Notas iniciais
Olá gente bunita! Aqui é a Mirys! Pan foi para o AF se acabar com as comidas e eu vim trazer essa maravilha! Se esbaldem com o maior capítulo até o momento e preparem o coração para esse capítulo! Isis, feliz aniversário! Fique com esse chef de presente. Boa leitura!

— Quero o molho béarnaise pronto em cinco minutos — Sasuke gritou, logo verificando o filé mignon em uma das frigideiras. O aroma e o barulho de fritura, espátula raspando fundo de panela, orégano, hortelã, alecrim e carne assada, caldo borbulhando e faca fatiando legumes, tudo aquilo era como música relaxante aos ouvidos do chef.

— Sim, chef. — o ajudante gritou provando o molho e acrescentando mais um pouco de vinho branco.

Os planos de ficar em casa e trabalhar só à noite foram frustrados por sua maldita insônia que de tempos em tempos teimava em surgir. Dormiu não mais que quatro horas e demorou mais uma para desistir de tentar procrastinar e ir para o Tsukuyomi. Somente este e Susano’o abriam no horário do almoço e normalmente o Tsukuyomi era o menos movimentado por ficar numa rua com outros restaurantes concorrentes ao lado. E este era o motivo para que Sasuke o tivesse escolhido naquele dia. Porém suas expectativas quanto à uma tranquila e prazerosa tarde cozinhando foram tostadas quando de longe viu uma fila gigantesca começando quase no meio do quarteirão até as portas de seu restaurante.

— Estamos tendo que fazer reservas com dias de antecedência, senhor. — Foi o que o maître dissera assim que questionou sobre aquela agitação em frente ao seu restaurante — O sucesso foi instantâneo desde que o senhor começou a namorar e saiu na revista.

Sasuke até tentou explicar que não estava namorando, mas um grupo de mulheres se apressaram na direção dele implorando para receberem aulas de culinária. Sasuke teve que fugir para cozinha e ali permanecer.

Em qualquer outra circunstância ele estaria sorrindo à toa, mas ele não sentia nem um pouco da satisfação que deveria sentir. Negou todos os convites à mesa que os clientes faziam a ele, recebia os cumprimentos pelos garçons e teve que inventar uma desculpa padrão para todos que desejavam vê-lo, independente do assunto que queriam tratar.

— Senhor. — Um garçom magrinho e jovem chamou às costas de Sasuke com a voz baixa. O chef olhou-o por cima do ombro, as sobrancelhas franzidas sem motivo pessoal contra o pobre rapaz o fez parecer ainda mais assustador.

— O que é?

E Sasuke não estava sendo grosso, era natural. Mas como não ia com frequência até o Tsukuyomi, ainda conseguia amedrontar só com um olhar. Ele percebera a diferença do clima em comparação com Amaterasu e internamente ele gostava de como ainda o tratavam e o respeitavam sem questionar. Anotou mentalmente que jamais deixaria Suigetsu ali ou era provável que corrompesse todos em menos de uma hora.

O rapaz então retirou um bilhete do bolso e, um pouco trêmulo, estendeu a Sasuke. Era um guardanapo timbrado com o logo rubro de seu restaurante dobrado duas vezes, ao abrir, viu um número de telefone escrito com uma caligrafia bonita, e logo abaixo o nome e sobrenome de uma mulher. Sasuke já esperava aquilo, era comum recebê-los no Amaterasu desde que começara o programa e ainda mais depois de sair na capa da segunda revista. Amassou o guardanapo e empurrou para o franzino rapaz dando as costas para terminar seu filé.

— Senhor…

— O restaurante está lotado, não quero que nenhum de vocês — virou a cabeça para mais dois garçons que entravam para buscar pratos, os dois estremeceram — venha até mim com perda de tempo, fui claro?

— Sim, senhor. — responderam os três garçons tensos. Um deles jogou no lixo mais dois guardanapos dobrados como o outro e Sasuke respirou fundo uma, duas, três vezes para não começar a pirar.

As pessoas conseguiam estragar o seu humor com rapidez, a primeira delas era Naruto a quem iria culpar a vida toda por todo aquele estardalhaço.

Sua cabeça doía por conta das cervejas que bebeu, do pouco que dormiu e do estresse que teve durante a noite depois de nocautear Sasori. Esperava que a qualquer momento alguém chegasse dizendo que sua cara estava numa revista com uma manchete que o transformaria num bêbado que arruma confusão na madrugada. Isso se não ligassem o abatido como namorado de Sakura, o que deixaria a coisa ainda pior.

Bufou e balançou a cabeça para se concentrar. Colocou o filé suculento no prato branco, fez um sinal com o dedo e o assistente lhe entregou a molheira. Delicadamente Sasuke traçou três filas com o molho no prato e colocou duas vagens salteadas dispostas de modo elegante ao lado da carne. Deixou a molheira ao lado sinalizando que poderia ser levado ao cliente.

Mesmo tendo muitos pedidos, estava satisfeito com a calma e coordenação que sua equipe tinha, uma preocupação a menos dentro da cozinha e de sua cabeça. Estava enxugando as mãos e olhando ao todo para ver como estava o andamento dos preparos quando viu o mesmo garçom franzino correndo em sua direção com o telefone em mãos. A única coisa que conseguia fazê-lo se arrepender de ter saído de casa para trabalhar era todo aquele alvoroço em cima dele. Impaciente deu as costas para o rapaz indo até a subchef.

— Se não for importante, diga… — Já começou de longe, mas o rapaz continuou correndo e parecia aflito.

— Sua cunhada, senhor.

— Konan? — Sasuke atendeu rápido e seu toque foi deixado em cima da mesa quando ouviu o soluço dela.

O Itachi… ele passou mal. Eu não sei... Sasuke vem aqui por favor. — A voz embargada não conseguia falar sem falhar.

Sasuke gritou por Karin, sua subchef, dando ordens ainda com o celular no ouvido. Sua urgência assustou os cozinheiros, mas todos eles perceberam a seriedade do caso. Ele deixou o restaurante pelos fundos enquanto tentava tirar de Konan qualquer informação sobre o que tinha acontecido e sobre onde eles estavam. Assim que ela conseguiu dizer o nome do hospital, ele saiu cantando pneus.

Entrou tão rápido naquele hospital e passou os olhos superficialmente pelo local apenas para encontrar sua cunhada, que nem percebeu os olhares e cochichos em sua direção. Konan estava sentada com as mãos cobrindo o rosto e as pernas mexendo-se inquietas. Sasuke a chamou assim que a viu e os olhos molhados dela o fizeram ter um sentimento ruim.

— O que aconteceu? Cadê o Itachi?

— Cirurgia. — Konan respondeu, aparentando estar mais calma. Ela passou a mão pelo rosto e respirou fundo quando Sasuke ficou pálido à menção da cirurgia. — Apendicite, acredita? Apendicite! — a voz dela aumentou uma oitava, desacreditada. — Aquele idiota com dor esse tempo todo e não vinha no médico para ver. Ah, Sasuke, eu vou bater tanto nele pelo susto que me deu, eu te juro.

Sasuke soltou uma risada anasalada sem humor, sentou-se ao lado de Konan e fechou as mãos em frente aos joelhos.

— Eu já tinha pensado o pior. — passou a mão pelos cabelos, percebendo que a franja escapara do coque que havia feito para cozinhar.

— Desculpa, eu estava tão nervosa. Sabe como Itachi é metido a machão e do nada ele caiu sentindo muita dor, apertando o lado direito da barriga e nem ao menos andar até o carro ele conseguia. Eu estava tão desesperada, não consegui nem ligar para a sua mãe. — Konan suspirou, esfregando o rosto mais uma vez.

— Foi melhor você não ter feito isso do jeito que estava.

— Sim. Eu nunca senti tanto medo, Sasuke. — Konan apertou a boca e os olhos encheram-se de lágrimas novamente. — Obrigada por ter vindo.

Sasuke, sem jeito, esfregou as costas dela e desviou os olhos para o local em que estavam. Era um hospital particular bem grande, havia vários sofás como o que estavam sentados dispostos pela sala de espera, vasos com flores e quadros em tons claros nas paredes brancas, mas o que mais chamou a atenção de Sasuke foram as pessoas — paciente, acompanhantes e enfermeiras — olhando para ele, algumas discretas e outras nem tanto. Algumas mulheres até cochichavam e desviaram rápido o olhar quando ele olhou para elas.

Balançou a cabeça e ignorou, aquela atenção era algo com que havia de se acostumar por enquanto até que o programa acabasse. Encostou as costas no sofá e cruzou os braços por cima da dólmã branca.

— É uma cirurgia simples? Vai demorar muito?

Konan negou com a cabeça e tirou um lenço da bolsa.

— Uma enfermeira me acalmou quando disse que não era grave apesar de ser uma emergência. Menos de uma hora e ele já vai estar no pós operatório. — ela limpou o nariz e Sasuke balançou a cabeça mais aliviado. — A propósito, qual é mesmo o sobrenome da Sakura?

E Sasuke estranhou a pergunta tão repentina. Demorou um pouco para puxar na memória e não tinha certeza se era daquele jeito.

— Haruno. Por quê? — as sobrancelhas se uniram, mostrando sua confusão e curiosidade quando olhou para Konan.

Ela sorriu antes de limpar o nariz mais uma vez.

— É ela quem está operando Itachi. — disse parecendo um pouco mais aliviada. Sasuke arregalou os olhos genuinamente surpreso. — Espero que ela seja como médica o contrário do que é na cozinha.

E Konan quase riu de sua própria piada mesmo ainda estando tensa. Era um sinal de que ela estava realmente mais calma. Sasuke encostou a cabeça na parede e Konan levantou-se para ligar para Mikoto e Fugaku. Aquela tarde estava sendo tensa demais, nem ao menos havia dormido o suficiente para conseguir digerir toda aquela agitação desde que saíra de casa, e agora Itachi dava um susto desses sendo submetido à uma cirurgia e a própria Sakura, aquela que ele têm como protegida e pupila num programa de culinária, a mesma que parece tão inofensiva e inocente numa cozinha, é a médica responsável pela saúde do seu irmão quando era fácil demais esquecer quem ela realmente era.

Um pouco mais de vinte e cinco minutos depois da chegada de Sasuke, Mikoto e Fugaku chegaram. Konan acalmou-os repetindo o que a enfermeira dissera, mas não foi o suficiente para Mikoto deixar de se preocupar. Todos já estavam ansiosos por alguma notícia quando Sakura entrou na sala, Sasuke foi o primeiro a vê-la procurando Konan com os olhos.

Ela estava de jaleco, os cabelos presos e o rosto quase sem maquiagem. Os olhos verdes atentos cruzaram com os dele quando uma enfermeira apontou estranhamente animada para a família.

— Doutora — Konan levantou-se a reconhecendo e Sasuke a acompanhou — Como ele está?

— Meu filho está bem? — Mikoto se juntou a Konan, as duas nervosas olhando para a médica que parecia atordoada com a presença de Sasuke ali, olhando-o com surpresa enquanto as mulheres tomavam a frente.

— A cirurgia acabou há 10 minutos e ele já está no quarto. O senhor Uchiha está bem e terá uma rápida recuperação. Ainda está sob efeito da anestesia, mas em breve ele acordará e vocês poderão vê-lo. — Sakura se recompôs sorrindo e acalmando-as.

Sasuke manteve-se ao lado do pai, um palmo mais alto e de braços cruzados. Os olhos estavam inteiramente nela, apreciando aquela faceta de Sakura que ele nunca conseguiu imaginar. Ela o olhou mais uma vez e ele sorriu, agradecido e orgulhoso pelo trabalho dela.

— Obrigada, Sakura. — Konan a surpreendeu dando um abraço apertado na médica que não soube reagir.

— Minha querida, é uma pena nos conhecermos nesta circunstância. — Mikoto a abraçou em seguida, mesmo Sakura não tendo tido reação — Sou Mikoto Uchiha, mãe de Sasuke e Itachi. Não sabe o prazer imenso que é finalmente conhecê-la pessoalmente e meus agradecimentos por salvar a vida de Itachi não serão suficientes. — Konan abraçou a sogra a ajudando a se sentar até que tivessem autorização para ver Itachi.

Sakura permaneceu em pé, as mãos jogadas ao lado do corpo, abriu a boca duas vezes sem saber como responder aquilo, estava encabulada e sem reação. Olhou para Sasuke e ele parecia tão atordoado quanto ela. Sakura limpou a garganta e ofereceu a mão a Fugaku quando este se adiantou para cumprimentá-la, receosa de mais um abraço.

De sua visão panorâmica, Sasuke pôde perceber algumas pessoas tirando fotos deles, até mesmo funcionários do hospital que deveriam manter a discrição.

— Um prazer conhecê-lo, senhor Uchiha. As senhoras também. Fiquei surpresa quando vi o sobrenome no prontuário. — riu sem graça, e Sasuke viu a sua aluna ali naquele pequeno segundo. Ela olhou nervosa para os lados e não se aproximou nem um passo de Sasuke, ele também não o fez. — Bom, uma enfermeira irá avisá-los quando puderem ir vê-lo. Espero encontrá-los em uma ocasião mais calma. — deu um passo para trás sorrindo, sua intenção era ser educada e sair dali, mas a resposta de Mikoto a travou.

— Sasuke tem que levá-la até o sítio quando Itachi estiver recuperado. — a matriarca falou com naturalidade enquanto usava um lenço que Konan a oferecia de sua caixinha.

Sakura e Sasuke trocaram olhares nervosos, nenhum dos dois entendia o que ela queria dizer com aquilo.

— Claro, seria ótimo. Com licença. — e depois de uma breve reverência ela se virou e saiu rápida de lá.

Sasuke sentou-se ao lado da mãe e o pai se acomodou, silencioso como sempre, em outro sofá. As duas conversavam sobre Itachi, Konan relatava como tudo havia acontecido e as duas concordavam com a imprudência dele por não ter procurado um médico antes quando Fugaku chamou a atenção de Sasuke.

— É uma boa mulher, filho. Médica. — E o pai acenou com a cabeça duas vezes em aprovação.

E Sasuke esqueceu das pessoas cochichando, do celular vibrando com notificações e do estado de Itachi. Seus pais achavam mesmo que os dois estavam namorando.

Sakura sentia que o dia podia acabar assim que passou seu cartão de ponto e foi embora. Ainda estava assustada com a comoção da família Uchiha sobre ela e surpresa por ver Sasuke duas vezes no mesmo dia sob situações diferentes das que deveriam acontecer. Em sua casa e em seu local de trabalho, quando o correto teria que ser o contrário.

Andara a manhã inteira com a equipe de produção e Tsunade em seu encalço, usara aquela desculpa para se esquivar de Tenten. A reação da amiga foi desconfortável e a confusão que fez na cabeça dela concordando e discordando de Tenten quase a deixava tonta. Demorara menos de duas horas para gravarem tudo o que queriam e disseram que ainda naquele dia mostrariam uma chamada do programa com ela como protagonista em seu local de trabalho. Não estava ansiosa para ver, muito pelo contrário, queria se desligar do mundo exterior e tudo o que tivesse relação com sua imagem.

Só foi pensar nisso que um ônibus com a propaganda do programa parou ao seu lado no semáforo. Choramingou descrente e bateu a testa no volante quando seu rosto e o de Sasuke apareceram imensos perto de sua janela.

— Qual é… — resmungou batendo de leve a testa no volante.

Tenten já havia ido embora quando ela recebeu o chamado de emergência para a cirurgia de retirada de um apêndice.

Itachi Uchiha.

Precisou ler o sobrenome duas vezes para ligar os pontos e chegar à conclusão de que era realmente o mesmo sobrenome de Sasuke, um sobrenome que não era comum na cidade. Mas assim que viu o rosto de Itachi não teve dúvidas de que seriam no mínimo parentes bem próximos.

Em seu ambiente de trabalho ela agia com postura, ética e seriedade, mas todos os seus valores foram postos a prova quando entrara na sala e dera de cara com Sasuke e toda a sua família ali. Não se lembrava qual fora a última vez que se sentira tão envergonhada, e aquilo era um absurdo. Estava ciente de que o sobrenome era igual, mas a perspectiva de vê-lo ali e ser o irmão do seu paciente era tão remota que sequer passou pela sua cabeça.

Sakura estava agitada, mexendo os dedos pelo volantes enquanto ia em modo automático para casa. Sua cabeça trabalhava a mil, impossibilitada ao limite de se concentrar em qualquer outro assunto naquele momento quando Temari ligou. Sakura precisou estacionar o carro para colocar o celular no painel e continuar dirigindo, não confiava em si mesma para fazer aquilo enquanto dirigia.

— Tema?

Olá. Já está indo embora?

— Estou a dois minutos de casa. Aconteceu alguma coisa?

Ouviu alguém dizer algo ininteligível e Temari mandar a pessoa calar a boca.

Estou aqui na Ino, você pode vir direto para o apartamento dela para conversarmos?

Sakura sentiu um aperto no estômago como se pressentisse algo ruim.

— Claro. Como ela está?

Agora bem. Não é, Ino? E como você está?

Sakura estranhou a ênfase de Temari, mas achou melhor não questionar enquanto não chegasse.

— Bem. — respondeu virando na esquina de seu prédio, o estômago ficando ainda mais agitado. — Estou entrando no estacionamento, vou só trocar de roupa.

Ok.

Dentro do elevador ela ia cantarolando a música que tocava todo dia, camuflando bem a ansiedade estranha que estava sentindo. Quando as portas se abriram ela teve uma sensação ruim ao olhar para o corredor de seu apartamento, a lembrança de Sasori pressionando-a contra parede figurativa e literalmente a fez retesar o passo.

Por que ele havia feito aquilo? Por que agia daquela maneira?

Aquilo doía, e ela só conseguia sentir isso quando se lembrava. Parecia ter acontecido há tanto tempo quando na verdade tinha sido na noite anterior.

De roupa trocada e um pote de sorvete nas mãos, Sakura voltou ao elevador pronta para consolar Ino. Era bom ter Temari ali, poderiam distrair Ino com mais facilidade e acabar se distraindo também. Talvez até conversasse com elas sobre Sasori quando tudo estivesse bem.

Balançou sobre as pantufas depois de tocar a campainha. Sentia-se muito agitada, ansiosa demais e devia esse fato a Sasori. Mas tinha que se manter calma, e por isso respirou fundo duas vezes e sorriu elevando o pote de sorvete quando a porta começou a se abrir. O sorriso de Sakura, porém, foi diminuindo quando viu que Tenten a abria e a encarava um tanto séria.

— Oi. — Sakura cumprimentou sem graça. Não sabia como se portar depois do clima estranho que ficou em sua sala.

— Entra, Sá. A Ino precisa te contar uma coisa. — disse e era diferente do tom seco que Sakura esperava encontrar na voz de Tenten. Parecia haver um pouco de pena.

Sakura ignorou isso, assim como ignorou o sorriso estranho de Temari e foi direto até Ino, que estava sentada no sofá com as pernas encolhidas. Abraçou a amiga, que depositou a cabeça em seu pescoço.

— Oh, meu amor. Não fica assim por conta daquele idiota. Você é muito linda para ficar com os olhos inchados por causa de homens. — Sakura tentou brincar, mas parecia que o clima estava tão denso que pareceu inapropriado e fechou a boca.

Ino fungou uma vez, deixando um sorriso sem graça na direção de Sakura.

— Valeu, amiga. Com aquele lá eu me resolvo depois. Tem… — ela respirou fundo e olhou para as duas que puxavam os pufs para se sentarem perto do sofá. — Tem outra coisa que você precisa saber. Sobre ontem a noite.

E Sakura sentiu um peso cair no estômago. Ela engoliu em seco e olhou diretamente para os olhos azuis de Ino.

— O que é? — perguntou com medo. De quê? Ela não sabia ao certo. Tenten a olhou e ela sentiu um nó na garganta, sem pensar ela disse em voz alta — Eu acho que sei…

— Sabe? — Temari parecia surpresa, então Tenten apertou a mão de Sakura e acenou positivamente com a cabeça. Ino arregalou um pouco os olhos e pareceu desconfortável em seu próprio sofá. Limpou a garganta e começou:

— Bom… — Ino soltou o ar pela boca, os olhos desviando para o chão, para as amigas e voltando para Sakura — O programa já tinha acabado quando a mocreia ligou, foi um barraco. — ela disse rindo sem graça, Sakura puxou um sorriso por educação, mas estava ansiosa querendo saber o que ela tinha para falar diretamente para ela. — Tentei te ligar para saber se estava perto, tentei ligar para todas, na verdade, então saí para beber e chorar. Eu estava tão louca… — Os olhos encheram-se de lágrimas e uma risada amarga saiu. Sakura apertou a mão de Ino confortando-a para que continuasse, mostrando que estava preparada quando na verdade sua garganta se fechava e o estômago contorcia-se.

— Tudo bem, Ino. — Tenten inclinou-se perto delas — Sakura já está um pouco ciente…

Ino enxugou a lágrima.

— Amiga, eu te juro que eu não sabia que era ele. Na verdade, eu só reconheci quando estava vindo embora. Foi tudo tão rápido e… Eu estava atrás de um táxi e acabei chegando até o posto de gasolina e ele… Oh, meu Deus.

Temari puxou Ino para um abraço apertado quando ela começou a chorar e soluçar. Sakura estava desnorteada, sem reação. A imagem tentando ser passada em sua mente sem sucesso, o estômago revolto e a cabeça começando a latejar.

— Sasuke te contou algo, não? — Tenten perguntou — Sobre o que aconteceu?

Sakura negou com a cabeça, sentindo o seu próprio corpo estremecer.

— Sakura, eu te juro que eu não queria nada com ele. Te juro. Eu sei que você gosta dele, mas ele…

— Ino, ele é solteiro, você é solteira. Está tudo bem, sério. — Sakura afagou o ombro de Ino interrompendo-a, sentia medo do que ouviria.

Ino balançou a cabeça e Tenten suspirou afagando a coxa de Sakura.

— Ele não é solteiro, ele tem você. Eu ainda não acredito. — Ino tapou a boca murmurando pedidos de desculpa.

— Não foi sua culpa — Temari e Tenten diziam em voz baixa enquanto Sakura parecia ser a única perdida ali.

— Ele não é nada meu, Ino. — Acrescentou com a voz estranha. Limpou a garganta e ergueu o rosto da amiga para que olhasse em seus olhos — Acredite em mim, aquilo tudo é fofoca. Está tudo bem, sério.

E então as três olharam para Sakura com as sobrancelhas franzidas. Um instante se fez somente com um silêncio esquisito e as três encarando uma Sakura confusa.

— Como assim? Do que você está falando? — Temari foi quem se pronunciou primeiro.

Sakura mexeu-se no sofá incomodada, estava completa e inegavelmente perdida. Tirou o pote gelado de seu colo e colocou-o no chão, usando o momento para ver se conseguia pensar. A única coisa que passou por sua cabeça a fez ter ainda mais medo e um tanto de vergonha. Tomou coragem e ergueu os olhos para as amigas.

— De quem estão falando? — perguntou sem jeito.

— Sasori. — As três responderam de uma vez, como se fosse óbvio.

E Sakura sentiu 15 toneladas serem tiradas de cima dela. O estômago relaxou e o bolo na garganta diminuiu. Agora era ela quem olhava para as amigas sem entender.

— Ok, o que aconteceu?

Temari e Tenten se olharam e Ino pareceu confusa antes de começar o seu relato:

— Eu estava no posto atrás de um táxi quando ele me abordou. Eu não sabia que era ele, eu juro. Ele… tentou me agarrar. — pausou esperando a reação de Sakura e viu os olhos verdes se arregalarem — Eu o empurrei, estava tonta, enjoada. Eu te juro que eu não dei liberdade para ele, Sakura. Eu juro. Foi tão rápido.

— Ele te machucou? — Sakura perguntou aflita. Algo dentro dela começava a borbulhar. — O que ele te fez, Ino?

— Ele tentou me beijar. Queria me levar para casa. — Ino deixou tudo sair e Sakura escutava aquilo com muito menos tensão que antes, entretanto havia um vinco em sua testa enquanto ouvia o tom quase desesperado de Ino — Ele me apertou contra a parede… Eu senti tanto medo. Eu sei que é difícil…

Mas Sakura não ouviu mais nada. A própria imagem sendo apertada na noite anterior veio em sua mente. Sasori sussurrando em seu ouvido, o pavor pela presença dele em cada poro de sua pele. De repente não parecia impossível que algo assim tivesse acontecido. Depois do dia anterior ela não duvidaria que Sasori seria capaz de algo como aquilo. Teve ânsia de vômito ao imaginar a cena, e ela vinha clara em sua mente. Então, e só então percebeu que antes era em Sasuke que estava pensando.

— E Sasuke? Onde ele entra em tudo isso? — perguntou sem ao menos perceber se havia ou não interrompido Ino.

Ino sorriu de verdade, então.

— Ele me salvou. Tirou o Sasori de cima de mim e deu um soco tão forte que ele caiu desmaiado no chão.

E essa parte da história não era do conhecimento das outras duas também, e como Sakura elas abriram a boca surpresas. Sakura sentiu seu peito se aquecer e quase sorriu também.

— Ele estava atrás de um táxi para mim, mas eu estava tão assustada que fiz ele me trazer aqui. Ele foi incrível. — Ino continuou limpando uma lágrima que escorreu, o sorriso ainda no rosto. — Preciso agradecer ele corretamente. Mas, sobre o Sasori…

Mas Sakura a interrompeu erguendo a mão. Achou que algo fosse destroçar dentro de si quando começasse a falar, quando digerisse que o Sasori, o amor da vida dela- havia feito aquilo com Ino. Pensou que poderia chorar e ficar deprimida por imaginar que ele poderia ter feito aquilo com tantas outras. Mas ela não estava triste, estava revoltada, indignada, enojada.

E, diferente da forma que se comportara em frente a Tenten mais cedo, ela contou às amigas o que havia acontecido na noite anterior. Temari já havia socado uma das almofadas umas três vezes, Ino escutava atordoada com a boca aberta e Tenten escutava tudo aquilo mais uma vez percebendo a diferença na postura de Sakura.

—… E naquele dia, no encontro, ele se comportou tão grosseiramente com Sasuke. — ela disse como se tivesse muita coisa entalada em sua garganta. Nisso o sorvete já estava sendo consumido por quatro colheres diretamente no pote. — Eu senti tanta vergonha. Mas eu o conheço há tanto tempo, namoramos e ele nunca foi assim.

— Já li sobre esse tipo de gente — Temari disse — Psicopatia o nome deste distúrbio dele.

— Vira essa boca. — Tenten comentou.

— Olha, vou ser bem sincera, Sakura — Temari tomou a palavra mais uma vez, apontando a colher para Sakura e os olhos sérios — Sempre achei uma palhaçada ridícula ele querer que você aprenda a cozinhar para casar.

— E o voto de castidade? Vai pra puta que pariu ficar sem sexo até o casamento. — Tenten quase gritou indignada.

Sakura estava assustada com a naturalidade com que ouvia aquilo e não se sentia mal. Vergonha ela sentia, mas não verdadeiramente mal.

— Deve ter disfunção — Ino cogitou um tanto fanha depois de chorar tanto. O clima estava tão descontraído àquela altura que Temari praticamente gargalhou — Faria sentindo se precisasse esconder isso conseguindo enrolar a Sá no processo mostrando um poder que o faria se sentir mais macho. Desculpa, amiga.

Sakura encolheu os ombros e suspirou.

— Eu me sinto tão estranha — ela quase sussurrou e as três amigas a olharam — parece que tudo o que aconteceu entre mim ele foi com outras pessoas, sabe? Eu estava tão cega que toda a paixão já havia ido embora e eu nem havia percebido até agora. Eu quero transar e não é com ele! — ela aumentou a voz e as três puderam rir. — Eu não acredito que deixei de viver por causa daquele babaca.

— Uma vez eu te disse duas coisas absurdas — Ino disse puxando a mão de Sakura para que prestasse atenção nela — Que se um dia o conhecesse eu não saberia como cumprimentá-lo de tão chique que ele parecia ser e, que você se empenhasse no programa por ele. Bom, eu dei uns bons chutes o cumprimentando e isso já limpou um pouco a minha alma, mas sobre o programa…

— Eu vou ganhar por mim. — Sakura completou sentindo o coração bater mais forte. Sorriu sentindo uma liberdade que pensou jamais sentir. — Eu vou ganhar. E vou afastar Sasori para sempre. O que ele fez… Ele que vá atrás de uma idiota para ser a empregada dele.

E as quatro brindaram com uma colherada cheia de sorvete.

— E convenhamos — Tenten sorriu de um jeito malicioso — Muito melhor um homem bonito cozinhando para você…

Temari segurou o riso e Ino olhou feliz para a amiga. Sakura engoliu o sorvete de uma vez e sentiu tudo congelar. Desistiu de contar que operou o irmão de Sasuke e que o vira no hospital, sobre a família dele e sobre a vergonha que sentiu, desistiu para não dar mais abertura para elas. Então virou-se para Ino e jogou seu celular no colo dela.

— Ok, ligue para o Sai. Agora ele vai se arrepender de ter te enganado.

Sakura puxou a barra do vestido de forma nervosa. Demorar tanto para escolher o que vestir para o treino, algo que ela jamais havia feito. Dentro do carro havia se arrependido do comprimento e da cor, também achava que tinha passado maquiagem demais. Antes de chamá-lo tirou os anéis dos dedos e colocou dentro da bolsa, aquilo havia sido um exagero. Para que anéis se iria tirá-los para cozinhar?

Alisou a saia do vestido e respirou fundo mandando uma mensagem de texto dizendo que chegara. Já se passava das onze da noite do domingo quando ele mandou mensagem dizendo que ela já poderia ir. Ainda havia bastante movimento naquela avenida e ela pôde ver dois fotógrafos atrás de uma árvore. Respirou fundo tentando não ficar nervosa.

Quando a porta se abriu, ela percebeu que não era Sasuke quem a recepcionava.

— Boa noite, doutora Haruno. — o rapaz de sorriso sacana e cabelo platinado fez uma exagerada reverência quando ela entrou — Sou Suigetsu, e devo dizer que a senhorita é muito mais bela pessoalmente.

— Obrigada, Suigetsu. — Sorriu sem graça olhando em volta para o restaurante vazio. Sua vistoria parou quando chegou à porta da cozinha, onde Sasuke estava de braços cruzados, de camisa social azul, as mangas dobradas até os cotovelos e o tecido bem marcado em seus músculos, o cabelo preso com apenas uma mecha curta da franja caindo sobre sua testa, usava calça jeans escura e os coturnos selvagens que normalmente calçava. Parecia que mais alguém havia se preocupado com o que usaria naquela noite.

— Saia pelos fundos, Suigetsu. — Sasuke disse alto.

— Ah, vou ficar um pouco para ajudar se precisarem de mim. — insistiu com a voz quase esganiçada, ainda sorrindo com todos os dentes para Sakura.

Ela seguiu até Sasuke enquanto o chef suspirava impaciente olhando para seu subchef.

— Sai daqui.

— Não.

— Sai. Anda.

— Nem pensar.

— Suigetsu.

E até mesmo Sakura estremeceu com aquele aviso perigoso implícito na voz de Sasuke. Suigetsu se deu por vencido e levantou as mãos como se desistisse.

— Ok, ok. Pelos fundos. Como um cachorro. Ok. Foi um prazer conhecê-la, doutora. — ele girou nos calcanhares de forma teatral e beijou a mão de Sakura, ela quase gritou com o susto.

Suigetsu deu um sorrisinho implicante quando passou por Sasuke sumindo nos fundos da cozinha.

— Boa noite, chef. — sentiu o perfume misturado com carne quando se aproximou.

— Boa noite. Espero que não tenha jantado. — sorriu de canto, contendo sua vontade de olhá-la dos pés à cabeça quando passou por ele até a cozinha.

— Não seria boba de comer antes de vir até aqui. — sorriu quando estava a frente dele e lhe deu as costas entrando na cozinha logo em seguida.

Sasuke respirou fundo e sentiu o perfume floral dela. Aquele que mexia com os sentidos e despertava o apetite.

Um breve silêncio se fez e os dois tiveram consciência de que estavam sozinhos. Isso nunca havia sido um problema antes. Sasuke a assistiu andar sobre os saltos até a bancada arrumada com os ingredientes para a receita, ela inclinou-se sobre eles para olhar e ele não pode desviar os olhos da bunda redonda que desenhava sob o vestido quase curto. Engoliu em seco dando as costas para ela para fechar a porta da cozinha e tentar se concentrar em outra coisa que não fosse o corpo e o cheiro dela.

— E como está seu irmão? — Iria se limitar a falar somente de um membro da família, ainda assustada com os outros calorosos demais.

— Muito bem. — respondeu se aproximando dela e apoiando uma mão sobre a bancada, ao lado dela. — Fica dizendo que irá falar para todos que a cicatriz é de uma briga de bar.

Sakura riu encostando o quadril na bancada e ficando de frente para ele. Um agito tomou seu estômago quando olhou no rosto bonito dele, a barba rala por fazer, o queixo quadrado e másculo, os olhos negros e baixos sob as sobrancelhas escuras. E aquele cabelo preso despretensiosamente charmoso? Ela umedeceu os lábios e olhou para as pontas dos saltos.

— É uma cicatriz bem legal mesmo. — comentou achando ridículo o que disse assim que saiu. — Eu assustei quando vi o sobrenome, não se vê muitos Uchiha por aí. — levantou os olhos para ele.

— Não, somos só nós. Mas deve ter percebido que era meu irmão quando viu a cara dele. Como deve ter visto, somos todos parecidos. — Desencostou da bancada e puxou um sorriso — Obrigado.

Ela levantou os ombros um pouco tímida.

— Era só para você ver que eu não sou um desastre como cirurgiã. — brincou mas sentia-se estranha. — Aliás, Ino me contou sobre… sabe? — deixou o ar sair pela boca, o sorriso não brincava mais em seu rosto e no de Sasuke também. — Eu nem sei como te agradecer por ter ido ao socorro dela e… — ela o olhou e tentava expressar toda a sua sinceridade — por ter socado ele.

E o sorriso que ela puxou o surpreendeu. Sasuke mexeu as sobrancelhas e limpou a garganta sem saber como reagir aquilo. Realmente não esperava aquele tipo de reação vindo dela depois de saber que ele havia batido no namorado dela.

— Eu teria feito por qualquer uma.

— Eu sei que sim.

— Eu sinto muito por ele ter…

— Está tudo bem. — E ela sorriu contida.

Sasuke respirou fundo e olhou para as suas panelas. Um silêncio constrangedor iria se apoderar deles se ele não dissesse que iria começar a preparar o salmão para que ela aprendesse e provasse. A descontração tomou o lugar do desconforto e logo os dois estavam concentrados na receita e no preparo. Ou quase concentrados, se ela não tivesse tido problemas para amarrar o avental e ele ter que ajudar, e se ele não ficasse tão sexy mexendo numa panela com aquela manga apertando o braço, os olhos concentrados no que fazia e a voz grave ditando o passo a passo de forma apaixonada.

Sasuke serviu um pouco de vinho branco para ela enquanto cozinhava, dando as dicas que ela poderia precisar na hora do preparo.

— Tentei fazer em casa duas vezes. Na sexta fiz na casa de Ino, mas ficou com gosto forte de gengibre. Temari acabou jogando o salmão num ensopado. Ontem eu até que deixei ele comestível — comentou olhando para o molho sentindo o cheiro bom que deveria ter — Mas não chegou nem perto disso. — riu e tomou um pouco de vinho.

Sasuke pegou uma colher e colocou um pouco do molho para ela experimentar, Sakura com a mão direita ocupada com a taça ficou com medo de se atrapalhar e fazer algo errado só com o ato de trocar de mão para pegar a colher, então somente abriu a boca e deixou que ele a servisse. Sasuke apreciou aquele momento com mais fervor do que imaginou.

E esse momento de apreciação seria estendido durante o jantar, os gemidos de satisfação dela a cada garfada, os lábios vermelhos passando lentamente pelo garfo, o sorriso encantador que o conduzia à partes de sua imaginação que gostaria de explorar na vida real.

Ela parecia mais risonha e ele sabia que era por causa do vinho, ela havia dito no primeiro dia que era muito fraca para bebida e estava de estômago vazio quando começara a tomá-lo.

— Isso estava divino, chef. Divino.

— Pode me chamar de Sasuke. — ele tomou de sua cerveja, deixando o vinho somente para ela.

— Ok. Estava divino, Sasuke. — empurrou o prato limpo pousando a bochecha na mão livre enquanto a outra movia o vinho dentro da taça. — Seria tão mais perfeito se eu só comesse e não precisasse me preocupar em tentar replicar o prato. Você faz parecer ser tão simples.

— Não me vejo retirando apêndice das pessoas — Sasuke balançou a cabeça mostrando o valor dela. — Aliás, para que serve um?

Sakura riu. Era comum escutar que apêndice servia apenas para inflamar.

— O apêndice, na verdade, é um órgão que perdeu sua real função com a evolução humana, assim como o cóccix e o dente do siso — Sakura disse tentando ser o mais didática possível, sabia que estava um pouco alta por conta do vinho, mas não se incomodava. Na verdade, se sentia à vontade tendo sua área sendo colocada em pauta, tendo ele como o leigo pela primeira vez. — Mas alguns seres humanos ainda não estão preparados para perdê-lo. Ironicamente, o apêndice armazena as boas bactérias que auxiliam no controle de infecção intestinal. — E os dois riram. — O do seu irmão estava supurado.

— O que é isso? — Sasuke estava se divertindo ouvindo-a falar. Era a primeira vez que conversavam sobre a vida dela sem ser dentro de uma cozinha.

— Com pus e secreções. — e ela gargalhou com a careta que ele fez. — Desculpa, eu precisava ver a sua reação.

— Dizer essas coisas na minha cozinha é quase um insulto. — ele riu se levantando. — Eu devia fazê-la treinar.

— Oras, Sasuke… — ela riu se levantando quando ele fez sinal para que se aproximasse. — Prometo que a partir de amanhã vou colocar a mão na massa e te orgulhar. O que vai aprontar aí, hein?

— Sua sobremesa — ele respondeu olhando por cima do ombro a tempo de vê-la sorrir — Crepe Suzette.

Sakura mordeu os lábios sem intenção de provocá-lo, somente uma reação de a sua imaginação trabalhando com o mais profundo e sublime prazer em provar uma sobremesa saindo direto das mãos de Sasuke. Ele, um exímio cozinheiro, via como afrodisíaco as reações dela diante de sua comida. Como se ele pudesse proporcionar prazer à ela através do que sabia fazer no fogão.

— Eu te prometi uma sobremesa sem açúcar.

Sakura escorou o quadril perto do fogão enquanto bebericava seu vinho branco e observava-o derreter a manteiga sem pronunciar nenhuma palavra.

— Eu tomei café com pouco açúcar de propósito ontem e hoje com menos ainda. Você tinha razão, eu pude provar o sabor do café com mais eficácia. O açúcar só camufla o que achamos que pode ser ruim, mas não é tão ruim assim. — ela mantinha os olhos nas mãos dele trabalhando. Era inspirador.

Sasuke puxou um sorriso trabalhando em sua mente o que diria enquanto batia os ovos com o fuê. Os músculos eram ressaltados enquanto movimentava rapidamente o braço para dar forma. Sakura engoliu o resto do vinho para desviar os olhos.

Parecia que o fogo dormente dentro dela havia criado vida quando abriu os olhos para a realidade que vivia. E Sasuke conseguia jogar gasolina nesse fogo sem esforço. Havia dito para si mesma mais cedo que a ideia de transar com Sasuke era absurdamente tentadora, nem ao menos se lembrava de como era de tanto tempo que havia se privado daquilo, mas se ele quisesse ela iria. Mas só depois do programa, para que as coisas não ficassem estranhas.

— O sabor tem que ser sentido em sua forma natural para ser apreciado verdadeiramente. — Sasuke disse, misturando a farinha aos ovos batidos — Meu primeiro professor de economia doméstica disse que as experiências são mais valiosas que o dinheiro. Experimentar afina o paladar, abre pontos de vista e cria sensações. — Sakura tremeu ao olhar que ele lhe lançou rapidamente.

— Queria tê-lo conhecido no colegial — comentou pousando a taça vazia no balcão — Tanto você quanto Naruto.

Sasuke mantinha o sorriso de canto acrescentando leite em sua massa.

— Você poderia ter sido amiga de Naruto. Todos eram amigos dele. — Sasuke aumentou o sorriso se lembrando de quando eram adolescentes.

— Concordo. De você provavelmente não. — ela disse esperando a reação dele, mas foi pega por um sorriso diferente dele.

— Provavelmente. — Sasuke ligou o fogão e colocou uma frigideira em cima e derramou um pouco de sua massa líquida como se fosse panqueca — Você tem jeito de quem era certinha na escola, clube de ciências e essas coisas.

— Essa era eu. E você? Como era?

Sasuke olhou-a de canto, silencioso, enquanto pensava nas coisas que havia feito quando mais novo.

— Eu era o cara tatuado. Precisa de mais detalhes?

E Sakura sorriu, os olhos indo direto para o braço onde haviam os galhos.

— Eu correria de você. Homens assim me davam arrepios. — e segurou um sorriso quando o ouviu estalar a língua. Estava sendo divertido provocá-lo, saber como reagia à suas respostas.

— Experimentar sabores, Sakura. O que ganhou até agora colocando açúcar no café? — e o sorriso sugestivo dele foi a última coisa que ela viu quando ele se virou, e nenhuma resposta boa o suficiente veio até ela. Então preferiu encher outra taça de vinho.

Silenciosa, ela o via virar a massa na frigideira com facilidade e perfeição, tirá-la e colocar num prato dobrada em forma de pastel. Depois o viu cortar a ponta de uma laranja, usar um garfo de duas pontas para prendê-la e descascá-la até a metade com precisão e agilidade, deixando a casca ficar pendurada num caracol. Depois espremer outras duas laranjas num refratário.

Sasuke sentia a presença dela perto de si e havia uma necessidade em impressioná-la, como machos fazem no reino animal para ganhar a fêmea — ele pensou. Mas não era necessário fazer mais do que ele já havia mostrado saber para ela ficar impressionada.

Sakura voltou a se sentar na balcão que estava antes e ficou olhando-o trabalhar de costas. Sua cabeça estava um pouco zonza, mas ela não mudava o que se passava por ali. No fundo estava se sentindo ridícula por algo que Temari havia dito que ela fizera sem perceber no apartamento de Ino. Aquilo havia mudado drasticamente sua forma de pensar sobre Sasuke.

— Licor de laranja? — ele ofereceu uma garrafa escrita “Cointreau” que ela negou rindo e chacoalhando a garrafa de vinho branco a frente dela. Sasuke então sorriu e colocou um pouco do licor, afastou a frigideira e uma chama subiu flambando a calda que ele fazia com mel e fazendo Sakura segurar a respiração com medo e fascínio. — Calma. — Ele disse sorrindo, extasiado com a expressão dela. Deixando o fogo queimar por cima de sua calda por mais alguns segundos. Então apagou com uma tampa, colocou o suco de laranja dentro da frigideira e mergulhou o crepe que havia feito antes. — Sua taça? — pediu a recebendo de uma Sakura encantada.

Ele sorriu antes de começar seu truque final, e ela percebeu que ele ainda não tinha acabado. Então Sasuke colocou um pouco de licor dentro da taça e inclinou-a para perto das chamas, virando a taça enquanto um fogo azul queimava o licor dentro dela. Sakura colocou a mão na boca espantada e decididamente enfeitiçada.

Sasuke pegou a laranja que havia descascado pela metade e prendido em um garfo, colocou-a acima da frigideira e virou a taça fazendo com que a chama azul deslizasse pela casca até o crepe mergulhado em licor e suco de laranja, uma visão linda e mágica. O cheiro era insuportavelmente apetitoso.

Então ele colocou o crepe novamente no prato, com uma colher ele jogou molho de forma delicada por cima do crepe, virou-se para o refrigerador e tirou um pote de sorvete. Com duas colheres ele moldou uma bola de sorvete colocando por cima do crepe, esticou o braço para perto do ombro dela e Sakura quase se encolheu, ele sorriu voltando o braço com um raminho de hortelã entre os dedos, depositando-os acima do sorvete.

Sakura sorriu para o prato pronta para proferir os elogios, mas Sasuke pegou novamente a taça e colocou mais um pouco de licor e um pouco de conhaque. Voltou ao fogo e a chama azul dançava dentro da taça quando ele se virou para o prato. Sakura viu abismada a chama ser derramada com o líquido pelo prato, dando o mais bonito e encantador espetáculo culinário da vida de Sakura.

As chamas bruxulearam azuis pelo prato até se extinguirem, então Sakura olhou sorrindo para Sasuke, sorriso que foi esmaecendo quando ele assoprou a taça e sorriu com seu sedutor sorriso e disse:

— Bon appétit.

Sakura jamais havia provado algo como aquilo. Comia sem pressa, gemendo sem pudor a cada vez que o sabor cítrico tocava sua língua, lambendo os lábios a fim de não perder nenhuma gota daquele néctar, pronunciando adjetivos sussurrados tentando mostrar a ele o quanto estava gostando. Sasuke respirava pela boca enquanto a olhava, se sentia um vouyer olhando-a num quase orgasmo enquanto provava o doce.

— Sasuke — ela o chamou quase sem fôlego. Afogada num prazer jamais experimentado — Não posso sentir isso sozinha. — E estendeu seu garfo com um pedaço do crepe para que ele comesse.

Sasuke puxou a taça e colocou um pouco de licor, seu interior queimando assim como as chamas que queimava dentro delas anteriormente. Sorriu ao olhar curioso dela e disse num tom mais grave:

— Há uma maneira mais prazerosa de experimentar. — Virou o pouco de licor em sua boca e a assistiu encará-lo esperando para ver o que ele faria. Sasuke engoliu o líquido quente e inclinou-se na direção do garfo, abriu um pouco a boca, mas desviou do pedaço que ela estendia, a mão direita foi até a nuca feminina e sua boca alcançou a dela, provando o sabor direto da mais saborosa fonte.



Notas finais
TODOS AINDA RESPIRAM? Que capítuloooooo!!!! Sakura não tem mais como resistir. Chuta Sasori e se joga no chef. Imagina acordar com café da manhã maravilhoso todos os dias? Ou ter sobremesas assim para animar um dia sem graça? Que homem!!! Querem ver como ele fez o crepe? https://youtu.be/bF9zOykErJ4 Em breve Pan vem responder os comentários! Beijooos