Premonição 8: Condenados
9 Dilúvio
Notas iniciais
Quatro dias depois…
Anna sentia saudades de seu quarto.
Apesar de ter se acomodado bem no college e de saber que a mudança significava que ela estava começando uma nova fase (e que fase!) de sua vida, entristecia a ela ver o que deixara para trás. O quarto era todo pintado em tons claros e neutros, e ainda estava decorado da exata mesma forma que fora planejado, quando ela era apenas um bebê. O berço foi trocado por uma cama, e os posteres na parede indicavam que se tratava do quarto de uma adolescente, mas fora isso nada mudara. Anna sentia um aperto no peito ao pensar naquilo.
Era bom poder descansar e pensar. Anna sabia que eles corriam perigo, em especial Laura, mas mesmo assim tentava manter-se calma. Sabia que a loira estava o mais segura possível, no andar debaixo, provavelmente conversando com sua mãe. Se a morte tentasse levá-la, Anna imaginava que conseguiria impedir que isso acontecesse. Era aquilo ou seus pais presenciariam uma cena que jamais se esqueceriam pelo restante de suas vidas. Eles presenciariam a morte de Laura.
Não seria justo com eles, Anna sabia, mas o que poderia fazer? Sentia uma obrigação moral de proteger os que restavam. Sentia-se responsável por colocá-los na situação em que estavam, e faria o possível e o impossível para minimizar os danos.
Levantou-se da cama e caminhou sem rumo pelo quarto. Parou diante de sua penteadeira e encarou a fotografia que havia ali. Nela estavam ela, Courtney, Daniel e Big J. A foto fora tirado quando eles tinham dezesseis anos, durante uma festa de Sweet Sixteen de uma colega de classe deles. Na fotografia todos pareciam felizes, sorrindo. Big J já era enorme naquela época, de modo que estava agachado na frente do trio, flexionando os braços e exibindo músculos (na época) inexistentes. Courtney fazia o símbolo de paz e amor com uma das mãos e tinha a perna direita erguida, como se estivesse dando um saltinho. A outra mão da loira estava no ombro de Daniel. O primo tinha os braços cruzados e fazia uma expressão de mau pouco convincente.
Por último, ela. Anna tinha as duas mãos no rosto e a boca aberta, numa expressão de falsa surpresa. Uma releitura grosseira do quadro “O Grito”, de Munch.
As lágrimas já não caíam mais há algum tempo.
Anna não se lembrava direito como reagira quando soube da morte do primo, mas tinha certeza que sua reação tinha sido histérica. Tinha poucas lembranças do dia, todas elas entrecortadas por sonhos. Sabia que tinham sedado-na para contê-la, e sabia que isso contribuía para seu esquecimento. Não conseguia culpar ninguém além de si mesma.
Quando acordou, ainda na enfermaria do campus, seus pais estavam lá, bem como seus tios. Anna lembrava-se de chorar muito e pedir desculpas à tia, mas não tinha certeza a respeito de como as coisas tinham ocorrido. Lembrava-se, porém, de uma conversa posterior, que tivera com Phillip quando já estava calma o suficiente para falar sem ter um ataque de histeria e começar a chorar copiosamente. Os sedativos pareciam ter um efeito à longo prazo, o que era bastante bom.
Phillip lhe contara que o campus estava suspendendo as aulas por uma semana. Ele não sabia direito os motivos e não tivera tempo de procurar descobrir, mas imaginava que a causa fossem as mortes repentinas de Simon e Daniel dentro da universidade. Em especial a de Simon, já que ela acontecera dentro da maior fraternidade do college, o que implicava em uma repercussão gigantesca e uma tarefa difícil a ser realizada pelo departamento de comunicação social do campus.
Naquela mesma conversa, Anna descobriu que não poderia se despedir de Big J da maneira correta. Phillip conversara com os pais do gigante loiro e eles disseram que já tinham realizado uma cerimônia fúnebre dupla, para os dois filhos, em uma igreja mórmon da qual faziam parte. O rapaz não questionou os motivos deles, e Anna também não questionou-o. Ambos não conseguiam nem imaginar a dor que aquele casal estava sentindo, de modo que acatariam sem pensar duas vezes qualquer coisa que eles decidissem. Para Anna doía, porém, não conseguir dizer adeus à duas das pessoas mais importantes de sua vida. Sua melhor amiga e o seu primeiro amor. Sem eles, a garota perdia uma fatia importante de sua vida.
Com a morte de Daniel somada a tudo isso, Anna tinha a certeza de que ela também morria.
O primo era o seu melhor amigo. Era o seu confidente, o único garoto no mundo em quem ela confiava de maneira incondicional. Doía-lhe com muita força perdê-lo. Além disso, havia a dor dos outros. A dor de seus pais ao perder o sobrinho, a dor de seus tios ao perder o filho, a dor de seus avós ao perderem o neto… A tragédia deixava de afetar apenas ela, já que agora afetava toda a sua família. Com a morte de Daniel, todos na família morriam um pouco.
E então havia ainda a lista da morte. A maldita lista da morte.
Ben e Laura já sabiam de tudo. Phillip contara à Anna que essa fora outra conversa que tivera, com os dois. Contara em detalhes tudo o que a garota já havia lhes dito, e então ouvira o que eles tinham a dizer. A loira, em especial, contara muita coisa interessante. O rapaz fez questão de que ela falasse sobre a teoria do Djinn com suas próprias palavras, e Anna surpreendeu-se consigo mesma ao perceber que não acreditava naquilo. Por algum estranho motivo, fazia sentido acreditar na mitologia da lista da morte, mas não em um demônio que realizava desejos e colocava maldições. Apesar de tudo isso, porém, ela apoiou Laura. O que tinha a perder? Ela sabia o que estava em jogo ali, e qualquer mínima chance que eles tivessem de salvar suas vidas era válida. Anna não iria desistir sem uma boa luta. Lutava por Big J, por Courtney, por Daniel, por todos os outros.
Havia também o estado de Ben. Anna não estava presente quando o médico conversou com os pais do ruivo, mas Phillip sim, de modo que ele também lhe repassara essa informação. Segundo o doutor, Ben levara sorte. Nenhuma parte importante de seu braço fora atingida com o impacto, de modo que em alguns meses ele recuperaria o total movimento dele. Isso, porém, não era consolo nenhum, porque Phillip enfatizara: meses. Seis, na melhor das hipóteses. Apesar de tudo isso, o ruivo não parecia abatido. Se sofria, sofria calado. Talvez tivesse desenvolvido um escudo que o protegia da dor, desde a morte de seu irmão. Se era essa a verdade, Anna gostaria de ficar a par daquela técnica.
Restava Phillip.
Anna devia muito a ele. Mais do que poderia pagar em toda a sua vida, tinha certeza. Enquanto ela estava surtando e lidando com a sua dor, ele estava descobrindo coisas, lidando com problemas, tornando a situação deles o mais prática possível. Era impossível que a garota não sentisse um carinho por ele. E era, ao mesmo tempo, estranho que isso ocorresse. Dentro do grupo de amigos em que estavam, podia-se dizer que eles tinham pouco contato. Ela era mais próxima de Courtney e Michelle, e até mesmo de Big J, Daniel e Simon. Já ele era amigo dos garotos, de modo que os dois sentaram para conversar pouquíssimas vezes, suficientes para serem contadas nos dedos de uma única mão. Apesar disso, ali, naquela situação em que estavam, Anna conseguia ver como o coração dele era grande e generoso. Conseguia ver a pessoa boa por trás da casca aspie quase intransponível.
Anna sentia-se masoquista pela música que tocava ao fundo. Phillip lhe recomendara aquela canção havia vários meses e, apesar de nunca ter tido paciência para ouvi-la, lembrava-se desse fato. Ali, sozinha em seu quarto, a ouvia. Talvez como forma de agradecê-lo, mas não tinha certeza.
I am the voice in the wind and the pouring rain
I am the voice of your hunger and pain
I am the voice that always is calling you
Do outro lado da porta, Anna imaginava que Laura e sua mãe, Lynette, estivessem conversando. Seu pai, Noah, era um veterinário, de modo que provavelmente estava na fazenda em que trabalhava, cuidando dos cavalos de um agricultor bastante rico.
Os dois estavam apoiando-a da maneira que conseguiam. O assunto da destruição do Impala, por exemplo, fora solenemente ignorado, talvez por eles terem medo de magoar Anna ao trazer o assunto à tona. Eles conheciam Big J e Courtney, de modo que também ficaram abalados com as mortes deles. Quando o pai comentou, de maneira despretensiosa, sobre as tragédias seguidas, Anna sentiu-se extremamente desconfortável e mudou de assunto. Eles não entenderiam. Jamais. Aquela era uma batalha que ela tinha de enfrentar sozinha, no máximo contando com a ajuda dos que estavam na mesma situação dela. Se ainda lutava por sua vida, o motivo eram os seus pais. Colocá-los a par de tudo aquilo não seria uma decisão correta, mesmo que, por algum milagre, eles acreditassem na história da lista da morte.
De repente alguém bateu na porta.
— Quem é?
— Sou eu, a Laura.
— Pode entrar.
A loira então abriu a porta e entrou. Anna estava deitada na cama, de lado, olhando para a escrivaninha. Ainda estava de pijama, mesmo já sendo quatro horas da tarde. Laura, por sua vez, usava uma regata branca e uma calça jeans laranja, com um par de sapatilhas claras nos pés. Seus cabelos estavam presos em uma trança que caía por cima de seu ombro, e a garota imediatamente reconheceu o penteado que sua mãe costumava fazer nela quando era pequena.
Laura sentou-se na beirada da cama e Anna se sentou em cima dela, para poder conversar com a atriz. Foi a loira quem disse:
— Nós precisamos consertar essa situação, Anna. Nossas vidas estão paradas. Isso não pode continuar por mais tempo.
Anna sabia que a outra garota tinha razão, mas ao mesmo tempo sentia-se completamente sem vontade de fazer qualquer coisa. Queria ficar deitada para sempre, se possível. Apesar disso, disse:
— Eu sei, Laura. E eu me sinto péssima, especialmente por você. Não importa quem nos colocou nessa situação, mas não é justo. O medo, a angústia…
— Nem me fale… — A outra concordou, meneando a cabeça. E então surpreendeu Anna, dizendo: — Eu sei que você não acredita na minha história. Eu consigo ver nos seus olhos.
Antes que Anna pudesse dizer alguma coisa, a música seguinte na playlist que a garota colocara no notebook começou a tocar.
If you wanna be with me
Baby there's a price to pay
I'm a genie in a bottle
You gotta rub me the right way
Laura não conseguiu conter uma gargalhada nervosa diante daquela música.
— A morte tem um senso de humor e um timming impecáveis, nós precisamos admitir. “Gênio em uma garrafa”? Brilhante! Brilhante! — E então a atriz começou a bater palmas, assustando um pouco Anna. Laura parecia bastante nervosa, mas a outra garota a entendia. Ela era a próxima. Era ela quem corria perigo, não Ben, Phillip ou a própria Anna.
Pensar nisso deixou a morena sentindo-se bastante egoísta. Nós precisamos resolver isso, de qualquer forma que seja. Mesmo que seja testando a teoria maluca da Laura. Nós precisamos tentar.
Anna então desceu da cama e seguiu até o computador, parando a música. Quando voltou a sentar-se ao lado da atriz, disse:
— Você tem razão, Laura. Eu não acredito. Mas não é em você que eu não acredito, é nessa maldição. Eu acredito que você viu o quis ter visto, e eu acredito que esse tal de Djinn realmente exista. Mas eu não acredito que ele tenha te amaldiçoado. — E então tentou corrigir a última frase: — Eu não acredito que ele tenha nos amaldiçoado.
A loira meneou a cabeça positivamente, compreendendo a situação.
— Tudo bem. Mas você está de acordo com o nosso plano? Quero dizer, nós não queremos te forçar a nada e...
Anna meneou a cabeça positivamente, interrompendo Laura. Disse:
— Claro. Não existe muito a ser feito, correto? Qualquer ajuda é bem-vinda. — E então ficou alguns segundos em silêncio, pensativa. — Eu sei que vocês só estão me esperando. Eu sei que a minha depressão atrasou a todos nós. Eu... Peço desculpas. Eu estou sendo egoísta e mesquinha e...
Dessa vez foi Laura quem interrompeu a outra garota, lhe dando um abraço.
— Não se martirize, Anna. Eu fiz isso e sei que não resolve nada. O importante é seguirmos em frente. Sempre.
A palavra final proferida pela atriz foi seguida de um delicado gesto. Ela colocou a mão no bolso de sua calça laranja e retirou de lá o pequeno boneco do Djinn. Ele já estava limpo, sem qualquer vestígio de sangue, mas mesmo assim ainda cheirava à morte.
A frase seguinte foi dita de maneira solene e pausada:
— Nós precisamos devolver isso àquela caverna. Nós precisamos voltar para Oahu.
Anna suspirou.
x-x-x-x-x
Phillip abriu o portão baixo de sua casa e foi recebido por seu cachorro de estimação, um vira-lata de pouco mais de sete anos. O rapaz nunca dera nome ao bicho, de modo que seus pais também não se importaram muito em fazer isso. Por isso era comum que ele fosse chamado apenas através de assovios e outros barulhos, embora parecesse atender bem à qualquer chamado que fosse.
A mãe estava na varanda, com um bastidor de madeira em mãos. Ela bordava com calma, parecendo bastante serena. Sarita Griffin era nova, com apenas trinta e sete anos de idade, o que tornava o fato de ser viúva ainda mais melancólico. Apesar de ser um pouco precipitado, já recorrera à Phillip a possibilidade de sua mãe reconstruir sua vida ao lado de outro homem. A racionalidade era a sua maior qualidade, a maior qualidade dos aspies, de modo que ele conseguia ver além de todo o drama que estava envolvido no fato de ter um padrasto. Aquela não era uma meta ou um desejo, mas se a mãe quisesse ser feliz com outra pessoa, Phillip seria o primeiro a apoiá-la.
— Como foi a sessão com a doutora Law? — Sarita perguntou, erguendo o olhar.
Phillip cumprimentou-a com um beijo no rosto e sentou-se ao lado dela na varanda.
— Foi normal. Ela disse que eu deveria ter ido mais vezes nesses últimos meses, mas eu discordo.
— Eu concordo com você, meu filho. Se você acha que está se saindo bem sem um psicólogo, eu confio em você. Essa sessão foi esporádica. De hoje em diante eu vou deixar você decidir quando acha necessário visitá-la. Eu não vou me arrepender dessa decisão, correto?
— Correto. — Phillip concordou com um aceno de cabeça. — Obrigado mãe.
Sarita sorriu e deu um beijo na testa do filho, segurando seu rosto entre suas mãos. O rapaz sorriu em retribuição e levantou-se do banco de madeira, entrando dentro de casa. Olhou no relógio de pêndulo que ficava no meio da sala e suspirou. Já passava das três da tarde. Na cozinha, pôde observar uma pilha de sanduíches e um jarro de suco. Ben chegaria às três e meia, e Sarita havia feito um lanche para os dois. Phillip sorriu diante daquela cena.
As passagens de avião estavam em cima da mesa de centro da sala. Phillip não conseguira esconder da mãe a viagem até o Havaí, mas mentira sobre o real motivo dela. Era preciso. Gastara todo o dinheiro que havia guardado desde que entrara para o college comprando-as, mas quando eles tivessem suas vidas de volta, tudo aquilo valeria a pena.
Ao lado das passagens, porém, havia outra coisa. Um envelope grande, com o logotipo do plano de saúde que a família tinha. Phillip logo entendeu que eram os resultados dos exames de rotina que ele fizera dois dias antes. Suspirou. O papel ainda estava lacrado, sinal de que sua mãe respeitara a privacidade daqueles exames. O rapaz a amou tremendamente por isso. Ela não merece sofrer mais.
Phillip subiu as escadas na direção de seu quarto de dois em dois degraus.
A catedral de brinquedo brilhava em cima da estante de madeira que fora construída por seu próprio pai. Ao lado dela, o isqueiro que pertencera à Jim Myers e que fora encontrado junto do corpo dele após o acidente.
Phillip ficou na ponta dos pés e pegou o objeto.
Em cima da cama, a mochila que levaria para Oahu estava aberta e vazia. Sem pensar duas vezes, o rapaz colocou o pequeno objeto dentro dela, no fundo, colocando diversas peças de roupa por cima. Quando ficou satisfeito com a arrumação das mala, fechou-a e a deixou atrás da porta, presa em um prego.
Bem à tempo, já que a campainha de sua casa tocava.
Ben, Phillip soube antes mesmo de abrir a porta. Daquela vez, porém, seu palpite nada tinha a ver com premonições ou as vantagens de ser um aspie. Era a mais pura e simples dedução.
x-x-x-x-x
O clima dentro da embarcação que os levava até a ilha de Oahu era de mais pura depressão.
Pela primeira vez na vida, Ben perdia a oportunidade de explicar sobre o ataque à Pearl Harbor, mesmo o grupo passando exatamente ao lado da base naval. O ruivo segurava o boneco do Djinn de maneira firme entre os dedos da mão que não estava engessada. O que se passava em sua cabeça era uma incógnita, e Phillip imediatamente decidira que não gostaria de saber. Anna, por sua vez, gostaria.
Não só com relação à Ben e à como ele estava se sentindo, mas com relação à Laura. A garota queria, precisava, ansiava por saber mais. Assim como o que se passava na cabeça de Phillip a fascinava, o que envolvia a história da atriz também a fascinava. Anna via com clareza a pilha de corpos que se formava ao redor de si, de modo que as respostas para aqueles mistérios pareciam ser a única coisa capaz de mantê-la de pé. Eles e o amor incondicional de seus pais. Sem aqueles dois pilares, o amor e o fascínio pelo desconhecido, ela desmoronaria.
Chovia no Havaí. Quando o grupo desceu da embarcação que os levava até a ilha, Laura imediatamente os guiou até uma espécie de bar próximo dali, de modo que o grupo acabou por se molhar pouco. A atriz indicou uma mesa e pediu que todos sentassem. Um garçom apareceu segundos depois, entregando-lhes cardápios.
— O plano é alugarmos um carro. — A loira comentou, enquanto olhava de maneira desinteressada para o que estava escrito ali. — Aquele meu amigo que levou vocês para casa quando viemos da última vez, aluga carros. Eu posso conseguir um com ele.
— Obrigada. — Anna agradeceu, sem ter muita certeza do porquê de fazer aquilo.
Laura concordou com um aceno de cabeça e continuou:
— Eu não me lembro do caminho que fizemos até a caverna. Algum de vocês se lembra?
Phillip ergueu timidamente o braço. Anna sorriu de maneira instintiva com aquela cena. O dom dos aspies. Nunca cansa de me fascinar.
Ben aproveitou a deixa e chamou o garçom, fazendo um pedido. Desculpou-se:
— Eu não como nada desde ontem.
Todos entenderam a situação. Para ser solidária e não deixar o ruivo comendo sozinho, Anna resolveu pedir um sanduíche também, gesto que foi repetido por Laura e Phillip. Eles então ficaram no mais completo silêncio até que a comida chegasse. Phillip parecia disperso, enquanto Ben e Laura mexiam em seus celulares. Anna prestava atenção em tudo, sem saber direito o que procurava. Foi quando decidiu perguntar:
— O que você desejou, Laura?
A pergunta pegou a atriz de surpresa. Ela imediatamente colocou seu celular em cima da mesa e suspirou. Sabia exatamente do que Anna estava falando.
— Nada de mais. Sucesso. Conseguir realizar meu sonho de ser atriz. — E então percebeu os olhares curiosos de Ben e Phillip. — Nós fomos obrigadas. A Jessica e eu. Se nós não desejássemos nada, ele continuaria nos perseguindo para sempre.
Anna compreendia a situação. Meneou positivamente a cabeça e então tocou a mão de Laura por cima da mesa, como a lhe passar algum conforto.
De repente estava em um galpão abandonado. Ao seu redor havia um grupo de seis pessoas, incluindo ela mesma. No centro de tudo, em uma mesa, o corpo de um mendigo. Ao seu lado, ela, agora no corpo de Bobby, segurava com força a mão de uma garota loira. Abaixou a cabeça e percebeu que usava uma camiseta amarela com os olhos do Bob Esponja estampados. De novo não...
As coisas começaram a se desenrolar diante de seus olhos como num filme. Uma garota de cabelos pretos e curtos pegou uma faca e cravou com força no peito do andarilho, sujando seu rosto com o sangue que respingou do corpo dele A garota loira ao lado de Bobby gritou e escondeu o seu rosto no peito do rapaz. Ele estava estático, sem saber como reagir.
Quem sou eu?
Uma garota oriental de vestido verde parecia bastante nervosa diante daquele gesto da outra. Os outros dois rapazes que estavam ali, por sua vez, mantinha-se calados e pareciam amedrontados diante da cena que estavam presenciando.
— Sua... Vadia! — A asiática disse, e pulou em cima da outra.
Bobby observou as duas rolando no chão, entre tapas e arranhões, sem conseguir mover um único músculo. Em sua cabeça, tentava organizar os pensamentos. Quem sou eu? Por que eu estou aqui? Mas ninguém lhe explicaria isso. Caberia à ele, e somente ele, descobrir aquilo.
Quando o rapaz voltou sua atenção para a briga das garotas, um machado escorregava de cima de uma mesa, caindo diretamente na testa da oriental. O sangue escorreu pelo chão.
E então Anna estava de volta à mesa do bar, sendo observada de maneira curiosa pelos três amigos. Ben percebeu imediatamente o que estava acontecendo.
— Anna?! Você estava tendo uma visão, não é isso? Você...
Mas a garota o interrompeu, erguendo a mão:
— Já é a segunda vez. A segunda vez que eu vejo algo que não aconteceu comigo. Primeiro foi em Pearl Harbor, quando eu vi o Ethan. Vocês se lembram? — Ela perguntou, incerta de ter contado aquilo para Ben e Laura. Apesar disso, os dois menearam a cabeça positivamente. — E agora de novo. Eu sonhei que eu era um rapaz. Um rapaz com uma camiseta do Bob Esponja e... Eu via uma garota morrer. Um machado caía na testa dela. Era uma garota oriental com um vestido verde.
Laura então soltou um gritinho, tapando a boca em seguida. Murmurou:
— Jessica... A garota que estava comigo quando nós descobrimos o gênio. Só pode ser ela.
Phillip arregalou os olhos, enquanto Ben mantinha uma expressão de confusão em seu rosto.
— Se isso não é prova suficiente... Anna... — Laura disse, incerta do ponto que estava querendo provar.
Anna tinha lágrimas nos olhos. Respirou fundo e não deixou que elas caíssem. Ela precisava ser forte. Mais forte do que o Djinn, mais forte do que a lista, mais forte do que a morte.
x-x-x-x-x
Era Anna quem dirigia o carro. Ao seu lado estava Laura, enquanto Phillip sentava-se atrás do banco do motorista e Ben estava sentado no banco do meio. Todos usavam cintos de segurança, com exceção da loira. Na situação em que ela estava, Laura imaginava que aquela proteção era mais provável de causar sua morte do que de salvar sua vida.
Já passava das dez da noite e chovia muito. Phillip pensara em sugerir que eles esperassem até o dia seguinte, mas ao formular essa sugestão em sua cabeça, percebeu que nem ele mesmo concordaria com aquilo. Eles tinham pressa. Ele, em especial, mais do que todos os outros. Mais até do que Laura. Mas eles não vão ficar sabendo. Não se depender de mim. Eu vou levar esse segredo para o túmulo. Apesar de mentalizar isso, não tinha certeza de que conseguiria manter aquela promessa.
Phillip sabia que a morte estava mais próxima do que nunca. Os quatro estavam condenados. Mais do que isso: eles estavam todos em um único lugar, um carro, dirigindo à noite em uma estrada molhada pela chuva que caía de maneira constante do céu havaiano. Seria tão fácil detê-los ali. Um acidente de carro, puro e simples. Seria parecido com a morte original, dentro do ônibus. Seria poético. A morte aprecia a poesia, eu tenho certeza. Mas ela também aprecia a criatividade, e isso não seria nada criativo. Decisões, decisões...
Eles passavam por um enorme túnel, já que o caminho tortuoso que os levava até a caverna estava interditado devido à chuva incessante. Demorariam um pouco mais para chegarem até o local, mas era o mais seguro a se fazer. Se seguir por aquela estrada asfaltada era flertar com a morte, seguir pelo caminho original era fazer sexo com ela.
Laura estendeu a mão e pensou em ligar o rádio, mas então se deteve. Phillip agradeceu por isso. Cada uma das músicas que ele havia ouvido nas últimas semanas tinha sido um sinal para a morte de um dos seus amigos. A atriz provavelmente havia chego à mesma conclusão.
Quando o grupo menos esperava, houve um baque pequeno, como se o veículo tivesse passado por cima de alguma coisa. Por algum motivo, Phillip desejou em seu íntimo que fosse um guaxinim. Anna, por sua vez, sentiu seu coração disparado e freou o carro. Disse:
— Vamos esperar aqui até a chuva passar. É mais seguro.
Ben abaixou a cabeça, em silêncio. Então delicadamente deixou que as lágrimas em seu rosto caíssem, molhando sua calça de brim marrom. Phillip percebeu imediatamente que o amigo chorava, e colocou a mão em suas costas, tentando lhe passar conforto. O ruivo não resistiu ao gesto, parecendo alheio à tudo.
Anna e Laura viraram-se no mesmo segundo. Ao ver o amigo aos prantos, a morena não resistiu. Tocou a mão engessada dele e abaixou a cabeça, sentindo um nó na garganta e um aperto no peito.
— Será que vale a pena? — O ruivo disse, com a voz embargada e erguendo a cabeça. Seu rosto que antes era da cor de gesso, estava completamente vermelho. — Talvez nós precisemos só... Deixar de lutar. Sabe? — E então olhou para os outros três, procurando compreensão. — Eu estou tentando aguentar firme desde que o mano morreu. Quando a Michelle se foi eu também chorei, mas eu decidi que seria mais forte. E eu aguentei a morte do grandão, da Courtney, do Simon, do Daniel, mas... Eu estou tão cansado. Cansado de chorar, cansado de sofrer. Meu braço dói de maneira monstruosa. Eu estou tomando doses cavalares de morfina pra conseguir aguentar tudo isso. Mas essa dor é a que menos conta. Meu peito dói. Meu coração dói. Eu estou morrendo e eu não sei como evitar isso. Eu, eu... — Ben abaixou a cabeça mais uma vez e chorou copiosamente, em alto e bom som.
Anna virou-se para frente e colocou as mãos no rosto, chorando também. Laura olhava para os dois sem saber direito como reagir. Quando seus olhos se encontraram com de Phillip, a loira sentiu uma arrepio. Apesar de aparentar estar tão angustiado quanto os outros dois, ele não chorava. Nunca.
A atriz suspirou. Então tocou o ombro de Anna de maneira delicada e fez menção de dirigir para que a outra pudesse se recompor.
— Nós vamos esperar, Laura. — A morena insistiu.
— Não, nós não vamos! — A loira falou de maneira firme. — Chega de chorar, Anna! Chega de esperar! Eu entendo a sua dor. Eu não posso dizer que sei como você está se sentindo, porque eu não sei. Eu mal conhecia os amigos de vocês. Mas eu sei que eu não quero acabar como eles. Eu não quero que vocês acabem como eles. Eu não quero, Ben, que os seu pais tenham que enterrar mais um filho. Eu não quero, Anna, que a sua família tenha que comparecer a mais um funeral. Eu não quero, Phillip, que a sua mãe fique sem mais ninguém nesse mundo. Eles não merecem isso. Então se vocês não são fortes o suficiente para aguentar essa barra toda por si mesmos, façam isso por eles! Façam pelos que amam vocês.
O único som audível era o da chuva caindo do lado de fora do carro.
Anna enxugou as lágrimas com a manga da camisa de lã que usava e olhou-se pelo retrovisor do carro. Sua maquiagem estava borrada, mas ela não se importava. Respirou fundo e então deu a partida no carro.
O veículo caminhou por cerca de cinquenta metros até Anna sentir que algo estava errado. Seu coração acelerou quando a garota olhou para o velocímetro e percebeu que o ponteiro tendia para a direita de maneira constante. Ele está acelerando sozinho...
— Anna, tira o pé do acelerador. — Phillip pediu. — Nós temos pressa, mas não tanta.
— Mas eu não... — A garota começou, mas então entrou em pânico. Pisou no freio com força, mas nada aconteceu. — Ele não quer parar. Porra, ele não quer parar!
O carro continuou percorrendo o túnel com uma aceleração constante, enquanto Ben, Phillip e Laura observavam as paredes ao seu lado se tornarem borrões, passando rapidamente por eles.
E então aconteceu.
Anna percebeu a enorme placa com o aviso de “em obras” há vários metros de distância, e soube o que aconteceria. No mesmo instante ela inclinou-se na direção de Laura, tirando a mão esquerda do volante, e abriu a porta do carona, empurrando a atriz para fora com força suficiente para que ela não conseguisse oferecer qualquer resistência.
A loira caiu na estrada e sentiu uma dor lancinante tomar conta de seu corpo. Apesar disso, estava viva.
Dentro do carro, Anna continuava tentando frear, entre gritos desesperados de Ben. Apesar disso, não houve tempo. O carro se chocou contra a pilha de concreto quebrado na estrada com um grande impacto. O banco do carona, onde Laura estivera segundos antes, foi atingido com força por uma viga de concreto e aço que esmagaria a cabeça da atriz.
E então, a inércia. Todo objeto que está em movimento, tende a continuar em movimento, Phillip conseguira racionalizar. Naquela ocasião, o objeto em movimento era Ben.
O ruivo foi arremessado para frente, arrebentando o cinto de segurança e atravessando o para-brisa com parte de seu corpo. Sua cabeça quebrou o vidro, mas seus ombros não passaram pelo buraco, de modo que ele ficou com o pescoço preso e rodeado por cacos de vidro. Anna ergueu a cabeça, com o nariz completamente sangrando, e gritou diante da cena. Ben se debatia, ainda vivo e agonizando. Um jato de sangue constante jorrava de sua jugular, respingando no casaco de lã da garota.
Poucos segundos depois, Ben parou de se mexer. Estava com os olhos fixos em Anna, com a expressão de mais puro horror em seu rosto, a certeza de que estava morrendo. A garota gritou mais alto do que todas as outras vezes, esmurrando o volante e esbarrando na buzina por diversas vezes. Abaixou a cabeça e tentou chorar, mas as lágrimas já não caíam mais. Seu mundo agora era feito de cacos de vidro, sangue e horror. E chuva. Muita, muita chuva. A água entrava no carro e molhava os bancos e o corpo da garota, mas ela parecia não sentir.
Phillip já não estava mais ali. Quando Anna abriu a porta do carro e saiu, caiu no chão. Observou suas pernas e notou que havia diversos cortes nelas, incluindo um bastante profundo em sua batata da perna. Por algum motivo, ele não doía. A sua dor interna era tão forte e lancinante, que nada no exterior poderia machucá-la mais.
— Phillip! — Ela gritou. — Phillip!
Mas não conseguiu encontrá-lo.
O túnel estava parcamente iluminado, e a chuva caía quente e de maneira constante, encharcando seu corpo. Anna conseguiu observar, ao longe, uma figura cambaleando em sua direção, aparentemente também bastante machucada.
Laura.
As duas caminharam uma na direção da outra por vários segundos, e quando se encontraram, há poucos metros do carro, se abraçaram por longos segundos.
— Você salvou a minha vida... Você salvou a minha vida... — A atriz murmurava de maneira incerta, sem saber como deveria reagir.
Antes que alguma delas pudesse falar qualquer coisa, elas ouviram um assovio. As duas se viraram no mesmo instante, e viram Phillip sentado com as pernas cruzadas ao lado do veículo. Ali, daquele jeito que ele estava, o rapaz era uma figura bela e poética, proveniente de uma pintura melancólica e sombria. Estava de olhos fechados e assoviava de maneira ritmada. Em suas mãos havia um isqueiro.
— I set fire to the rain... And I threw us into the flames… Well, it felt something died, 'cause I knew than that was the last time… — Ele cantarolava.
E então elas compreenderam o que ele faria.
A gasolina escorria do veículo batido, mas não se misturava com a água da chuva. Ela era escura e espessa, e rodeava Phillip como se estivesse protegendo-o de todo o resto do mundo.
— “Jesus chorou”. — Ele disse de maneira solene. — Você se lembra de quando eu te perguntei sobre esse versículo, Anna? Sobre qual era o menor versículo da bíblia?
A garota meneou a cabeça de maneira positiva, sem saber direito como reagir. Temia qualquer resposta. Temia a reação que Phillip teria. A água continuava a pingar da ponta de seu nariz e de seu queixo de maneira incessante.
— Pois então. Ele é o trecho mais triste já escrito em toda a história da literatura mundial, sabia? “Jesus chorou”. — Phillip repetiu a frase, como se refletisse sobre ela. — Jesus, o filho de Deus. O filho do nosso Deus Todo Poderoso. O que poderia ser tão cruel e tão forte para fazer o homem mais digno a pisar na face da Terra chorar? A dor que nós sentimos nem se compara. Nós somos mortais, é normal que soframos, que choremos, que doa... Mas com ele, Jesus Cristo, não era assim. E mesmo assim ele chorou. A dor que Jesus sentiu não é possível de ser imaginada por nenhum de nós.
Laura e Anna sentiam a água da chuva escorrer por seus rostos como se fossem lágrimas. Phillip, por sua vez, mantinha-se com uma expressão calma e plácida, refletindo sobre alguma coisas que as duas não conseguiam entender.
— Não precisa ser assim, Phillip. — Anna arriscou dizer. — Nós vamos conseguir. O Djinn. — E então ela observou o efeito que aquele nome teria nele. — Nós só precisamos apaziguá-lo.
Phillip abriu um sorriso. Não era um sorriso debochado, mas um sorriso de resignação. Ele desistiu, Anna compreendeu de imediato.
— É arriscado. — Ele admitiu. — Pode não funcionar. Vocês não merecem apostar suas fichas nisso quando existe uma solução muito mais simples disponível. Eu me suicido quando a morte esperava levar você, Anna, e está tudo acabado. Simples. Vocês duas merecem viver.
— Não! — A garota exclamou, exasperada. — Eu não aceito que seja assim!
— Mas não cabe a você decidir, Anna. Não dessa vez. — Ele disse de maneira decidida.
E então voltou a sorrir. Entreabriu a pouca e murmurou:
— Eu estou condenado de qualquer forma.
A expressão de confusão no rosto de Anna era clara, de modo que o rapaz continuou, de maneira sucinta:
— A rosa. O sangue...
Quando Anna compreendeu o que ele queria dizer, sentiu suas pernas trêmulas e apoiou-se em Laura antes que pudesse cair. O sangue da Courtney. O Phillip estava de boca aberta. O sangue... Oh, não!
— Eu estou tentando manter um pensamento positivo. Se é que você entende o que eu quero dizer. — Ele disse, piscando como se estivesse confidenciando um segredo à ela.
Anna gritou, mas isso não impediu o rapaz de deixar o isqueiro cair.
Phillip ateou fogo à chuva.
As chamas rodearam o rapaz com uma rapidez impressionante, e em poucos segundos as garotas não conseguiam mais vê-lo por detrás da parede vermelha que se formou. O fogo serpenteou através de toda a gasolina espalhada pelo chão, até chegar à sua fonte, dentro do carro. Laura arfou e então puxou Anna pelo braço, caindo no chão junto com ela.
Atrás das duas, o veículo explodiu, lançando seus destroços por todos os lados.
Caída no chão, Anna não sentia as lágrimas. Não sentia a dor, não sentia o sangue em sua boca, não sentia a chuva. Sentia apenas um único sentimento, e se odiou por isso. Como eu posso estar me sentindo dessa forma? Eu, eu...
Não adiantava lutar. O único sentimento que tomava conta de seu ser era o de mais puro alívio.
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