Provar, Comer e Casar

26 O amor é doce. O passado é amargo.


Notas iniciais
Oi gente!!! Uou, cheguei!! hahaha Peço desculpas pelo pequeno atraso, mas espero que gostem do penúltimo capítulo ;) Nem acredito que chegamos aqui! hahahahahaha Obrigada de coração pelo carinho de vocês ♥ Obrigada também a todo mundo que deu sugestão de tatuagens ♥ Dedico este capítulo a Mirys e a Milla Senpai pela quase co-autoria deste capítulo ashauhsauhsua Obrigada, meus amores! Vocês me ajudaram muito! Bon appetit ;)

Sasuke olhou de canto para o câmera e os dois assistentes que registravam tudo o que faziam. Um olho chegava a tremer vendo um ombro muito próximo à uma de suas panelas, o desastre parecia iminente.

Pareçam naturais, treinem como se não estivéssemos aqui.

— Sasuke? Chef?

Sasuke fechou os olhos por um segundo, apenas para tentar ignorar a invasão daqueles desagradáveis profissionais em sua amada cozinha.

— Desculpe. — respirou fundo e olhou para Sakura, seu único foco até o final daquela semana. Os olhos verdes dela brilhavam com divertimento ao estado dele, era algo que ele se segurava muito para não deixar se afetar, daria risada se estivesse só os dois, mas tinha que deixar vívido na memória daqueles caras que ele não gostava da presença deles, tanto em sua cozinha quanto em sua vida. — Turducken é um prato de origem norte americana, mais precisamente dos Estados Unidos. Comumente feito nos jantares de Ação de Graças, a palavra Turducken — abriu o freezer tirando três tipos de aves e colocando sobre a bancada de corte ao olhar surpreso de Sakura — vem da junção do nome das três aves que o compõem: Turkey, peru. Duck, pato. Chicken, galinha.

— Ótimo prato para uma final — Sakura reclamou e Sasuke torceu um canto da boca concordando.

Ele continuou explicando como o prato era feito e a surpresa de uma ave ser dentro da outra foi compartilhada por todos na cozinha que não fossem cozinheiros. Naquela semana, Sasuke havia escolhido o Susanoo por ser o restaurante menos agitado dos três, mesmo que o movimento houvesse aumentado mais de duzentos porcento em cada um deles. Era menos bagunça para lidar depois do expediente, menos gente curiosa para atrapalhar e mais fácil para fugir de qualquer paparazzi maluco que tivesse a ousadia de ainda fotografar ele e Sakura.

Depois de tudo o que havia ocorrido com Naruto, Sasuke não tinha mais tolerância para aquele tipo de assédio e não responderia mais por si mesmo se encontrasse alguém abusando e invadindo a sua privacidade ou a de alguém que fosse querido por ele.

Sakura tinha um olhar de sofrimento olhando-o desossar o peru na bancada, era um olhar inocente de alguém que tudo observava como uma aluna aplicada que tinha receio em errar.

— Para mim seria mais fácil se tivesse como comparar isso com algum processo cirúrgico, mas com certeza eu não desosso pacientes — riu doce fazendo seu ótimo papel de ignorar a plateia que tinham. — Está certo de que posso aprender isso em menos de uma semana?

Sasuke tinha uma resposta rápida e safadinha para Sakura, veio até a ponta da língua e voltou pela garganta quando se recompôs após aquele sorriso ambíguo dela. Certamente dizer que Sakura tinha habilidades excepcionais com perus não seria de modo algum delicado e sutil, muito pelo contrário, seria algo para fazê-la rir enquanto a empurrava contra o balcão para começar os amassos intensos.

Se limitou a dar um sorriso forçado e continuou a desossar o peru. Piadas sujas, ele foi pensando enquanto fazia o trabalho fingindo concentração, nunca havia feito parte de seu repertório quase inexistente de piadas, mas o sorriso de Sakura era algo que ele podia comparar ao doce de uma fruta fresca recém tirada do pé; ao puro mel escorrendo do favo cheio.

E seu riso? Seria impossível pensar em algo que possuísse tanta suculência e maciez. Ele havia se tornado um idiota sem perceber, buscando uma pequena parte dela todos os dias para se sentir completo.

— Chef, vira um pouco o corpo para não cobrir o que está fazendo. — o câmera pediu de olho na pequena tela que transmitia o que ele capturava. Sasuke suspirou impaciente e o homem gordinho sorriu amarelo completando incerto com a voz fina — Por favor?

Sakura, neste momento, não conseguiu segurar o riso e Sasuke definitivamente não conseguiria segurar a carranca por muito mais tempo se ela continuasse daquele jeito.

— O chef mostra os dentes, mas não morde. — ela piscou para ele e Sasuke não teve forças para retrucar, para se impôr.

Não era surpresa, porém.

— Agora o peito de frango, abra-o assim e tempere… — disfarçou o sorriso limpando a garganta e mudando o assunto completamente.

Ele estava aos pés daquela doutora.

Sakura era os ingredientes do outro lado da balança para que fizessem um prato perfeito. Ela era o açúcar que cortava a acidez dele, salpicado aos poucos pelos dedos de um anjo que tivera misericórdia dele e deixara que aquele coração murcho e cansado bombeasse com vida. Ela o ensinara a viver de novo, não só pelo trabalho, mas por ele e pelos que o rodeiam, a ser mais empático, a saborear mais a vida.

Ela o salvava, assim como naquele momento em que ele recheava o primeiro Turducken como demonstração de como deveria ser o prato e os assistentes e câmera esqueciam de seu trabalho e quase se atiravam querendo provar um pouco.

— Vocês devem estar exaustos trabalhando a essa hora. — ela disse na primeira noite aos três homens que sorriram sem graça — Sentem-se, garanto que provar um prato do chef Uchiha vai fazê-los sempre quererem trabalhar este horário no restaurante. — ela movia-se como uma fada em seu avental torto na cintura e com um sorriso grande demais. — Vão descobrir que Sasuke não conquista as pessoas pela simpatia, mas sim pelo estômago.

— Foi assim que te conquistei? — perguntou sem querer, sentindo-se tão à vontade quanto os rapazes ali. Os ignorou a olhando nos olhos, um sorriso no canto de sua boca e o dela ficando menor e mais real.

— Você me conquistou por isso aqui. — e apontou no lado esquerdo do peito dele.

E sorte que ela havia tirado a mão de lá rapidamente para servir o prato da final para os três profissionais do programa abobalhados com a cena. Era sorte, pois, como médica, ela o internaria naquele instante achando que ele estava tendo uma arritmia.

Havia sido a única cena entre os dois como casal diante dos câmeras. E o que Sasuke no começo achava ser um exagero da parte de Sakura tratando bem aqueles sanguessugas, no segundo dia se mostrou como uma das maiores ferramentas a favor deles.

Na quarta-feira ela apareceu no Amaterasu no meio do expediente, havia sido um furor até mesmo entre os funcionários que não se acostumavam com o fato do seu chef ranzinza sorrir para aquela moça de cabelos exóticos e deixar de ser tão mandão depois que recebia uma ligação dela. Ela havia chegado, cumprimentado todos com um sorriso gigante e o puxado para os fundos para que fossem a uma visita ao filho de Naruto.

— Você não é assinante da “Buxixo”, né? — perguntou rindo assim que colocou o cinto de segurança, o puxou para um selinho e deu um sorriso ladino.

— Com certeza não. — respondeu saindo de sua vaga no restaurante e segurando a carranca diante dos flashs absurdos que surgiram de câmeras que os esperavam do lado de fora.

— Pois eu vou ler para você o que disseram sobre nós. — Sakura pegou a mão direita dele de cima do cambio automático e deu um beijo nas costas, pela expressão dela não parecia algo ruim e ele quase pôde sentir alívio. Sasuke sorriu para ela e conseguiram sair daquela confusão de gente pedindo entrevista sem atropelar ninguém — “‘Tão leve como o balançar de um barco sobre as águas calmas do mar’ é como descreve a equipe do programa “Batalha dos chefs” que acompanha o mais novo e queridinho casal, chef Sasuke Uchiha e a doutora Sakura Haruno, no treino da última semana. Os dois, ao contrário do fogo intenso que imaginamos rolar naquela cozinha, — Sakura parou a leitura para dar um sorriso e olhar significativos para Sasuke, ele riu — são na verdade a imagem perfeita de comprometimento e profissionalismo que podemos ver na tela da TV. Além do mais, a doutora Sakura Haruno é sempre lembrada pela equipe como uma mulher elegante, bem humorada e extremamente gentil. Já o chef — Sakura fez uma pausa dramática o olhando com um sorriso apertado e travesso. Sasuke ergueu uma sobrancelha para que ela continuasse — pode ser considerado também um homem elegante e gentil, entretanto, essas qualidades são todas passadas através do seu trabalho e do que apresenta num prato. Sua falta de bom humor e espontaneidade, no entanto, não são características negativas no ponto de vista da equipe, muito pelo contrário, esses traços do chef só deixam mais em evidência a intensidade naquilo que ele faz.”

— Me elogiaram? — Sasuke comentou surpreso. Estava convencido de que qualquer matéria que tratasse dele iria ter apenas insultos e atenções aos seus piores aspectos.

— Você não é tão ogro quanto tenta parecer, querido. — Sakura apertou-lhe a bochecha e Sasuke soltou uma lufada pelo nariz, escondendo o sorriso de canto. — “Gentileza gera gentileza”. Nunca ouviu esta frase? Os tratei bem com o intuito de limpar nossa imagem e parecermos os seres mais sem graça desse universo.

— Você não conseguiria ser sem graça nem com muito esforço, Sakura — Sasuke chegou ao condomínio e parou antes da cancela com um sorriso discreto — Não percebe o quanto os distrai quando está rindo?

— Pareço uma orca rindo. — comentou revirando os olhos.

Sasuke respondeu balançando a cabeça se lembrando de como os homens ficavam quando Sakura fazia algo gracioso nos treinos, o que era na maior parte do tempo. Havia pouco da ingenuidade dela e da inocência que tinha no início de tudo, mas ainda tinha as melhores reações aos erros e conduzia uma noite engraçada com sua falta de jeito. Sasuke se sentia enciumado no início ao visível derretimento dos homens da equipe perto dela, de como filmavam muito mais ela e como tentavam uma amizade que não tinham. Entretanto, percebeu que seria covardia julgar aqueles homens quando tinha que apenas concordar que ela era estupenda. Enquanto não houvesse falta de respeito da parte deles, ele não precisaria botar nenhum deles para correr.

— Boa noite, senhor Uchiha. Senhorita Haruno. — o porteiro sempre cordial acenou com a cabeça os cumprimentando — Tenham uma boa noite.

— Obrigada! — Sakura respondeu com o carro em movimento por cima de Sasuke quando a cancela se levantou — Ele é tão gentil, devíamos dar um presente a ele no fim do ano, não acha? — Sasuke nem teve tempo de responder e Sakura já exclamava algo empolgada — Falando em presente, estou ansiosa para dar o que comprei para o Boruto.

Sasuke não tinha visitado o filho de Naruto. Havia dado um tempo para que Hinata se recuperasse e sabia que seriam recebidos pelo descontentamento de Naruto por causa disso. Estava ansioso também para ver o pequenino, ver com quem ele parecia de verdade, pois, não queria acreditar que a criança tivera o azar de nascer com a cara do Naruto.

— Ele é a cara do pai pelo que vi nas fotos — Sakura o respondeu quando disse aquilo em voz alta — E ele é uma gracinha, Sasuke! — ela fechou a porta do passageiro e aceitou a mão estendida dele esperando-a para irem juntos até a porta grande de madeira envernizada.

— Não é possível que não tenha nenhum pouco da Hinata. — comentou tocando a campainha.

— Ele é recém nascido, ainda vai mudar muito durante os próximos meses. Mas pelos traços…

— Coitadinho.

— Sasuke! — bateu no bíceps dele o censurando e ele riu — Naruto é um homem bonito, certamente seu filho também vai ser se puxar a ele.

Sasuke apertou os olhos para ela e Sakura sorriu sacana esperando a retórica.

— Um filho meu seria muito bonito se parecesse comigo. — Sakura revirou os olhos — Mas, vou ter problemas se for menina e puxar a mãe.

— Sasuke! Sakura! Hinata, o idiota lembrou onde é a nossa casa! — Naruto apareceu na porta berrando e salvando Sakura de uma situação vergonhosamente sem saída.

Ela tentava ignorar a agitação dentro dela e o apavoro que a fez olhar para os pés do anfitrião enquanto ele e Sasuke trocavam um abraço caloroso demais para o gosto do Uchiha.

— Ok, Naruto, já entendi que está feliz. — Sasuke resmungou e Naruto gargalhou.

— Sakura! Eu estou muito feliz em ver você tão cedo. — se adiantou para abraçar ela também e Sakura tentou rir com naturalidade.

— Estávamos esperando Hinata estar recuperada. Como vocês estão? — perguntou quando ele se afastou mandando-os entrar com um entusiasmo acolhedor.

— Não há como ficar melhor. Na verdade, acabou de ficar — ele respondeu andando rápido até a sala.

Sakura foi o acompanhando não querendo olhar para o lado, para Sasuke. Por que ele falava de filhos e esse tipo de coisa olhando-a daquela forma? Nunca havia dito diretamente que ela seria a mãe de seus filhos, mas ela sentia que era algo que ele deixava implícito em todo gesto, palavra e olhar direcionado a ela. Era cedo demais e o pensamento dele querer algo assim a deixava amedrontada.

Um mês juntos, apenas um mês.

Um chorinho baixinho a fez erguer a cabeça e um sorriso de encanto tomar todo seu rosto. Quase não ouviu o “olá” miudinho de Hinata sentada no sofá com o filho nos braços. Sakura se adiantou sozinha enquanto Naruto e Sasuke observavam um pouco mais longe, Naruto discutia sobre Sasuke estar fedendo a peixe assado e que não pegaria seu filho daquele jeito.

— Oi mamãe, como você está? — perguntou atenciosa e com a voz baixa com medo de acordar o pequeno que parava de se mexer nos braços da mãe.

— Estou bem — a morena sorriu e Sakura pôde ver as olheiras profundas e o rosto cansado de Hinata, mas ela ainda assim sorria com felicidade — Quer pegar ele?

Sakura não recusaria, estava esperando que Hinata autorizasse. Estendeu as mãos para que a mãe colocasse o pequeno bebê em seus braços da melhor forma. Já havia pego muitas crianças recém nascidas no colo, mas nenhuma que fosse de pessoas próximas a ela, este pequeno detalhe fazia muita diferença, pois agora entendia aquele sorriso emocionado e bobo que davam para as crianças em seus braços.

Boruto era gorducho, com cabelos loirinhos e espessos no alto da cabeça agitada, os olhos abriam-se pouco para ver quem era que o segurava daquela vez, olhos azuis que ficavam entre os intensos de Naruto e os claros e serenos de Hinata. Boruto franzia o nariz e soltava um resmunguinho choroso no colo de Sakura fazendo os quatro rirem e ela balançar ele um pouco para acalmar.

— Ele é tão lindo — Sakura sussurrou segurando com um braço só e esticando o dedo para que ele pegasse. Mas, um outro dedo muito maior que o seu e com cicatrizes de faca afastou o seu e foi agarrado pelas mãozinhas avermelhadas do pequeno Uzumaki.

— Eu pensei que não fosse concordar. — Sasuke comentou rindo baixinho e Naruto reclamou — Parabéns, Hinata.

— Obrigada — a morena riu um pouco se inclinando para ver o filho — Eu o acomodei por nove meses, tive enjôos quase todos os dias, desejo por jaca com limão, meus pé incharam, ganhei dez quilos, não conseguia mais dormir de bruços… para no fim ele nascer igualzinho ao Naruto. Mães sofrem.

— O papai aqui sabe como faz. — Naruto bateu no peito orgulhoso.

Sakura riu entregando o menino para os braços de Hinata novamente. Sasuke negou segurar o menino com medo de machucar e aquilo foi motivo para Naruto se lembrar da queda de braço perdida.

— Falta força nesse braço, Sasuke. Quando tiver os seus…

— Nasceu com quantos quilos, Hinata? — Sakura se virou rápida no sofá perguntando o que era de praxe para uma mulher que acabou de ter neném. Hinata a respondia animadamente sobre tudo enquanto Naruto e Sasuke conversavam sobre filhos e músculos ao lado delas. Sakura se sentia estranha, não era um assunto que gostaria que eles estivessem conversando tão animadamente. Precisaria conversar com Sasuke sobre aquilo mais tarde.

— Então você escolheram Clafoutis de cerejas? — era uma pergunta retórica de Naruto depois de Hinata já ter colocado Boruto para dormir e Sakura dizer que estava na hora de irem.

Sasuke ergueu um ombro olhando para Sakura de canto, ela não o olhava e ele não entendia o porquê dela ter ficado distante de repente.

— Foi ela quem escolheu. Alguma dica sobre a final?

— Nenhuma. Todo ano é algo diferente, eu até teria uma ideia se Kakashi ainda fosse o diretor, mas Yamato…

— O que aconteceu ao Kakashi? — Sakura se pronunciou se lembrando naquele momento do diretor que nunca mais vira.

— Se fosse em uma emissora comum eu diria que ele foi demitido, mas é da Konoha Global que estamos falando, o dono é mais sádico. — Naruto sorriu enigmático e Sakura ergueu as sobrancelhas preferindo aceitar aquilo como resposta por hora. — Boa sorte na final, Konohamaru está empenhado a levar aquele troféu para casa. — Naruto completou rindo.

— Hanabi disse que namoraria com ele se ele ganhasse. — Hinata contou rindo e Sakura se surpreendeu.

— Naruto não está mais pegando no pé do coitado? — perguntou aos risos a um Naruto que ergueu os ombros como se não tivesse muito o que fazer contra e abraçou a esposa indo até a porta com os amigos.

— Hiashi foi conquistado pelo garoto. Como? Nunca saberei. Eu demorei anos para o sogro gostar de mim.

— Boa sorte na final, então. — Sakura se despediu com um beijo em cada. — Agora temos um compromisso, mas eu volto outro dia para ver vocês.

— Volte sim e obrigada pelo presente. — Hinata acenou para o casal já indo para o carro.

Sasuke aguardou que ela fechasse a porta para dar partida e perguntou o que havia acontecido. Sakura respirou fundo não sabendo como começaria aquela conversa. Tudo o que menos queria era acabar com as esperanças dele ou ferir seus sentimentos.

— Sasuke, você quer tanto assim ter um filho… logo? — perguntou com os olhos para frente.

Sasuke demorou um pouco para responder.

— É algo que tenho pensado.

A resposta dele saiu um pouco mais séria do que ela imaginava, e não houve o “Por quê?” que ela esperava no final. Colocou uma mecha de cabelo nervosamente para trás, o lugar onde iam também não ajudava muito para que usasse como relaxante para aquela conversa.

— Sasuke, eu quero muito ter filhos também. Mas…

— Muito cedo, eu sei. — Sasuke a olhou de canto ao mesmo tempo que ela. Parecia existir um “mas” nos olhos dele, uma justificativa que ele não deu em palavras e ela não conseguia interpretar no silêncio.

Era a primeira vez em muito tempo que um silêncio constrangedor se fazia entre eles. Para ela, pelo menos, estava sendo muito, mas para Sasuke não, parecia pensativo demais olhando para a estrada que conhecia tão bem. Ela não sabia o que sentir ou se deveria dizer algo, estava certa do que havia dito e era melhor que os dois estivessem na mesma sintonia. Em começo de namoro tudo era empolgante, mas eram dois adultos que já haviam passado por fases demais em suas vidas para saberem que precipitação poderia ser uma faca de dois gumes.

Dedilhava o vidro quando Sasuke fez um som hesitante com a garganta. Ela o olhou e o viu engolir em seco de olhos na estrada.

— Disse alguma coisa? — Sakura perguntou quase explodindo de angústia para que ele dissesse qualquer coisa.

— Não.

Ela balançou a cabeça conformada e se virou novamente para o vidro. Sasuke a olhou de canto pensativo, seu coração aquecido pelo rumo de seus pensamentos, mas um pouco hesitante quanto a eles. Pensou em ligar o rádio para deixá-la relaxada, e no processo relaxar também, mas não queria criar uma barreira para que o assunto morresse daquele jeito.

Respirou fundo e passou a mão pela testa se decidindo do que faria, o ato fez Sakura olhar para ele novamente. Ela esperava que ele dissesse algo, mas não o salvava tomando uma iniciativa.

— Foda-se — falou baixo para si mesmo e Sakura questionou curiosa — Nessa minha vida tem poucas coisas que eu tenho certeza, Sakura. — ela soltou um som baixo, mas ele não entendeu e continuou olhando para frente — Você é uma certeza para mim, e vou fazer o meu possível para te conquistar como você me conquistou. — a olhou de canto sério, ela estava pálida. Ela entendia o que ele queria dizer. — Não ligo para o tempo — continuou voltando a olhar a estrada — só deixe eu te provar.

— Estes são os seios mais lindos que já coloquei esses olhos que a terra há de comer.

Sakura olhou para Sasuke vermelha enquanto a mulher colocava as luvas e erguia a máscara no rosto. Sasuke abriu uma garrafa de cerveja e ergueu num brinde para a tatuadora.

Mei. Sakura havia enfim conhecido Mei e sua primeira impressão não foi nada perto do ciúmes ou insegurança que pensou que sentiria. Muito pelo contrário. A mulher com dreads no cabelo castanho e olhos verdes de ressaca a recepcionou com um abraço apertado e íntimo. Falava com uma voz rouca e tinha uma risada asmática que ascendeu uma preocupação médica em Sakura.

— Nunca fui em hospitais e não será agora que Mei Terumi se intoxicará com remédios.

Mei era uma mulher engraçada, mesmo que tivesse um humor negro questionável, mas ela acima de tudo era sincera e direta. Sakura mais ouvira que falara, mas o sorriso era sincero quando ela dizia algo que o merecesse. Aos poucos foi se soltando e decidiu qual seria sua tatuagem. Não poderia ser em um lugar exposto, só o cabelo rosa já chamava atenção o suficiente para algumas pessoas a subestimarem como médica. Sasuke estava em silêncio até o momento que ela apontou onde faria sua primeira tatuagem, engasgando com a primeira cerveja que consumia.

Sakura estava deitada e com o braço direito erguido enquanto Mei limpava o local. Ao fundo tocava uma música que Sakura não conhecia, mas que Mei cantarolava baixinho.

Sakura sentia o estômago agitado em uma ansiedade maluca, desviou os olhos da maquininha e se fixou em Sasuke. Ele estava olhando-a com a long neck nas mãos, escorado em uma bancada de madeira. Ele sorriu um pouco para ela, silenciosamente dizendo que não ia doer.

— Um dente de leão — Mei disse de repente e a maquininha começou a fazer som de vibrado ao lado de Sakura. Ela sentiu um tremor passar por todo o seu corpo em medo e expectativa. Só o som já era uma terrível tortura. — Sabe o que significa?

Sakura desviou os olhos para ela que se inclinava para colocar o pré desenho na pele dela. Viu rugas nos olhos de Mei e bolsas abaixo dos olhos, o que lhe dava ainda mais aparência de cansaço. O lápis em volta deles estava borrado e não havia brilho nas orbes verdes. Mei a flagrou olhando para ela tão diretamente, tão analítica, e Sakura soube que ela sorria por baixo da máscara. Sakura não desviou os olhos, não ficou intimidada, sentiu um pouco de pena. Sorriu de volta e acenou positivamente com a cabeça.

— Libertação, espiritualidade, otimismo, esperança. — voltou para o desenho na pele branca e começou a tatuagem com sua agulha. Sakura apertou os dentes e Mei continuou com sua voz monótona — Interessante escolha, ainda mais finalizando com as borboletas — parou para deslizar o dedinho pela linha na lateral do seio de Sakura até quase alcançar a axila onde surgiam delicadas borboletas, como se as pétalas que voavam do dente de leão se transformassem nelas. — Liberdade é algo que está somente inconsciente dentro de você, menina?

— Não. — Sakura respondeu engolindo em seco. — Fiquei tempo demais presa.

Sasuke trocou de perna no outro canto, mas as duas mulheres estavam completamente alheias a ele.

Mei a olhou por um segundo antes de voltar à tatuagem.

— Entendo. Admiro isso, garota. Sabia que Sasuke é do signo de leão? — perguntou num tom mais divertido e Sakura desviou os olhos para ele. — Se tivesse me dito que era por causa disso eu ia fazer os dois correrem daqui.

— Eu ia gostar. — Sasuke ergueu a garrafa e sorriu de canto para Sakura. Ela fingiu revirar os olhos segurando o riso nervoso.

— Humf. Não sabe a quantidade de crianças que tenho que expulsar daqui pedindo para tatuarem nome do namorado ou algo que “simbolize o amor deles”. — ela resmungou como se fosse o absurdo do século.

— Não seja amarga, Mei. — Sasuke alfinetou e ela resmungou algo que Sakura não ouviu. Ela não ouvia mais nada, tentava se distrair daquela dor em sua pele e olhar para o sorriso de Sasuke foi efetivo.

Ele sorria diferente, orgulhoso, justificando as razões para tatuar o nome da pessoa amada. Sakura, porém, não entrava naquela discussão, atenta a voz dele enquanto as lembranças de mais cedo chegavam a sua cabeça. Os dois no carro e ele dizendo sobre conquistá-la como ela havia conquistado ele. Sasuke havia dito que a amava, ela tinha certeza, mesmo que não tivesse dito com todas as letras. Dito que a esperaria, o tempo que fosse, até que ela sentisse o mesmo. Fechou os olhos e uma lágrima rolou.

— Força, menina. Temos uma hora pela frente ainda.

Ela sorriu. Não, aquela não era uma lágrima de dor.

Ele a esperaria o tempo que fosse, mesmo que seu coração pulasse quente em seu peito por ele, mesmo que ela não se visse mais sem ele, numa dependência muito diferente da que sentia por Sasori. Era sentimento puro, forte e real. Como ela poderia ter medo daquilo?

Abriu os olhos e enxugou-os com a mão livre. Mei a olhava desta vez com um pouco de brilho naqueles olhos opacos, como se pudesse ler a mente de Sakura.

— Não vou aceitar algo que não conheço, garoto. — Mei respondeu algo que Sasuke disse e desviou os olhos para a tatuagem novamente, concentrando-se ali — Mas… — ela respirou fundo — lembra a última vez que veio aqui, Sasuke?

Sasuke olhava para Sakura quando ela desviou para ele. Havia um sorriso enigmático no rosto dele.

— Lembro.

— Ok. Posso ser amarga, mas não sou cega. Espero o dia que finalizarei essa tatuagem no seu braço.

— Você já finalizou o falcão. — Sasuke disse não compreendendo.

— A outra tatuagem, Sasuke.

— É incômoda, dói demais no local que eu fiz. Não recomendo como primeira tatuagem. Mas agora que passou, estou pensando em fazer outra. — Riu mexendo o molho de laranja na panela enquanto o telefone estava no viva-voz.

Isso vicia, eu te falei! Me manda uma foto melhor que não consigo ver as borboletinhas. Achei bem ousada, aliás. Um arraso.

— Escolhi no impulso. — Sakura admitiu provando um pouco do molho com a colher. — Dói demais. Parece uma caneta passando por sua pele, mas com uma agulha na ponta. Eu quase tinha um orgasmo quando ela passava água gelada.

Ino riu do outro lado da linha.

Imagina usando um biquíni? Achei sexy.

Sakura riu se lembrando que Sasuke havia dito algo parecido, só que com menos pudor. Muito menos.

— Ai, Ino. Tenho tanta coisa para te contar e tantas outras para pedir sua opinião. — suspirou e acabou se sobressaltando quando o molho começou a borbulhar e quase derramar da panela. — Vem aqui amanhã?

Vou. Vou levar uns pretzels que comi no shopping esses dias. Vamos precisar de açúcar para falar sobre a conversa que tive com Temari.

— A cara que ela fez lá na choperia…Fiquei com dó de você, mas que bom que ela aceitou conversar. Foi tenso?

Tenso. Mas amanhã te conto, meu cházinho de melissa está fazendo efeito e estou com sono.

Ino bocejou confirmando o que havia acabado de dizer e Sakura sorriu ainda mexendo a panela.

— Vai dormir, porquinha. Vai passar a tarde toda comigo, não esquece.

Também amo você, testa. Até amanhã.

Sakura desligou o telefone rindo e se concentrou em encorpar o molho de laranja que iria junto com o Turducken no programa do dia seguinte, finalmente a final do “Batalha dos chefs”. Não havia treino naquele dia, então treinava em casa os acompanhamentos. Mandava fotos esporádicas com os progressos que havia feito para Sasuke que estava atolado de trabalho até aquela hora da noite. Sobre o Turducken ela não tinha certeza se conseguiria entregar algo realmente bom, mas os acompanhamentos e a sobremesa estavam saindo dentro do que ela havia esperado.

Pegou o celular para fazer um vídeo para Sasuke mostrando a consistência do molho quando viu a mensagem dele de uma hora atrás.

“Tomar banho com uma tatuagem recente é péssimo. Posso te ajudar com isso”

Sorriu para o celular e mordeu o lábio pensando numa resposta que fosse atrevida o bastante para ele aparecer ali naquele instante e fazer aquilo. A campainha tocou e Sakura riu tendo certeza que nem precisaria mandar a resposta, ele deveria ter gostado muito da ideia e se convidado para tomar um banho com ela e talvez até ficasse para fazer uma massagem para acalmá-la da ansiedade do dia seguinte.

— Já vai. — gritou quase cantarolando secando as mãos no avental depois de abaixar o fogo do molho.

Chutou uma almofada que estava no chão direto para o sofá quando passou pela sala, ajeitou o cabelo atrás da orelha e ensaiou seu melhor sorriso antes de abrir a porta.

O “Boa noite, querido” ficou engasgado no meio quando os olhos castanhos de Sasori se ergueram até os dela.

— Boa noite, querida.

betado por Mirys e Milla Senpai

Notas finais
Obrigada especial à jk-motoko pela ideia do dente de leão, dehgomes23 pela ideia das borboleta e Amy_Potter que me mandou uma imagem linda que me ajudou a decidir onde seria feita a tatuagem heheheh ♥ Muita gente queria uma tatuagem que simbolizasse os dois e tals, mas como eu lembrei no capítulo eles estão há 1 mês juntos, gente hsuahsuah NÃO FAÇAM UMA COISA DESSAS NA VIDA REAL AAAAAAAAAAAAAH! ashuahsuahsuhaushuah Parece muito mais tempo né? Mas se acalmem que vai ter símbolo do amor deles, sim ;) E este foi o penúltimo capítulo! Ufa! E a peste do Sasori finalmente apareceu! Vamos dar um fim para ele no próximo capítulo MUAHAHAHAHAH O próximo vai ser o último e depois vai ter um epilogozinho, ok? Até lá meus amores ♥