Promessa de Sangue
3 Fogo
Notas iniciais
— Hey, acorda. — Eu estava de cara no chão. Ou melhor, na areia. A encapuzada havia sumido e eu estava com uma dor de cabeça horrível. Eu estive tão perto de pegar a culpada, e então aconteceu. Ou melhor: não aconteceu. Na verdade eu não sei o que aconteceu. Eu só tinha apagado. E agora havia acordado, graças a uma concha de água do mar que Ezarel fizera questão de jogar em mim. E a fugitiva... Bem, a fugitiva era uma fugitiva mesmo — Você correu como uma louca. Te perdemos no meio do caminho.
— Como ele perdeu meu rastro? — Apontei para Nevra.
— Não sigo bruxas.
Pior que era verdade. Vampiros eram bons em seguir rastros, mas não de bruxas de sangue. Na verdade, eles meio que nos enojavam. Desde o início, Nevra expressava um claro incômodo quando eu estava presente. Isso era mais claro ainda quando ele e a irmã, Karenn, viravam uma esquina e davam de cara comigo. Ele nunca a deixava perto de mim. Não que ela precisasse de escolta, porque também me enojava como o irmão. Tá no sangue.
— Pelo menos você viu quem era?
Todos me esperaram responder com um silêncio que era maravilhoso para minha dor de cabeça. A cara deles era cheia de expectativa, algo que sumiu quando contei quem era o autor — ou melhor, a autora — da explosão. Foi legal ver o queixo da Miiko ir no chão e voltar, mas não pude me divertir muito porque ela resolveu que queria vasculhar todo o QG.
O último lugar que verificamos foi a sala do cristal. “Vasculhamos” entre aspas, porque assim que se entra na sala já dá pra ver se tem alguém lá ou não. Era uma área circular e meio aberta. Não dava para não ver alguém escondido ali. Seria até burrice se esconder ali. Eu já sabia que não encontraríamos a culpada em lugar nenhum. Ela já estava longe. Mas não quis falar nada, eles só iam se desanimar mais.
— Miiko! — Kero e Lyin estavam entrando na sala, ofegantes. Eu me esquecera deles, e provavelmente eles estiveram ocupados demais para se juntarem ao grupo novamente. Foi Lyin que falou. — Estão todos a salvo. Seria mais rápido, sabe, se alguém tivesse nos ajudado.
— Estávamos ocupados também.
— Com o que?
— Lexus estava dormindo. — Ezarel cortou Miiko antes que ela falasse, o que lhe resultou uma carranca minha e dela.
Miiko novamente tomou a palavra e contou tudo a eles, que receberam a informação tão chocados quanto o resto do grupo antes.
Toda Eel havia se fechado. Os muros tinham tantos guardiões quanto podiam para vigiar o local, fora os grupos de busca que se espalharam por todas o terreno além do QG incluindo revistas nas casas do refúgio, o que causou certa revolta na população. Mas era o certo a se fazer, já que não sabíamos quem era ou não do novo Coven.
Eu estava trancada também, é claro. Além de parte dos vampiros da guarda me evitar, ninguém confiava em mim o suficiente para me deixar solta. Então fui obrigada a ficar na enfermaria, e eu passei mais tempo naquela sala do que queria ou deveria. Os feridos da explosão estavam sendo tratados em casa, mas os casos mais graves foram levados para a enfermaria. Eu preferia não ficar ali com aquele monte de gente reclamando de dores e em desespero enquanto minha dor de cabeça só aumentava, mas não me deixavam sair, e minha única solução foi ficar em um canto da sala de olhos fechados, pensando em não gritar para calarem a boca.
Em alguns casos, Ewelein me pediu para ajudar os outros enfermeiros a estancar sangramentos, coisa que só fez aumentar minha dor de cabeça, mas para minha sorte não havia tanta gente ali quanto parecia. A maioria estava com queimaduras e eu não podia fazer muito sobre a situação.
Visitas de Lyin, Ezarel e outros guardiões me fizeram acordar pra vida algumas vezes. Eu outras, eu só tentei ignorar tudo e ficar na minha. Isso até ouvir choro. Choro de uma criança.
O som vinha da entrada da enfermaria e logo a menina foi passando para a cama mais próxima. Assim que ela entrou a enfermaria, que estava mais ou menos calma, tornou a virar um caos. Na porta, um rapaz que devia ser da família dela era barrado pelos guardiões para não tumultuar mais o ambiente já tumultuado. Ela continuava chorando na cama, mas bem mais baixo. Já estava desfalecendo com a dor.
Eu não sei o que me deu. Mas eu não aguentava mais ver aquilo. Poxa, era uma criança. Precisava de um jeito mais digno de morrer, fora que aquele choro incomodava bastante. Dava dó, na verdade. Me aproximei dela, vendo a causa da dor que ela estava sentindo: um pedaço mediano de vidro estava quase atravessando a lateral da barriga dela, beirando as costelas. Não era uma cena muito boa de se ver.
— Ela caiu quando tentou fugir da explosão. Quando chegamos, ainda tivemos que apagar o fogo que começou a subir pela perna dela. — Eu mal havia reparado. A pele até a metade da canela da menina estava completamente queimada, e isso aumentava em duzentos por cento a dor que eu imaginara que ela estava sentindo. — Ela perdeu muito sangue até aqui. Não vamos poder salvá-la.
— Claro que podem! Você me salvou.
— Você não tinha um pedaço de vidro perigosamente grande atravessando sua barriga. — Touché. — E todos os remédios estão acabando, não podemos desperdiçar. Ela vai morrer.
Ah mas não vai mesmo.
— Eu posso ajudar de novo. — sorri, acenando com a mão onde todo o sangue que estava no chão se recolheu, formando uma esfera vermelha que depois retornou ao mesmo lugar de antes. Ewalein abriu a boca e a fechou no mesmo instante. Ela era formal demais para se espantar tanto, fora que já tinha me visto em ação minutos antes. Suspirou e depois disse:
— Não posso negar, vá em frente.
— Precisa tirar isso. O vidro. Vai me atrapalhar.
Dito e feito. O vidro foi dolorosamente retirado junto com mais gritos e sangue, que nem chegou a escorrer direito quando eu o devolvi, fazendo certo esforço para mantê-lo dentro da menina enquanto um dos enfermeiros costurava o rasgo na cintura. Minha dor de cabeça não estava ajudando muito, mas não foi o suficiente para me atrapalhar também. Eu não podia sair dali enquanto o resto dos curativos não fosse feito. Obviamente, um dos órgãos dela fora afetado, e eu tive de me esforçar mais para parar a hemorragia interna, o sangue coagulando por dentro de forma que as feridas internas pudessem se curar com os remédios sem maiores problemas, mas eu precisava ficar por perto para que isso acontecesse. Eles também fizeram curativos na perna queimada.
Ficar na enfermaria com a criança, mofando pela minha boa vontade, foi exatamente o que Ewalein pediu. Ela havia me entregado um remédio para dor de cabeça e uma pequena poção de cura para eu administrar na minha nova parceira de confinamento de tempo em tempo. A enfermaria ainda estava completamente bagunçada, mas pelo menos todos os feridos estavam sedados. Sem mais gritos. Sem mais choro. Só paz.
Eu não podia dormir. Isso era um saco porque eu estava cansada e precisaria de mais umas quatro doses da poção para eu não precisar mais bancar a sentinela. Mas ficar ali não me era de todo mal. Por um breve momento, pude conversar com Lina, a menina que eu havia salvado. Ela até que era legal, mas delirava muito. Naquela vez ela disse que era bom ter seu mascote por perto, mas não havia mascote algum ali.
— Você não o vê voando? — seu olhar era vago, ela sempre olhava para cima sem se mover — Está ali. Está dando voltas no ar, mas está com medo de chegar mais perto.
Com certeza. Lina descreveu seu mascote como um filhote de grifo florido. Era como um grifo normal, com penas e tudo, mas também tinha manchas avermelhadas em formato de flor perto do focinho. Era meio difícil imaginar. A visão do mascote parecia confortá-la, então não me preocupei em desfazer toda aquela ilusão. Pelo menos aquilo a deixava mais tranquila.
Depois de dar outra dose da poção a ela, percebi que as visões eram fruto do líquido, pois ela dizia ver seu mascote bem mais de perto cada vez que dava mais da poção.
A sala ficou fria de repente. Lina não estava mais na cama ao meu lado. Tudo tinha um aspecto meio azul, exceto pelo exterior da enfermaria, que mantinha sua cor normal. Não havia mais alguém além de mim ali, então eu sai a procura da garota.
A sala ficou fria de repente. Lina não estava mais na cama ao meu lado. Tudo tinha um aspecto meio azul, exceto pelo exterior da enfermaria, que mantinha sua cor normal. Não havia mais alguém além de mim ali, então eu sai a procura da garota.
A sala ficou fria de repente. Lina não estava mais na cama ao meu lado. Tudo tinha um aspecto meio azul, exceto pelo exterior da enfermaria, que mantinha sua cor normal. Não havia mais alguém além de mim ali, então eu sai a procura da garota.
Espera. Algo estava errado.
Eu estava em um loop.
A menina de olhar triste apareceu na minha frente, de pé, assim que me dei conta do loop que me envolvera. Cada vez que eu saia da sala eu entrava na sala. Ou cada vez que eu entrava na sala eu saia da sala. Espero que dê pra entender. O fato era que Lina estava parada na minha frente, no pé da cama onde estivera deitada antes. Seus curativos ainda estavam nela, mas ela parecia totalmente recuperada. E sã.
Atrás dela, um filhote de grifo com flores ao redor dos olhos e do focinho voou e parou à sua frente. Ficava mais ou menos na altura do joelho de Lina, mas ela não era muito alta, então ele também não era muito grande. E também parecia triste como ela. “Dimka”, pensei, lembrando dela ter dito o nome do mascote duas ou três vezes enquanto delirava. Agora não parecia um delírio. Ou eu que estava delirando.
— Você me deixou.
Ela repetiu isso várias vezes. Várias, várias vezes. A repetição começou a me desnortear. Eu não havia a deixado. Eu estava ali com ela. Eu estive com ela a noite toda. Mas cada vez que eu repetia isso para ela — e para mim — ela só parecia mais triste. Mais debilitada. Ela parecia estar voltando a sentir dor. Até que, em certo ponto, ela caiu no chão, imóvel.
E eu acordei.
— Não durma. — Valkyon passou na minha frente, jogando outro pacote de comida para mim. Aparentemente ele faria a vigilância naquele turno. Lina tremia em sua cama, e me lembrei de manter o foco nela para continuar o processo da cura. Eu tinha cochilado. Ela podia ter morrido por isso. Burra. Burra! — Tem um pouco de café aí, pra te ajudar.
Ele não era bem o exemplo de calma, mas também não parecia bravo comigo por ter cochilado, só alerta. Preocupado, talvez. Eu estava com fome, então não demorei para abrir logo meu pacote: café, pão e mel. Não era muito “energético”, mas era o que tinha. Minha barriga roncou assim que senti o cheiro do café. Também não demorei para comer. Valkyon arrumou um posto desconfortável rente à parede ao lado da cama de Lina para o caso de eu acabar cochilando de novo. Era meio estranho ser vigiada enquanto comia. Tão desconfortável quanto o posto de Valkyon. Ele não parecia se importar se tivesse de ficar ali parado de pé por horas.
— Alguma novidade? — Eu precisava conversar para me manter acordada.
— Não.
Silêncio na sala. Ele não era de falar muito, então.
— E o refúgio?
— Ainda está lá no mesmo lugar. — Opa, parece que alguém teve umas aulas com o Ezarel.
— Sim, mas o estrago foi muito grande?
— Não muito. O fogo só atingiu três casas. — Ele parou de falar novamente. Eu já havia desistido de puxar assunto. — Mas algumas pessoas foram atingidas. A maioria foi queimada como ou mais que Linara. — Custei a reconhecer o nome, mas logo associei à menina.
— Você a conhece há muito tempo? — Ele assentiu com a cabeça. Finalmente estávamos conversando de verdade.
— Ela é conhecida por aqui. — Valkyon parou, pensativo. Ele ainda estava alerta, mas seus olhos pousavam em Lina como quem gosta muito de alguém. Logo se recompôs. — Às vezes seus pais precisam sair e a deixam aqui no QG. Eles sempre voltavam no horário que combinávamos, mas ontem eles foram e não voltaram até agora. Ela correu até sua casa para ver se os pais haviam chegado quando a explosão aconteceu e ela se machucou. O irmão dela foi quem a encontrou e veio nos pedir socorro.
Lembrei do rapaz na porta da enfermaria e pensei no quanto ele deve ter sofrido ao ver a irmã naquele estado. Ele não estava aqui agora, mas era bem provável que também estivesse acordado como nós. Só Lina parecia mais tranquila naquele lugar.
Depois de dar a ultima dose eu já não precisava mais ficar se sentinela. Mesmo assim continuei ao lado de menina, deitada numa cama improvisada no chão ao lado da cama da menina. Cai no sono quase na mesma hora que deitei, mas não voltei àquele sonho esquisito. Eu devia estar tão cansada que nem tive forças pra continuar ou formar um sonho.
Quando acordei Lina ainda estava dormindo. Eu me sentia toda dolorida. Pra ser sincera não estranhei as dores. Eu havia dormido toda espremida no chão duro, então era normal que sentisse desconforto ou dores.
Não me trouxeram café da manhã dessa vez, e tive que procurar por algo para comer eu mesma. Sair da enfermaria parecia ótimo. O ar puro foi muito bem recebido por mim, assim como o sol matinal. O QG parecia calmo como sempre, mas uma movimentação no hall me chamou a atenção. Miiko e Jamon andavam de um lado para o outro lá embaixo, e ela parecia agitada.
— O que tá acontecendo? — Fui obrigada a segurar Miiko para que ela parasse e me escutasse. Ela estava tão ansiosa que nem se preocupou em fazer aquela cara de desdém que sempre fazia quando me encontrava.
— Encontraram. — ela ofegou — Encontraram Ykar.
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