Notas iniciais
*Glosário: — Revelaret malum = Revelar o mal — Latet (Mascarado) = Oculto — Inveniet = Encontrar

Eu acordei na enfermaria. Estava exatamente do jeito que eu me lembrava, mas o cheiro de comida me chamou a atenção. Me levantei da cama, ainda sentindo dor na perna, mas havia melhorado. Melhorado muito, na verdade. O cheiro de comida vinha de um pacote do meu lado, e quando abri havia biscoitos e uma caixinha de leite. A enfermaria estava vazia então presumi que o pacote era para mim e em dois segundos já havia comido tudo.

Me esforcei para atravessar a enfermaria, dando de cara com Ewalein quando abri a porta.

— Mas o que... —Ela me olhou com cara de brava assim que percebeu que eu estava tentando sair. — Lexus você tem que descansar. Sabe o esforço que tivemos para tirar aquela flecha sem te matar? Eu tive que desintegrar aquilo.

Eu ri, e a expressão dela só ficou mais séria. Ela apontou para a cama em um gesto que dizia para eu me sentar. Aliás, não dizia. Mandava.

— Você sabe que vai precisar de mais do que uma flecha para em matar. — brinquei.

— Não foi o que pareceu.

Ewalein parecia realmente brava, mas por trás daquilo eu vi preocupação. Em segredo, ela me ajudou quando Ravena, minha mãe, me abandonara no meio de um povoado que provavelmente me picaria em pedaços. Ela poderia ter se ferrado por me ajudar naquela época, mas agora, dentro do QG, eu me perguntava se as guardas haviam se esquecido de mim ou só me perdoado. Não, seria bom demais. Eles me colocariam na cela assim que eu estivesse melhor, na melhor das hipóteses, mas não me dariam liberdade.

— O que estava tentando fazer? — ela completou quando viu que não entendi a pergunta — Por que veio para cá? Por que se arriscou?

— Preciso falar com a Miiko. — Ela pareceu surpresa. Talvez porque, num passado não muito distante, eu vivia dizendo que estrangularia Miiko caso a visse alguma vez. Essa minha vontade ainda não havia passado, mas o assunto que eu tinha para tratar com ela era mais importante. — É sobre o Mascarado e... bem, minha mãe.

Não precisei explicar muito e já estava na sala do cristal com todos os representantes de cada guarda ali. Pelo que eu soube, Ewelein falou com a Miiko assim que a contei o que tinha me levado até o QG, e a Miiko, por sua vez, convocou uma reunião urgente só para ouvir o que eu tinha a falar. Pela primeira vez, eu teria voz naquele lugar.

Assim que eu entrei na sala todos se enrijeceram. Eles não gostavam muito de bruxas. Bom, não gostavam nada de bruxas e, graças à minha querida mãe, eu era uma bruxa. Então eu já esperava alguma reação deles. Na verdade, esperava que tivessem se preparado com paus e pedras para me receber, mas depois que entrei e que eles viram que eu não representava perigo até relaxaram um pouco. Menos Jamon. Ele nunca relaxava.

— Vocês estão exatamente do jeito que eu me lembrava. — eu disse, rindo, enquanto analisava cada membro naquela sala. Parei num rosto que me era desconhecido. — Menos você.

Havia uma garota nova na sala. Cabelo cinza, olhos violeta. Estranha, pra não falar muito. Parecia... humana?

— Essa é Lyin, nossa nova guardiã. — A garota acenou para mim, nervosa. — Mas não foi por isso que você veio até aqui.

— Tão direta. — eu ri, e Miiko ficou vermelha. De raiva. Ela acenou para Jamon, que logo tirou correntes de trás de si que brilharam em suas mãos. Ferro. Aquilo devia estar queimando nele, mas queimaria mais em mim. Sabe, fadas e bruxas não têm um bom histórico com ferro. — Opa, não precisamos de mais violência. Seus arqueiros — apontei para Nevra, que cuidava da vigilância do perímetro do QG — já fizeram um ótimo trabalho.

O olhar de todos parou na perna que eu indiquei, que estava com um furo recém-cicatrizado envolvido por faixas. Miiko riu. Ela também queria me estrangular, percebi, e todo “sofrimento” causado a mim a divertiria.

— Nada além do merecido. Aliás, é menos que o merecid-

— Miiko estamos perdendo o foco da reunião — foi Kero quem falou, e isso só deixou a Miiko mais furiosa, mas ela deu um jeito de se acalmar já que ele tinha razão. — O que a trouxe aqui?

— Além da falta de sanidade? Isso.

Eu tirei da mochila que eu carregava um mapa. O coloquei na mesa e assim que ele encontrou a superfície plana tornou-se sólido, como um tabuleiro. Ninguém entendeu.

— Esse é o mapa de Eldarya.

— Não diga?— Ezarel falou. Estava demorando para ele começar com o sarcasmo. Minha mão estava coçando para bater na próxima pessoa que me interrompesse. Peguei uma faca que também estava na minha mochila e, com a mão estendida por cima do mapa, fiz um pequeno corte que logo sangrou, manchando o papel.

— Revela malum. — O sangue se ergueu sobre o mapa, demarcando alguns lugares conhecidos de Eldarya. — Esse é o mapa da Ravena. Ela está reunindo o Coven novamente para tomar Eel junto com o Latet.

— La quem? — Lyin parecia confusa com tudo aquilo desde o início. Estava na cara que ela era nova por ali.

— O cara grande de máscara vermelha com preta. — Ela fez que entendeu, e parecia envergonhada por não saber. Eu prossegui.

— Cada ponto vermelho é onde o Coven está. —Apontei para a maior mancha de sangue, que estava bem próxima do QG. Perigosamente próxima — Cada mancha seca é um local de encontro — Havia três manchas mais claras, secas, em lugares distintos. — Elas mudam diariamente.

Todos empalideceram ao ver a quantidade de manchas vivas no mapa. Era praticamente um terço da população. Valkyon foi o primeiro a se recuperar do choque e a falar.

—Os integrantes da Ordem não podem ter aumentado tão rápido. Metade da população está doente por causa do cristal e a outra metade está nas guardas.

— E é justamente por isso que aumentam. Estão prometendo a cura com discursos de que a maana não será mais limitada nem a comida. Ravena está dando pequenas poções de cura para que eles voltem a se movimentar e aceitem a proposta de entrar para o Coven. Em uma semana toda a população já terá se entregado.

— E como você sabe disso? Desse aumento?

— Semana passada tinha menos de cinco dessas pequenas manchas por toda Eel. Agora, já está em outras terras.

Miiko respirou fundo, tentando repassar as informações. Pela primeira vez, eu a vi sem saber o que fazer. E então, algo brilhou em seus olhos. Desconfiança.

— E como vamos saber que você não está nos enganando? Afinal, Ravena é sua mãe. — Ela jogava aquilo sobre mim como se fosse uma praga. Era uma praga, na verdade. Mas não me causava mais dano. Lembrar do que ela me fez, sim, me causava dano.

— Ela matou meu mascote. — parei, lembrando de Kolya, meu musarose. Lembrei de como ele estava degolado, pendurado na porta do meu quarto pelo rabo, a rosa na ponta tão seca que quando toquei as pétalas caíram todas. Quase chorei. — Disse que me mataria também depois que fugi. Eu já iria morrer de qualquer jeito, então não faria mal vir até aqui e contar tudo.

Todos assentiram, e pareciam ter pena de mim por ter perdido Kolya. Depois de responder como havia descoberto todo o plano do Coven — ouvindo a conversa de Latet com minha mãe — eles me dispensaram. Não me mandaram para as celas. Não me expulsaram do QG. Só me pediram para sair da sala e deixar que a reunião continuasse sem mim. Ewalein também saiu comigo, e nós voltamos para a enfermaria.

Com a cabeça cheia eu acabei esquecendo o mapa na sala do cristal, mas não tinha problema. Sem mim o mapa não valeria mais ou menos para eles. Seria inútil.

— Sinto muito pelo seu mascote. — Ewalein estava arrumando a cama onde eu havia deitado antes, e me perguntei quanto tempo eu havia dormido. Não muito, eu esperava. — Eu perdi o meu também quando era mais nova. Era uma Sabali. Foi minha primeira mascote. — Ela sorriu para mim, daquele jeito reconfortante que ela fazia desde que a conheci. Ela sim parecia uma mãe para mim.

— Sinto muito.

Uma correria no hall chamou nossa atenção para além da conversa. Eu já estava na porta quando Kero veio nos chamar. Ou, bem, chamar Ewelein e os outros enfermeiros.

— Há feridos no refúgio. Explodiram uma das casas.

Aquilo foi um choque para nós. Todos que estavam na enfermaria — e não eram muitos, pra ser sincera — correram em direção ao refúgio de Eel. Eu fui impedida de sair, pra variar. Precisavam de mim na sala do cristal novamente.

— Você sabia do ataque não sabia? — Miiko já estava encima de mim assim que entrei na sala, e o calor do fogo do seu cajado já estava quase me queimando. — Você nos enrolou enquanto nos atacavam. Foi você!

Kero e Nevra seguraram Miiko para que ela não fizesse churrasco de mim, mas ela não se acalmou como da ultima vez. Pelo contrário, só ficou mais furiosa.

— Eles vieram atrás de mim, não comigo.

— Eu disse! É sua culpa! — Nenhum dos garotos deixou de segurá-la firme, mas eles pareciam concordar com ela. Eles achavam que eu havia ordenado a explosão.

— Não fui eu! E eu posso ajudar com isso.

— Você já ajudou bastante nos traindo.

— Miiko! — Kero a interrompeu novamente. Ele parecia nervoso. — Se ela pode ajudar então a deixe ajudar. Eu não acho que ela comandou isso. — O cajado de Miiko se apagou, mas ela não aprecia menos furiosa. — Quem quer que tenha causado a explosão ainda está lá e ela pode reconhecer.

Houve um grande silêncio em toda a sala enquanto Miiko e os outros guardiões pensavam. Depois de pouco tempo ela finalmente aceitou que eu me juntasse aos guardas no refúgio. Mas eles iriam junto.

Logo que a decisão foi tomada nós corremos pelo mercado até o refúgio de Eel. Estava um caos! Havia fogo e gritos por todos os lados, e a situação era incontrolável. Os moradores que encontrávamos pelo caminho eram escoltados até um lugar seguro por Lyin e Kero, que apreciam ser os mais gentis e lidavam melhor com as pessoas, conseguiam as acalmar. O resto do grupo foi até o centro da explosão.

Restos do que parecia um feitiço estavam espalhados pelo chão, envolta da cabana tomada pelo fogo. O cheiro de óleo de oliva emanava no lugar, um dos ingredientes do feitiço. Obviamente, o causador da explosão não estava mais ali, mas também não devia estar longe. Na janela estourada da pequena casa havia algo que Nevra notou assim que chegamos: sangue. Ótimo. Terminei de quebrar a pequena lasca de vidro que estava presa na janela, recolhendo o sangue. Ora, eu era uma bruxa de sangue. Nunca houve algo mais fácil para mim do que rastrear o mesmo. E foi o que eu fiz.

Eu precisava de espaço. Espaço, tempo, silêncio. Silêncio era algo que eu nunca conseguiria em meio àquele caos, mas só de o grupo ter se calado para eu me concentrar já estava ótimo. Passei o sangue na palma da minha mão e fechei os olhos. Não era muito difícil, mas precisei fazer um esforço.

— Inveniet.

Logo vi um clarão pelos olhos fechados, correndo todo o refúgio até a escadaria da praia. Eu não sabia quem era, estava encapuzada, mas uma mancha vermelha na mão indicou que era mesmo aquela pessoa. E nós tínhamos que correr antes que ela sumisse.

Abri os olhos no mesmo momento em que comecei a correr entre os pedaços de madeira que a explosão espalhou, sentindo que os outros me seguiriam mesmo sem eu avisar. Logo já estava na praia, não muito distante da pessoa encapuzada, e dali já podia fazer o que eu precisava fazer.

Estendi minha mão, fazendo um esforço colossal para focar em quem estava na minha frente. A distância me atrapalhou um pouco, mas logo vi meu alvo se curvando de dor, o efeito que eu esperava. O resto dos guardiões ainda não havia me alcançado, ou haviam me perdido. Tive de me aproximar lentamente para não perder o foco, e agora a pessoa encapuzada já estava de joelhos. Era uma mulher, pela voz. E quando eu tirei o capuz, não esperava que fosse...

Notas finais
Quem será a tal encapuzada? Hmmmm Espero que tenham gostado Beijim de algodão ❀