Primeiros Erros
18 Livro II: Capítulo três
Notas iniciais
Livro II: Capítulo três
‘’Não me arrependo de ter conhecido ninguém, só me arrependo de ter perdido tanto tempo com algumas pessoas.’’
—Acho que o pior é não poder tomar um longo banho. Aqui nos Estados Unidos mesmo isso me deixa desconfortável. — Senna me confidenciou. Seus longos cabelos cacheados roçavam no meus ombros, seus profundos olhos castanhos estavam divertidos. Ela era brasileira, e no Brasil as pessoas não costumavam a economizar água como até aqui nós fazíamos. Apesar de algumas cidades sofrem com secas, as pessoas dos grandes centros urbanos, como ela, não se preocupavam muito em poupar.
—Aqui isso é algo autonômico. — Lhe contei.
—E na África algo cronometrado. — Ela estremeceu. — Até você, que já está acostumada em poupar vai tomar susto.
—Banho de um minuto me parece perfeitamente aceitável. — Riley, um médico recém- formado, de sorriso amigável, olhos verdes, e cabelo loiro, se inclinou de sua poltrona ao nosso lado para comentar. — Acho que você vai enfrentar mais problemas, Senna, com esse cabelão aí.
Ela juntou os cabelos fechando os olhos.
—Eu demorei muito a ter um cabelo assim, eles caiam tanto! Até eu acertar na forma como tratá-los, sabe? — Ela me explicou. — Não consigo pensar em cortá-los.
—Relaxa, você pode fazer tranças, ou alguns daqueles penteados incríveis, na África do sul mesmo. — Heidi a tranquilizou.
Heidi, assim como eu tinha adotado cabelos mais curtos, não tanto quanto o meu, o dela chegava ao ombro.
Como o voo seria longo, logo cada um se entreteu como pode, Riley assistia o filme que passava, Senna lendo um livro, e Heidi… dormindo. Me arrumei de forma mais confortável na minha poltrona e deixei que minha mente vagasse pelos últimos acontecimentos.
Eu havia enfrentado meu pai.
Desde minha separação, e a consumação do divórcio, eu evitava estar com Charlie, conversar com ele. Mas com a doença de Renée, logo eu estava frequentando mais a casa dos meus pais, e consequentemente estando mais com meu pai, que para minha surpresa estava se mostrando um marido dedicado. A separação não influenciou em nada em sua campanha a prefeito, e eu imaginava que Edward só havia aceitado ser visto em alguns atos de campanha para que meu pai não ficasse me reprovando sobre a separação. Charlie não fazia comentários sobre minha relação com Damon, durante os dois anos que se seguiram ele apenas limitou muito seu contato comigo.
Eu não sabia se preferias suas constatem ‘’broncas’’ a isso, esse ‘’gelo’’.
Quando decidi me juntar a ajuda humanitária, precisei acertar uns pontos com ele, e assim me vi no gabinete do prefeito, pela primeira vez.
Sua secretária pareceu muita surpresa ao me ver ali, e aceitou me anunciar mesmo que eu não tivesse hora marcada.
E ele me recebeu.
—Isabella. — Ele disse quando cruzei a porta. O gabinete era grande, em tons madeira e marrom. Em uma das paredes tinha a foto de cada prefeito que prestou serviço em Chicago. Me aproximei de sua mesa, onde ele continuava sentado, mais imponente — se possível — do que quando era juiz.
—Pai. — Falei e me sentei.
—Acho que você nunca esteve aqui. — Ele comentou.
—Não, não estive. — Concordei.
—Tudo bem com sua mãe?
—Não estive com ela hoje, mas creio que sim. Do contraria as enfermeiras já teriam ligado para mim, ou pra você.
—Ao que devo a honra da sua presença? — Ele sorriu, o bigode tremeu.
—Eu tomei algumas decisões sobre minha vida, e achei necessário conversar com você sobre.
Contei que havia terminado com Damon.
Falei sobre me juntar a ajuda humanitária na África. Não entrei em detalhes sobre como me sentia e o que levou a cada uma das decisões, minha emoções nunca o importaram e eu duvidava que começasse a importar agora.
Ele permitiu que eu falasse tudo, aguardando em silêncio até que eu finalizasse.
—Parece algo bom para a filha de um prefeito fazer não acha? — Foi seu primeiro comentário. — Algo a ser lembrado durante uma campanha ao governo, ou até mesmo o senado. E por que não, a presidência?
—Almeja a presidência? — Perguntei surpresa.
—Por que não? -Ele deu de ombros.
Mudei minha postura, para algo mais duro.
—Eu sei que o senhor tem sido… muito presente com a mamãe, mas não deixo de me preocupar…
—Quando me casei com sua mãe, jurei que estaria com ela na saúde e na doença. — Ele me cortou. — Não precisa se preocupar com ela, enquanto eu viver, ela é responsabilidade minha.
Assenti.
—Me mantenha informada sobre ela. — Me preparei para sair.
—Filha?
Parei com o adjetivo. Os olhos dele fugiam dos meus.
—Boa sorte nessa… jornada. — Ela pigarreou no fim da frase. — Salve vidas.
—Esse é o propósito do juramento da minha profissão.
Charlie parecia querer dizer outra coisa, mas não sabia como.
—E quanto a Enzo virar um artista pop? — Ele mudou de assunto.
—Ele está gostando, depois de futebol descobrir a música foi algo… muito bom. Ele precisa do nosso apoio.
Charlie ficou quieto, vi que desviou o olhar para uma foto. Acompanhando seu olhar, vi que tinha uma foto minha, com Enzo no colo, quando ele era apenas um bebê. Ele devia estar com quase um ano. Lembrava do dia, Edward que tirou a foto no parque.
—Ele é um bom garoto. Espero que este tipo de vida não o deslumbre.
—Estaremos ao lado dele para garantir isso. Certo?
Charlie não respondeu.
—Pai, eu deixei de me preocupar com o que o senhor pensa de mim há um bom tempo. Mas meu filho realmente gosta do senhor e se preocupa, então não faça nada que possa magoá-lo.
Charlie suspirou longamente se recostando em sua cadeira.
—Vamos manter esse menino na linha. Ele tem um bom coração, Bella. Isso é muito perigoso nesse mundo, as pessoas podem querer usar ele.
—Ele é esperto. Não vai se deixar levar.
—Você parece… diferente.
—Eu me sinto diferente.
Mais um momento de silêncio.
—Sei que talvez eu não tenha agido da melhor forma com você, mas isso foi para que você se tornasse alguém melhor.
—Pai, a forma como você me criou… ou melhor, ‘’não criou’’ só contribuiu para que eu fosse alguém pior. Mas agora estou no rumo certo. -Me levantei. -Cuide da mamãe.
—Não precisa me pedir isso. — Ele rebateu de modo tranquilo.
—Isabella? — Parei com a mão na maçaneta.
—Você é motivo de orgulho. Sendo casada, separada, ou sei lá como está seu estado civil.
—Divorciada. — Falei sem me virar, um pequeno sorriso no canto da boca.
—Fique segura, e volte bem.
—Farei isso. — Prometi. Ainda não era a relação pai e filha exemplar, pensei enquanto me afastava do seu gabinete, mas tínhamos conversado sem gritos e acusações. Já era uma evolução.
Quando desembarcamos na África me senti deslumbrar pela beleza e pelo calor. Logo no desembarque retirei o casaco ficando apenas com uma regata.
—Bem vindas a África do sul! — Riley comemorou andando a nossa frente. Heidi e Senna caminhavam ao meu lado, Heidi com sono e Senna digitando sem parar no celular. Eu precisava ligar para meu filho, e avisar que tinha chegado bem. Uma olhada no celular e percebi que não deveria ligar, eram oito da manhã ainda, devia estar passando da meia noite lá.
Mandei uma mensagem de texto para ele, Rose e Edward. A mesma, nada muito profundo. Se alguém me respondesse eu ligaria.
Estávamos no transporte para o hotel onde ficaríamos até nos juntarmos aos outros voluntários e sermos designados para nossas áreas de atuação.
O primeiro a me responder foi Edward. Meu coração disparou com sua simples resposta.
‘’Que bom que chegou bem :) ‘’
Só isso, apenas isso e eu estava sorrindo feita boba, afinal ele me mandou um emoticon sorrindo!
—Hum… o que temos aqui? — Senna encostou o corpo no meu tentando ver a tela do meu celular. O recolhi, mas não consegui desfazer o sorriso.
—Nada demais. — Respondi.
—Tem tudo demais sim, é o mesmo olhar bobo que a Heidi faz quando a namorada manda mensagem. — Ela explicou.
—Eu ouvi isso! — Heidi reclamou do seu banco da frente.
—Ah, eu queria ter uma namorada me esperando em casa. — Riley se lamentou.
—Eu não, é uma grande merda namoro a distância. — Senna reclamou.
—E com quem você tanto fala? — Questionei.
—Algum jovem que gosto de iludir, nada demais. -Ela deu de ombros. -Agora você…
—É o meu ex-marido. — Contei.
Heidi se virou toda no banco para nos olhar.
—Você está toda boba por uma mensagem do seu ex-marido? Querida, ex é cilada!
—Tenho que concordar com a ruiva. — Senna apoiou.
—Edward é… diferente. Nós nos separamos por minha causa. — Admiti. -Não soube dar o devido valor a ele.
Nem morta que eu iria confessar que o havia traído.
—Você o quer de volta. — Heidi afirmou voltando olhar para frente.
—Péssima forma de querer alguém de volta, indo passar pelo menos três meses em outro continente. -Riley bufou.
—Eu não o quero de volta. — Quero sim, mas não posso ter.
—Qual o objetivo de amar alguém sem querer ficar com essa pessoa? — Senna se espantou.
—Eu o tive, não soube dar valor, perdi… ele está bem com outra pessoa, eu percebi que o amava, enfim, vida que segue.
—Querida, você vai nos contar tudo sobre isso. — Senna exigiu. — Cada detalhe da sua vida com ele, teremos muito tempo para isso, e as nossas histórias pessoas serão o nosso entretenimento.
Vi os outros dois assentiram.
Ela estava muito confiante sobre isso, nenhum de nós queria ficar na Capital, queríamos ir para os países mais necessitados, as tribos mais afastadas. Ah eu realmente queria ficar junto dos três.
O banho cronometrado foi um desafio, por mais que tivéssemos treinado. Tínhamos realmente um minuto e a água desligava depois disso. Fiz o essencialmente, agradecendo por ter tido a coragem de cortar os cabelos.
Heidi xingou dizendo que teria de usar a água de escovar os dentes para tirar o sabão da sua… partes de menina.
Riley comemorou sentindo-se perfeitamente à vontade parecia ter sobrado trinta segundos dele — o que foi motivo de discussão com Heidi-, Senna levou a pior, ela tentou lavar os cabelos.
—Eu avisei para não fazer isso. — Heidi comentou com tranquilidade.
—Pelo menos não coloquei shampoo. -Senna se defendeu.
—Vamos arrumar alguém para trançar seus cabelos.- Prometi.
Quando nos reunimos com os outros médicos voluntários, finalmente recebemos nossas diretrizes.
Fiquei mais revoltada do que surpresa quando vi a minha.
Hospital geral- África do Sul.
Tinha dedo de Charlie naquilo, eu podia apostar.
Meus amigos foram designados para Camarões, que recebia muitos refugiados dos conflitos da Nigéria.
—Serviço leve para você. — Riley comentou ao meu lado, vendo onde estava meu nome no quadro. — Eles costumam a colocar os médicos mais experiente, e mais velhos nos grandes hospitais. Não vai ter muita ação para você lá.
—Charlie. — Murmurei. Eu não sabia como, mas ele tinha feito aquilo.
Eu não iria aceitar calada.
…
Naquela noite liguei para Rosalie.
—Não posso acreditar que ele teve coragem de fazer isso!
—Pois acredite, ele teve. Eu não sei como, mas só pode ter sido ele.
—Tem certeza? Quer dizer não poderia ser uma coincidência, você é uma médica bem sucedida, com nome conhecido.
—Isso não importa por aqui, Rose. Os médicos mais jovens são alocados para lugares mais perigosos, e os mais velhos lugares mais tranquilo. E só. Para eu ter ido para o Hospital na África do Sul… com certeza tem dedo nele isso.
—Isso é até bonitinho, não acha? Mostra que ele se preocupa com você.
Revirei os olhos para a declaração da minha prima. A época de se preocupar comigo já havia passado.
—Não quero Charlie se metendo na minha vida.
—Bella, Bella… as vezes o tio não sabe como demonstrar que te ama, e esse é o jeito dele.
—Vou dar uma chance, a ele ok? — Suspirei.
—Vai ficar na África do Sul?
—Não, vou ligar para ele pedindo educadamente que me diga com quem falar para revogar isso.
Rose riu.
—Você não tem jeito mesmo.
Conversamos mais um pouco sobre Vanessa, e quando estava prestes a me despedir, porque a janta estava sendo servida no refeitório, ela falou.
—Edward esteve aqui na hora do almoço com Emmett, e adivinha só? Não parou de falar de você. ‘’Bella ficou tão bonita com aquele corte de cabelo, não é?’’ ‘’Bella está fazendo o certo, se reencontrando com sua profissão, afinal ela sempre foi uma excelente médica’’. ‘’Estou preocupado com a Bella longe’’… ‘’Bella’’, ‘’Bella’’, ‘’Bella’’… — ela riu.
—Agora você está sendo boba. Sou a mãe do filho dele, é normal ele se preocupar.
—Não desse jeito.—Ela insistiu. -Há muito tempo eu não ouvia falar tanto de você…até parecia…
—Não complete. — Pedi. — Por favor, não complete seu pensamento.
—Talvez…
—Ele está com Tanya, Rose.
—E se ele quiser você? - Me desafiou.
—Se ele estivesse interessado em mim, em primeiro lugar, ele não estaria com Tanya. — Doía, mas era a verdade. — Segundo, eu realmente não quero ter esperanças. E terceiro, mais importante… eu estou longe, e quero me concentrar no meu trabalho aqui.
—Que lindo a minha prima! Toda profissional e adulta!
Rimos juntas.
Levei mesmo a sério aquilo de rever minha colocação no MSF*, e sendo uma boa menina, liguei para meu pai de madrugada, porque era dia lá e ele devia estar trabalhando.
—Gabinete do prefeito. — A secretária atendeu o telefone pessoa?
—Desculpe...hã… aqui é a filha do Charlie, quer dizer, do prefeito.
—Sra. Cullen?
Eu ainda poderia ser chamada de Senhora Cullen?
—Isabella Cullen. — Confirmei.
—Ele está em reunião.
—Eu realmente preciso falar com meu pai. Diga a ele que sou eu, e ele vai atender.
Isso era o que eu esperava.
Deu certo, e logo era a voz de Charlie que eu ouvia.
—Isabella.
—Eu não sei com quem você falou, mas vai falar de novo e desfazer a bagunça que você fez.
Ele ficou quieto. Eu esperava que ele não negasse.
—Eu só queria manter você segura.
Aquilo fez com que um nó se formasse em minha garganta.
—Eu vou estar segura. Com meus amigos. Salvando vidas. Não cabe a você decidir é o que melhor ou não para mim. Essa fase já passou.
—Tem razão. Espero que saiba o que está fazendo. — Completou rude.
—Eu sempre soube, pai. Coisa boa, coisa ruim. Eu sempre soube o que estava fazendo.
Eu não sei com o quem e nem o que Charlie falou, mas no dia seguinte quando a chamada foi feita e cada médico foi designado para sua área, eu fui chamada para Camarões junto dos meus amigos.
—Garota, você é famosa, poderosa ou coisa assim? — Senna me questionou.
Dei de ombros.
—Apenas tenho um pai influente. — Contei.
…
Eu realmente não estava esperando nada demais na minha missão. Sei lá, eu fui preparada para várias coisas; poucos recursos, pessoas desesperadas por comida, lugares sujos, comida básica, calor… e crianças em situação precária.
Eu vi meninas, da idade de Vanessa, apenas cinco anos, carregando bebês, seus irmãos, com expressão triste e sofrida. Vi jovens adolescentes grávidas, e com Aids. Vi muitas crianças com fome, desnutridas.
A hora que eu quebrei, realmente me deixei chorar, foi ver uma menina, não devia ter nem dez anos completo, e se tivesse parecia mais nova pela baixa nutrição, os ossos eram visíveis sob a pele, com um bebê morto nos braços, seus irmãos, que ela embalava achando que ele dormia.
—Nada parecido com um dia de correria no hospital central de Chicago, não é? — Riley comentou comigo, certa noite, enquanto eu chorava afastada de todos.
—Nada. — Concordo. Ele me ofereceu uma garrafa.
—É apenas água, sinto falta de uma cerveja. — Ele fez careta. Aceitei bebendo um longo gole.
—Estamos aqui a apenas três meses, e tudo que eu quero é voltar para casa.
—Ainda não fizemos nada. — Lamentei.
—Bella, você fez quatro partos de emergência, onde mãe e bebê teriam morrido sem você lá. — Ele lembrou o dia em que estávamos em povoados mais afastadas. Os quatro partos foram em povoados diferentes.
—Trouxe esses bebês a vida para que mesmo? — O perguntei. — Ah sim, morrerem de fome, ou serem assinados em algum conflito, ou ainda estupradas.
Riley segurou minha mão.
—Ou adotados e levados para outro país. Ou salvarão outras pessoas. Eles têm uma chance, graças a você.
Apertei seus dedos em minha mão, e depois os soltei.
—O cara que disse querer voltar para casa está levando meu astral.
Riley riu passando uma mão pelos cabelos extremamente oleosos devido a falta de lavagem.
—Querer voltar para casa não quer dizer que eu vá. Estamos juntos nessa. -Ele me olhou com intensidade, e engoli em seco. Riley vinha se tornando muito próximo de mim. Eu adorava a amizade dele, a conversa, as risadas em meio aos problemas que enfrentávamos e víamos, mas eu não queria esse tipo de aproximação.
Não apenas com ele, eu não queria com ninguém no momento. Sorri para ele, tentando colocar alguma distância entre nós.
Logo que completamos três meses lá, Senna me trouxe uma noticia dos Estados Unidos que trouxe luz para minha noite.
Estávamos na tenda médica, Riley,, Hedi, eu e outros médicos, jantando, rindo e jogando cartas. Senna adentrou esbaforida.
—Eu consegui um sinal de TV! — Comemorou. Batemos palma. -Bella, eu acho que o menino na TV é seu filho!
—Como? — Os piores cenários se formaram na minha mente, como era possível meu filho está passando na TV? Daquele continente? Alguma tragédia ocorreu e estava sendo noticiada?!
—Respira mulher, você ficou branca! — Ela riu.
—Deixe eu ver!
—É um show de talentos, eles estão falando de revelações musicas do ano, pelo mundo. Olhe, estão falando desse Enzo Cullen.
Foquei na tela do seu celular, a imagem estava horrível, tremia muito, hora ficava nítida, hora sumia.
Eu não entendia nada do que estava sendo dito.
—O que estão falando? Alguém sabe?
—Eu sei né. — Senna revirou os olhos. — É português, tem países aqui que falam português.
—Então traduza! — Heidi se juntou a nós. Ficou nítido, mostrava meu filho num pequeno palco, cantando e tocando violão. Meus olhos encheram-se de lágrimas, ele estava tão adulto ali, cantando sobre amor, sobre a garota perfeita, sobre amar…
—Ai nosso amiga ficou emocionada! — Senna me abraçou pelos ombros. Outros médicos se reuniram a nossa volta para olhar.
—Estão falando que ele é o novo Justin Bieber, mas do Indie. — Senna explicou.
—Como assim é seu filho? — Alguém perguntou, não desviei o olhar da tela para ver quem.
—Quantos anos ele tem? — Outra pessoa perguntou.
—Dezessete. — Sussurrei com a voz embargada.
—Como você pode ter um filho de dezessete anos?! Você tem, o que, vinte e cinco?
Ri do comentário que veio de Riley, mas não respondi, ele sabia muito bem minha idade.
Ver Enzo ali, na TV aqueceu meu coração. Eu quis ligar para meu filho, mas ele devia estar na escola aquela hora, e provavelmente eu não tinha sinal para tanto.
—Mande um email.. — Riley sugeriu. Às vezes parecia que estávamos em sintonia. — Amanhã vamos passar na cidade antes do nosso próximo destino, podemos de
conseguir internet e você tenta enviar. Assim fica mais fácil de você falar para ele o que está pensando e sentindo, do que numa ligação que onde vai sair tudo cortado. Tenho feito isto com minha mãe.
—Você tem as melhores ideias! — Segurei seu rosto em minhas mãos e beijei cada lado do seu rosto.
Naquela mesma noite, enquanto meus colegas dormiam, eu escrevia um email para meu filho.
Destinatário: Enzocullen14@gmail.com
Assunto: Orgulho.
Mensagem:
Oi, filho. Minha amiga, Senna, conseguiu um sinal de Tv aqui, e adivinha só! Estavam falando das revelações do mundo do música, e falaram de você! Tinha até mesmo um vídeo de você cantando num palco! Quando foi isso? Como foi?
Estou tão orgulhosa de você! Sei o que a música significa para você, depois de tudo o que você passou, sofreu e perdeu, e estou muito feliz que esteja dando certo!
Como você está? Comendo direitinho? Como é viver com seu pai e Tanya? E a escola? E… Bree?
Por aqui é cada dia uma novidade! Tem muitas coisas triste, mas muitas lições de vida! Filho, as pessoas aqui ficam felizes com coisas que são tão corriqueiras para nós! Coisas que não reparamos que são uma dádiva, sabe?
Sinto sua falta, mas não se preocupe, fiz muitos amigos aqui, não me sinto sozinha nem nada do tipo! A maioria dos lugares por onde passamos tem uma recepção de sinal horrível, então Riley, aquele amigo que já te falei, deu a ideia de eu escrever e mail, assim posso te enviar logo que conseguir sinal, ou encontrar um computador por aqui.
Não sei quando você vai receber, nem quando eu poderei receber a sua resposta.
Te amo, filho. Se cuide, sim?
Com amor, carinho e saudades, sua mãe.
Foram exatos oito dias até que conseguisse um acesso com a internet e pudesse ver a resposta de Enzo.
Filho
EU:
Orgulho.
Mãe!!! Sim, essa foi uma ótima ideia! Sempre que ouço sua voz fico feliz, mas realmente a ligação é péssima! Não acredito que você viu um vídeo meu! Minha empresária deu a ideia de gravarmos alguns videoclipes, simulando um show. Na verdade fazendo shows para um público pequeno, aqui em chicago mesmo. Só lançamos um até agora, mas já gravamos três! Esse foi feito na quadra da escola! Todos os meus amigos participaram, eles aprenderam a música! Os outros três foram sorteados algumas das minhas fãs — sim, eu tenho fãs!
Eu escrevi mais algumas músicas, queria muito te mostrar! O papai adorou, mas ele tende a gostar de tudo o que faço — estou revirando os olhos- você faz críticas mais construtivas.
Estou comendo muito bem, pode perguntar ao papai! Estou numa dieta especial para ganhar massa, não posso engordar de forma errada de jeito nenhum.
Morar com o papai e a Tanya é normal, ela é legal você sabe.
Temos mesmo que falar sobre a Bree? Ela me questionou sobre as músicas, porque toda a escola ficou falando que escrevi sobre ela, e eu disse que algumas sim, afinal muitas foram escritas quando estavamos namorando. Ela disse ‘’tanto faz’’ e saiu andando.
Eu penso em você todos os dias, está tudo indo bem mesmo? Não consigo montar uma cena clara das coisas que você passa por ai! Está conseguindo comer e dormir pelo menos? Tenho certeza que está fazendo a diferença para cada pessoa que encontra.
Estou me cuidando, mãe. Não se preocupe comigo, viu? Também te amo.
Seu filho, astro indie, Enzo.
—Ah que bosta! Eu gastei meus trinta minutos de internet enviando fotos para minha mãe, não baixei nenhuma música! — Riley se lamentou quando voltamos a rua da cidade.
—Consegui falar com meu filho, melhor ler sua resposta ao meu email. — Comemorei.
—Bom pra você. -Ele resmungou. -Onde será que aquelas duas se meteram:? — Ele olhou em volta na rua movimentada.
—Heidi deve estar comprando algo para comermos. — Imaginei. Senti meu celular, que tinha se tornado sem muita utilidade, vibrar no bolso da minha calça jeans.
—Alguém aqui tem sinal! — Riley disse caminhando na minha frente.
Era Edward.
Atendi rápido com medo da ligação cair.
—Edward? — Era manhã, passava das dez da manhã, um raro dia de folga para nós, e estávamos numa pequena cidade.
Fiquei muito surpresa ao ouvir a voz de Edward, já fazia três meses que não falava com ele, a não ser pelas poucas mensagens de texto que trocamos, a maioria sobre Enzo.
—Bella? Que bom que conseguiu completar a chamada… está ocupada? Eu nem pensei que horas são aí!
—Aqui é manhã agora, imagino que é pior para você. Está de madrugada ai.
—Sim. -Ele afirmou apesar de eu não ter perguntado. Riley fez sinal para mim, continuou caminhando deixando que eu falasse.
—Aconteceu alguma coisa? Enzo está bem?
—Sim, quer dizer não. — Ele riu. Não parecia um som feliz — Aconteceram coisas, não relacionadas a Enzo. Ele está dormindo.
—O que foi então? — Se nosso filho estava bem não havia motivo para alarde, mas ainda me senti ansiosa.
—Eu precisava conversar com alguém e só conseguia pensar que precisava conversar com você. — A chamada estava horrível, mas pude ouvir com clareza o que ele disse nesse momento.
—Fico feliz em ser seu contato para crises, fique sabendo que também é o meu. — Não, não era, não ainda, mas eu o colocaria neste posto a partir de hoje.
Pude ouvir sua respiração do outro lado da linha, Edward parecia ansioso.
—O que foi Edward? -Repeti ficando preocupada.
—Tanya está grávida de novo.— Ele disse realmente baixo dessa vez, e eu mais intui suas palavras do que as ouvi.
Essa gente não conhecia nenhum método contraceptivo?!
—Se sua voz não me parecesse tão arrasada com a motiva eu diria parabéns, mas pelo visto felicitações não se aplicam aqui.
—Ela está com câncer, Bella. câncer no colo do útero, e precisa fazer um aborto para tratar.
—Ah Edward… nossa, eu sinto muito. -Falei imediatamente. — Mas ela pode ficar bem, sendo tratado rápido pode-se salvar o útero, pode ser benigno e….
—Ela não quer fazer o aborto para se tratar.
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