Provocativo
4 Ponto Fraco
Notas iniciais
Eren
Eu colocava a sopa na minha tigela com certa irritação. Além de pegar o pão e mordê-lo com estupidez e rudeza. Isso assustava alguns soldados ao meu redor que também se serviam da comida. Afinal, tendo em mente que eu era um titã em treinamento de autocontrole, claro que ficariam inseguros ao verem uma expressão enraivecida em meu rosto. Levei meu jantar a uma mesa mais afastada do pessoal. No caminho eu tentava disfarçar meu aborrecimento.
Sentei-me a mesa vazia do canto. Era um pouco mais escuro, já que não tinha vela alguma ali. Melhor. Eu queria ficar sozinho. O problema é que ficar sozinho acaba por me fazer pensar demais nas coisas. E eu ficava mais confuso ainda. Tudo por causa dele!
Levi heichou estava sendo o meu maior problema, nos últimos dias. E eu mesmo não entendia bem o que acontecia. Eu estava tendo uns distúrbios bipolares. Bem, só sei que eu estava com raiva agora. “Como ele pôde me humilhar daquele jeito na floresta e depois me largar lá, naquela situação? Ele não tem dó?”
Eu sentia vergonha sozinho. Ninguém ali, da Tropa inteira, sabia o que aconteceu entre heichou e eu, além de nós mesmos. Então não tinha motivo para acanhar-me perto dos outros. Mas só de lembrar tudo que ele fez comigo, como se aproveitou de mim... como eu estava gostando daquilo...
– Argh! Não! – Gritava baixo, puxando meus próprios cabelos. Tentava parar de pensar nisso. Mas não dava mesmo. Ele abusou um pouco demais da minha deixa. E usou até a boca... Eu corava só de lembrar. Era muito embaraçoso! Nunca passou pela minha cabeça usar a boca pra esse tipo de coisa... É, eu sou muito inexperiente mesmo, eu sei! Mas aquela sensação foi tão boa... eu queria sentir de novo. A língua do heichou... tão quente...
Chacoalhei a cabeça, tentando espantar as imagens. Tinha que para de pensar em detalhes, pelo menos por enquanto. Levi heichou foi muito maldoso. Me provocando daquela forma obscena logo agora, quando eu estou meio que... a fim dele. Não tinha como eu não deixá-lo fazer.
É, eu já admiti a mim mesmo que sentia atração por ele. Mas estar a fim é diferente, não é? Quero dizer, relata mais a parte afetiva. Penso estar sentindo isso agora. Bom, na verdade eu continuava confuso... Eu admiro muito o Levi. Ele é um dos melhores soldados da Tropa, tinha o respeito de todos aqui; ele é uma pessoa bem asseada também, apesar de parecer meio doentio, era uma característica bem graciosa, eu diria; e ele é também muito bonito... Eu me fascinava com seu rosto, seu cabelo, seu corpo... Isso é o que chamam de estar a fim de alguém? Nunca tinha conversado nada sobre o assunto com Mikasa ou Armin.
Eu, de fato, não estava mais olhando apenas para o corpo do heichou. Tinha muito mais para se ver e conhecer, já que ele tem um jeito bastante reservado. Ele, por outro lado, já deve saber tudo de mim. É esperto. Sabia o que se passava em minha mente. E também... devo ter deixado pistas demais para ele sacar o que me acontecia. O que quer dizer que tudo que fez comigo até agora foi apenas para seu divertimento de me ver constrangido. Eu era apenas um brinquedinho para ele. Não que eu achasse de todo ruim, já confessei ter até gostado de ser abusado por ele. “Que vergonha!” Só que... eu queria um pouco mais de afetividade. Nem beijá-lo ele me deixou fazer. Isso me deixou magoado.
Continuava a tomar minha sopa com pão mais calmamente. Pensando no quanto queria que heichou me tratasse mais gentilmente. Eu sentia carinho por ele, mas ao mesmo tempo raiva dele. E eu não ia deixar a humilhação que fez comigo na floresta passar em branco. Eu queria me vingar só de lembrar o quanto eu estava submisso a ele. Meu maior desejo agora era ser o dominante. Eu ia pensar em alguma situação que eu pudesse encurralá-lo. Sorri de canto e dei mais uma mordida no pão.
O refeitório agora estava mais vazio e mais escuro. Algumas velas das mesas tinham se apagado com o vento que entrava pelas janelas semiabertas. Aquela noite estava bem fria. Estava me punindo por não ter pegado nem a jaqueta da Tropa. Entretanto, ouvi uma voz bem calorosa se aproximando.
– Eren! – Hanji-san estava com sua tigela de sopa nas mãos. Parou ao meu lado. – Ei, por que está isolado aí? Venha se sentar mais perto da luz com o pessoal!
– Ah, obrigado, Hanji-san. Mas eu prefiro ficar aqui. – Disse de forma gentil.
– Hum, posso me sentar aqui com você então? – Ela pedia sorrindo. Ela até que era uma companhia bastante agradável. Lógico, quando ela não dá seus ataques de loucura por titãs pra cima de mim.
– Claro! Por favor, sente-se.
Ela se acomodou na cadeira de frente para mim. Pronta para atacar sua sopa com pão. Mas antes, ela se virou para mim.
– Eren, tem algo te incomodando? – Ela perguntou meio desconfiada.
– N-não, que é isso Hanji-san! Não ligo de você sentar-se comigo.
– Não foi o que eu quis dizer. Você parece chateado. Aconteceu alguma coisa que você queira me contar?
– Er... – “É, eu ainda deixo meus sentimentos muito aparentes, tenho que treinar a ser mais discreto” Fiquei um pouco receoso em contar a ela. Mas provavelmente Hanji já deve ter alguma experiência no assunto. E eu não tinha ninguém, até agora, com quem me aconselhar. Decidi contar a ela, mas tentaria não fazer parecer que era por causa do Levi – Hã... Hanji-san... Como que é... gostar de alguém? – Já troquei o termo ‘estar a fim’ por ‘gostar’. Será que subi um nível?
– Hum... Está interessado em alguém, Eren? – Ela perguntava maliciosamente.
– Er... Eu não sei... – Falei acanhado.
– Haha! Ora, é só descobrir! Pense em perguntas simples.
– O que, por exemplo?
– O que você sente quando está perto dessa pessoa? Sente alguma coisa que não costuma sentir?
– Bom, não tenho certeza... É bem estranho. Eu sinto calor... – Tentava ser o mais sincero que eu podia.
– Hum, entendo. Você fica nervoso perto dessa pessoa?
– Bem... até que sim... É, bastante!
– Hum, e você sente falta quando ela não está por perto?
– Agora, nem tanto... quer dizer, não tinha parado pra pensar nisso...
– Hihi, dou isso como um sim, então. Já que demonstra dúvida para falar um não. – Hanji parecia se divertir com as perguntas. – Você também fica sorridente perto dessa pessoa, Eren?
Nessa eu parei pra pensar. Também, não prestei atenção nisso... Normalmente, sou meio submisso perto do heichou. Mas, quando ele me elogia, aí sim tenho certeza que sorrio.
– Eu não sei direito, mas tem vezes que sim... – Falei tímido.
– Você perde o medo?
– Hn? Como assim?
– Quero dizer, você enfrentaria o perigo sem medo, se essa pessoa estiver envolvida?
– Com certeza! Se ela estiver em perigo.
– Hm, certo! Você sente ciúmes dela?
– Ah... Hum... eu não ia gostar muito se ela ficasse muito tempo dando atenção a outro...
– Haha, claro! E você é carinhoso com ela?
– Bem, acho que sou até demais... quer dizer, na verdade, eu me seguro um pouco...
Ela sorriu com malícia novamente.
– Essa pessoa é o Levi?
Nesse momento eu arregalei os olhos e corei bastante. “Como?! Eu nem dei pista de que era homem. Como que ela...?”
– O-o que?! P-por que diz isso?!
– Há, gaguejou! Agora está confirmado! – Ela se divertia. E percebi que estava com uma caneta e caderno de anotações em mãos.
– Hanji-san?! Você está anotando tudo que eu respondo?!
– Querido, relaxe. Está um pouco exaltado. – Ela continuava com o mesmo tom de divertimento. – É pela ciência também. Eu ia mesmo pesquisar melhor suas necessidades reprodutivas...
– Hanji-san!! – Meu rosto ficou mais vermelho. – Por favor, não fale coisas assim.
– Calma, não precisa ficar envergonhado. Eu já suspeitava que você gostasse do Levi, eu apenas confirmei agora. Hihihi – Continuava com seu espírito brincalhão.
– Mas... Por que suspeitou?
– Eren, querido, eu já fiz experimentos com titãs antes, por isso sei que o mais difícil é conseguir fazê-los se acalmarem. – Ela agora falava mais serenamente. – E no seu teste, você saiu do controle. Apesar de você ser um titã diferente dos comuns, ao sair do controle você caiu para uma linha de raciocínio similar ao deles. Controlar-te seria uma tarefa quase impossível, entende aonde quero chegar? – Ela deu mais um sorriso.
– Que o heichou... conseguiu me acalmar rapidamente?
– Exatamente! – Ela fazia ‘joinha’ sentada abraçando os joelhos. – Eu tinha sido informada que, na retomada da muralha Rose, você tinha demorado bastante para tomar o controle da sua forma de titã.
Fiquei estático de momento. É verdade. Levi heichou me vez voltar à realidade quando eu estava transformado. E fez somente com a fala. Não precisou me ferir, nem nada.
– É verdade... Ele mexe mesmo comigo... – Joguei-me para trás no encosto da cadeira. “Droga! Eu estava mesmo gostando dele. E tudo começou por que ficava olhando demais para o seu corpo.” De começo eu tinha certeza que sentia apenas atração física. Mas agora eu sentia uma atração afetiva também. Eu senti bem o quanto queria ficar com Levi quando ele me provocou na floresta. Nunca ficamos com os corpos tão próximos assim antes. Não senti apenas o desejo sexual, senti também o desejo de ter o meu afeto correspondido por ele. O que não tenho certeza que vá acontecer – Hanji-san...
– Hum? Diga.
– Levi heichou tem algum ponto fraco?
– Uh, essa é difícil... – Ela levou o indicador ao queixo para pensar. – Se tiver, seja físico ou psicológico, eu desconheço.
– Entendo. – Dei uma olhada em volta. Não havia mais ninguém no refeitório além de nós dois. Nem notei em que momento todos saíram. Levantei-me da cadeira com minha tigela vazia em mãos. – Bom, já está tarde. Quer que eu lave a sua também, Hanji-san? – Perguntei oferecendo-me a lavar a louça.
– Não precisa, Eren. Vá para o seu quarto descansar. Eu lavo nossas tigelas. – Ela disse gentilmente.
– Ok, então! Obrigado por conversar comigo, Hanji-san. Me ajudou bastante a entender melhor as coisas.
– Não precisa agradecer.
– Boa noite. – Peguei um dos lampiões do refeitório e o acendi. Já estava prestes a ir para o porão, mas antes quis perguntar – Hanji-san, você ia mesmo pesquisar minhas necessidades reprodutivas?
– Hahahahahaha! Ah, Eren, é por isso que gosto de você. – Ela ria enquanto colocava o avental e começava a lavar as tigelas. – Olha, eu só peço uma coisinha, por favor me traga uma amostra de seu sêmen quando você e o Levi praticarem o coito propriamente dito, ok?
– Hanji-san!!! – Eu corei violentamente com essa frase. – Já pedi pra, por favor, não falar desse jeito! – Saí do refeitório totalmente constrangido. Como ela conseguia dizer coisas tão embaraçosas como aquelas sem sentir um pingo de vergonha? Ela era mesmo louca.
– Boa noite, Eren! Cuidado com os degraus, hein! – Ela gritou de longe. Apesar de sua loucura, sei que era uma boa pessoa. Sem falar que ela me ajudou a entender melhor o que sinto pelo Levi.
“Talvez ninguém saiba ainda, mas eu vou descobrir o ponto fraco do heichou, seja físico ou psicológico”.
~#~
Eu me revirei em minha cama. Tinha dado uma leve acordada. Mas continuava bem sonolento. Como eu dormia no porão, nunca sabia se já era ou não de manhã. Pensei em me levantar pra ver. Mas a cama estava tão confortável e gostosa. Sentia vontade de ficar ali, de baixo das cobertas o resto do dia. Dava preguiça só de pensar em subir toda a escadaria só pra verificar se já amanheceu. “Ah, se fosse de manhã, heichou ou Hanji-san viriam me acordar. Posso dormir mais um pouco sem culpa...”.
– Acorde, Eren!! – O barulho da porta abrindo violentamente e a voz severa chamando, me fizeram sentar na cama rapidamente.
– Ah, heichou! – Disse esfregando os olhos.
– Levante e se troque logo, teremos bastante trabalho com limpeza hoje. – Disse, saindo logo em seguida.
– Waah... Certo, senhor. – Respondi em meio aos bocejos, me espreguiçando. Mudei de roupa, não tão rápido quanto heichou pediu. Eu estava cansado. “Por que será que ele me chamou pra faxina logo agora?” Ao sair do meu quarto, fui à procura de Levi. Ele estava no terceiro andar, vestido de sua forma característica sempre que fazia limpeza. Usando um lenço na cabeça e outro para cobrir seu rosto. Com um balde e vassoura nas mãos.
– Ah, finalmente chegou! – Ele me estendeu a vassoura. – Comece varrendo os quartos.
– Mas, heichou. Por que temos que limpá-los agora? Você mesmo não tinha dito que podia deixar o terceiro andar para depois?
– Eu sei. Mas os seus amiguinhos vão se juntar à Tropa de Exploração em breve, não é? Eles precisarão de quartos para se hospedarem.
– O que? Eles já entraram pra Tropa?
– Ainda não. Erwin vai fazer o chamamento talvez amanhã ou depois de amanhã. Não sei se são os seus colegas com que convivia mais, mas de qualquer forma, teremos novos recrutas. Inclusive, acho que sua irmã possessiva vai estar entre eles. – Dizia arrastando móveis de um dos quartos.
– Irmã possessiva? Fala da Mikasa?
– Você tem outra irmã possessiva? – Falava com ironia.
– Não... Quero dizer, por que a chamou assim? Ela é só um pouco preocupada.
– Um pouco? Eu pude ver o quanto ela é apegada a você.
– Mas o que isso tem a ver?
– Nada. Estou apenas comentando. Ela não vai muito com a minha cara. Ainda mais depois de ver o que fiz a você no tribunal.
– Não se preocupe. Eu explicarei a ela que foi para impedir que eu fosse executado.
– Hum... Certo. – Disse terminado de afastar aqueles móveis antigos das paredes. – Pronto. Comece a varrer este quarto. Vou arrumar os móveis do outro.
– Sim, senhor! – Respondi. E assim que ele saiu, iniciei o longo trabalho que teria com aquela vassoura hoje. Enquanto varria, pensava “Que estranho. Por que ele começou a falar assim da Mikasa, tão de repente? Acho que ele não ia muito com a cara dela também”.
Tentei ignorar isso. Apenas me concentrei em varrer. Ajeitei bem o lenço em meu rosto. Tinha muita poeira mesmo ali atrás dos móveis. Era muito chato ter que fazer faxina...
“Espere aí! Levi pareceu dar bastante ênfase no fato da Mikasa ser apegada a mim. E disse em um tom irritado. Será que isso... o incomodava?” Abri um largo sorriso com o pensamento. Poderia o heichou estar com ciúme? Esse era um dos sinais que Hanji tinha apontado para saber se estava gostando de alguém. “Caramba, será?” Comecei a varrer com mais ansiedade. Eu tinha que confirmar isso. Mas como faria?
– Ei, garoto, por que está varrendo com tanto alvoroço? – Disse Levi na entrada do quarto.
– Er... Por nada não, heichou! – Falei sorrindo pra ele. Não um sorriso forçado, mas bastante sincero.
– Hunf. Não sorria assim pra mim. – Falou adentrando o cômodo, aparentemente tentando não me encarar.
– Ah, desculpa... – Ainda continuei com o sorrisinho bobo no rosto. Vendo-o se agachar pra verificar o chão.
– Oh, tem umas manchas aqui.
– Essas eu não consegui tirar.
– E não vai conseguir mesmo. Acho que só vão sair com escova. Pegue aquele balde para mim. – Disse ele apontando.
– Sim, senhor. – Entreguei-o a ele, logo pensei “Heichou vai ficar naquela posição de novo?”. Dei mais um sorrisinho divertido.
– Eren, se eu te pegar olhando pra minha bunda de novo, eu parto-lhe o pescoço, ouviu? – Ele alertou com um olhar mortal.
– S-sim! – Respondi corando levemente.
– Então ajude Petra e Auruo a varrer os outros quartos.
– T-tá bom! – E assim fui. O terceiro andar até que estava bastante movimentado, mesmo sendo poucos a trabalharem na limpeza.
Me encontrei com Petra, que já tinha terminado três quartos. Enquanto Auruo estava dormindo sentado em uma cadeira, sem ter terminado de varrer nem o primeiro quarto. Se Levi o pegasse ali, provavelmente teríamos que nos virar na expedição fora das muralhas sem ele. Varri mais um quarto, demorou um pouco e me cansou mais. Tinha apenas mais dois faltando. Que eram os últimos do corredor. Os mais, digamos, abandonados do castelo. Devia ter até ratos escondidos ali.
– Oi, Eren!
– Ah, Petra-san! Ué, já terminou o outro quarto??
– Na verdade dois. O imbecil do Auruo que fica folgando muito e atrasando nosso serviço! Já era pra termos terminado. – Ela sempre falava dele com descaso. Eu fiquei surpreso de ela fazer a tarefa tão rapidamente. – Eu ia te falar, deixe que eu varro esses dois! Vá ver alguma outra tarefa com o heichou. – Ela dizia de forma doce. Mas eu tinha a impressão que ela ia mesmo é obrigar Auruo a fazer tudo sozinho.
– Sério? Ah, obrigado, Petra-san! – Agradeci.
E assim retornei para o primeiro quarto. Vi que o chão estava com o brilho da água. Levi já devia ter passado pano úmido. Encontrei-o ainda ajoelhado, massageando o próprio ombro com uma das mãos. Dava umas murmuradas a si mesmo.
– Heichou? Tudo bem aí?
– Hn? – Ele se virou para mim – Sim, só essas manchas malditas que não saem. E você? Já terminou?
– Petra-san disse que varreria o restante dos quartos.
– Oh, muito bom. Ela é mesmo uma garota bem eficiente. – Eu sei que não era nada de mais, mas senti uma pitada de ciúmes quando ele disse isso. Mas deixei pra lá. – Então pegue aquele pano e comece a limpar os móveis. São poucos, não vai demorar. Mas faça bem feito!
– Entendido, senhor. – Não pude deixar de perceber o quanto Levi tentava massagear os próprios ombros. – Heichou, seus ombros estão doendo?
– Não muito... Ainda dá para limpar.
– Não! Er... quer dizer, por que não trocamos de tarefa? Eu limpo essas manchas do chão e você limpa os móveis, pra não ter que ficar abaixado... – Fui diminuindo o volume da voz, não sabia se ele tinha gostado da sugestão ou não.
– Hum... Tudo bem então. Mas limpe direito, viu! Eu sei bem que quando é uma sujeira difícil de tirar, você desiste e tenta esconder com algum objeto.
– Pode deixar, senhor! – Via-o continuando a mexer nos ombros e agora no pescoço. Tive uma ideia meio ousada, mas valia arriscar – Heichou, quer que eu faça uma massagem em você?
– Que ideia é essa? – Questionou arqueando uma sobrancelha.
– É que... tem muito mais resultado quando é outra pessoa quem faz... – Eu dizia acanhado.
– Hm... – Ele me fitou. Por um momento achei que fosse me bater. – Tudo bem então. – Ao dizer, retirou os lenços, pegou uma cadeira e sentou-se. Eu fiquei feliz e meio nervoso na hora.
Eu não estava demonstrando até agora, mas é claro que eu ainda sentia vergonha perto do heichou. Afinal fico lembrando o que aconteceu na floresta. Como ele me provocou. E agora, a chance de ser a minha vez estava bem diante dos meus olhos.
– A dor é mais nos ombros. – Ele apontou com uma das mãos. – Vai! Quero ver se tem alguma habilidade.
– Sim. – Eu achei um pouco estranho. Ele não estava sendo severo comigo nem nada. Agia como se o dia da floresta não tivesse acontecido. Será que planejava algo? Eu tinha que ter sempre em mente que ele é bem esperto e sabe esconder as expressões. Dificilmente eu tiraria alguma reação dele. Mas pelo menos, eu ganhei de bandeja uma chance de tocá-lo.
Estralei os dedos e pousei minhas mãos em seus ombros. Eu ainda estava nervoso, tentei me acalmar o quão logo. Não podia parecer com baixa autoestima, eu queria poder transmitir minha energia relaxada para ele. De começo, dei leves apertadas nas extremidades dos ombros do heichou, queria ser o mais suave possível. Vi que ele deu uma suspirada. Fui subindo as mãos até a curva entre seu pescoço e ombro, pressionando mais fortemente com os polegares, pude sentir a tensão em seus músculos. Continuei apertando bem vagarosamente, movimentando-me sempre no mesmo ritmo.
– Ahh... Isso, aí. Mais forte, Eren... – Levi falou em meio a suspiros, com uma voz um tanto deleitável. Meu rosto enrubesceu na hora. Aquele tom de voz dele... Nunca tinha ouvido. Mas, eu tinha que me controlar ainda. Agora eu era vacinado. Meu desconfiômetro estava bem ligado. Era óbvio que ele devia estar fazendo algum joguinho comigo. Estaria tentando me provocar com essa voz manhosa para que eu me cedesse a ele de novo. Não ia deixar isso acontecer, por mais que eu queira.
– Nesse ponto aqui? – Apertei mais forte com os polegares. Ele deu mais uma relaxada. – Está gostoso, heichou? – Tentava utilizar um tom mais provocador também.
– Qual é a sua, garoto? – Ele questionou, ainda no mesmo tom.
– Nada. Estou apenas perguntando. – Respondi. Continuava com os movimentos. Só pensei que... ele poderia estar sem aquela blusa. Seria muito melhor eu pudesse tocar diretamente na sua pele. A única região que estava menos coberta era seu pescoço. Fui ousado, abaixei levemente sua gola, rocei minhas mãos em seu pescoço bem suavemente até sua nuca e dei uma leve soprada naquela região. Foi aí que eu senti sua pele se arrepiar inteira e ele deu um gemidinho quase inaldível. Heichou logo se afastou de mim, cobrindo o pescoço.
– Ei, o que é isso, moleque?! Eu disse só os ombros! – Ele falava com irritação. Mas eu nem estava ligando. Minha surpresa naquele momento foi grande. Eu me sentia extasiado. Tinha conseguido tirar uma reação do Levi! Ele não estava corado, mas também demonstrava surpresa e um pouco de constrangimento em seu rosto.
– Heichou, eu conto toda essa região como ‘ombros’. – Falava de forma sarrista. O que o irritava ainda mais.
– Mas não é!! E que ideia foi essa de assoprar?
– Hehe, é porque minha mãe sempre fazia comigo. Soprar ajuda a espantar a energia tensa, não sabia, senhor?
– De onde você tirou essa ideia? Acabou de inventar, não foi?
– Claro que não, heichou! – Eu estava me divertindo internamente.
– Hunf. Vá esfregar o chão! – Ordenou ainda no tom irritado.
– Sim, senhor! – Respondi alegre. O que o irritava mais.
– E para de sorrir assim! – Disse ríspido, desviando o olhar do meu rosto. Começando a limpar os móveis.
– Hai, hai... – Não me importava de levar broncas agora. Eu havia descoberto um ponto fraco do Levi: sua nuca. Ele demonstrou-se bastante sensível nesta região. Provavelmente, nem ele sabia disso, pelo seu susto. Foi um reflexo bastante adorável.
Ele continuava a limpar os móveis, nem se lembrou de colocar os lenços no rosto e nos cabelos novamente. Eu dei um riso baixo. Mergulhei uma das escovas no balde com água ensaboada. Fui até a região onde o chão estava manchado e me abaixei, ficando de quatro. Bem de costas para o heichou. Dei uma espiada e vi que ele dava umas olhadas. “Hunf. Parece que eu não sou o único que quer algo, heichou. Você também tá querendo...” Constatei, logo começando a esfregar aquelas manchas, que provavelmente precisariam de álcool para serem removidas. Agora, era eu quem dava umas reboladas propositais enquanto limpava. Tentando me lembrar bem como Levi tinha feito no outro dia. E, claro, eu olhava de canto para ver sua expressão. Ainda se demonstrava irritado, mas meio se controlando para não me olhar.
“Heichou, me aguarde. Descobri um ponto fraco seu e consegui deixa-lo vulnerável. Ainda não sou muito experiente no assunto. Mas agora que ganhei mais coragem, vou com certeza dar um troco à altura do que me fez na floresta.”
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