Provar, Comer e Casar
13 Café amargo ou docinho?
Notas iniciais
Algumas horas antes
Sakura entrou no elevador e concentrou-se nos números, apertando o de seu andar com lentidão. Permaneceu de costas para Sasori por um tempo, sentindo o corpo gritar por um tempo de descanso. Virou-se de perfil, o olhando por cima do ombro, e deu-lhe um sorriso pequeno ao vê-lo olhando de volta.
— Chegou há muito tempo? — Sakura perguntou por pura educação.
Os dedos cruzavam-se em frente ao corpo, movendo uns contra os outros num tique que antes não tinha percebido ter. A música do elevador soava baixa, lenta e calma demais para ser trilha daquela cena. Sakura sentia-se presa nos olhos dele, e não era uma prisão bem vinda.
— Quase uma hora te esperando. — Sasori respondeu ainda a olhando. Era um olhar intenso, que passava por todo seu rosto como se procurasse respostas para o comportamento esquivo dela.
— Sinto muito. Ainda arrumam alguns detalhes depois que o programa acaba. — Calou-se percebendo a inutilidade e a falta de necessidade de se justificar.
— Que tipo de detalhes?
— Organização de tempo de treinamento, agendamento de gravação… — Soltou o ar com alívio ao escutar a porta do elevador se abrindo. Não se lembrava quando havia mentido assim para Sasori.
Silenciosos, andaram até metade do corredor. Não achava ser de propósito, mas ela andava a um passo à frente dele. Sakura sentia o peito apertado, a cabeça dando sinais de uma dor que só curaria com uma noite bem dormida.
— Com o chef Uchiha?
A voz de Sasori às suas costas a fez parar. A mão direita segurava a alça da bolsa com força; a outra, mexia-se sem uma desculpa para se ocupar.
— Ele é meu companheiro no programa, então, obviamente é com ele. — não esperava que seu tom saísse tão afiado, jamais falaria com Sasori daquela maneira, mas estava tão cansada e a ciência de onde aquela conversa iria parar aumentava sua resistência à conversas à meia noite sobre assuntos que não deveriam ser discutidos sem um preparo psicológico adequado. Ela só havia dado uma hora para ele, e ele não parecia com pressa para tocar no assunto a que veio.
Sasori ficou calado, mas ela não olhou para trás para olhá-lo. Seguiu até a porta de seu apartamento e buscou as chaves dentro de sua bolsa.
— No começo eu até compreendia sua motivação para entrar naquele programa, mas hoje não faz o mínimo sentido, Sakura. — Sasori falou atrás dela, sua voz era tão fria que lhe causou um arrepio longe de ser agradável.
— Compreendia? — ela repetiu sentindo as palavras azedas em sua língua. A mão dentro da bolsa — Foram as meninas que me inscreveram, Sasori, não busquei...
— Eu quero que saia daquele programa. — disparou incisivo.
E Sakura travou. De costas para ele, as pernas doloridas pelo tempo que ficara em pé naquele dia, a cabeça doendo e os olhos ardendo. Em suas mãos, dentro da bolsa, a textura rígida da aba de um boné esquecido no carro.
— Você não pode… — a voz saiu trêmula, antes mesmo dela sentir a fragilidade em sua garganta.
— Aquilo é um show de absurdos — a voz dele ainda era baixa, mas parecia retumbar enérgico demais em comparação à ela. Sasori deu um passo à frente e colocou a mão sobre o ombro de Sakura. Não havia tanta força no toque, mas ela sentia que podia desmoronar se não segurasse a parede. Sasori inclinou o corpo em direção à orelha feminina. Sakura tremeu, o choro preso em sua garganta. — Sensacionalismo atrelada à vida de uma cirurgiã? Não percebe o papel a que está se submetendo? Expondo seus defeitos em rede nacional e virando piada. É essa a imagem que quer ligada a sua vida? Uma subcelebridade que por acaso tem um diploma de medicina. Mas qual a importância disso quando se está na capa de uma revista vulgar de fofocas?
Sakura apertou o boné com força, o corpo tremia sentindo o de Sasori se aproximando mais. Não era um calor bem vindo. Ela quis gritar para ele se afastar, mas parecia que tudo sumia dela: Sua voz, sua força, sua coragem.
— Eu sou tudo o que você precisa, Sakura. Esse programa está acabando com a sua vida. — Sasori a virou e encostou o corpo dela na porta ainda trancada. Ignorou as lágrimas solitárias que rolavam pelo rosto abaixado dela. Os lábios do ruivo foram até seu pescoço, começando uma sequência de beijos que a deixou com náuseas. Mas ela não tinha forças para empurrá-lo. Ela o amava, não? Sasori subiu até seu ouvido, não se importando com o corpo encolhido que permanecia com a mão dentro da bolsa grande. — É por isso que eu vim aqui — o sussurro tenro fez Sakura soluçar, aquele era seu Sasori. Ela se aproximou de sua boca — Nós podemos encontrar outra maneira de fazer você se tornar uma boa esposa, Sakura. Eu estarei com você. Eu amo você, escutou?
Enquanto o ouvia falar, segurava firme o boné em suas mãos. Seus ombros e pernas tremiam, o pescoço doía com os músculos tensionados e seu coração batia acelerado como se tivesse recebido uma alta dose de adrenalina.
— Sai daqui.
Sasori se afastou, não ouvindo o sussurro quebrado dela. Nem ela havia ouvido sua própria voz exteriorizar o que explodia em sua cabeça, como se fosse a voz de uma terceira pessoa, um estranho aparecendo ali para salvá-la de tomar atitudes enquanto estava sendo pressionada. Engoliu um nó gigante e balançou a cabeça tentando limpá-la, aquela era uma posição que não estava acostumada a estar.
— Vá embora, por favor. Amanhã conversamos sobre isso, só me deixe... dormir.
Sasori suspirou parecendo impaciente, Sakura não o olhou. Ele se afastou e passou a mão pelos cabelos ruivos intactos, andou de um lado para o outro em segundos intermináveis antes de suspirar de novo, como se forçasse a acatar o que ela pedia, como se fosse muito difícil para ele fazer aquilo. Por fim, ela ouviu os passos dele se aproximando, apenas para dizer gelidamente baixo:
— Seria sensato pensar como uma mulher adulta e profissional. Boa noite.
No sofá com a mancha de vinho, ela sentou e chorou. As mãos cobriam o rosto que soluçava amargas recordações de uns minutos, depois horas antes. Sasori nunca fizera isso com ela, nunca. Desde o dia do restaurante as reações dele estavam sendo ruins surpresas para ela. Toda a história dos dois podia ser contada por ela com um sorriso. O namoro que começou quando eram jovens calouros, aquele jeito dele de quem podia dar o mundo se ela pedisse, charmoso em seus bons modos, atencioso...
Forçou-se a se acalmar. Enxugou o rosto com brusquidão e respirou fundo mais de uma vez.
— Eu preciso dormir — Foi o que repetiu a si mesma no silêncio noturno da sua casa.
Embaixo do chuveiro foi traída por seus próprios pensamentos ao se lembrar da relação que tinham e terminou colocando seu pijama pensando onde havia errado. Enquanto dirigia mais cedo, pensou que talvez pudesse cozinhar algo simples para comer, estava tão feliz que realmente acreditava que podia fazer tudo, porém aquela energia havia se dissipado, a confiança ido para o brejo e somente água fervendo ela fez para seu chá.
A fumaça da bebida subia enquanto ela assoprava sem qualquer ânimo de saborear. Tudo em sua boca parecia areia, sem gosto, intragável. Com o pé descalço, ela cutucou a mancha de vinho e tomou um gole do seu chá. A careta pela falta de açúcar a fez colocar a caneca de lado de um boné na mesinha e deitar ali mesmo embrulhada em um cobertor enquanto um filme de terror passava sem ser assistido. No celular, viu uma mensagem de Ino dizendo que precisava da amiga, Sakura também precisava dela naquele momento. Precisava conversar e desabafar, assim como se faz quando ainda não se tem responsabilidades e a vida é mais simples. Sentiu-se sozinha, com o gosto ruim do chá na língua, desistindo de ir atrás de um sabor melhor. E, ainda com a cabeça confusa e o corpo doendo, ela dormiu encolhida no sofá.
❧
A campainha soava insistente. Sakura abriu os olhos assustada e pegou o celular para ver a hora: 5:18 da manhã. Havia colocado para despertar dali 12 minutos, mas nem essa alegria ela pôde ter, lhe dando a certeza que o dia não seria mesmo bom.
A primeira pessoa que passou pela sua cabeça foi Sasori, então foi cuidadosa até a porta, em passos silenciosos enquanto a campainha continuava a ser tocada. Pelo olho mágico viu a imagem distorcida de Ino, com a mão na boca, os cabelos bagunçados e os olhos manchados de maquiagem preta num risco de lágrima pelo rosto.
— Ino, meu Deus! O que aconte… — Sakura abriu a porta rapidamente, assustada com o estado da amiga, mas Ino correu para dentro da casa direto para a direção do banheiro.
A primeira reação de Sakura seria fechar a porta e correr até sua amiga, mas uma voz inesperada àquela hora da manhã a fez sobressaltar.
— Ela bebeu demais. Desculpe a hora.
— Sasuke?
O sorriso breve no rosto dele surgiu quando ouviu o seu nome ser pronunciado na voz rouca de quem havia acabado de acordar. Sakura manteve-se um tempo de boca aberta, não acreditando que era realmente ele ali, olhando-a aquela hora da manhã.
Aquela hora manhã...
Sakura passou a mão pelos cabelos desesperadamente, pelo rosto e depois deixou no pescoço desistindo de arrumar algo que ela não podia ver, mas sabia estar deplorável. Sasuke não se moveu, puxou um novo sorriso rápido vendo-a preocupada com sua aparência. Era a primeira vez que a via sem maquiagem, sem as roupas alinhadas. Se lembrava de ter lido algo parecido em um livro de romance ruim que Konan havia lhe emprestado um tempo atrás, e ele não poda discordar do protagonista agora que via o mesmo: Sakura era linda.
— Por favor, entre.
Sasuke balançou a cabeça negando e girou a chave do carro no dedo. Sakura abriu mais a porta e ele viu que o rosto dela estava recuperado da surpresa e agora tinha sinais de confusão e seriedade. Estalou a língua olhando para trás e novamente para ela.
— Feche a porta, sim? Vou ver como ela está. — Sakura apontou para onde a amiga havia corrido. Andava de costas enquanto falava, olhando-o dos pés a cabeça enquanto ainda parecia ter sinais de constrangimento.
A viu desaparecer em um corredor enquanto fechava a porta atrás de si com lentidão. Respirou fundo e sentiu o perfume dela com intensidade, um lembrete de aquele era o lar dela. Olhou em volta sem saber o que fazer, inclinado a ir embora enquanto ela estava ocupada com Ino. Pensou que seria o melhor mesmo. Não queria estar ali quando elas conversassem.
Olhou para seu punho fechado e esfregou-o rapidamente na blusa vendo ter um pouco do sangue de Sasori. Haviam largado o homem desacordado no chão.
“— Chef! Esse cara… ele… — ela se enrolava bêbada com as palavras, chorando desesperada e segurando o braço de Sasuke.
Sasuke bufava como touro, olhando o corpo caído enquanto sua mão fechada ainda latejava pela força que usou no soco. Ela ainda falava algo para ele, mas estava tão tonto que não prestava atenção.
— Me leva para casa, por favor?
Sasuke se virou para ela sem saber o que responder. Não conhecia a garota e, num breve lampejo de razão, o fez se apressar a ir embora dali logo. Olhou desesperado para os lados, mas ninguém ainda havia visto a cena que sucedeu.
— Eu chamo um táxi para você. — teve que repetir mais alto quando ela pediu mais uma vez, assustada.
— Eu sou amiga da Sakura. Eu sou. Por favor, me ajuda.
Ele não acreditou, insistiu que chamaria um táxi até ela mostrar uma foto das duas no celular, o número de Sakura nos contatos e repetir inúmeras vezes que foi ela quem inscreveu a amiga no programa.
A segurando pelo braço, correu até seu carro praguejando a maldita sorte que ele tinha de se expor em público.
— Aquele era o Sasori. — ele disse assim que colocou-a sentada aos prantos no banco do carona — Por que ele faria isso? — perguntou retoricamente, mas a menção do nome fez Ino parar de chorar e arregalar os olhos.
— Sasori? Da Sakura?
Antes que ele respondesse, Ino se desvencilhou dele e correu de volta até o homem desacordado e começou a chutar as costas até Sasuke correr e tirá-la a força, colocar no carro e sair o mais rápido possível de lá.
Ino ia resmungando coisas sem sentido e dizendo o nome de Sakura no meio. Sasuke não respondia e não perguntava nada também. Tinha que se manter concentrado, indo no endereço que ela dizia morar e tentar não fazer mais nenhuma loucura, nada que chamasse mais atenção. E o que o fez se acalmar durante o trajeto, foi lembrar de seu soco partindo o nariz de Sasori e a satisfação que sentiu quando o viu no chão.
Ino se calou, e ele apenas deixou que ela chorasse sozinha.”
— Ino me disse que você “é a melhor pessoa”. — Sakura fez sinais de aspas com as mãos voltando para a sala, havia prendido o cabelo e usava uma blusa de moletom por cima do pijama. Os braços rodearam os corpo e seu rosto parecia mais lívido. — Se conheceram hoje?
Sasuke suspirou. Sakura mordeu a própria língua depois de perguntar.
— Ela me reconheceu. — decidiu dizer meia verdade sem saber como responder apropriadamente. — Ela está bem?
— Está dormindo. Obrigada por trazer ela aqui.
Sasuke meneou a cabeça silencioso. Não estava diferente dela se tratando do desconforto da situação que se encontravam. Não fora amigável a forma que acabaram a noite anterior, claro que não era algo pessoal, mas toda aquela confusão afetava a relação deles.
— Fiquei tão surpreso quanto você quando abriu a porta. — sentiu a necessidade de justificar. Os dois ficaram em silêncio um minuto, ele colocando as mãos no bolso — É melhor eu ir.
Os dois sabiam que não era bom tê-lo ali. A perspectiva de ter uma nova notícia, com provas que pareceriam irrefutáveis estampando uma nova capa era aterrorizante, mas Sakura não pensou direito o pedindo para ficar e tomar um café.
— Você está usando as roupas de ontem — ela apontou para o corpo dele, Sasuke olhou para si mesmo e se sentiu imundo dentro daquela sala tão branca e com o cheiro dela. — Vem. — ela o chamou com o dedo indicador, virando-se de costas sem esperar a resposta dele.
Sakura andou até sua cozinha sem realmente pensar no que estava fazendo. Ino chorava e dizia que Sasuke a salvou, que ela tinha que contar. Contar o quê? Mas naquelas condições não conseguiria uma explicação plausível de Ino, iria esperar para conversar com Ino e ajudar Sasuke a sair de lá sem que alguém o visse. Era muito cedo, porém, havia sido acordada no susto com a campainha, Ino passando mal de tanto beber e Sasuke com sua melhor amiga.
Ele deveria ir embora, ela pensou, poderiam conversar com calma no restaurante depois de ouvir a versão de Ino. Assim que voltou a sala, porém, sentiu o cheiro de cerveja vindo dele, percebeu as mesmas roupas da noite anterior e viu que era óbvio que bebera a noite toda também. Não o deixaria dirigir assim.
Ligou sua cafeteira e a deixou trabalhando. Cruzou os braços e apoiou o quadril no mármore da pia esperando ele se sentar em uma das cadeiras, mas ele não o fez, a olhava a todo o momento e aquilo era enervante, porque se lembrava que não estava apresentável.
Sasuke pensava o mesmo de si mesmo.
— Melhor tomar um café. Não pode ir embora assim.
— Obrigado. — inquieto, olhou para a cozinha dela, tão simples e genérica que não tinha qualquer semelhança com sua dona. Um ármario embutido em duas partes na cor branca e portas de vidro que tomava a parede direita em dois andares, a pia com armário na mesma cor, uma pequena mesa para quatro pessoas que parecia não ser usada com frequência. Sakura o olhava, os olhos levemente inchados curiosos em sua direção. Deveria ter ido embora, não queria ter que contar o que havia acontecido.
Naquele instante, tudo o que falara com Mei e decidira fazer parecia uma piada. Não negava e jamais negaria que estivesse atraído por ela, mas a facilidade que ele pensou enxergar naquela hora desmoronava e o puxava para a realidade. Estar ali, perto dela num momento íntimo o refrescava, atiçava suas vontades e confirmava suas incertezas, mas ao mesmo tempo o mostrava que a situação que o fizera chegar até ali era ridícula demais, ridiculamente realista. Estaria disposto a passar por tudo aquilo quando ela amava outro? Um outro que ele deixara inconsciente no canto escuro de um posto de gasolina…
— Você e Ino estavam juntos? — a voz dela saiu alta. Sasuke a escutou limpar a garganta e usava o tempo para coordenar a melhor resposta. — Digo, bebendo juntos…
Sakura engoliu em seco em frente a perspectiva que criava. Era estranho cogitar o que se passava por sua cabeça enquanto ele ficava quieto, porém, ela não conseguia criar um assunto antes de ir direto ao ponto. Mas não dava mais para segurar a curiosidade sobre o estranho encontro.
— Não, eu a encontrei no caminho para casa.
Sakura abriu a boca minimamente tendo compreensão que não, eles não estavam juntos do jeito que pensava. Aquilo agitou seu estômago. Passou a mão pela nuca, elaborando a próxima pergunta, porém, tudo chegava a um assunto pessoal: perguntar onde ele poderia ter passado a noite. Aquilo não era mesmo da conta dela, mas estava curiosa para saber como chegaram àquele instante depois de um programa magnífico, um comportamento hostil de Sasuke quanto ao conteúdo da conversa com Kakashi.
— O café… — ela disse quebrando o constrangedor silêncio e indo até a cafeteira que terminava o serviço. Esticou o braço pegando uma xícara dentro do pequeno armário. — Aceita algo para acompanhar? — perguntou colocando a xícara em cima da mesa com um sinal de que ele deveria se sentar.
— Não se incomode.
Sasuke, ao invés disso, deu a volta na mesa e foi até a pia lavar as mãos. Sakura sorriu com a cena familiar. Mesmo que estivesse em roupas diferentes, com um coturno enorme e pinta de homem mau, lavando a mão numa pia, dentro de uma cozinha parecia ser o chef que ela conhecia. Ele se virou indo direto para a mesa e puxando a cadeira sem cerimônia.
Ela se sentou servindo de uma xícara para si. Sorriu sem jeito o vendo cheirar seu café e beber um gole sem tirar os olhos dela. Ele não engoliu o café de uma vez, ela podia vê-lo mover o maxilar provando o café em sua boca antes de engolir. Sakura o acompanhou, fazendo uma careta logo que o líquido tocou sua língua.
— Esqueci do açúcar, droga. — Balançou a cabeça com a careta mais acentuada, o rosto começando a esquentar de vergonha. — Não beba isto! — Esticou a mão para pegar a xícara dele e ouviu a risada que raramente ouvia, bem baixa e sucinta.
— Gosto do café assim — ele tomou mais um gole para confirmar sua afirmativa enquanto Sakura o olhava sem realmente acreditar. — Tem um excelente aftertaste, para mim. — Vendo a interrogação se formando no rosto dela, acrescentou — O açúcar mascara o real sabor, Sakura, prefiro sentir desde a essência e escolher o que mais me agrada.
— Quer dizer que eu não gosto de café e uso o açúcar para me enganar?
E Sasuke pausou o que iria responder. Olhou-a tentando buscar qualquer sinal de que ainda falavam de cafés e açúcar, ou se já estavam usando de metáfora para falar sobre… Não, ela parecia alheia a este outro sentido.
— Provavelmente. Nunca vai saber se não der uma chance.
— Você falou bonito, mas ainda prefiro o docinho do açúcar — riu nervosa levantando-se para colocar açúcar no seu café. O olhar que ele lhe deu fora constrangedor, parecia estar falando alguma besteira — E não acredito que o açúcar seja somente um usurpador de sabor. — ela riu, agora calma, o vendo sorrir e se ajeitar para ouvir seu argumento, mexeu o café com uma colherzinha provando o sabor e deixando um gemido pequeno de satisfação para mostrar que havia conseguido deixar algo bom na frente dele. Sasuke se inclinou para frente deixando os cotovelos em cima da mesa e cruzou as mão por baixo do queixo aguardando — O açúcar é um dos ingredientes fundamentais para se fazer uma sobremesa, e eu amo sobremesas então, ele é essencial para mim.
— Você não disse isso. — ele apertou os olhos e sussurrou, perigoso. Sakura agradeceu a blusa de moletom cobrir os pelos eriçados de seu braço.
— Disse e repito. — desafiou erguendo uma sobrancelha e passando a língua pelos lábios para retirar resquícios de café. Notou os olhos de Sasuke descendo até eles e se demorarem um pouco lá.
— Posso provar que existem sobremesas sem açúcar. E você nunca mais vai precisar dele para se satisfazer.
Sakura precisou beber o café para engolir em seco sem parecer retardada. Aquilo estava sendo um flerte ou ela era muito audaciosa para pensar isso? Se fosse um flerte, ele estava indo bem. Muito bem.
Respirou fundo pousando a xícara com lentidão na mesa. Não o olhava, entretanto, usando do ato para pensar numa boa resposta sem que o real assunto ficasse deturpado.
— Dispenso comida diet e sem gosto. — ergueu os olhos para ele e puxou os lábios num breve sorriso que poderia ser de deboche se dependesse da interpretação dele.
— Sem gosto? — ele repetiu com um sinal de riso na voz. Parecia ainda mais perigoso. Sasuke levantou-se e, de onde estava, Sakura o percebeu maior do que era. Um sorriso despontou num canto da boca dele, como se fosse reflexo de algo que ele havia pensado — Domingo no Amaterasu.
E mesmo dizendo só aquilo antes de ir embora, ela sentiu o corpo arrepiar-se de novo, como se houvesse uma promessa ali. Agora, era ela quem pensava se tudo aquilo era metáfora ou não.
— Sasuke! — ele parou a caminho da porta ao ouvir seu nome ser chamado. Virou-se a tempo de vê-la jogando algo em sua direção. — Seu boné. Use-o quando sair e pegue o elevador de serviços. Hoje tenho encontro com a produção… — encolheu os ombros o vendo colocar o boné e acenar uma vez com a cabeça antes de ir.
— Boa sorte.
Assim que fechou a porta ela deixou o ar sair em uma lufada.
Mas o que foi isso?
E, naquela manhã, Sasori não era mais o protagonista de seus pensamentos.
❧
Havia deixado Ino dormindo quando saiu de casa apressada. Haveria uma gravação em seu ambiente de trabalho naquela manhã e teria que chegar mais cedo. Uma música animada tocava no rádio enquanto dirigia até o hospital, mas ela não se lembraria se perguntasse qual era, pois a sua cabeça mantinha-se ocupada pensando na loucura que estava acontecendo.
Havia perdido muito mais tempo do que deveria pensando nas intenções do chef Uchiha. Falando consigo mesma sobre sinais de que ele estava flertando com ela. No íntimo, queria que ele estivesse. Fazia bem para o seu ego depois do baque que sofreu por conta de Sasori. Não, não pensava que as suposições das revistas um dia se tornariam realidade, mas a mera chance dele estar dando este tipo atenção para ela era divertido, era bom.
Daria uma chance se surgisse uma possibilidade? se pegou pensando mais de uma vez. A resposta era incerta. Talvez uma vez? Depois que o programa acabasse, com certeza. Mas havia Sasori…
Então a mente dela ia mais longe, pensando em como seria ser tocada por ele, as mãos grandes e precisas de alguém que tem uma delicadeza não aparente à primeira vista, a força naqueles braços — suspirou mais de uma vez lembrando que Sasori nunca tivera um corpo como aquele — e aquele peitoral? Ele tinha tanta confiança, tanta iniciativa, um perigo charmoso naquele olhar. Sasuke era uma caixinha de surpresas que ela estava ansiosa em desvendar.
Riu de si mesma entrando no estacionamento. Para onde seus pensamentos a levavam? Culpou a pressão que sofria sobre eles, era culpa de terceiros ela estar pensando aquilo, certamente. Sasuke era mesmo um homem e tanto, deveria ser sim uma delícia passar uma noite com ele e acordar sentindo o cheiro de um café da manhã feita por aquelas mãos…
— Santo Deus, quanto mais eu penso sobre isso, melhor fica. — bateu a porta do carro rindo. Era uma boa distração pensar sobre Sasuke, afinal. Não queria refletir sobre ela e Sasori tão cedo, obviamente não sairia do programa porque ele havia pedido, mas como falaria isso sem brigarem?
Assim como já estava acostumada, atravessou a sala de espera sobre os olhares dos pacientes, familiares e até funcionários que ainda não haviam se acostumado com a “fama” televisiva dela. Cumprimentando-os rapidamente, seguiu até sua sala pensando no que poderia ser dito, no que perguntariam a ela naquela entrevista.
— Bom dia — Tenten entrou fechando a porta atrás de si. Sakura ajeitava sua mesa e guardava nas gavetas o que não deveria aparecer em rede nacional. — Sabe da Ino?
— Bebeu todas e apareceu em casa hoje de manhã — respondeu olhando para a disposição dos objetos — Não adivinha com quem ela estava.
— Sai?
— Quem é esse?
Tenten se sentou na cadeira em frente a mesa de Sakura e suspirou apoiando a bochecha na mão e brincando com o pêndulo de Newton, olhando uma bolinha bater na outra infinitamente.
— O pintor que ela conheceu quando foi tirar fotos num evento beneficente, lembra?
Sakura ergueu as sobrancelhas se lembrando de ter ouvido sobre ele.
— Era casado. — Tenten suspirou e Sakura abriu a boca chocada. — Ino estava mesmo gostando dele, aí a esposa ligou para ela ontem… Bom, foi uma treta e tanto. Fiquei preocupada.
— Que babaca.
— Imbecil. — Tenten deu um tapa forte nas bolinhas que batiam, mas Sakura não a censurou por aquilo. Passou a mão no rosto sentindo estar negligenciando suas amigas diante de tantas coisas em sua vida. — Mas se não era Sai, quem estava com ela?
— Sasuke, o chef Uchiha. — Sakura respondeu automaticamente, ainda pensando em como ajudar Ino quando a visse ao voltar para casa, nem ao menos viu a surpresa no rosto de Tenten.
— Como assim? O seu Sasuke?
— O próprio. Os dois apareceram na porta da minha casa. Sasuke disse que havia encontrado ela e ela pediu uma carona. Ele não sabia que eu morava lá, bom foi esquisito. — ela riu sem humor.
— E bota esquisito nisso. Ele só deu carona? — Sakura sabia o que estava implícito na pergunta de Tenten, o mesmo que ela pensara mais cedo.
— Sim, só uma carona. — respirou fundo olhando a hora na parede, ainda demoraria um pouco até que a equipe chegasse e Tenten não estaria ali se estivesse ocupada. — Sasori apareceu ontem no prédio. — decidiu falar. Normalmente deixaria isso só para ela, mas estava tão saturada que não se sentia apta a ser justa em suas próprias decisões. Além do mais, havia muito a ser compartilhado, começando pela aparição de Sasori.
— E como foi isso? — Tenten mordeu o lábio.
— Ele estava estranho. Queria que eu desistisse do programa.
— Você não vai fazer isso, não é? — Tenten foi cuidadosa e Sakura percebeu isso.
— Não.
Tenten respirou fundo e pensou um pouco antes de falar.
— O que mais ele disse? Como foi?
E Sakura contou tudo. Percebeu-se com vergonha de contar alguns detalhes, mas o fez. Parecia que contava sobre outra pessoa. Tenten estava mortificada, olhando-a sem reação quando acabou. Sakura desviava os olhos para o pêndulo, as pernas balançando inquietas por baixo da mesa.
— Isso não é… sadio. — Foi tudo o que Tenten conseguiu dizer antes de um silêncio ferrenho se instalasse entre elas.
Tenten procurava as melhores palavras para dizer aquilo, mas nada soava bom o bastante, delicado. Então uma enfermeira bateu na porta avisando que Kakashi estava lá.
❧
“— Eu sou Sakura Haruno, médica cirurgiã no hospital Senju. Cozinhar nunca foi meu forte, mas a paixão por fazer aquilo que gosto sempre me destacou, e hoje, graças ao chef Uchiha, posso afirmar que a culinária está ganhando um espaço no meu coração.
Sakura falava sorrindo para a câmera, atrás dela os diplomas que atestavam seus conhecimentos. Ao acabar de falar, algumas cenas dela andando pelo hospital e conversando com pacientes passava enquanto a voz do locutor do programa lembrava o telespectador do dia e hora que o programa ia ao ar. Então cortou para uma imagem dela de braços cruzados sorrindo em frente ao hospital, o jaleco voando junto, logo a imagem foi trocada por ela e Sasuke com suas dólmãs na foto promocional.
A voz dela finalizou o comercial:
— Essa batalha é minha.”
A televisão foi desligada e o controle apertado nas mãos. Os olhos castanhos continuaram na tela preta por mais um tempo. Havia um inchaço roxo embaixo de cada olho, e um ódio vingativo sendo remoído enquanto segurava o gelo em cima do nariz quebrado.
❧
betado por Hitsatuke
Fale com o autor