Provar, Comer e Casar
10 O sabor da fama
Notas iniciais
Sasuke manteve-se em pé enquanto Sakura observava cada detalhe da prateleira de sua sala com curiosidade. Não havia nada de especial, na visão dele, mas parecia ter pego a atenção dela com muita facilidade assim que colocaram os pés para dentro da casa dele.
— Aceita algo? — Sasuke perguntou mudando o peso para a outra perna. Não se sentia desconfortável, mas já havia passado um tempo considerável em silêncio.
Sakura não se virou ao negar. Estendeu a mão e tirou um pequeno troféu quase escondido atrás de portas-retratos. Sorrindo, virou-se para ele.
— “Primeiro lugar na competição culinária da escola secundarista…”. Que fofo! Desde pequeno já cozinhava?
— Já disse que sempre foi minha paixão. — Sasuke respondeu apontando para o sofá para que se sentassem. Sakura suspirou quase imperceptivelmente, mas voltou a guardar o pequeno prêmio onde estava e sentou-se.
— Sim, já me disse, mas lembro-me que foi um tanto rude.
— Faz parte do meu charme. — Sasuke sorriu de canto dando de ombros. Sakura riu balançando a cabeça e voltou a olhar ao redor.
— Tem uma casa muito bonita, Sasuke.
Ele agradeceu apenas com um aceno, seus olhos não conseguiam deixá-la, tão curiosos para captar cada reação dela. Estava um pouco nervoso e fazia o possível para ter a expressão suavizada e consertar tudo. Era de sua natureza fechar a cara e cruzar os braços mantendo as pessoas longe, mas aquela não era uma situação em que essa postura ajudaria de alguma forma.
Mais um momento de silêncio para ele perceber que ela estava desconfortável. Sakura movia a perna cruzada e apertava as mãos por cima do colo. Um movimento impensado e logo o decote abria-se um pouco a frente dele. Sasuke respirou fundo e apertou as próprias mãos em frente ao corpo, desviou os olhos para o chão e tentou pensar com clareza.
— Posso usar seu banheiro?
— Claro, fique à vontade. Última porta no segundo andar.
Ela passou e deixou um pouco de seu perfume. Aquele cheiro floral e notas levemente amadeiradas. Sasuke entendia de sabores e cheiros, entendia que o olfato era ligado ao paladar e ainda muito mais sensível e efetivo que o segundo. Os cheiros ativam o sistema límbico e despertam sensações…
Sasuke levantou-se e foi até sua cozinha. A ideia que teve com certeza iria ajudar a deixar o clima mais ameno para que pudessem conversar agradavelmente. Com certeza ele ficaria mais calmo e assim poderia conduzi-la para o mesmo caminho.
Verificava o que tinha em sua geladeira quando ouviu a voz maravilhada dela às suas costas.
— Não sei porquê ainda consigo ficar surpresa. Que cozinha incrível! É ainda mais bonita que a de seu restaurante, o que eu achava ser difícil.
Sasuke fechou a porta e a pegou olhando ao redor. Tinha que concordar, sua cozinha tinha tudo o que ele precisava para criar e testar sabores. A arquiteta tinha se assustado com o espaço que ele queria dedicado aquele cômodo no início, mas, depois de explicar qual era sua profissão, ela se empolgou apresentando várias ideias para seu lugar preferido na casa.
Sua cozinha era na melhor definição, enorme. Um espaço gourmet, onde cozinhava ao mesmo tempo em que recebia seus convidados, na maioria das vezes sua família ou Naruto com Hinata.
Do umbral de gesso via perfeitamente a grande janela na parede onde ficava sua pia, duas cubas grandes com torneiras de aço, ladeada na direita por uma geladeira de inox com duas portas enquanto um grande balcão de granito preto seguia formando um L pelo lado esquerdo, tomando mais da metade da outra parede, cheio de batedeiras, liquidificadores, e seus armários onde guardava comida, e passava o maior tempo vazios.
Nesse mesmo lado ele tinha seu armário flutuante planejado, quase um cofre que guardava suas preciosidades, vários tipos diferentes de conjunto de pratos, copos e taças, além de alguns utensílios mais caros — que comprou mais por vontade do que por necessidade — e seus três fornos em inox embutidos na paredes. Porém, com certeza, a peça que mais adorava era a ilha no centro, o granito preto combinava perfeitamente com o preto e inox do móvel que tomava suas paredes acinzentadas, e seu cooktop chegava quase a reluzir pelo brilho das luzes de led que circulavam o teto mais elevado de onde o exaustor com detalhes de vidro pendia. Seis grandes gavetas guardavam todos os tipo de talheres, raladores, tábuas e outros utensílios pequenos de confeitaria, enquanto deixava seus jogos de facas mais usados fincados numa madeira escura sobre o balcão. Para Sasuke, aquele era a bancada principal de experimentos do seu laboratório particular.
Isso sem mencionar a mesa de oito lugares, feita toda em vidro e madeira revestida em acrílico combinado com os três lustres minimalistas que pendiam sobre o centro, um claro exagero para quem poucas vezes estava em casa, e menos ainda com companhia, mas tinha uma vista magnífica para o jardim que rodeava o lado esquerdo de sua casa graças à parede de vidro.
— Passo menos tempo do que gostaria, aqui. — confessou cruzando os braços e olhando ao redor.
— Você trabalha demais. — Não era uma pergunta, mas Sasuke levantou um poucos os ombros dando a entender que não importava. — O que você faz além de cozinhar? Digo, no seu tempo livre.
Sasuke passou o dedo pelos lábios, pensando.
— Precisa voltar cedo para casa?
Sakura se surpreendeu com a pergunta repentina, mas Sasuke não desviou os olhos dela ou mudou de ideia quanto ao objetivo da pergunta. Ela enrugou um pouco a testa e olhou para o relógio chique no canto superior da cozinha.
— Trabalho no período noturno, amanhã. Posso chegar tarde. — Sorriu e aguardou o que ele tinha planejado.
Achava que iriam conversar rapidamente e deixar as coisas mais tranquilas, mas assim que entrou em sua casa sentiu a tensão entre eles voltar aos poucos, uma tensão que estava muito interessada em fazer desaparecer. Não conseguia deixar de se sentir acanhada. Estava no território dele. Talvez se sentisse menos acuada em um dos restaurantes pela impressão de parecer mais público, mas ali, em sua casa, era particular demais.
Tudo tinha a aura de Sasuke, sua identidade. Os tons mais sóbrios por todo o canto, a decoração discreta e com extremo bom gosto… Não ficara tranquila e não dera espaço para que ele começasse, já que lhe faltava coragem. Havia até mesmo fugido para o banheiro para tentar respirar com mais calma e convencer sua mente e seu corpo que Sasuke não era uma ameaça, ele não era sufocante como pareceu ao fechar a porta. O problema era ela, que tinha receio em conversar e acabar falando mais do que devia. Tinha receio de falar sobre Sasori. Só queria se desculpar.
Sasuke puxou um sorriso satisfeito e fez sinal para que ela esperasse um segundo. Deixou-a sozinha na cozinha e seguiu até seu quarto. A porta estava aberta e a primeira coisa que pensou é que ao ir para o banheiro ela devia ter visto sua cama desarrumada e a toalha caída no chão. Fez uma breve careta preferindo não pensar sobre aquilo. Pegou a carteira e um boné dentro do closet.
Voltando para o andar de baixo se surpreendeu ao vê-la de costas olhando mais uma vez para suas prateleiras na sala, mais especificamente os porta-retratos. Ao se aproximar um pouco teve certeza que ela olhava a foto do casamento de Itachi, onde toda a família sorria para o fotógrafo.
— Já que estamos aqui, podemos treinar o prato da semana enquanto conversamos. — ele disse captando o susto que ela levou como se tivesse sido flagrada. Sakura virou-se com um sorriso sem graça e ajeitou um pouco os cabelos, sem precisão. — Preciso de alguns ingredientes.
— Ótima ideia. — Sakura ficou imensamente aliviada com a proposta. Estaria fazendo algo com ele que eliminaria aquela tensão definitivamente.
— Podemos ir com o seu carro? O meu ficou no restaurante.
— Claro. Podemos ir naquele mercado perto do centro. Seria bom que as pessoas nos vissem juntos, sabe? Para saberem que não nos odiamos. — Ela riu e havia uma pontada de desespero.
Sasuke bufou trancando a porta ao saírem. Ele odiava toda aquela exposição e suas consequências. Ele não via nada de bom nesse tipo de coisa, mas ela tinha razão.
Sakura olhou para o rádio e pensou se seria indelicado colocar uma música para tocar.
— Eu malho todo dia, ou pelo menos quando dá. — Sasuke disse assim que fechou o cinto de segurança, a olhou e riu da expressão confusa — Você me perguntou o que eu fazia no meu tempo livre.
— Ah… — Ela riu desistindo de colocar uma música para preencher o caminho de ida e volta. Olhou de soslaio e aproveitou que ele ajeitava o boné na cabeça para ver os bíceps bem desenhados. Normalmente ele usava o dólmã com mangas mais largas e não era tão perceptível que tivesse um físico tão másculo. — Err… treino de vez em quando, mas já faz uns três meses que não sei o que é uma academia.
— Fala sobre mim, mas também tem um rotina pesada. — Sasuke gostou do sorriso que ela deu em resposta.
— Gostamos do que fazemos. — Sakura deu de ombros e ele só pôde concordar. Antes que o silêncio levasse a Sasuke recomeçar uma conversa, Sakura se adiantou — Você e Naruto são amigos há muito tempo ou é só conversa de show business?
— Nos conhecemos desde pirralhos. Eu era novato e sempre fiquei mais na minha, mas Naruto sempre teve aquele jeito e acabava fazendo amizade com todo mundo. — Sasuke sorriu com a lembrança — Aos quinze nos matriculamos na aula de economia doméstica porque ele estava a fim de uma garota de lá e acabamos nos destacando.
— Não acredito nisso! — Sakura riu e gesticulou para que ele continuasse. Era bom ouvi-lo falar tanto e com tanta despreocupação. Qualquer um que acabasse de conhecer Sasuke pensaria que ele era uma pessoa desagradável, mas ela estava tirando a prova que não.
— E nossa brincadeira acabou dando certo, pegamos gosto pela culinária e Naruto casou com a garota.
— Hinata? Que história linda.
— Sim. Dê corda que ele conta tudo com detalhes.
— Imagino. Mas a história deles é tão linda quanto a de Frederico e Margarida em Chamas da Paixão? — Marota, se surpreendeu com o rosto dele enrubescendo e desviando para fora.
A gargalhada de Sakura abafou o resmungo dele.
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— O que você fez? — Sasuke perguntou ajeitando o cabelo com a mão que não segurava a cestinha de compras.
Haviam entrado no mercado e Sakura disse que alguém de boné às dez da noite chamava tanta atenção quanto uma mulher de cabelos cor de rosa. Então Sasuke olhou para o boné em mãos e colocou na cabeça dela, enquanto ele se divertia com a reclamação dela pôde ver uma pessoa sacando o celular para tirar uma foto. Manteve a expressão fechada desde então, mas Sakura nada havia percebido.
— Eu coloquei o chocolate no liquidificador para triturar, sabe? E por um motivo desconhecido ele derreteu…
— Motivo desconhecido. — Sasuke repetiu com um riso anasalado.
Sakura gesticulava enquanto caminhavam pelos corredores praticamente vazios do supermercado. Algumas pessoas olhavam, mas ninguém realmente os incomodou.
— … e a hélice travou. Quase queimei o liquidificador da Ino. — Sakura soou como se fosse muito natural, o que fez Sasuke balançar a cabeça com um pequeno sorriso.
— Você é um perigo.
— Nada de julgamentos. — Sakura apontou o dedo para ele rindo em seguida.
Os dois pararam em frente uma gôndola com manjericão, Sasuke pegou um punhado e cheirou, depois disse algumas coisas enquanto ela mesma tentava sentir o que ele dizia e balançava a cabeça como uma boa estudante, quando uma senhora os interceptou pedindo uma foto.
— Mas é claro. — Sakura sorriu forçado para Sasuke, que não escondia o quanto não estava gostando da situação.
Uma moça que trabalhava no hortifruti se disponibilizou, toda sorridente, para bater a foto.
— Sasuke! Sorria. Vamos tirar de novo. — Sakura devolveu o celular para a moça que riu junto da senhora.
Sasuke queria acabar com aquilo logo e tentou forçar um sorriso, mas ele acabou saindo naturalmente quando olhou para Sakura e recebeu uma piscada dela.
— Vocês dois fazem um casal muito lindo e simpático. Estou torcendo por vocês. — A senhora disse apertando as bochechas coradas de Sakura.
— Oh, obrigada. Mas, nós não somos um casa…
— Com licença, vocês poderiam tirar uma foto com a gente? — a moça sorridente do hortifruti perguntou ansiosa e logo estavam Sasuke e Sakura com seus melhores sorrisos nervosos circulados por todo o pessoal que trabalhava no supermercado.
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— Até que não foi tão ruim, Sasuke. Ganhamos tudo de graça! Foram uns fofos. — Sakura gracejava tentando fazer Sasuke sorrir mais uma vez, mas ele parecia realmente estressado pelo assédio que sofreram no supermercado. — Não vão mais mentir que não nos damos bem, olha o lado bom.
— Eu preferia que nada dissessem. — ele suspirou deixando as sacolas na cozinha. Sakura começou a organizar tudo na bancada de granito preto — Fique à vontade, eu vou trocar de roupa e já volto.
Sakura esperou que ele saísse e respirou com força enquanto colocava as palmas das mãos sobre o granito frio. Todo aquele alvoroço e atenção realmente não eram algo que ela estava gostando de viver. Todas aquelas pessoas falando com ela e a tratando como se a conhecessem. Bom, a conheciam, mas somente de um programa de culinária e como a desastrada que coloca fogo em tudo. Essa última ideia a fez estremecer e olhar ao redor, não queria nem pensar no que Sasuke faria se ela atentasse contra a sua cozinha.
Sasuke suava por baixo da camisa polo. Pressão nunca foi um problema, mas aquilo tudo para cima dos dois estava sendo ridículo. Tirou a camisa e, olhando-se pelo espelho do closet, prometeu que jamais participaria de outra temporada do reality, mesmo Naruto sendo seu amigo e insistindo muito.
Procurava uma camiseta mais folgada e fresca quando ouviu o estrondo de panelas no andar de baixo. Não pensou muito, desceu as escadas com rapidez e se assustou ao ver panelas caídas e um gemido fraco seguido de um palavrão. Sakura estava em frente ao seu armário de costas para ele. As panelas caídas perto de seus pés.
— Sakura, você está bem? — Se postou atrás dela e viu o que ela segurava, um dedo ensanguentado com um pano de prato enrolado.
— Sasuke, me desculpe a bagunça…
— Você se machucou. Deixa eu ver. — A girou pelos ombros assustado com o tanto de sangue que tinha no pano.
— Não se preocupe, eu já…
Sasuke ergueu os olhos para os dela quando a fala foi cortada. Preocupado, viu vermelho colorir o rosto dela e os olhos baixos enquanto a boca ainda movia-se sem som.
— Você está sentindo alguma coisa? Vou te levar em um hospital.
Sakura balançou a cabeça e os olhos pareceram voltar a ter foco. Puxou ar e sorriu um pouco trêmula.
— Só preciso de uma gaze e um esparadrapo. Te juro que não foi nada grave.
Sasuke olhou para o dedo enrolado rudemente num pano e depois para ela com o cenho franzido.
— Não precisa de ponto ou…
— Sasuke, eu sou cirurgiã, esqueceu? — Sakura o circulou e foi até a pia tirando o pano e fazendo uma careta para o corte que fez com a faca ao começar a picar os cogumelos para a receita. Olhou por cima do ombro e o viu em dúvida. — Saia e vá buscar o que eu pedi. Por favor.
A última parte saiu como um gemido de dor e Sasuke respirou fundo. Ela dissera que não era nada de mais, ela era médica e sabia muito mais que ele sobre isso.
— Tudo bem. Eu já volto.
De costas para ele e com o machucado contra a água corrente, ela escutou os passos apressados subindo as escadas. Respirou fundo duas vezes antes de conseguir dizer algo.
— Uau.
Olhou mais uma vez para o seu dedo e viu que realmente o machucado não era tão grande, mas era demais para um band-aid, porém, não era essa a sua preocupação.
Será que ele percebeu que eu sequei ele na cara dura? Que corpo era aquele?
O rosto esquentava só em pensar que ele poderia ter entendido que o seu “por favor” foi quase uma súplica para que ele saísse dali e não a fizesse se distrair mais e criar uma situação de perigo mortal.
Fechou os olhos por um momento e pôde, novamente, ver o ralos pêlos por cima do trincado no abdômen, o peito largo e definido com uma tatuagem do lado esquerdo, os ombros grandes e os braços musculosos, o da esquerda desenhado com galhos que subiam por toda a sua extensão. Não teve tempo para apreciar muito e nem sequer pôde ver mais detalhes das tatuagens. Só do jeito que estava sabia que não teriam condições de mexer com facas ou algo inflamável. Ela podia explodir aquele lugar.
— Sakura, eu tenho umas coisas aqui… Tudo bem? — perguntou preocupado quando ela virou-se de uma vez e pareceu abatida.
Sakura sentiu-se um pouco frustrada, admitia, ao se virar com som da voz dele e descobrir uma camiseta preta com uma estampa de banda de rock. Ele deixou uma caixinha branca em cima do granito e se adiantou até ela, meio sem saber o que fazer. Olhando somente para o rosto dele e os cabelos negros caídos sobre a testa sem proteção, ele parecia engraçado com todo aquele jeito de bad boy mandão sem saber o que fazer.
— Eu estou bem, sério. — Levantou o dedo para que ele visse que não foi nada grave, de uma distância segura, e andou rápida até a caixinha. Mexeu entre os medicamentos para primeiros socorros respirando fundo para não ficar tão ciente do corpo dele logo atrás de si a observando. Rapidamente começou a fazer o curativo em silêncio e Sasuke pareceu respeitar isso, sentindo-se um estranho em sua própria cozinha.
— Acho bom deixarmos para amanhã, então. Acha que vai estar melhor? — Sasuke apontou para o dedo pegando a caixinha que ela estendia.
Sakura poderia cozinhar, o corte não iria ser problema depois de ser estancado com tanta facilidade, mas ela não estava mais com cabeça para fazer aquilo. Se normalmente e tentando se concentrar ela já fazia um estrago, não queria nem imaginar como seria estando tão distraída.
— Que tal você cozinhar para mim explicando o passo a passo? — Sakura sugeriu achando uma boa solução.
Sasuke ponderou um pouco e concordou com a cabeça, guardou as panelas que caíram e pegou um avental azul marinho dentro de uma das gavetas, o prendeu ao corpo vendo os cogumelos que ela já havia começado a cortar.
— Como você foi parar lá? — Apontou para onde havia guardado as panelas, deixando um olhar escapar para o dedo enfaixado.
— Eu vi o pano lá e corri com medo de sangrar no seu chão, bati o dedinho do pé na quina, dei um tapa no armário para não gritar… Quer mesmo que eu narre? — Sakura estava com uma expressão sofrida e divertida. Sasuke balançava a cabeça abismado com a capacidade dela em arrumar acidentes em uma cozinha.
Voltou os olhos para seus ingredientes cortando-os e alheio ao olhar perscrutador de Sakura em seu tronco. Ele respirou fundo, com os olhos nos cogumelos e a faca trabalhando com agilidade.
— Me desculpe.
— Desculpar? — Sakura quase não ouviu.
Sasuke ergueu os olhos da faca, mas não olhou-a.
— Pelo jantar e… o molho. Se eu puder fazer algo para…
Sakura levantou as mãos o calando. Nos olhos ela mostrava que era um absurdo o que ele fazia. Havia sido repentino como uma corte frio de faca, mas não havia como ignorarem mais o motivo de estarem ali, e no fundo ela agradecia por ter sido ele a puxar o assunto, não saberia como começar.
— Eu peço desculpas, por ele. Sasori… ele é um pouco difícil de lidar. — Sakura parecia mais encolhida, Sasuke percebeu. A menção do nome daquele cara fez uma raiva borbulhar dentro dele, voltou sua atenção aos ingredientes.
— Os cogumelos não precisam ser cortados com um padrão nesta receita, pode cortá-los como quiser, ficam mais atrativos em tamanhos maiores e lembram que eles são o principal do prato, não somente um acompanhamento. — Sasuke jogou os cogumelos cortados em uma tigela deixando-os de lado para ir ao próximo passo. Não olhava para Sakura, mas percebia as singelas reações do corpo dela ao que ele dizia. Sem esperar que ela dissesse algo, continuou — Eu jamais tratei um cliente daquela forma…
— Não éramos clientes, Sasuke. Foi muito generoso da sua parte nos oferecer um jantar. Ele foi grosseiro… — As palavras saíram como ácido da boca de Sakura. Ela se calou.
Muita coisa se passava pela cabeça de Sasuke naquele momento, muitas delas eram lembranças daquele fatídico dia. Ele tinha muita coisa para dizer, mas já havia repetido em sua cabeça que aquilo não era da sua conta. Poderia ter estragado um relacionamento de pessoas que mal conhecia e que, talvez, nem teria mais contato, por causa de um ato impulsivo.
Sasori era um babaca, mas não seria Sasuke a dizer aquilo.
— Já lidei com gente pior. — Puxou um sorriso de canto ao olhar para ela, viu os ombros relaxarem e um sorriso constrangido brincar sobre os lábios dela ao ouvir a mentira dele.
Sakura tentava se manter relaxada, mas agora, mais do que nunca, lembrar daquele dia lhe batia uma vergonha pelo Sasori. Ela havia tido raiva de tudo quando aconteceu, não só de Sasuke, mas preferia culpá-lo para simplificar toda aquela confusão dentro da cabeça dela. Passado uns dias, enquanto conversava com Ino, ela percebeu o quanto estava sendo injusta e que se estivesse no lugar do chef teria feito coisa pior.
— Ino diz que ele pode ter agido daquela forma para me impressionar. — Sakura deixou um riso incrédulo.
— Compreensível. Você estava muito bonita.
O silêncio fez Sasuke levantar os olhos para ela. Sorriu de canto voltando para seus temperos ao vê-la sem ação ao elogio repentino. Havia muito tempo que não fazia gracejos de propósito, mas as reações de Sakura eram mesmo divertidas de se observar, mesmo que tenha sido um pensamento sincero.
— O-obrigada. — Sakura limpou a garganta e repreendeu-se por gaguejar. Tentava não se sentir abalada, mas lembrar dele sem camisa não ajudava. — De qualquer forma, mesmo sendo infantil ao extremo, eu prefiro pensar que ele tenha agido daquele jeito por esse motivo. Sasori é um homem com muita classe, normalmente.
— Venha. — Sasuke foi até sua cooktop com Sakura logo atrás. — Vamos derreter a manteiga e refogar os cogumelos nele até que ganhem cor. Tem que tomar cuidado para não deixar que manteiga queime. — Sakura escorou na bancada vendo as mãos dele movimentarem-se com facilidade entre os ingredientes e a panela sem ao mesmo estar prestando muita atenção no que fazia. — Normalmente, os homens se sentem ameaçados quando percebem que têm outros melhores que eles por perto.
Sakura não entendeu o que ele quis dizer com aquilo. Os cogumelos já eram refogados na manteiga e um cheiro gostoso já fazia presença entre eles, mas Sakura encarava o perfil dele, enquanto Sasuke se concentrava em colocar o restante dos ingredientes na panela.
— Como? — Ela o instigou a explicar.
— Sal e pimenta é a gosto, mas tente colocar pouco. Agora colocamos a cebola atentos ao ponto dos cogumelos… — Voltou a mexer a panela tendo os chiados da cebola sendo refogada. O cheiro começou a ficar ainda mais maravilhoso, mesmo não tendo nada nem perto de pronto. Sakura olhou para a panela num instante já sentindo vontade de provar. — Ele deve ter se sentido ameaçado e tentado te impressionar, é comum. — Sasuke olhou-a de soslaio, sério.
— Ameaçado? — Ela realmente, até aquele momento, não via o porquê de Sasori se sentir daquele jeito. Ela sempre teve olhos somente para ele.
Sasuke juntou os outros ingredientes explicando a forma de mexer e o ponto exato em que deveria ficar, dando atenção extra ao lembrete de que deveria sempre ficar de olho para não queimar. Abaixou um pouco o fogo e voltou-se para ela com um sorriso pequeno e os olhos diretos nos dela.
— Por mim. Muitos homens se sentem mal quando sabem que eu cozinho. — deu de ombros voltando para a panela.
Sakura não acreditava que ele havia dito aquilo. Tapou a boca com as mãos abafando a sua risada. Sasuke deixou que seu sorriso crescesse e fingiu-se de ofendido à reação dela.
— Não vou negar, isso te deixa num patamar mais alto. — Ela riu mais uma vez.
Sasuke passou por ela indo até a pia e lavou as mãos. Havia feito o comentário por brincadeira, não queria ter que falar merda e acabar deixando-a chateada, mas acabou admitindo para si mesmo que gostou da resposta dela, mesmo que fosse para descontrair.
Sakura sentia-se mais leve, despreocupada com a panela no fogo. Olhou para Sasuke e o viu um pouco menos sorridente, mas ainda com ares de bom humor. O sorriso em seu próprio rosto foi esmaecendo enquanto ponderava o que havia falado em resposta à ele. Não era mentira.
A sopa já estava pronta quando deixaram de falar sobre a receita e o pão de alho que Sakura iria aprender a fazer para servir junto com o prato. Sakura esperava esfriar sentada na mesa de vidro e logo Sasuke a acompanhou trazendo um copo de água para os dois.
Haviam ficado em silêncio. Sakura parecia pensativa demais e alheia ao olhar de Sasuke sobre ela. Ele observava os lábios delicados assoprarem a sopa antes de provar a primeira colherada e sorrir em satisfação.
— Você é uma mulher interessante, Sakura. Não sei como você e o… rapaz estão, mas ele seria burro em te perder.
Ela não pôde esconder a surpresa e quase derrubou a colher dentro de seu prato.
— Obrigada, Sasuke.
Ele não a olhava. Mexia em seu próprio prato com as sobrancelhas unidas. Sakura parou um momento observando-o. Ainda se surpreendia com essa face oculta de Sasuke, o homem sensível que parecia habitar em camadas não tão profundas dentro daquele corpo grande e das expressões fechadas. Sem querer o comparou ao Sasori, e até aquele momento era uma desvantagem grande para o ruivo.
— Eu espero que nossa amizade continue depois do programa. — Ela disse recebendo os olhos dele com um brilho fascinante. Sorriu-lhe — E sua comida sempre é bem vinda.
Sasuke riu provando a sopa sem comentar nada a princípio. Em sua mente pensava sobre aquilo e era reconfortante, de certa forma, ouvir esse desejo dela. Era bom tê-la conhecido, havia algo nela que o fazia relaxar e esquecer um pouco da pressão que sofria todos os dias.
— Meu convite para jantar é vitalício — ele sorriu ao vê-la levantar as sobrancelhas em surpresa — Será bom servi-la, você tem as melhores reações à minha comida.
Os dois riram.
— Também, né? Sua esposa será uma sortuda. — Confirmou o que dizia fazendo caras e bocas ao degustar mais uma colherada da sopa. — Só aceito jantar em seus restaurantes se tiver a sua companhia. — O viu sorrir e desviar os olhos para a sopa. Constrangido? Quando percebeu, já havia pensando em voz alta. — Não sei como ainda está solteiro...
O rosto enrubesceu na hora e os olhos arregalaram na direção dele que olhava-a num misto de choque e divertimento.
— Eu tenho o dom de me apaixonar pela pessoa errada, Sakura. — disse tomando um gole de água em seguida.
Sakura sentiu o estômago congelar. O viu levantando-se da mesa mas nada disse, não compreendia porque ficara ansiosa de repente, então ocupou-se em terminar sua própria sopa. Sasuke colocou a louça suja na pia e apertou os olhos com os dedos. Se arrependia do que havia dito, com receio de que ela achasse que estaria apaixonado por ela. Pensou no que deveria dizer para que não ficasse, de novo, uma situação estranha entre os dois, mas ela apareceu ao seu lado e colocou sua própria louça também dentro da pia.
Ela não estava tão alta naquela noite, ele teve que abaixar um pouco a cabeça para olhar no rosto dela que o encarava sorridente perto do seu ombro. Como naquela vez nos bastidores do programa, ela apertou sua bochecha e riu com graciosidade.
— Você é um espécime raro, chef. — Olhou para o relógio e viu que já havia passado, e muito, da hora de ir, voltou-se para ele mais uma vez — Você tem as armas para conseguir amarrar quem você quiser, não seja tão simplório.
— Digo o mesmo, doutora. — Cruzou os braços escorando na pia enquanto ela dava de ombros girando as chaves do carro no dedo. Ele queria que ela soubesse que era boa demais para aquele imbecil.
— A conversa foi ótima e estou com a auto estima lá em cima depois dessa noite — Sakura riu um pouco sem graça com o olhar dele em sua direção. — Mas preciso ir.
— Quando sobrar tempo me liga para eu te ensinar a fazer o pão. — Sasuke já a acompanhava até a porta e voltava a ficar com a cara séria que era a sua marca. — Aí faremos no restaurante.
— Não vai mais me deixar cozinhar na sua casa? — fingiu-se de ofendida.
— Lá tem todo tipo de seguro, aqui não.
— Sasuke! Abusado… — ela riu e apontou o dedo machucado para ele. — Tem razão… Até mais e obrigada por tudo.
Ela se foi e Sasuke esfregou o rosto tentando entender suas atitudes naquela noite. Não houve tempo, porém, para reflexão, pois logo seu celular vibrou uma vez no bolso e a mensagem de Naruto veio com um print onde havia uma foto dele e de Sakura quando ele colocou o boné em sua cabeça.
“Bela reviravolta, Sasuke! Agora vocês se amam!”
O CHEF UCHIHA E SUA APRENDIZ SAKURA HARUNO SÃO FLAGRADOS JUNTOS EM SUPERMERCADO. FONTES CONFIRMAM UM ENVOLVIMENTO AMOROSO ENTRE OS DOIS.
— Merda.
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betado por MrsFox
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