Pride & Prejudice
4 Capítulo 4
Abril tornou-se oficialmente um mês chuvoso quando, na segunda semana, todos os dias foram literalmente regados a fortes tempestades capazes de assustar até mesmo os menos amedrontados. O trânsito japonês tornou-se pior, os trens circulavam com velocidade reduzida e o retorno para casa se transformou em uma verdadeira viagem.
Para Himuro, em particular, o clima chuvoso não era um empecilho. Os treinos terminavam no mesmo horário, mas isso não significava que ele seguisse diretamente para casa. O pós-treino era sem dúvidas a parte mais prazerosa do dia, embora seu amor por basquete fosse imenso. Porém nada superava os longos beijos trocados no solitário vestiário ou as conversas baixas e sussurradas no caminho até a estação, dividindo o gigantesco guarda-chuva de Murasakibara.
Tudo era novo.
Ele nunca havia vivido aquele tipo de situação e cada pequena coisa o fascinava, além de que, quanto mais o conhecia, mais encantado ficava. Murasakibara, por sua vez, não poupava esforços para agradá-lo, à sua maneira, claro, mostrando-se presente, observando-o com atenção e ouvindo-o com real interesse. Diferente do Atsushi que eu conheci... arredio e distante...
A tal conversa acontecia a prestações. Alguma coisa sempre calhava de acontecer quando ele decidia finalmente sentar e conversar. Por duas vezes o rapaz de cabelos roxos lembrou-o da conversa, no entanto, quando estavam a sós havia coisas muito mais interessantes para serem feitas. Eu estou caindo em meu velho padrão superficial. Aos poucos Atsushi está se tornando mais um.
“Atsushi” era como ele se referia a Murasakibara. O formal sobrenome deu lugar a uma inevitável intimidade, embora ele nunca tenha falado meu primeiro nome. De Himuro eu passei a Muro-chin. Aquele apelido o fazia sentir-se menos distante, pois sabia que os antigos colegas de Teikou recebiam a mesma denominação.
A relação entre eles havia se tornado mais física depois da noite em seu apartamento, e não seria preciso dizer que não havia um dia em que ambos não fugissem para algum cubículo para satisfazerem seus hormônios. O Lançador sempre foi uma pessoa sexual, e muitas vezes teve problemas em achar parceiros compatíveis e que conseguissem manter o seu ritmo. Ele é perfeito para mim. Murasakibara nunca o desapontava, e era preciso apenas um olhar depois dos treinos para que ambos soubessem que aquele dia terminaria entre beijos e gemidos. Para Atsushi tudo isso é novo, e ele aprende com facilidade.
Foi em uma quinta-feira que as chuvas deram uma trégua. O dia amanheceu nublado, com grossas nuvens pairando sobre o céu e o caminho até o colégio foi feito sem a necessidade de abrir o guarda-chuva. Eles haviam combinado de seguirem juntos ao colégio, e o rapaz de cabelos roxos sempre embarcava na estação seguinte. O vagão de número 9 era o escolhido e Himuro o recebia com um sorriso e um caloroso bom dia.
O almoço foi feito na cobertura, uma raridade naqueles dias molhados. Daquele lugar era possível ver claramente que a chuva retornaria, provavelmente ao anoitecer, então era preciso aproveitar o máximo possível o bom tempo. Os dois estavam sentados atrás da área coberta que unia o terraço à escadaria, degustando um grande obento trazido por Murasakibara.
"Sua mãe é uma excelente cozinheira, Atsushi. Não acredito que ela tenha feito tudo isso em um curto espaço de tempo."
"Minha mãe cozinha para a família inteira, então uma boca a mais ou a menos não faz diferença."
Eu fiquei surpreso ao descobrir que Atsushi tinha irmãos, ainda mais quatro deles! O mais velho estava raramente em casa por causa do trabalho, e os outros dois irmãos viviam em dormitórios próximos às suas respectivas universidades. A irmã, contudo, era a única que vivia com eles, uma vez que estava no último ano do ensino médio.
"Sua irmã é alta como você?"
"Por quê?" Os olhos violetas se tornaram pequeninos. "Por que você quer saber sobre minha irmã, Muro-chin?"
"Eu estou apenas curioso..." O moreno riu e corou. Ainda era difícil acreditar que alguém sentia ciúme de algo tão tolo. "Ela é a única que mora com você, não é? Os demais estão fora de casa."
"Sim..." Murasakibara voltou a dar atenção às suas omeletes. "E ela não é alta. Na verdade ela parece uma criança, pouco mais de um metro e meio."
"O quê?" Ele riu e precisou dar um gole em seu copo. O chá verde estava delicioso. "Como isso é possível?"
"Nenhum dos meus irmãos é alto como eu."
A irmã então se tornou o assunto por alguns minutos. Himuro tentava imaginar uma versão feminina e mais baixa de sua companhia, mas era muito difícil. Atsushi é muito... grande. Não existe nada feminino ou delicado. O único olho visível encarou o último pedaço de omelete dentro de seu obento e naquele instante ele soube que o momento havia chegado. Nenhum deles poderia continuar a caminhar sem que aquele assunto fosse devidamente conversado.
"Atsushi, precisamos conversar."
"Achei que estivéssemos conversando." A resposta foi simples e sincera.
"Eu estava me referindo a... nós."
"Você e eu?"
"Atsushi!"
Murasakibara ofereceu um discreto e travesso meio sorriso do lado esquerdo de seus lábios. Aquele sorriso acontecia raramente, e no geral nas ocasiões em ele sabia que o irritaria. Eu passei a adorar esses momentos. Embora Atsushi me tire do sério eu gosto quando ele esboça qualquer reação além do tédio e descaso. E somente para mim...
"Certo, o que você quer falar?" O Pivô desencostou-se da parede e sentou-se à sua frente, cruzando os braços e parecendo muito mais alto.
"Nós deveríamos ter tido essa conversa há algum tempo, antes de... d-de..." Ele mordeu o lábio inferior. De repende falar sobre o que já haviam feito levava uma onda de rubor à sua face.
"Antes do que, Muro-chin?"
"A-Antes de nos beijarmos," o moreno sentiu-se nervoso, ainda que não entendesse porque falar sobre aquilo o deixava incomodado.
"Ah, isso." Murasakibara não pareceu preocupado. "E o que há para conversamos? Para mim tudo é muito simples. Você gosta de mim, Muro-chin?"
"Si-sim... " Himuro riu nervoso. Não era exatamente daquela maneira que ele havia imaginado a conversa mais decisiva que já tivera na vida. "Eu gosto de você, Atsushi...”
"Eu também..." O rapaz de cabelos roxos curvou-se à frente, apoiando as palmas das mãos sobre o chão. Os rostos estavam próximos o suficiente para sentir a respiração misturar-se à sua. "Eu gosto muito de você, Muro-chin. Na verdade, eu sou louco por você."
O vermelho pareceu ter subido devagar, até tingir seu rosto.
Himuro tornou-se incapaz de se mover, mesmo que seus lábios tentassem proferir uma defesa para aquelas palavras tão sinceras. Seu coração batia rápido a ponto de doer dentro de seu peito. E, depois de dezessete anos, aquela era a primeira vez que ele sentia-se exatamente como nos filmes e canções. Uma sensação que esperava nunca perder.
"Então era isso o que você queria conversar?" Murasakibara voltou à posição inicial como se nada houvesse acontecido. "Achei que estava claro desde o começo."
"As coisas não são tão simples, Atsushi." Ele tentou tornar-se novamente dono de si mesmo. A parte realmente importante da conversa estava prestes a acontecer. "Nós precisamos decidir o que faremos de agora em diante."
"Como eu disse... o que há para conversamos?" A voz soou tediosa e foi seguida por um bocejo.
"Muitas coisas!" Himuro voltou a corar. "O que faremos agora? O que nós somos? Um dia nós iremos tran..." A palavra ficou presa no fundo de sua garganta e ele sabia que seria impossível proferi-la. Falar de sexo cru com aquela pessoa soava extremamente sujo e até mesmo impuro. "Nós iremos fazer amor..."
"Ah, você queria falar de sexo." Murasakibara não pareceu surpreso.
"Claro que eu queria falar sobre isso. É importante e você precisa saber que... que entre dois homens... é diferente, algumas coisas são diferentes."
"Eu sei dessas coisas, Muro-chin." O tom de voz denunciou que seu interlocutor não gostou do comentário. "Eu nunca fiz, mas eu sei como funciona."
"Eu não estava tentando te chamar de ignorante, Atsushi, mas entre homens as coisas não são tão simples."
"Você fala por experiência, Muro-chin?"
O Lançador não conseguiu responder; ele não sabia ao certo o que deveria dizer.
Aquele era o momento que assombrou suas noites e foi responsável por fazê-lo quase deixar aquela conversa de lado. Entretanto, não seria justo que seu companheiro não soubesse de seu passado, visto que desde o início ele deu-lhe nada além de honestidade.
"Sim."
"Hm... você já teve um namorado antes, Muro-chin?"
"Não."
"Então como você sabe sobre essas coisas?"
A resposta tremeu em seus lábios e pela primeira vez na vida Himuro sentiu-se envergonhado por seu passado. O gosto em sua boca não era da deliciosa omelete e seu estômago dava voltas e voltas. Ele nunca pensou que chegaria o dia em que as experiências o assombrariam daquela forma.
"Eu tive alguns... amigos. Nós nunca namoramos, mas fizemos sexo algumas vezes."
A face de Murasakibara permaneceu impassível. Nenhum músculo moveu-se e palavra alguma deixou sua boca.
Todavia, o silêncio servia como resposta. A cada segundo o moreno sentia-se afundar em sua poça pessoal de vergonha, indagando-se onde ele estivera com a cabeça ao decidir se abrir daquele modo. Vários cenários mentais passaram diante de seu único olho visível e, infelizmente, nenhum deles tinha um final feliz.
"Entendo." O rapaz de cabelos roxos coçou a nuca e suspirou. O olhar que veio em seguida continha algo que Himuro não conseguiu detectar. "Mas agora eu não sei o que fazer. Eu não quero um Muro-chin usado e de segunda mão."
A visão tornou-se turva e todos os músculos de seu corpo desejaram revidar fisicamente aquela ofensa. A mão direita abaixou-se e segurou o que estava mais próximo e o copo foi virado com ira no rosto do Pivô, no exato instante em que o sinal tocou, avisando que o horário de almoço havia terminado. Ele levantou-se e deu as costas, deixando a cobertura com passos largos e descendo as escadas sem olhar para trás. Os degraus eram transpostos com pressa, mas a angústia em seu peito parecia não ter lugar para ir.
Os corredores estavam cheios de alunos dirigindo-se para suas respectivas classes e Himuro só parou ao sentar-se em seu lugar. Como chegara ali era um mistério, já que somente ao acomodar-se foi que ele notou que tremia. As costas da mão esquerda passaram rapidamente sobre seus olhos, enxugando duas teimosas lágrimas que haviam se formado ao lembrar-se do instante em que a humilhação ganhou a forma de palavras e entrou por seus ouvidos.
Era o fim. Ele nunca perdoaria Murasakibara por isso.
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Seu coração só conseguiu se acalmar depois do segundo tempo de Literatura Japonesa, embora o mesmo não pudesse ser dito sobre sua atenção. Himuro não parou de pensar nas palavras de Murasakibara. Elas haviam cortado fundo, encontrando um local já esquecido em seu coração.
Ele sabia. Ele sabia que um dia o passado retornaria para lhe chutar o traseiro, lembrando-o das relações superficiais e as noites em que tudo o que ele queria era companhia, qualquer uma. O moreno sempre teve problemas em manter relações duradouras com as pessoas, mas tudo se tornou pior quando Kagami saiu de sua vida. Não, ele não saiu; eu o expulsei. Tenho certeza de que teria sido outra pessoa se houvesse crescido ao lado dele. Para Himuro, todas as ligações eventualmente se romperiam, portanto, não havia necessidade de iniciá-las. No fundo, ele sabia que o amor tinha prazo de validade.
Murasakibara era sem dúvidas a primeira pessoa, depois de Taiga, a tornar-se tão importante em sua vida. Ele aproximou-se inconscientemente, entrando por baixo de sua pele e fazendo-o questionar certos paradigmas pessoais. O que um dia foi importante e prioritário, como sua liberdade, por exemplo, tornou-se secundário se comparado à sua companhia. Por esse, entre vários motivos, as palavras doeram tanto. A transição entre seu antigo e novo “eu” não era fácil, e ele certamente não precisava de um lembrete cruel sobre a pessoa que costumava ser.
A terceira e última aula seria Física e o moreno teria permanecido em seu assento, esperando pacientemente a troca de professores, se um elemento distinto àquele contexto não surgisse na entrada da sala, chamando-o com a mão direita.
"Desculpe tirá-lo da aula, Himuro, mas vim avisar que não treinaremos nesta tarde."
"Não?" A notícia o surpreendeu. Treinos cancelados eram raros.
"Sim, Liu e Murasakibara não irão participar e Araki-san está preocupada."
"Atsushi?" Agora sua atenção estava totalmente em Fukui. "Mas por quê? O que aconteceu?"
"Você não soube?" O louro juntou as sobrancelhas e pareceu genuinamente surpreso. "Murasakibara está na enfermaria desde o horário do almoço. Ele machucou os olh—"
Ele sabia que o professor entrara na sala através da outra porta, no entanto, não se importou. Himuro cruzou o corredor às pressas, ignorando os avisos colocados nas paredes e que proibiam corridas. Não havia mais nada em sua mente além de Atsushi. O que eu fiz? O moreno lembrava-se vivamente da cena do terraço, ainda que certos detalhes houvessem passado despercebidos, sentado em sua cadeira e ruminando a grosseira ouvida enquanto esquecia-se de partes que poderiam ter sido importantes. Se eu ao menos tivesse me lembrado do chá. No calor do momento ele sequer cogitou que o conteúdo do copo não era água. O que eu fiz?
A porta da enfermaria foi arrastada com fúria e o primeiro nome de Murasakibara foi chamado em voz alta e em tom levemente desesperado. Havia quatro macas no local, todas com as cortinas abaixadas e sem sinal claro de onde estava aquele que tanto o preocupava.
"Aqui, Himuro-han." Liu surgiu atrás da última cortina e o Lançador nunca se sentiu tão feliz por vê-lo.
"A-Atsushi, onde ele está?"
"Muro-chin..."
A voz veio da última maca e ao aproximar-se ele o viu deitado, com uma toalha sobre os olhos. A visão fez seu peito tornar-se apertado e palavras não poderiam descrever o turbilhão de sentimentos conflitantes dentro dele.
"L-Liu, eu posso levá-lo para casar." Himuro tentou ao máximo não deixar transparecer sua preocupação. "Atsushi e eu moramos na mesma direção, e eu sei que seu dormitório fica do outro lado."
"Hm..." O alto chinês ponderou. "Eu não me importo, mas você ficará bem, Murasakibara-han?"
"Sim, Muro-chin pode me levar para casa."
"Então vou deixá-lo em suas mãos."
Liu desejou melhoras ao colega de time antes de se retirar e o moreno só sentiu-se aliviado quando a porta foi arrastada e devidamente fechada. Seus pés aproximaram-se da maca, coincidindo com o Pivô sentando-se. A mão direita tocou o rosto pálido e seu coração pulou uma batida.
"Eu sinto muito, Atsushi." Seus dedos retiraram a toalha que estava úmida, e os olhos violetas se abriram devagar e levemente avermelhados e irritados.
"Não é culpa sua." A grande mão pousou sobre a dele. "Eu disse coisas feias para você."
"Elas foram feias, mas verdadeiras. Você teve razão em sentir-se enganado. Muitas coisas deveriam ter sido ditas desde o começo."
"Eu não gostei de saber que você tinha feito aquelas coisas com outras pessoas," a voz soou sussurrada, como uma confissão, "eu queria que você fosse todo meu, só meu."
"Há algum tempo eu sou somente seu, Atsushi." Ele sorriu ao lembrar-se dos meses que passou tentando uma aproximação. Com exceção do garoto do trem, ele não havia tocado outro ser humano. E nós não fizemos nada além de trocarmos alguns beijos.
"Eu te vi com aquele cara próximo à estação. Você dormiu com ele, Muro-chin? Seja honesto..."
"Não, não dormi." O moreno não se surpreendeu ao ouvir que fora visto. Aquele incidente parecia longe, como se houvesse acontecido com outra pessoa.
Murasakibara o encarou por alguns segundos em total silêncio. Seus olhos estiveram o tempo todo o fitando e deixando-o apreensivo com relação aos pensamentos que seu interlocutor poderia ter naquele momento. Há alguma coisa que eu possa fazer para melhorar a situação? Algo que possa ser dito? Eu tenho medo de torná-la pior. As desculpas já haviam sido devidamente oferecidas, mas seriam suficientes? Vários “eu sinto muito” não apagariam seu passado ou devolveriam sua castidade. Eu preciso tentar...
"Sabe, Atsushi, você tem todo o direito de sentir-se enojado. Eu, no seu lugar, provavelmente me sentiria traído. Por isso eu compreendo se você não quiser continuar a me ver... mais que um amigo. No entanto, em minha inútil — e totalmente egoísta — defesa, deixe-me dizer que esta é a primeira vez que penso seriamente em alguém, em ter alguém. Eu nunca tive um namorado e minhas relações sempre foram banais, mas todas as vezes que penso em você eu tenho plena certeza que desde o começo eu já estava encantado; apenas não entendia meus próprios sentimentos.”
"É injusto, Muro-chin,” a resposta veio em seguida, “como posso responder a algo assim? Eu não gostei de saber sobre o seu passado, mas sabia que jamais poderia mudá-lo.” Seus olhos abaixaram-se. "Eu gosto de você, Muro-chin, e quero continuar a te beijar e abraçar, mas ao mesmo tempo sei que pareço um idiota por ser totalmente inexperiente. Eu nunca fiz nada disso antes; você é meu primeiro tudo."
O sorriso que se formou em seus lábios foi somente uma amostra do modo como seu coração gargalhou ao ouvir tais palavras. Soa como uma confissão, não? Você está me dando uma chance? Eu posso interpretar isso como um sim?
"Você poderia me dar uma oportunidade, Atsushi?" Ele estendeu a mão e tocou a que estava à sua frente, tão próxima e tão importante, esperando que não fosse repelido. A pele estava quente e os pálidos e longos dedos não se retraíram. "Eu poderia tentar provar a você o quanto eu me importo e quero estar ao seu lado? Nós podemos começar como amigos, se você quiser. Aliás, penso que nunca tivemos realmente a chance de sermos amigos, não? Poderíamos ten—"
O beijo roubou seus lábios com uma estranha e inesperada gentileza, embora impaciente e necessitado. Apesar do tamanho impressionável, Murasakibara não era assustador, pelo menos não intencionalmente. Suas mãos eram grandes, mas os toques gentis e protetores; os lábios eram macios e bem preenchidos e os dentes brancos e perfeitamente alinhados. Não havia nada que Himuro desgostasse naquela pessoa e o simples pensamento de perdê-la era mais do que ele poderia suportar. Eu já perdi Taiga. Deixar Atsushi está fora de cogitação.
Houve certo exagero durante a carícia e as línguas se envolveram com uma clara mistura de desejo, certeza e um novo e cúmplice sentimento que não teria nascido se aquela conversa não houvesse acontecido.
"... ou podemos continuar de onde paramos."
"Nós nunca seremos amigos, Muro-chin. As coisas que quero fazer com você não são coisas de amigo."
"Mesmo? Você quer fazer coisas comigo?" Ele riu, corando por algo tão bobo. Eu tenho experiência, mas perto dele é como se eu estivesse descobrindo essas novidades.
"Sim, então você não pode sair por ai beijando caras aleatórios na estação." O rapaz de cabelos roxos tornou-se sério. "Você tem que me prometer que não fará nada com ninguém... além de mim, claro."
"Esta é uma promessa que eu posso manter." O peso em seu coração dissipava-se aos poucos.
"Então somos namorados agora," Murasakibara ofereceu um infantil e orgulhoso meio sorriso. "Eu gosto de como isso soa."
"Como seu namorado, minha primeira tarefa é escoltá-lo até sua casa. Melhor irmos agora, antes que os trens fiquem cheios e seja difícil transitar."
"Se algum pervertido aparecer eu te protegerei, Muro-chin."
"Como você fez naquele dia?" A mão direita tocou o rosto de Murasakibara. Ele jamais se esqueceria daquele fim de tarde. "Eu nunca te agradeci de verdade pelo que você fez."
"Não precisa agradecer, eu fiz o que deveria ser feito. E gosto da ideia de ir embora."
A mochila do rapaz de cabelos roxos estava ao lado da maca, contudo, a dele havia ficado na sala. O Lançador pediu que seu amante, agora oficial, esperasse alguns minutos para que ele fosse buscar suas coisas; entretanto, assim que arrastou a porta da enfermaria, ele viu sua mochila próxima à parede. Liu... o quanto você ouviu? Ele optou por não mencionar sobre a possibilidade do colega de time ter escutado a conversa e os dois deixaram a enfermaria caminhando tranquilamente pelos corredores, já que os alunos estavam em suas salas de aula.
Não choveu naquela tarde e ambos fizeram o caminho como se não existisse nada capaz de aborrecê-los ou atrapalhar aquele novo e sólido sentimento. Himuro nunca havia visitado a casa do Pivô e, quanto mais se aproximava da residência, mais inquieto ele se sentia. O grande sobrado ficava localizado a cerca de dez minutos da estação. Havia um belo e bem cuidado jardim e uma pequena escadaria de quatro degraus que unia aquela área à soleira.
"Eu vou deixá-lo aqui, Atsushi." Ele parou e inclinou a cabeça para trás, pois Murasakibara tornou-se ainda mais alto ao colocar-se no primeiro degrau.
"Não vai não, Muro-chin. Nós somos namorados agora, então é a chance de você conhecer parte da minha família."
"E-Eu acho que é cedo demais para isso." Himuro tentou não permitir que o pânico pintasse sua voz. A responsabilidade era pesada demais.
"Não e não!"
O moreno foi puxado e mesmo que tentasse fugir teria sido impossível. A porta abriu-se antes que pudessem tocá-la e um pequenino ser surgiu. Seus olhos eram violetas, assim como seus curtos cabelos.
"O que você está fazendo essa hora em casa, Acchan?" A voz da garota era energética e ela vestia um bonito uniforme preto e branco, cuja gravata estava pendurada em um dos bolsos.
"Ah... tadaima, Chiharu-chin." O rapaz de cabelos roxos tocou o alto da cabeça da irmã. "Eu trouxe o Muro-chin."
Murasakibara Chiharu era tão baixa quanto ele ouvira falar. Suas pernas eram curtas e pequenas e ela aparentava muito mais ter 13 e não quase 18 anos. Seus traços eram femininos, embora houvesse determinação em seus olhos e em nada lembrava a personalidade preguiçosa do irmão mais novo.
"Então você é o famoso Muro-chin? Eu tenho ouvido seu nome todos os dias e por um momento cheguei a pensar que fosse imaginação de Acchan."
"Eu sou real," ele corou, fazendo uma polida reverência. "Himuro Tatsuya, muito prazer."
"Ah..." A garota retribuiu o cumprimento de maneira desajeitada. "Murasakibara Chiharu, obrigada por sempre tomar conta do meu irmãozinho. Eu sei que Acchan dá trabalho."
"Não dou!" O Pivô apertou os olhos. "E pare de dizer mentiras para o Muro-chin."
"Ele sabe que são verdades! Você só dá trabalho, Acchan!"
Murasakibara, o irmão, reclamou até entrar. A porta dava para uma grande sala de estar incrivelmente arrumada e decorada. Os sapatos ficavam organizados ao lado, e ele viu-se guiado através do cômodo, adentrando pela primeira vez à casa de alguém que agora era considerado oficialmente seu namorado. Meus amantes passados só sabiam o caminho até meu quarto. Eu não sei como lidar com famílias.
Seu nervosismo provavelmente chamou a atenção de Chiharu, que se aproximou e perguntou sobre sua própria família. O moreno disse que os pais estavam na América e que ele retornara sozinho.
"E irmãos? Você têm irmãos?"
A resposta ficou presa em sua garganta.
Havia muito por trás daquela simples resposta. Por outro lado, ele jamais ousaria negar a existência de Kagami, mesmo os dois estando afastados por anos.
"Um irmão," o sorriso tornou-se extremamente largo, "eu tenho um irmão mais novo. Seu nome é Taiga..."
Continua...
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