Promessas
1 O Guardanapo
(Foxy)
Um dia, um garoto veio a mim. Magrinho, dava para ver as juntas. Pele pálida, como a neve do inverno que nunca mais senti. Cabelos lisos e negros como seus olhos fundos, talvez por falta de sono, jogando video games, no mínimo. Pelo menos é isso que os funcionários falam ao passar no corredor.
A curiosidade emanava pela sua pele, um sorriso brotava em seu rosto a cada passo que dava. A escuridão aparentava não lhe incomodar, os leves ruídos que eu emitia para assustá-lo aparentavam chamar cada vez mais a sua atenção. Como os funcionários pouco se importam com essa espelunca, querem mais que essa assombração se feche, mal se incomodaram com o bem estar da criança.
Tão inocente, tão fácil de ser silênciada. Mas quem se silenciou fui eu.
“Porque você está sozinho?” Ele perguntou “Porque não está com seus amigos?”
Eu nada respondi, esperei que se aproximasse mais.
“Os funcionários não gostam de falar sobre você, falam que você é meio “rebelde, cruel e rabugento”. Por acaso você fez algo de errado?”
Temia que o garoto era esquisofrênico.
“Olha se você está sussurrando alguma coisa, saiba que eu não vou me aproximar mais de você. Pois eu sei que vocês não gostam de ser tocados!”
Parabéns, vai ganhar um biscoito.
Ele se senta no chão, e fica olhando para mim, pela brecha da cortina.
“Olha, todos nós cometemos erros, eu já cometi vários e meu pai também. Ele mesmo diz que tem um que jamais poderá me contar!”
Pai inteligente, agora será atormentado pelo resto da vida. Até mandar o garoto calar a boca.
Algo que eu não conseguia entender era porque ninguém vinha atrás dele. Já estava um tempo conversando com as paredese nenhuma alma sentiu sua falta, não havia nenhum alvoroço vindo do salão, apenas risadas, copos e pratos tilintando. Me perguntei porque o Golden Freddy ainda não tinha fechado a maldita porta. Enfim. A conversa em si não estava ruim. Sentia saudade de pensar em irônias quando as crianças “falavam” comigo.
Não me esqueço de uma vez onde Bonnie deixou um cochicho escapar. Havia um gordinho fazendo aniversário, o garoto parecia uma batata. Seu tio chegou com um presente grande, fazendo o menino ficar alvoroçado como uma cadela no cio... Por uma espada de plástico.
Um tanto chateado, ele disse ao tio que já tinha aquela espada. E não sabia o que fazer com ela agora.
E assim, Bonnie deixou escapar: “Pode enfiá-la no rabo e fingir ser um espeto de churrasco, não vai fazer muita diferença.”
Ninguém o escutou, mas a minha risada pôde ser ouvida lá do estacionamento. Minha felicidade foi considerada mais um defeito, causando um certo medo naqueles anões chamados de crianças.
Voltando ao garotinho pálido a minha frente, finalmente sentiram falta de sua pessoa. Desesperado, pegou um guardanapo no chão e tirou uma canetinha hidrocor do bolso, que por milagre não estourou quando o gênio sentou em cima. Ele escreveu algo e deixou próximo a meu palco junto com a canetinha, logo saindo correndo.
Ao anoitecer, quando o silêncio prevalecia pelos corredores escuros, eu puxei o papel e usei a luz dos meus olhos para tentar ler. A persistência dele me surpreendeu.
“O que te deixa em silêncio?”
Para um garoto com aparentes 8 anos, aquela escrita era um tanto madura. Respondi com letras tortas, macabras, não propositalmente, é porque esses dedos metálicos realmente não ajudam muito. E fazia muito tempo que eu não escrevia algo.
“Ódio”
Fui curto e grosso. Não havia muito o que dizer.
No outro dia, ele retornou, encontrando o papel no mesmo lugar. Sorridente, leu sem demonstrar medo por causa da minha resposta. Somente escreveu de novo, pôs no mesmo lugar e foi embora.
Ao anoitecer, tornei a pegar o papel.
“Mas, porque ódio?”
“Porque um infeliz tirou minha vida.”
No dia seguinte, ele retornou novamente. Não entendi porque o menino não conseguia imaginar que era um funcionário escrevendo ,e não eu! Mas eu estava escrevendo! E isso não lhe aflingia! Porque isso não lhe aflingia? Porque eu estava me importando com isso? Porque ninguém chegou naquele garoto e falou: “Olha aqui seu retardado, esse animatronic já matou uma criança! Porfavor, se você não quiser MORRER, pare de falar com esse infeliz!”
Talvez o meu problema fosse apenas tédio. Ou o fato de eu não estar afim de conversar com os outros. Estavam muito ocupados com o segurança, e ele pouco se importava em me observar. Naquela semana eu realmente não estava afim de “vida social”.
“Mas se um infeliz retirou sua vida, como você está falando comigo? Você está vivo, não está?”
E assim, os dias se passaram.
“Não garoto, eu estou morto.”
“Por mim você está vivo!”
“Então você é retardado.”
“Não, não sou. Acho que sou o único que te vê como alguém e não como coisa.”
“Quanta nobreza. Pena que eu não me importo com isso.”
“Então você é retardado.”
Senti um ódio por aquela peste, nem respondi o que ele escreveu.
“Oh, eu só disse a verdade, você pode me chamar de retardado, mas eu não?”
Neste dia que ele retornou, ao pegar o papel no chão, eu aproximei meu rosto para fora do palco, deixando minha boca aberta para meus dentes ficarem a mostra.
“Se você me irritar, eu te mato.”
A peste levantou uma sombrancelha, escreveu no papel e enfiou na minha boca. Ele poderia ganhar o prêmio de “EU NÃO DOU A MÍNIMA” facilmente.
Já estava decidido, eu iria acabar com a raça dele assim que ele voltasse.
“Você tem tanto ódio dentro de seu corpo que nem se importa com a única pessoa que quer lhe ajudar. Não se preocupe. Um dia eu vou lhe ajudar. O que você precisa é uma amiga!Ou amigo, sei lá.”
“Olhe para cima, infeliz.”
Mas ele não voltou. Nem adiantou me preparar para causar pânico.
Pensei que não fosse me importar, mas já estava ficando um pouco acostumado com a rotina. Fiquei me perguntando porque ele não voltara, e se um dia ele fosse escrever novamente naquele pedaço de guardanapo.
Chica apareceu na porta, finalmente encontrando uma brecha na segurança, permitindo falar comigo. “Aquele garotinho não voltou? Está chateado?”
“Não, só desacostumado.”
“Meh, para de palhaçada seu frouxo! Fica entocado nesse palco como um adolescente depressivo e ainda quer justificar! Sai daí! SAI, SAI!” Ela me pegou pelo braço e me puxou, praticamente me lançando ao chão.
“CHICA!”
“AÊ! SAIU!” Ela levantou os braços, animada. “NASCEU DE NOVO! AGORA VAI VIVER!”
“Viver? Você fala como se isso fosse vida!”
“Ah, claro. Só não gosto de ninguém me filmando, só isso. Anda! Anda! Vamos dar um fim logo nisso!”
O relógio apitou, alertando que era 6 horas. Virei-me de costas e retornei ao meu posto, fazendo com que Chica saísse da cova do pirata batendo o pé e resmungando como um velho. Ela não manda em mim, ninguém manda. Alguns dizem que é o Freddy que manda em todo mundo por aqui, mas aquele buda gordo não pode encostar um dedo em mim.
Por ele, serei para sempre o fracassado que piorou as nossas vidas. Como se algum dia elas fossem agradáveis.
Fale com o autor