho pensando. – A Ackerman vai também?
– Heichou... confie em mim. – Pedi com um sorriso manhoso.
– Tsc... Tá! – Ele concordou revirando os olhos. – Mas não venha dormir muito tarde. Você estando descansado ou não, eu vou te acordar cedo amanhã, ouviu?
– Sim, senhor.
Levi deu meia volta e foi caminhando, até que de forma engraçada, pelo corredor.
– Hm... Heichou! – Chamei-o novamente.
– Hã?
– Eu te amo.
Levi ficou me olhando por um tempinho depois dessa frase. E pude perceber um leve tique em seu olho esquerdo.
– Tá bom. – Ele respondeu e simplesmente voltou ao seu caminho rumo ao quarto. Minha cara quase caiu. Eu fiquei ali novamente no vácuo...
Chateado vendo-o sumir pelo corredor, até estendi a mão em sua direção, meio que tentando puxá-lo mentalmente de volta para dar uma resposta melhor... Heichou nunca respondia o “Eu te amo”, que eu sempre dizia com tanta sinceridade, da maneira como gostaria de ouvir.
Levi era muito frio pra essas coisas. Tem alguns momentos que até fico em dúvida se ele gosta mesmo de mim como eu gosto dele... Mas ele ficava me relembrado do fato de algumas pessoas mostrarem seus sentimentos através de ações em vez de verbalmente. Mas... o que custa ele falar? A menos que ele tivesse alguma dúvida em relação a isso... Não! Não pensaria nisso. Sei que na verdade ele ainda está meio bravo comigo por ter abusado dele apenas... Mas ele deixou, ué! Então eu simplesmente continuei.
Além disso, só o ciúme que ele sempre mostra quando estou com a Mikasa já entrega o quanto ele me considera especial e de sua “exclusividade”... tal como um namorado.
~#~
Depois de um tempinho finalmente chegamos ao quarto dos rapazes. No meio do caminho, Armin e Jean ficavam cochichando e rindo entre si. Não sei por que, mas ainda me intrigava meu melhor amigo estar junto desse cara de cavalo. Era um par estranho, os dois eram muito diferentes...
Logo que adentramos o quarto, dei uma boa observada em todo o espaço... Estava uma bagunça! Camas desfeitas, roupas jogadas pelo chão e até algumas migalhas de pão sobre o colchão e no piso. Havia apenas uma cama arrumada, provavelmente era do Armin.
– Entra aí, Eren. Que tal Truco primeiro?
– E-espera aí pessoal, vocês não arrumam esse lugar não? – Perguntei.
Eles me olharam com uma expressão interrogativa.
– Ah, Eren, arrumar pode deixar pra amanhã que é véspera da nossa missão... – Jean falou.
– M-mas vocês tem que manter isso arrumado sempre. Não sabe que essas migalhas atraem baratas?
– Ei, Eren relaxa aí. A gente arruma amanhã. – Reiner dava leves batidinhas no topo da minha cabeça.
– Desde quando vocês não limpam esse quarto?
– Na verdade desde que nos juntamos à Tropa. Eu vivo falando pra eles ao menos não trazerem comida pra cá. – Falou Armin tirando algumas roupas do chão, abrindo espaço para sentarmos.
– Ah, vocês sabem quantos germes podem ter aqui agora? – Falei irônico.
– Eren... você está ficando igual ao heichou. – Comentou Armin. O que me fez parar pra analisar...
– Ah, isso é bom por um lado, quem sabe você pára de dar a bunda um pouco. – Jean disse, sentando-se no chão também.
– Você não pode mais falar isso pra mim, Jean. – Falei sarcástico e logo dando um sorriso vitorioso.
– Por quê? ... ... Ah... Não me diga que... Você comeu o heichou?!
– Ah... – Eu confesso que fiquei sem graça com o jeito que ele falou. Penso que Levi não iria gostar nada que outras pessoas fiquem sabendo desse ocorrido. Frente às provocações do Jean, acabei por deixar meio subentendido.
– Ah, por favor, não fale desse jeito, Jean... – Pediu Armin. Sempre que o loiro falava, Jean parecia sossegar o facho. Eu tinha que zoá-lo por isso em algum momento.
Sentamos todos em roda no chão. Reiner trouxe seu baralho e retirou um par de cartas de três naipes diferentes para sortearmos as duplas.
Embaralhadas, cada um pegou uma carta. A minha era de copas. Vi que a do Armin era de ouros... ele acabou por fazer dupla com Reiner. Se bem que eu torcia sempre pra cair com o Bertholdt, incrivelmente ele tinha uma tremenda sorte de sempre ter uma manilha em mãos, com ele eu com certeza pararia de perder... Infelizmente ele tinha uma carta de paus, o mesmo que o Connie... Então... o único que restou e que tinha a outra carta de copas era o Jean... Eu e ele nos entreolhamos um tanto insatisfeitos. “Aceito tudo, menos fazer dupla com esse cavalo!” Pensei. Jean provavelmente teve um pensamento parecido. Os outros pareceram se divertir com essa situação, principalmente Armin.
~#~
Levi
Dei umas remexidas de leve na cama. Percebia bem a claridade começar a invadir o quarto e vir diretamente para o meu rosto. Abri os olhos bem devagar evitando a luz ofuscar minha vista. Ainda deitado na cama, olhei para o relógio sobre o criado-mudo. Marcavam exatos seis e quarenta e cinco da manhã. Queria ter me levantado às seis, mas parece que meu sono pesou bastante esta noite. Bem, antes tarde do que nunca.
Assim que dei umas espreguiçadas, ainda deitado, senti algo em torno de meu abdômen. Eram braços. Olhei para trás por cima do ombro e vi Eren agarrado a mim. Com a cabeça apoiada em minhas costas, dormindo profundamente. Parecia bastante tranquilo em seus sonhos. “Que coisa. Nem ouvi quando ele entrou aqui ontem à noite...”.
Achei seu rosto bastante encantador naquele momento. Quase não tive coragem de acordá-lo. Quase. Passei a mão em seus cabelos.
– Eren. – Chamei-o e ele nada ouviu. – Levanta, menino. – Chacoalhei-o, e nada. Então, calmamente, retirei seus braços de torno do meu quadril e levantei-me da cama. Rapidamente puxei o lençol de cima dele, o que o fez se encolher no colchão. Ele puxou um travesseiro e se acomodou mais, deitando-se de bruços. – Eren! – Chamei-o novamente e mais alto, notando que minha voz não estava mais rouca agora. O garoto apenas virou o rosto para o outro lado, ignorando-me. – Se não levantar daí agora... eu viro esse seu lindo rostinho do avesso.
Foi aí que ele rapidamente ergueu a cabeça, com os olhos ainda meio entreabertos pela claridade.
– An.. Heichou... já vou levantar. – Murmurou o garoto, esfregando seus olhos. – Só mais... cinco minutos... – Ele deitou a cabeça no travesseiro novamente, ainda de bruços.
Sem muita paciência, sentei-me na beirada da cama ao seu lado e levantei sua blusa, logo levando meus lábios bem naquela região baixa das costas de Eren. Aquela que havia descoberto há pouco tempo que ele tinha grande sensibilidade. Comecei a espalhar vários beijos e chupões ali com gosto. Vi que ele deu uma estremecida, seus pêlos se arrepiaram na hora e ele deixou um gemidinho escapar.
– Humm, heichou... – Sua voz saía abafada por estar pressionando o rosto contra o travesseiro. E ele continuava demonstrando pouca vontade de se levantar dali. Eu, manhosamente, ergui sua blusa até sua nuca, e fui subindo meus beijos por toda suas costas, massageando astutamente as laterais de seu corpo. Até chegar em seu pescoço e depositar mais chupões ali. Ele, agora, se contorcia bastante na cama. De forma ainda meio controlada, mas ele já parecia, mesmo sonolento, entregar-se aos seus desejos hormonais. – Ahh... s-senhor... d-desse jeito eu...
Afastei seus cabelos e subi meus lábios até bem pertinho de seu ouvido, bem devagar e sedutoramente.
– Levante logo, Eren... se fizer isso, vou te dar mais desse prazer... – Falei num sussurro provocante, dando uma mordidinha no lóbulo de sua orelha. Ele nem pensou duas vezes, já se virou de frente pra mim e sentou-se apoiado à cabeceira.
– Hum, pronto senhor! Já tô acordado! – Disse ele mostrando sua disposição. Seu rosto mostrava-se já enrubescido e seus olhos brilhavam enquanto me fitavam.
– Ótimo. Agora que se sentou, pode ir levantando esse traseiro daí e se trocar, temos treino a fazer. – Falei já me levantando da cama e indo em direção ao armário. Pude notar que Eren deu uma brochada em sua expressão.
– Ah? M-mas, heichou, você acabou de falar que ia me dar mais...
– E vou. Mas quem disse que ia ser agora? Levanta logo daí antes que eu me arrependa. – Disse, começando a vestir meu uniforme da Tropa.
– Hum, heichou, por que você faz isso? – Ele fez uma voz mais emburrada e cruzou os braços. – Você me atiça assim... e depois... agora...
Ouvindo isso, observei-o novamente e percebi que ele encolhia as pernas. Arqueei uma sobrancelha. Terminando de ajeitar meu cravat, fui até ele de novo. Apoiei minhas mãos em cada um de seus joelhos, separando suas pernas brutamente. Ato que o assustou.
– Ahh! Heichou!!
Vi a leve elevação em sua calça, não estava totalmente excitado, mas já estava bem visível.
– Oh... Já ficou assim só com esses poucos estímulos? – Questionei não parando de olhar para o meio de suas pernas. – Controle um pouco esses hormônios, menino. Já falei isso quinhentas vezes.
– M-mas a culpa é do heichou! O senhor fica me provocando assim... – Vi que ele estava encabulado.
– Hunf. Eu fiz isso pra te acordar, não pensei que fosse se excitar assim. – Comentei terminando de me vestir e ajeitar todos os cintos do uniforme. – Pois bem, se vire aí com a sua mão, não demore pra descer para o refeitório. – E assim, fui caminhando rumo à porta do quarto.
– Ah... Heichou vai me largar aqui nesse estado?! – Ele fez uma voz mais chorosa. Uma vozinha que julgo muito manipuladora.
– Não faz drama, Eren. Você já fez isso antes. – Disse saindo do quarto e fechando a porta. Ouvi-o murmurar algumas coisas lá dentro. Provavelmente deve estar xingando minha mãe neste momento.
Confesso que me senti mal sim em deixa-lo lá. Não sou tão insensível assim internamente como pensam. Mas é que... provavelmente eu acabaria transando com aquele menino ali e agora. Me controlei muito pra não fazer. Seus gemidinhos e as reações de seu corpo mexiam muito com a minha sanidade. E eu havia prometido a mim mesmo começar a controlar mais essas tentações e não me deixar influenciar tanto pelas vontades do Eren. Transar toda hora assim é coisa de maníaco, penso eu. E sou um soldado de alto cargo e considerado por muitos como o melhor, devia manter minha sanidade e postura sempre, não me deixando enfraquecer pelos prazeres humanos. Mas perto do Eren... eu escorrego um pouco. Tinha que voltar a ser como antes. Claro que podíamos fazer sexo, mas não o tempo todo como estávamos fazendo. Vou acabar me viciando, dessa forma...
Fiquei refletindo ontem à noite. Refletir às vezes é um problema... Pensei se isso estava certo... Quero dizer, Eren e eu. Uma coisa que me encucava era a questão das nossas idades. Eu sou um adulto de mais de trinta anos, enquanto Eren tem apenas quinze. Me perguntava se estava certo eu ter uma relação com um garoto tão novinho assim. Por que de primeira, parecia ser uma coisa muito errada. Somente agora comecei a pensar nisso com mais cuidado, no começo pouco me importava nossas idades ou se éramos ambos do mesmo sexo. Eu gostei dele. Ele me chamou bem a atenção e mexeu comigo... Bom, mas se ele corresponde e tem sentimentos fortes por mim do jeito como mostra, creio então que... o que estou fazendo não seja considerado pedofilia, não é?
De qualquer forma, um outro problema era o fato de eu ter me apegado demais a ele. Coisa que, na verdade, soldados não devem fazer. Coisa que eu não queria fazer. Pois eu bem sabia que se acontecesse, surgiria também um grande ponto fraco sobre mim. E surgiria o medo de perdê-lo. E pelo visto... já era tarde. Cada vez que conversava com Eren, treinava com ele, fazia faxina com ele, transava com ele, eu sempre me apegava mais e mais. Eu não demonstrava nada externamente, mas o meu medo de perder o Eren durante a nossa missão de reconhecimento amanhã me deixava tenso. Eu não ia deixar de forma alguma isso acontecer.
Massageei as têmporas. Não vou parar a relação que estou tendo com o Eren agora. Claro! Pararia era de pensar besteira. Se nós dois concordamos com isso, então creio que não há problemas em eu ficar com um menino tão jovem assim.
Já no refeitório, vi o bule de café em cima da mesa ao lado da janela. Provavelmente Petra já o preparou e deixou ali pra quem for acordando poder se servir. Sentei-me por ali mesmo. Aproveitando para olhar como estava o tempo lá fora. Poucas nuvens no céu. Creio que não choveria hoje.
Observando mais pra baixo, e bem lá na frente, pude avistar não muito longe duas pessoas lá fora. Aparentemente treinando manobras com DMT. Apertando os olhos, pude ver que uma delas era a Ackerman. A outra era uma menina também. Aquela de cabelos castanhos e que, sempre que eu a via, estava comendo alguma coisa. Sasha Braus era seu nome, se bem me lembro. A Ackerman parecia estar ensinando coisas a ela. Braus respondia bastante alto, eu conseguia ouvir.
– Mikasa, eu não vou conseguir, eu acho que vou errar!! – A mocinha gulosa fazia uma voz chorosa.
– Sasha, mantenha mais a calma. Você erra a nuca nas situações reais porque se desespera. – Ackerman incrivelmente conseguia ser tão indiferente quanto eu em suas falas. Claro, não é sempre.
– Ah!! Sério, prefiro arco e flecha! Muito melhor!
– Olha, vou te mostrar de novo um jeito pra você não errar. – A Ackerman imediatamente lançou seus cabos de DMT numa enorme árvore dali. Logo subindo numa curva complexa até cortar um pedaço da madeira do grosso tronco com suas lâminas.
Observei bem aquilo. Não havia visto ela em ação até agora. Mas já pude perceber, apenas com isso, que Ackerman tem mesmo um potencial diferente dos demais cadetes recém-chegados à Tropa. Ela tem um reconhecível talento com relação ao corte perfeito, como vários diziam.
– Ahhh, incrível, Mikasa!!!
– Sua vez.
– O quê?! Uma curva dessas?! Ah, sem chance de fazer isso sem quebrar o nariz! – A mocinha de cabelos castanhos não parecia muito confiante, mas mostrava interesse na coisa. – Vamos fazer uma pausa? Tô morta de fome!
– Hm, tudo bem. – Ackerman ajeitou seu cachecol e veio junto de sua colega até o refeitório. Braus correu diretamente para a cozinha. E a Ackerman caminhava calmamente, ela logo me viu assim que adentrou o local. Ela deu uma encarada breve e logo ignorou. Nesse momento pensava que, para o bem do Eren, ela e eu devíamos ficar de bem, mesmo que um pouco. Afinal... eu ainda não ia muito com a cara dela, e nem ela com a minha.
– Ackerman! – Chamei-a e ela pareceu continuar ignorando. – Mikasa! – Ao ouvir o primeiro nome, ela virou-se pra mim.
– O que é? ... Heichou. – Ela mantinha a indiferença, mas pude ver o tom irônico ao me chamar.
– Vi agora a sua performance lá fora. Nada mal. – Comentei, dando mais uma golada no café.
– Obrigada... – Ela respondeu sem dar muita importância.
– Até que seria bom ter alguém com as suas habilidades no meu esquadrão, sabia?
– Hum... Obrigada de novo. Heichou também é forte. Mais do que eu... mas apenas na velocidade.
– Como é? – Arqueei uma sobrancelha.
– Sei que fisicamente eu posso bater de frente com você. – Falou ela bem confiante e em tom meio desafiador.
– Ah, você acha? – Questionei irônico.
– Sei que eu podia ter ganhado de você na luta do outro dia. Apenas me faltou velocidade. – Ela também estava sendo bem sarcástica com as palavras.
– Hunf. Você. Ganhar de mim fisicamente? – Imediatamente apoiei meu cotovelo direito sobre a mesa e deixei a mão aberta, fazendo um convite pra ela. – Então vem e prova!
Depois de um tempinho, Mikasa resolveu aceitar meu desafio e sentou-se na cadeira de frente pra mim. Também apoiou seu cotovelo direito na mesa e agarrou a minha mão.
– Então... vamos. – Dado a minha deixa, nós dois começamos a aplicar nossas forças nas mãos um do outro. Confesso que até que achei meio pesado no início. Força realmente ela tinha bastante. As mãos praticamente não saíam do lugar. Tremiam. Ora pendiam para o lado dela, ora pendiam para o meu. Mas mantínhamos no empate. – Oh... Não esperava que uma moça delicada como você tivesse toda essa força. – Comentei.
– Não posso ser fraca. Tenho que proteger o Eren desse mundo cruel. – Ela disse.
– É mesmo? Aposto que protejo o Eren melhor... – Falei pondo mais força no punho. Ela começou a apertar a minha mão quando ouviu minha frase.
– Só vi você só bater nele até agora. – Pude notar uma veia pulsando em sua testa.
– Hum, pode acreditar que eu fiz muito mais coisa além de bater nele. – Sei um sorriso malicioso. O que a deixou enfurecida. Ela agora aplicava mais força ainda, e quase esmagava a minha mão. Eu igualmente devolvia essa mesma força.
– Seu... Tem alguma ideia do que está fazendo com um garoto? Ele é muito novo pra você. Heichou. Sabe como isso se chama?
– Ahh... E se ele estiver gostando? Não vejo problemas. – Dei um sorriso. Ela colocou toda a pressão que conseguiu no punho. Realmente ela não suportava ouvir isso. É, eu tentei fazer amizade, mas... parece que nossa relação vai ser sempre na rivalidade, mesmo em momentos pacíficos.
– Isso ainda é mais errado. Eren deve ficar com uma mulher.
– Isso não tem a menor importância.
– Nunca bati no Eren com a tamanha crueldade como você fez.
– Se bati nele, foi para ajuda-lo lá no tribunal.
– Você passou da conta.
– Ele não ficou chateado e nem guardou nenhum rancor. Aliás parece até ter gostado.
– Isso é mentira. Eu conheço bem o Eren.
– Eu também.
– Eu passei a infância com ele. Ele tem total confiança em mim.
– Eu passei umas semanas com ele. Ele já dormiu comigo.
Ackerman nesse momento pareceu ficar fora de si. Nossas forças continuavam bem empatadas. Mas agora, o braço dela começava a tremer. Na hora olhei que sua bainha junto de suas lâminas, ainda encaixados no uniforme. Penso que seria melhor eu tê-la feito tirar aquilo antes de chamá-la pra uma queda de braço. Sei que se eu provocasse um pouco mais, ela poderia...
– Mikasa? Heichou? O que estão fazendo?
Nós dois saímos da concentração e viramos a cabeça ao mesmo tempo em direção ao dono da voz, nosso tão desejado garoto.
– Eren! – Falamos juntos e imediatamente soltamos as mãos um do outro.
– Ah, estou feliz que estejam se dando bem. – Ele falou um tanto alegre. – Er... quer dizer... estão se dando bem, não é?
Eu e Ackerman nos entreolhamos meio insatisfeitos, mas nós dois balançamos a cabeça positivamente para o garoto. Coisa que o fez abrir um grande sorriso de satisfação. Eu logo levantei-me da mesa e agarrei a mão do Eren.
– Vamos logo, hora do seu treino. – Disse puxando-o para fora do refeitório. Dando uma olhadinha para a Ackerman, que continuava enfurecida.
– Ah, m-mas heichou, eu não comi nada ainda. – Disse Eren. – Não posso tomar café?
– Depois faremos uma pausa, aí você poderá comer.
– Ah... tá bem então... – Ele se deu por vencido. – Até daqui a pouco, Mikasa, pode guardar um pouco de carne pra mim? Acho que vai acabar logo... – Ele falava com ela de longe.
– Hum... Claro. – Ackerman respondia num tom de voz bastante sereno. Parece que ela mudava todo seu comportamento quando estava com o Eren, quase ignorava o fato de eu estar arrastando o garoto pra longe dela. Tem momentos que me pergunto se ela sabe os sentimentos reais que tem pelo Eren... às vezes penso que ela acha que gosta dele como um namorado, mas na verdade talvez ela goste dele como um irmão mesmo internamente e não saiba a diferença... Perceberia apenas se provasse... Mas eu não a deixaria provar. Vai que ela muda de ideia...
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