Provar, Comer e Casar
27 Season Finale
Notas iniciais
— Sasori? O que—
Não houve tempo para que Sakura conseguisse questionar aquela inadvertida e desagradável visita, Sasori já ia abrindo a porta para entrar no apartamento. Sakura, entretanto, apoiou o braço no batente num movimento desesperado para parar o avanço dele. Olhou para um lado do corredor, apenas o que ela conseguia sem que tivesse que se inclinar sobre ele. Não havia ninguém.
— Eu vim conversar com você, Sakura — ele disse baixo, num tom que não era possível decifrar qualquer tipo de emoção. Puxou a lapela do terno com singela delicadeza, um movimento calculado que Sakura não perdeu de vista. Infelizmente, não havia ninguém no corredor. — Temos assuntos inacabados que, suponho, você irá concordar comigo que devemos conversar para chegarmos num fim que seja satisfatório para ambos.
Sakura sentia medo. Ela decididamente não queria que ele entrasse em sua casa, não queria nem ao menos vê-lo passando pela rua. Pensava rápido como tiraria ele dali sem que houvesse consequências ruins. Ela tentou dizer algo, mas nada chegava a sua mente naquele momento, completamente tomada pelo desespero de tomar uma decisão e anuviada pelos sentimentos fervilhando que destruíam seu raciocínio.
Ele colocou a mão na porta mostrando sua vontade em entrar mais uma vez, então Sakura se forçou a dizer algo.
— Eu acredito que uma conversa entre nós não é necessária, Sasori. Acabou.
Sasori exprimiu uma leve careta para a última sentença e Sakura implorou internamente que ele fosse embora com aquilo. Mas, ela melhor do que ninguém sabia do obstinação de Sasori, como ele não saia perdendo em nada que se propusesse a fazer.
— Eu não aceito somente isso depois dos anos que ficamos juntos, Sakura. Não acha que é o mínimo que você deve a mim depois de tudo? — ele deu um passo adiante e Sakura fechou um pouco a porta automaticamente. Ele parou e olhou aquilo com o cenho franzido — Você está sendo egoísta.
Sakura teve vontade soltar um riso de escárnio naquele momento. Teve muita vontade de enfiar todas as definições na guela dele e usar como exemplo de egoísmo ações que ele já havia feito, palavras que ele havia falado. No entanto, ela se recompôs e sua cabeça começava a processar tudo com mais frieza, tentando controlar aquele sentimento de desamparo.
Ter Sasori sendo ele mesmo na sua frente mais uma vez depois da venda ter caído de seus olhos e aprendido a amar primeiramente a si mesma, criou uma ação contrária ao que causava antigamente. Ela começava a sentir nojo daqueles olhos caídos e superiores, que pareciam sempre olhar de cima; do cheiro insuportavelmente forte de seu perfume importado marcando sua presença por tempo demais em qualquer lugar que estivesse; de suas roupas muito bem alinhadas, limpas e sofisticadas. Como se tudo aquilo fosse uma casca para o ser pequeno, podre e sem moral que habitava dentro dele.
Haviam respostas petulantes na ponta de sua língua, haviam palavras de baixo calão que sugeriam exatamente o que ela queria dizer para ele naquele momento, haviam atitudes consideradas imaturas para alguém da idade dela sendo muito bem censuradas por sua consciência. Haviam muitas coisas passando pela cabeça de Sakura no momento, e Sasori foi mudando a expressão enquanto a dela também foi mudando.
— Eu aprecio a sua visita e a sua atenção ao nosso relacionamento, mas eu te garanto que nada que conversarmos vai consertar ou mudar algo. Eu não tenho qualquer ressentimento ou sentimento negativo sobre você, Sasori. Então…
— Então não vai ser sacrifício algum me escutar.
Sakura suspirou cansada. Não adiantava a cara de coitado que ele fazia tão bem, não adiantava qualquer expressão sentimental e que a culpasse de algo que ela não fez. Sakura estava irredutível e conseguia passar isso com seus olhos, com sua postura, com suas poucas palavras.
— Vá embora, Sasori.
Sasori, entretanto, não estava propenso a seguir o conselho grosso de Sakura. Ele estreitou os olhos e a olhou por segundos intensos. Sakura queria bater a porta na cara dele, mas em sua mente conseguia imaginar diversas cenas desagradáveis que ele poderia protagonizar. Ela suspirou cansada e já estava preparada para mandá-lo embora mais uma vez quando ele a interrompeu.
— Quinze minutos. Só o tempo para você me falar onde errei.
Bem vívida, a lembrança de Sasori a pressionando literalmente contra a parede no último encontro deles veio em sua mente. Bem ali naquele corredor quando ele havia pedido um tempo para conversarem e ela havia negado. O que ele poderia fazer naquele momento se ela negasse mais uma vez? Se fosse violento, pensou, talvez não conseguisse gritar ou chamar alguém, seu telefone estava longe e as câmeras de segurança em manutenção desde o dia anterior.
Tentou ver naqueles olhos castanhos o grau de periculosidade que habitava ali. Não conseguia, porém. E aquilo era assustador.
O que ela poderia fazer?
Sakura fechou os olhos um segundo, apenas para que sua mente clareasse e conseguisse tomar a decisão correta.
Mandá-lo embora não estava funcionando e fazer um escândalo no prédio era a última coisa que ela queria. Qualquer coisa que fizesse que chamasse atenção poderia trazer proporções gigantescas, ela sabia daquilo, e quando finalmente conseguia respirar mais aliviada sem holofotes na sua cara não queria ter toda a atenção novamente por causa de um barraco. As consequências poderiam ser bem piores.
Naquele momento de pressão apenas uma ideia pareceu a menos arriscada e mais propensa a dar certo.
— Quinze minutos, Sasori.
❧
Ino apertou o ursinho pequeno de pelúcia que Gaara havia lhe dado. Tão bobos eles eram, ela pensou sorrindo. Eles haviam conversado tanto naqueles últimos dias e ela não acreditava ainda que tinha perguntado se ele queria ir junto com ela para Paris. Mas só que a ideia de ficar longe por meses pareceu desesperadora naquele momento.
Mas, ele havia aceitado tão impulsivo quanto ela.
Que mal havia? Eles estavam apaixonados e ela não sabia como era aquela sensação de segurança fazia tempo.
Estariam sendo precipitados fazendo essa viagem juntos? Ela não sabia dizer, mas já haviam passado da idade de sentir inseguranças e ter mais confiança nas relações que faziam.
“Não quero perder mais tempo” foi o que ele justificou quando ela perguntou sobre o emprego com Temari.
Tempo era algo relativo, Ino chegou a conclusão se sentando na cama pesadamente. Quanto tempo você precisava para saber que estava apaixonada? Quanto tempo para deixarem os medos de lado e tentarem uma vida a dois? Quanto tempo para conhecer uma pessoa de verdade?
Ino gostava de uma loucura e estava particularmente ansiosa para aquela.
Temari havia sido direta em dizer que estavam parecendo dois adolescentes irresponsáveis. Ela não aceitava que o irmãozinho já era um homem. Ino, entretanto, deixou que Gaara falasse com a irmã a sós. Teria discutido com Temari naquela noite se não tivesse visto as lágrimas nos olhos dela.
Só esperava que tudo desse certo, e se não desse ela sequestraria aquele ruivo e levaria mesmo assim. Simplesmente não conseguiam mais ficar separados.
Seu celular tocou do seu lado na cama quando pensava em se deitar. Rolou os olhos quando viu “Testuda” no visor.
— Por pouco não me pega dormin…
Mas se interrompeu quando ouviu a voz de Sakura distante, mas alta e clara. Aquilo fez ela estremecer, pressentindo o mal.
— … chá, suco, café? Estou terminando um molho de laranja se quiser experimentar depois, Sasori.
Não precisava mais ouvir o resto, a compreensão do que estava acontecendo caiu como uma rocha em seu estômago. Sem se preocupar com a roupa que usava ou em colocar algum calçado, ela correu para fora de sua casa com o celular no ouvido ligando para Sasuke e pensando em ligar para a polícia logo em seguida.
❧
— Não quero nada, obrigado. — Sasori respondeu puxando uma cadeira para se sentar. Ajeitou o terno e começou a analisar ao redor com sua esnobe expressão. — Fazia tempo que você não usava esse cômodo, não?
Sakura olhou para o celular em cima da bancada ignorando o comentário dele. Talvez até fosse natural dele falar daquela maneira, nem percebia mais senão haveria de usar um tom mais amistoso se pensava numa reconciliação. Talvez não estivesse pronto para a nova Sakura. Ela ignorou, prestando mais atenção a ligação que havia feito quando ele se distraiu e torcendo para que Ino tivesse atendido e escutado, entendido.
Na panela em cima do fogão jazia um molho queimado de laranja que enchia a cozinha com um cheiro amargo e nada convincente das melhoras das habilidades de Sakura na cozinha. Ela jogou o conteúdo queimado e colocou a frigideira na pia.
— Na verdade — ela se virou e encostou-se na pia apoiando as mãos no granito frio, a uma distância suportável de Sasori e perto de qualquer instrumento pontiagudo que pudesse usar contra ele. Deu um sorriso pequeno torcendo para que não atiçasse um lado muito ruim dele com suas palavras, mas só não conseguia ser de outra forma — Passo mais tempo no restaurante ou na cozinha da casa do Sasuke.
Assim como ela esperava, o nome do chef fez Sasori torcer o nariz sem discrição e se ajeitar desconfortável na cadeira.
— Claro. Estão bem próximos, não? — Sasori perguntou fingindo desinteresse — Vi algumas coisas na televisão ou em revistas, não me recordo, mas te conheço muito bem para saber que tudo era mentira. Você não é o tipo de mulher que se relaciona daquela forma com… marginais. Cheio de tatuagens, — fez uma careta — e ainda se diz profissional parecendo um ex presidiário. Você é uma pessoa decente, simplesmente não combinam.
Sakura segurou o sorriso mais amargo que pôde, não acreditando que ouvia aquilo saindo da boca de Sasori. Não acreditando que um dia ela foi conivente com aquele tipo de pensamento por pura cegueira e paixão. Inacreditável que antes não via esse lado julgador e preconceituoso nojento de Sasori, que definia uma pessoa pelo número de desenho que tem na pele, pelo cumprimento do cabelo, pela forma que se veste...
— Essa foi a coisa mais… — Sakura balançou a cabeça tentando encontrar a palavra e Sasori cruzou as pernas parecendo cair na atuação de que ela concordava. Era acostumado com uma Sakura sem palavras perto dele, sem opinião. Então ela o olhou por longos dois segundos antes de soltar o que pensava — ridícula que eu ouvi.
Sasori exclamou e Sakura sentiu uma leve satisfação com a cara dele.
— Você não pode estar falando sério.
— Você queria que eu falasse onde você errou. — ela cruzou os braços por cima do peito, os olhos graves na direção dele — Preciso mesmo elencar os erros mesmo depois de ter dito algo desse tipo? Julgando alguém pelo número de tatuagens que tem no corpo?
Sasori abriu a boca balbuciando, aquilo era um comportamento atípico para ele. Sakura o encarou aguardando que ele se recompusesse, internamente ela temia qualquer movimento brusco de Sasori, mas por fora o encarava com seriedade, o desafiando a responder atrevidamente, a somar mais ignorância.
— Sua noção de civilidade ficou perturbada andando com esse tipo de gente liberal — Sasori disse depois de descruzar as pernas e cruzar mais uma vez num ato de nervosismo, tensão. Em seu rosto mostrava a insatisfação na Sakura que o encarava de cima de braços cruzados. Sakura teve vontade de rolar os olhos pelo absurdo que ele dizia, mas manteve-se de olhos bem atentos a ele. — Eu entendo que possa haver um encantamento...
— Estamos namorando, Sasori — Sakura o cortou prevendo o discurso dele. Ele achava que era só um encantamento que Sakura sentia por Sasuke? Era melhor quebrar aquela ideia logo. A surpresa de Sasori era indescritível, ele realmente acreditava que não havia nada entre eles e Sakura teve vontade de rir, segurou o sorriso de sarcasmo no canto da boca. — Sasuke e eu estamos namorando há um tempo. Entende porque eu não queria conversar com você? Não há mais nada para conversarmos, segui adiante.
Sasori parecia borbulhar naquele momento. Seu rosto se tingia de vermelho e as mãos se fechavam em punhos por cima da mesa. Sakura arrumou a postura, imaginando que teria que lidar com aquilo tudo sozinha, não conseguiria mais chegar perto do celular sem que ele visse e tinha medo do que ele poderia fazer se percebesse que ela tentava contatar o mundo exterior. Ficou preparada, pronta para o que viria.
Sasori se levantou num rompante, os olhos cheios de sentimentos negativos indecifráveis para Sakura que amassava o granito frio em suas mãos. Ela não sabia o que esperar, mas sentia medo. Suas pernas tremiam levemente, estaria mentindo para si mesma se dissesse que tinha a situação sob seu controle. Não, nada mais estava sob seu controle.
Ela havia destilado parte do amargor que estava entalado em sua garganta, havia tirado um peso que ainda permanecia em suas costas e ela não percebia. Havia mostrado para Sasori que ela não era submissa a ele. Entretanto, agora se via numa situação tensa, seu corpo não reagia como sua cabeça e ele avançava em passos lentos e assustadores.
— Você é estúpida. Burra! — ele bradou cuspindo. O rosto vermelho e uma veia saltando no pescoço mostravam a fúria repentina dele e Sakura segurou a respiração, agora temendo pela própria vida. — Eu acreditando que eu poderia ser culpado e você é a vadia que sai com outro…
Sasori não conseguiu terminar as ofensas, um vaso de vidro quebrava em sua cabeça pelas costas e um grito que não era de Sakura tomou lugar.
Sasori cambaleou mas não caiu, se segurou na mesa e ergueu a cabeça atordoado para ver Ino parada com as mãos no ar e o rosto em fúria. Ele a conhecia e o brilho daquilo passou pelos olhos dele, Ino deu um passo adiante e ele rosnou como um animal machucado e insano. Ino estava pronta com suas unhas para quando ele viesse para cima, a lembrança meio turva dele a agarrando naquele posto de combustível e as cenas de agora se misturavam sendo combustível para a raiva que sentia e para a ação que tomaria.
— Vem, seu filho da puta!
Sakura havia visto Ino se aproximar pelas costas dele, aquilo havia sido o motivo por ela não ter tentando retrucar, não ter tido chance para pensar em algo que o distraísse. Ela sentia que estava salva, mas agora via Ino sendo o alvo de Sasori, e aquilo ela não permitiria jamais.
Sem pensar muito, sem pestanejar, Sakura passou a mão pela frigideira suja dentro da pia e acertou uma única vez com toda a força que tinha ao lado da cabeça dele. Sasori caiu num baque surdo, completamente inconsciente e com um novo hematoma.
— Você está bem? — Perguntou sem fôlego, as mãos trêmulas segurando o cabo da frigideira engordurada enquanto Ino colocava a mão no peito olhando horrorizada para o homem desmaiado no chão.
— Estou. Ele te fez algo? — perguntou de volta correndo para Sakura e a abraçando forte. — Eu fiquei tão preocupada.
— Eu estou bem, ele não teve tempo de fazer nada.— Sakura agradeceu sentindo os olhos arderem com lágrimas. Seu corpo enfim sucumbia ao medo que segurou por todo aquele tempo. O choro chegava a garganta e era engolido com a força de seu orgulho. Ao redor do seu corpo os braços de Ino procuravam dar e receber proteção enquanto seus olhos verdes miravam atentos o corpo do homem no chão de sua cozinha.
— Será que ele morreu? — Ino se pronunciou depois de enxugar as próprias lágrimas que desciam sem soluços, sem choro.
Sakura puxou o ar com força duas vezes antes de balançar a cabeça em negativa e se agachou, seu dever como médica brigava com uma vontade ínfima de largá-lo ali, aos cuidados de outra pessoa. Mas ela não conseguiria.
Inclinou-se sobre o peito dele mesmo que Ino estivesse protestando e ouviu os batimentos cardíacos e a frequência de sua respiração, abriu os olhos dele sem medo de que ele agarrasse seu pulso — mesmo que o fizesse, não teria mais força que ela para lhe fazer algum mal -, analisou as pupilas dele e constatou que havia tido uma concussão.
Um alívio bateu em si, um alívio que não contaria para ninguém por se tratar de algo impróprio para uma médica, ela de alguma forma sentia-se bem por ter machucado ele.
Sakura ficou tempo demais olhando para o rosto pálido dele enquanto Ino seguia a instrução ligando para a emergência e para a portaria. Ficou olhando cada traço suave daquele rosto que nada mais tinha de atrativo, muito pelo contrário, que somente lhe causava repulsa e desagrado. Ela olhou tempo o suficiente para escutar a voz de Sasuke procurando por ela e logo sentir os braços dele em volta de si a puxando para o mais forte dos abraços. Atrás dele veio o porteiro e a polícia, todos sendo escoltados por Ino que contava o que havia acontecido naquele dia e em outros enquanto Sasori voltava à consciência durante os primeiros socorros.
Sakura apertou Sasuke contra ela mais forte quando os policiais reconheceram ambos, ela queria sair dali e ficar somente com ele e Ino, salvar ambos também daquilo tudo, não olhar nunca mais para os olhares de reconhecimento e, principalmente, para a cara de Sasori.
— Já vai acabar — Sasuke sussurrou perto do ouvido dela. As costas viradas para todos a protegendo do mundo, as mãos apertando a pele delicada dela como um lembrete de que ela precisava mais dele do que o cara salvo pelos paramédicos precisava de um corretivo dele. Ele queria matar o Sasori, encher o rosto repugnante dele de socos e deixar marcas que nunca o deixassem esquecer do porquê havia recebido aquilo. Olhou de canto para o homem sendo colocado em uma maca e o perfurou somente com os olhos e a boca crispada. A sonolência de Sasori não foi eficiente para esconder que havia entendido o recado, engolindo em seco e desviando os olhos para outro ponto enquanto ignorava o policial que o algemava na maca e acompanhava para fora do apartamento. — Eu vou estar com você, Sakura. Desculpe não estar aqui.
— Você estava aqui. — ela garantiu sorrindo contra a dolmã que cheirava tempero, conhaque e carne assada. — Você estava, Sasuke.
— Senhorita, temos que pegar seu testemunho também — uma policial se adiantou perto do casal e Ino enlaçou o braço de Sakura quando ela se soltou de Sasuke limpando sujeiras imagináveis em seu rosto e respirando fundo. — Quer registrar um boletim de ocorrência?
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— Você está melhor?
Sakura assentiu e aceitou a xícara de chá que Sasuke lhe estendeu.
— Obrigada. — o acompanhou com os olhos se sentar ao seu lado no sofá.
Sasuke havia ido com ela até a delegacia para registrar o boletim e depois levou-a para casa dele para fugirem dos primeiros fotógrafos que com certeza tinham contatos na polícia.
Sasori havia subido sem que o porteiro o visse, se aproveitado de uma distração causada por uma família grande. Sakura fechou os olhos ressoando em sua mente os pedidos desesperados de desculpas do velho senhor enquanto o vapor com aroma de maçã com canela chegava até seu nariz.
— Isso nunca mais vai acontecer com você, Sakura. — Sasuke repetia aquilo mais uma vez, mas ela não reclamaria. Era acalentador tê-lo ali e saber que sim, ela podia confiar na palavra dele. Sasuke a envolveu em um abraço sem jeito e carinhoso, um daqueles que ninguém de fora conseguiria acreditar ser iniciativa dele, e ela encostou a cabeça no ombro dele deixando que o perfume amadeirado tomasse lugar em sua mente. Sasuke acariciou o cabelo dela e continuou depois de um beijo no mesmo local — Você não precisa de mim , como mostrou hoje, mas enquanto eu estiver ao seu lado — pousou a mão sobre a que segurava a xícara e continha a aliança. — Eu não vou deixar que mal algum chegue perto de você.
Sakura sorriu e tomou um gole do chá.
— Você pode ser preso se eu estiver lendo sua mente corretamente. — comentou e ele riu um pouco rouco às suas costas. Ela sabia como Sasuke lidaria com o “mal”. Havia sido relativamente fácil convencê-lo a não bater em Sasori, mas havia usado argumentos sentimentais e midiáticos para tal, sabia que Sasuke não se seguraria numa outra oportunidade, Sasori também sabia daquilo. — Eu acredito que ele nunca mais vai aparecer. A cara dele está rodando por aí como o maluco que ele é invadindo a minha casa. Nunca achei que fosse agradecer os tablóides por essa exposição. A vida dele está arruinada aqui, se tiver um pouco de sanidade ele vai sumir. Ou a família vai fazer isso por ele.
Sasuke resmungou algo que ela não entendeu e se levantou voltando para a cozinha. Lá saia um cheiro bom de algum assado que Sasuke improvisou. Sakura tomou mais um gole de seu chá e deitou a cabeça no encosto do sofá.
Que loucura sua vida havia virado por causa de sua falta de habilidade na cozinha… Tudo havia começado por causa de Sasori, por ela se preocupar em saber cozinhar e trazer ele de volta. Aquilo havia motivado suas amigas a inscreverem no programa. E agora ele havia acabado desmaiado em sua cozinha com uma frigideirada na cabeça… Ela quase riu com a ironia.
Não tinha virado uma grande cozinheira, nem perto daquilo, mas havia aprendido a fazer as coisas por ela mesma e ter calma, paciência e mudar o pensamento constante de que era ruim para um de “eu consigo”. E ela havia conseguido, dentro de seus limites, dentro do que competia a ela no início daquela empreitada.
E agora? O que era o futuro de Sakura tendo a frigideira como sua libertação das correntes que a prendia ao Sasori?
— O que quer de sobremesa?
A voz retumbante de Sasuke preparando o prato com o assado a fez sorrir para a cozinha. Sentou-se no sofá trazendo a xícara de chá para mais perto de si, apenas para sentir o vapor quentinho da bebida que ele preparara para ela. Que ele havia feito somente perguntando se aquele sabor era agradável a ela, que ele havia tido a iniciativa ainda dentro do carro acariciando a mão dela por cima da perna enquanto a levava para sua casa. Sasuke, diferente da pessoa que apresentou no começo, era extremamente atento às pessoas ao redor dele, era altruísta com quem ele escolhia, de forma natural, espontânea. Ele pensava primeiro nela em todas as decisões, a colocava a frente de sua vida e ela via aquilo no começo como uma forma exagerada às vezes, mas agora ela agradecia e apreciava. E compreendia.
— Me surpreenda. Confio em você. — respondeu quando ele a olhou por cima do ombro tatuado com galho negros esperando a resposta que demorou a sair. Ele ergueu uma sobrancelha e sorriu de canto indo até sua geladeira.
Esperava que ele entendesse a força daquela confiança.
Com as correntes fora dela e o peso finalmente retirado de sua vida, ela sentia-se livre para interpretar o que Sasuke dissera no dia que fizera sua tatuagem.
Já havia passado por muito para poder deixar de lado o tempo como um fator importante para se conhecer uma pessoa. Conhecia Sasori há anos e não o conhecia de fato ao mesmo tempo. E Sasuke havia feito mais por ela, mesmo o conhecendo há muito menos tempo. Sasuke perguntava a opinião dela, se dedicava aos dois, era sincero e direto…
Ela se levantou do sofá e sorriu para as velas que ele acendia na mesa e o prato bem feito para que ela comesse enquanto a sobremesa surpresa era preparada no fogão. Encostou o ombro e a cabeça no batente e o observou até que ele levantasse o rosto para ela.
— Sasuke, você me ama?
A reação dele a pegou de surpresa. Esperava que ele engasgasse ou tivesse uma cômica expressão de surpresa. Ele sorriu. Parecia que já esperava aquela pergunta ou de certa forma esperava que ela acabasse dizendo algo parecido em algum momento.
— Posso interpretar essa pergunta de várias formas — ele disse a olhando diretamente. Sakura mordeu o lábio inferior sentindo seu rosto esquentar — Posso deduzir ser a melhor delas?
Ela assentiu abrindo os braços o acomodando num beijo significativo.
Naquele momento ela pensou seriamente em ter uma família com Sasuke.
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Season Finale — Batalha dos Chefs
— Eu juro que boto fogo em você se fizer isso! — Sakura ergueu uma espátula ameaçadoramente na direção de Konohamaru que ria na outra bancada.
Era finalmente o programa final. Todo cenário estava diferente naquele dia. Haviam muitas pessoas da produção correndo de um lado para o outro; mais luzes coloridas sendo testadas pela última vez acima da cabeça deles; um logo maior atrás deles brilhando no telão e as bancadas estavam dispostas uma em frente a outra, como se os dois aspirantes a cozinheiros fossem combatentes. Assim ficava mais fácil ver o que o outro fazia e aquilo podia ser muito bem uma vantagem como uma desvantagem.
— Qual é, Sakura? — o garoto inclinou-se sobre a bancada com um sorriso brincalhão — Pensa bem, se começarmos uma guerra de comida eles serão forçados a cancelar a final e fazer outro dia. Juro que não acerto seu cabelo.
— Tenta. — Sakura apertou os olhos para ele, mas no fim riu. — Se não está seguro em ganhar, apenas desista.
— Ouch. — Konohamaru apertou o peito como se tivesse levado um tiro e riu ainda mais. — Eu te juro que não sei como vai ser isso. Mas estou mais ansioso que tudo acabe.
— Nem me diga. — ela suspirou se inclinando como ele e apoiando o cotovelo na bancada.
Havia tido que desligar o celular até aquele momento e se negara a entrar nas redes sociais apesar de sentir vontade. Até mesmo a polícia foi chamada pelo responsável pelo condomínio onde Sasuke e Naruto moravam por conta de invasões por parte de paparazzis atrás de uma entrevista de Sakura sobre o dia anterior. Ela não iria falar com ninguém. Talvez um dia fizesse um vídeo falando sobre abusos psicológicos e contasse sua experiência para outras mulheres, mas só de pensar em como poderia ser julgada por quem não entendia já a dava arrepios. Contudo, assim que entrou correndo no estúdio foi muito bem tratada e o pessoal que trabalhava com eles se mostrou muito receptivo e acolhedor. Agora Konohamaru fazia graça para que ela ficasse calma, para que sorrisse.
Ambos já estavam prontos e usavam dólmãs com um bordado grande com a logo do programa nas costas, na frente seus nomes e abaixo o nome de seus respectivos chefs. Os dois optaram pelas bandanas, era ruim ter que se preocupar com o toque blanche quando estavam correndo e nervosos.
Naquele dia, como no primeiro, teriam plateia e aos poucos as pessoas iam chegando e acenando para eles ao ocuparem seus lugares. O diretor Yamato havia pedido que Konohamaru e Sakura já estivessem no palco quando as pessoas chegassem como uma forma de dar boas vindas e para eles já começarem a se aquecer com o calor humano e se acalmarem. Sakura não estava achando aquilo efetivo, pelo contrário, via Konohamaru ficar ansioso olhando as pessoas à procura de seus conhecidos.
“Estaremos lá de olho em você, Sa.” Tenten havia dito pelo telefone naquela tarde ao ligar perguntando como ela estava. Ela olhou para as pessoas não encontrando as amigas ou a mãe que também havia dito que estaria lá. Pensou que elas poderiam ser as primeiras e gritariam seu nome assim que entrassem.
Uma mulher e um homem ficaram na frente da plateia passando os comandos do que deveria fazer de forma dinâmica quando todos ocuparam seus lugares. Nenhum dos amigos ou familiares dos dois competidores estavam ali e os dois começavam a achar aquilo muito estranho.
— Acho que eles vão participar diretamente na prova final — Sakura sussurrou alto tampando um lado da boca para Konohamaru.
O garoto arregalou os olhos o máximo que podia e engoliu em seco.
— Meu avô vai comer minha comida?
Sakura ergueu os dois ombros e as palmas das mãos mostrando não saber, ser só uma teoria e Konohamaru começou a suar bicas.
— Todos em seus lugares, vamos começar em três minutos. Quero agradecer a presença de vocês. — Yamato fez uma reverência ao público que o aplaudiu animadamente. Ele se colocou entre as duas bancadas e Konohamaru parou de puxar os cabelos de modo desesperado. — Os dois são vencedores no momento que entraram neste programa e só consolidaram isso com a primeira vitória de cada um. Tiveram altos e baixos tanto dentro como fora daqui, mas tenho certeza que os dois sairão daqui sabendo mais que cozinhar. — Sakura sorriu para ele, Yamato não poderia estar mais certo. — Bom, boa final para os dois, nos vemos na entrega do prêmio. TRINTA SEGUNDOS.
Ele se virou para voltar ao seu lugar sem ouvir o agradecimento dos dois. Sakura queria agradecer ele, havia feito algo por seus nervos agitados que ninguém havia conseguido desde que chegara ali naquela noite. Respirou bem fundo quando a música alta e pop começou a tocar mostrando que daria início ao programa, as pessoas do auditório se levantaram às ordens do pessoal da produção e começaram a bater palmas ao ritmo da música. Ela fechou os olhos por um segundo e os abriu pronta para o último dia do show, olhou para Konohamaru e moveu os lábios quando ele o olhou nervosamente de volta:
“Boa sorte, garoto”.
— Boa noite, senhoras e senhores! Bem vindos ao Season Finale de Batalha dos Chefs! — Naruto entrou aos saltos agitando os braços para cima e Sasuke logo atrás dele com menos entusiasmo e com as mãos para trás. As pessoas iam a loucura com o apresentador carismático e algumas gritava por Sasuke. Sakura achava aquilo engraçado, ainda mais pelos olhares que ele a lançava de esguelha preocupado com a reação dela, ela erguia os ombros em resposta. Naruto esperou que as pessoas se acalmassem e continuou — É imensa a alegria e o orgulho que chegamos a esse dia. Finalmente a grande final! E a emoção vai ser grande, já consigo sentir a eletricidade no ar. E vocês? — mais uma vez as pessoas começaram a gritar e Sakura não poderia negar que aquilo era empolgante. Naruto esfregou as mãos e esperou mais uma vez que o público voltasse a fazer silêncio — Gostaria de agradecer a presença de todos nessa noite gloriosa e salientar que nada disso seria possível sem o carinho de vocês. — A reverência de Naruto fez até mesmo Sakura aplaudir junto do público que ecoava o nome do apresentador num coro improvisado e inesperado. Era algo emocionante depois de tudo o que ele havia passado e aquilo pôde ser visto nos olhos marejados de Naruto quando se levantou. Ele sorria emocionado, agradecendo as pessoas com um aceno de cabeça quando Sasuke bateu uma vez no ombro do amigo e ofereceu um sorriso pequeno demais se comparado ao que tinha no rosto de todos, mas pelos olhos ele passava palavras que jamais sairiam de sua boca para o amigo, coisas que Sakura imaginava que seriam, e Naruto entendia. — Chega de sentimentalismo. Vocês não vão me fazer chorar hoje! Ao invés disso, vamos ver uma retrospectiva dos melhores e piores momentos dos dois participantes para rirmos um pouco.
O logo do programa girou uma vez no grande telão ao fundo e chamas emergiram como se o queimasse. Logo cenas de Konohamaru correndo com uma panela saindo fumaça preta apareceu e Naruto desesperado atrás dele; Sakura xingando enquanto desgrudava algo de uma frigideira e logo a cara de desgosto de Sasuke. Imagens aleatórias iam passando ao ritmo de “Fígaro”, uma ópera vibrante de Rossini, e Sakura queria se enfiar embaixo do balcão percebendo o quão mais ridículos ela e Konohamaru pareciam com aquela edição.
— Pare de rir. — Sakura cutucou Sasuke com o cotovelo quando o viu soltar o riso pelo nariz quando as chamas subiram na panela dela e ele apareceu tampando e apagando o pequeno incêndio numa dramática pausa na música que combinou com a expressão séria dele.
O ritmo ficou agitado e apareceu ele e Naruto pagando flexões, a cara de boba dela, Konohamaru escorregando em certo momento, panelas caindo, flexão, prato queimado, gritos… e antes do refrão, aquela sinfonia mais tranquila antes da explosão, apareceu Naruto movendo as mãos como se comandasse uma orquestra.
— Isso é constrangedor demais. — ela sussurrou tendo ciência de que os microfones estavam desligados e passava o vídeo clipe bizarro dela e de Konohamaru nas televisões. Na frente deles, Naruto e Konohamaru conversavam baixo.
— Isso mostra o seu progresso — Sasuke corrigiu cruzando os braços por cima do peito, mandando um sorriso esquivo e a olhando de cima — Estou orgulhoso de você.
Sakura agradeceu com um sorriso sem graça e respirou fundo sentindo aquela agitação de expectativa.
— Espero não ter que ser obrigada a cozinhar nunca mais na minha vida. — comentou baixinho apertando as mãos suadas atrás das costas, o horror em seu rosto fez Sasuke rir. Ela o olhou de esguelha com um brilho brincalhão nos olhos — Espero que você garanta isso.
A frase parecia inocente e ele poderia até ter brincado com isso se não estivesse esperando qualquer sinal de Sakura depois da conversa sobre amor no dia anterior.
Ela o viu erguer uma sobrancelha ficando sério, questionando se ele havia entendido certo o que ela estava falando.
— Vou cozinhar para você o tempo que você me permitir por perto. — respondeu rouco e ela sentiu o coração vibrar mais que seu estômago.
— Por enquanto é para sempre, Sasuke. — Segurou o sorriso vendo o dele crescer no rosto sempre tão rígido, as sobrancelhas se livrarem da tensão e um brilho encantador aparecer nos olhos dele. — É bom ter um cardápio bem grande para me segurar. — brincou rindo, mas o riso foi cortado ao meio quando ele puxou sua mão e beijou-a diante de sua expressão surpresa.
— Vou fazer esse “para sempre” durar muito.
— Eu vou engordar. — ela choramingou e ele riu aceitando o abraço desajeitado dela.
— Pode nos responder, Sakura? Ou está muito ocupada? — Naruto apareceu na frente da bancada deles e Sakura se assustou tentando se afastar de Sasuke enquanto as pessoa riam, mas ele a apertou mais ao lado dele, com a mão forte acariciando seu ombro ignorando o lugar que estavam. Tudo bem que não era algo propriamente de casais um meio abraço daquele, mas era o tipo e ação que Sasuke não tomaria em qualquer lugar, ainda mais em público.
— Ahn. Qual a pergunta? — estava envergonhada e Naruto aumentou o sorriso olhando para os dois.
— Quais foram as maiores mudanças na sua vida desde que entrou no programa? Fora o fato de que não queima mais o arroz…
— Essa afirmação é muito questionável, chef. — ela respondeu rindo e Sasuke puxou um sorriso. Se a pergunta fosse para ele, o que ele diria? — Eu aprendi a acreditar em mim mesma fora da minha caixinha. Mudou minha visão sobre cozinhar, se transformou de algo mecânico para… sensibilidade. Aprendi que precisava sentir mais, provar mais… Não só na culinária, mas na vida. Além de ter conhecido pessoas maravilhosas que com certeza levarei para a vida.
Ele não precisou olhar para ela para saber que os olhos verdes haviam se esgueirado até ele.
O que ele responderia?
Sasuke preferia ignorar onde estava, ignorar as pessoas ali, o agito, todo aquele barulho e gritaria para conseguir manter o pouco de paz que habitava nele depois do dia anterior. Ainda era uma situação inacreditável e inaceitável o que ela havia vivido e ele ainda se culpava por não ter chegado mais cedo, mesmo que fosse impossível ao menos desconfiar que o doente do ex dela apareceria no apartamento dela e seria o lixo humano que ele era.
Ah, seu sangue fervia de imaginá-lo perto de Sakura ameaçando-a e fazendo qualquer coisa que merecesse o que aconteceu a ele.
Sasuke acabaria com a raça dele com as próprias mãos se Sakura não estivesse precisando tanto dele. Se ela não o lembrasse que estar preso depois de agredir alguém não ajudaria ela e muito menos o deixaria feliz. Ele tinha que pensar nela, na sua família, nas pessoas que dependiam dele nos restaurantes…
Sasori tinha sorte de tantas coisas segurarem Sasuke.
Na tela ao fundo passava as cenas dos dois treinando durante a semana. Ele não assistiu, passou a mão por cima do tecido no ombro dela e respirou fundo. Não queria pensar em outra coisa naquele momento, apenas focar no presente e esperar que ela fosse bem no último programa.
Afinal, sobre o futuro Sakura já havia deixado claro que estavam sincronizados.
De volta com a cabeça na competição, Sasuke olhou ao redor procurando as amigas de Sakura que ela havia dito várias vezes que estariam ali, não viu nenhuma e aquilo o fez ter certeza que elas também participariam naquela noite. Antes do programa começar, Yamato chamou tanto ele quanto Naruto e confirmou as suspeitas do chef Uzumaki para a grande final.
— O que vocês cozinharem hoje não será avaliado por jurados convencionais. — Naruto voltou a falar quando os treinamentos finalizaram nos telões e as pessoas já haviam se acalmado após as palmas. Sasuke queria ver a reação da Sakura e viu o pálido do rosto dela mostrando parecer saber o que viria. Ele segurou o sorriso no canto dos lábios, estava curioso para ver o que ela faria, como ela se portaria — Seus amigos e família — um grito aterrorizado de Konohamaru não interrompeu Naruto — serão os jurados de vocês esta noite. Entretanto, eles não saberão quem foi quem fez o quê. Os dois pratos serão servidos e eles votarão no melhor. Sasuke?
Era a deixa dele como haviam planejado atrás dos bastidores. Era desconfortável ter a câmera voltada para sua cara e o modo como descarregava a tensão em momentos como aquele era trocando o peso de uma perna para a outra e cruzando os braços, Sakura quase saltou ao lado dele quando deixou de tocá-la. Olhou-a de canto e sorriu a acalmando. Não precisava dizer em palavras que ele acreditava nela.
Voltou-se para frente e olhou para tudo, menos para aquela luz vermelha que piscava em cima da câmera.
— Os convidados já estão em uma sala adjacente e vocês poderão assistir a reação deles e seus votos em tempo real através do… — olhou ao redor e no telão apareceu um tipo de restaurante com várias mesas e grupos de quatro pessoas sentadas em cada mesa. Sakura exclamou alguma coisa e Konohamaru outra, os dois completamente apavorados. Sasuke não conhecia ainda as outras amigas de Sakura pessoalmente, apenas por fotos, mas reconhecia Ino em uma das mesas com as outras duas e mais uma mulher que ele achava ser a mãe de Sakura. Piscou e voltou para terminar de falar o que precisava. Ele odiava aquilo e tinha certeza que estava parecendo um robô. — Nós daremos assistência, mas não poderemos colocar as mãos na receita.
— Meu Deus… eu vou matar a minha mãe. — Sakura sussurrou abobalhada e Sasuke teve vontade de rir, mas segurou apenas balançando a cabeça sem poder olhar para ela.
— Sakura tem a vantagem de uma vitória a mais que Konohamaru e se ela vencer já no prato principal vai se consagrar a vencedora desta temporada do Batalha dos Chefs, mas se Konohamaru vencer, o desempate ficará a cargo da sobremesa que Sasuke e Sakura escolheram para esta final, uma sobremesa bem deliciosa e sugestiva, não é mesmo? Clafoutis de cerejas foi a sobremesa escolhida, e como prato principal teremos Turducken. Agora uma palavrinha dos nossos patrocinadores e amigos.
Sakura fazia um exercício de respiração ao lado de Sasuke, talvez algo de yoga ou qualquer coisa do tipo, mas parecia estar funcionando. Ela relaxava enquanto Naruto falava sobre as inúmeras empresas que patrocinavam o programa, um número consideravelmente maior do que no início da temporada.
— Não precisa fazer nada mais do que já não tenha feito essa semana. Fica tranquila.
— A responsabilidade agora é muito maior, Sasuke! Minha mãe está ali…
— E ela vai se orgulhar de você. Hoje é o último dia, divirta-se.
Ele não era a melhor pessoa para dar conselhos, mesmo que fosse Sakura e ela merecesse muito mais dele naquele momento, mas qualquer informação que passasse a mais para a cabeça dela diluir poderia deixá-la mais nervosa. Sakura naquele momento era como uma panela de pressão e ele não tinha como culpá-la, ainda mais depois do nível de estresse que havia sido exposta na noite anterior. Toda a produção havia ficado preocupada com ela na final, mas Sakura havia mostrado aquela inteligência emocional que ele tanto invejava e permanecia inteira ali de uma forma que a maioria das pessoas não conseguiria. Ela, assim como ele, só queria que tudo aquilo ali acabasse.
Ela mandou um olhar de quem duvidava daquela afirmativa e suspirou.
— Engraçado que no momento tudo com o que consigo me preocupar é com esse programa. Se vou conseguir, sabe? — ela disse baixo enquanto observava Konohamaru andar de um lado para o outro na bancada da frente — De certa forma é bom focar seu nervosismo em uma coisa só, assim consigo gerenciar a mim mesma. Mas e depois daqui? De qualquer modo, apesar dos pesares, Batalha dos Chefs foi meu pesadelo e meu saco de pancadas ao mesmo tempo. Eu podia diminuir minhas inabilidades e deixar tudo na cozinha. — Sasuke não entendeu o desabafo de Sakura e tudo o que conseguiu fazer foi olhá-la e mostrar estar ouvindo. Ela balançou a cabeça e respirou fundo mais uma vez. — É assim a sensação de voltar a viver?
Agora ele entendia.
Ela chacoalhou os braços quando Naruto terminou os agradecimentos e Sasuke ergueu o queixo apertando o cruzar de braços como forma de controle sobre si mesmo. Ele entendia, ela havia se libertado e agora tudo parecia maior do que era, ele também havia se libertado e o futuro estava apenas se desenhando num esboço na frente deles, sem confirmação de nada, sem uma receita pronta. Mas Sasuke nunca seguia receitas ao pé da letra…
— Sim. É essa a sensação.
Ela sorriu, os dois em sintonia naquele momento prontos para a próxima temporada da vida.
Sakura ergueu a mão e deslizou pelo braço dele desfazendo a tensão ali, Sasuke desfez o aperto e sentiu sua mão ser agarrada pela dela bem forte, como um time, um casal.
— Vamos ganhar isso, Sasuke. Depois daqui.. Bom, depois a gente descobre.
— Sakura, Konohamaru, vocês têm uma hora e meia. Que o melhor vença!
❧
— Sakura, pelo amor de Deus! Eu passei essa receita sem óleo para você não se machucar e você não consegue fazer?
— Não está dando certo! — Sakura gritou de volta voltando a fechar o microondas com brutalidade. — Vou deixar quieto as batatas chips e fazer outra coisa.
— Não dá tempo. — Sasuke olhou o cronômetro e soltou uma lufada grande de ar pela boca tentando pensar.
Como ele pôde pensar, ao menos criar uma expectativa otimista de que tudo ia dar certo? Era de Sakura que ele estava falando e de sua imprevisibilidade em uma cozinha. Eram simples batatas chips que ele ensinou de uma maneira mais simples e que não era frita no óleo a fim de ajudar e ela ainda conseguia errar. Certamente que a pressão de ter um público assistindo não ajudava, mas ser compassivo ia ajudar menos.
— Já olhei duas vezes aquelas merdas e ainda estão brancas! — ela reclamou alto correndo para lavar mais batatas e jogá-las sem paciência dentro de uma panela para cozinhar.
— Você fatiou elas bem fininhas?
— Fatiei! Eu posso fatiar um cérebro, mas batatas… — gritou de volta empilhando mais louça na pia e correndo para olhar o forno com seu Turducken. — Já faz quase vinte minutos que estou tentando…
— Como elas estão? — Sasuke perguntou já passando a mão pela testa. Os olhos no cronômetro e no sorriso de Naruto zombando dele. Estalou a língua com a falta de resposta dela, louco para lavar aquela louça toda, e correu até o microondas.
— Estão… amarelo cozido, sabe? Argh! Pano! — ela gritou correndo mais uma vez e óleo podia ser visto no chão. Ela pensava em fritar? Sasuke desligou o fogão rapidamente e a segurou pelos ombros enquanto alguém da limpeza limpava o local sujo de óleo para ninguém escorregar — Elas estão molhadas, Sasuke! Tem certeza que eu não precisava secar antes? Por que está dando tudo errado! O peru!
E ele não conseguiu falar nada com ela. Estava ficando nervoso, daria um grito a qualquer momento para colocar ela nos eixos dentro da cozinha. Todo aquele caos ali era enlouquecedor para ele, o mundo podia estar pegando fogo, mas a cozinha onde chef Sasuke Uchiha estivesse estaria que estar limpa, coordenada.
Ela abriu o forno e de lá saiu o Turducken quase queimado. Ela choramingava e Sasuke sentia o olho esquerdo tremer.
— Quantos graus você colocou, Sakura? Não prestou atenção no que eu disse?
— As batatas… — ela o ignorou passando direto para o microondas que já apitava novamente.
— Dez minutos para entregar o Turducken! Depois já começam a sobremesa! — Naruto berrou e Sakura saltou no lugar.
— Elas estão moles, Sasuke.
Sasuke apertou as têmporas com os dedos e respirou fundo… aquilo foi pior, o cheiro de ervas e alho queimados subiu até seu cérebro e ele bateu a mão na bancada para tomar controle da situação. Quando ela se virou assustada com a travessa recém tiradas do microondas, entretanto, ele amoleceu mais que as batatas que ela tinha nas mãos, os olhos dela estavam lacrimejando.
Ele apertou os próprios e respirou fundo a chamando com uma mão para perto. Olhou a travessa e fez uma careta entendo onde ela havia errado.
— Você não untou a travessa com óleo. — disse mais calmo, ignorando o berro de Naruto ao fundo dizendo faltar cinco minutos. — Vai servir o Turducken na assadeira mesmo, não há tempo para empratar, unte a travessa com óleo e coloque as batatas lá novamente por dois minutos, enquanto isso você vai montar a salada que você já fez em volta do Turducken e deixar o molho rosè que preparou para as batatas ao lado da salada num recipiente. Vai poder ser usado tanto para temperar a salada à gosto quanto para acompanhar as batatas.
— Agora que você fala isso? — ela reclamou fungando e correu fazer o que ele mandou.
Sasuke fechou os olhos e sorriu, o caos que acontecia naquele momento não o afetava mais. Não depois de perceber algo mais importante que sua cozinha nos olhos daquela mulher.
Sakura engoliu aquele bolo de insegurança que tentava vazar por seus olhos e tirou as batatas do microondas.
5, 4, 3, 2, 1...
— Acabou o tempo!
Os pratos prontos em cima da bancada eram levados pelos garçons para a outra sala e os diversos aromas brigavam naquele cenário. Sakura suava e um novo peso era retirado de suas costas quando ergueu os braços ao acabar, sua mão foi segurada contra a dele e ela teve vontade de chorar naquele momento.
Não era de tristeza, não era de desespero. Era de alívio.
— Você conseguiu.
— Conseguimos, Sasuke.
As pessoas no outro lado da tela recebiam os pratos e experimentavam com diversas caretas diferentes que tiravam risos do público e até de Sakura e Konohamaru. O garoto piscou para ela limpando as mãos no pano de prato e ela sorriu mandando-lhe um agradecimento por todo aquele tempo juntos.
— E quem será que levará o troféu para casa hoje? — Naruto se virou para a câmera central enquanto as pessoas ainda provavam e decidiam seus votos. — Já votou no seu favorito pelo Twitter? Estamos chegando ao fim, não perca tempo e vote no seu não-tão-mais-ruim de espátula favorito!
O coração começou a apertar e a expectativa agitou todo o interior de Sakura. Entretanto, uma mão quente e grande apertou a sua com mais força quando a sentiu tremer, e um beijo delicado de um homem que não parecia ser a fez fechar os olhos se acalmando.
Independente do resultado ela já sairia dali vencedora, ele a lembrava com aquele breve ato de carinho.
— Os nossos jurados especiais já votaram e tenho na minha frente o nome de quem pode ser o vencedor dessa prova. Teremos Sakura como vencedora do programa ou Konohamaru vencendo e tendo a sobremesa como desempate? — Naruto aceitou a urna com os votos entregue por uma assistente e chacoalhou.
Expectativa estava alta, menos para Sakura...
Mesmo provando do mais doce, foi no amargo que ela encontrou mais sabor. Mesmo teimando no que parecia mais fácil, foi na dificuldade que encontrou força para sair de sua orbe de proteção. Mesmo que tivesse medo, foi num ato de coragem de doar a si mesma que ela encontrou um novo sabor.
O sabor do amor.
❧ FIM ❧
betado por Milla, Mirys e Mrs. Fox
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