Premonição 8: Condenados
10 Esperança
Notas iniciais
Parada de pé em frente ao desfiladeiro onde o ônibus cairia em sua visão, Anna sentia a brisa fraca daquele film de madrugada em Oahu. Laura estava ao lado dela, também de pé e em silêncio. A atriz segurava o boneco do Djinn com firmeza, desejando sem sucesso que tudo aquilo não tivesse passado de um sonho. Um sonho não, um pesadelo.
— E então sobraram dois. — Anna disse de maneira displicente, onservando o sol nascer.
A chuva cessara havia vários minutos, mas nenhuma das duas garotas sabia o que fazer. Em poucas horas alguém encontraria os corpos de Ben e Phillip, e elas sabiam que precisariam dar explicações. E então tinha tudo o que vinha depois. Outro funeral. Outra visita à catedral.
Apesar da chateação e da mágoa, Anna sabia que aguentaria. Phillip lhe dera a maior dádiva do mundo, àquela que somente sua mãe lhe dera: a vida. Anna não estava disposta a desperdiçá-la, de modo que iria começar a viver e a enfrentar tudo de cabeça erguida a partir daquele dia. Por Phillip. Por Courtney, por Simon, por Michelle, por Ben, por Big J, por Daniel...
Ela não sabia, porém, se Laura compartilhava de sua gratidão.
— Laura? Você está bem?
A atriz meneou a cabeça positivamente, sem dizer qualquer palavra. Ela então esticou o braço em frente ao desfiladeiro, o boneco do Djinn pendendo em sua mão. Você não vai voltar para casa, Laura falou mentalmente ao gênio. Nós não precisamos mais de você para ter nossa vida de volta. Acabou.
E então ela soltou o boneco no precipício. O Djinn voou através do ar, batendo em várias pedras até ter seu destino selado ao cair nas águas geladas do começo da manhã. Laura suspirou e tocou o ombro de Anna. A garota então sentiu que a atriz conseguiria. Aquele gesto era o primeiro de uma nova vida. A vida de uma mulher que deixa a sombra do medo para trás.
— Vamos. — Anna disse, segurando a mão de Laura.
— Pra onde?
Anna sorriu com aquela pergunta. Pois é. Pra onde?
— Nós temos um futuro.
x-x-x-x-x
O pai de Anna dirigia o Cadillac preto em direção à fatídica capela. Ao lado dele, sua esposa Lynette observava a chuva cair do lado de fora do carro. Anna e Laura estavam sentadas nos bancos de trás, ambas vestidas de preto. A atriz estava com uma camisa social e uma saia que ia até em cima do joelho. Em seus cabelos, ela tinha um véu preto amarrado. Já a morena usava um shorts de brim preto e uma regata da mesma cor.
Noah estacionou o veículo no local habitual e os quatro caminharam em direção à catedral. A chuva estava fraca, de modo que eles não se molharam muito. O homem e a esposa entraram primeiro, de mãos dadas, e seguiram até Sarita, cumprimentando-a com um abraço solidário.
Anna ficou parada na porta observando os pais cumprimentarem a mãe de Phillip. A mulher perdera o marido e o filho num período de tempo extremamente curto, de modo que a garota não podia nem imaginar a dor que ela estava sentindo. Ela, os pais de Cortney e Big J, os pais de Trevor e Ben, seus tios, pais de Daniel... Nenhum deles merecia aquela dor. A dor de ser obrigado a viver mais que seus filhos. A dor de sobreviver.
Anna então subitamente lembrou-se da letra de uma música que se encaixava perfeitamente naquela situação.
Lord, make me a rainbow, I'll shine down on my mother
She'll know I'm safe with you when she stands under my colors, oh and
Life ain't always what you think it ought to be, no
Ain't even grey, but she buries her baby
Não é nem grisalha, mas ela enterra o seu bebê.
Anna não conseguiu conter as lágrimas. Sabia que o caixão de Phillip estava há alguns metros dela, no fim do corredor cercado de bancos que levava até o altar, e isso doía mais do que tudo. Não era justo com nenhum daqueles pais, com nenhuma daquelas mães.
Ao observar a tristeza em seu rosto, Laura a abraçou por vários segundos, sendo que as duas foram observadas por Sarita. A mulher caminhou na direção delas e, sem dizer nenhuma palavra, também abraçou Anna. A garota retribuiu o gesto daquela sofrida mãe, desejando que pudesse trazer o filho dela de volta. Ela sabia que estava viva graças ao sacrifício de Phillip e jamais jogaria essa dádiva fora. Mas ao sentir as lágrimas de Sarita caindo em seu ombro, Anna não teve certeza se tudo aquilo valera a pena. A dor... Talvez Sarita pudesse compreender, naquele momento, a dor que fizera Jesus chorar.
Quando as duas se afastaram, a expressão no rosto da mulher era de alívio. Ela disse:
— O Phillip nunca teve muitos amigos. Obrigada por vir, Anna. Você também, Laura.
A atriz meneou positivamente a cabeça, enquanto a morena disse:
— O Phillip foi o garoto mais especial que eu conheci, senhora.
Sarita sorriu.
— Obrigada pelas palavras, Anna. Ele é o meu anjo.
Anna suspirou e desejou que, onde quer que ele estivesse, Phillip pudesse confortar sua mãe.
Deus, me faça um arco-íris e eu brilharei sobre minha mãe.
x-x-x-x-x
Dois meses depois.
O relógio no topo da parede da Dra. Law parecia correr mais lentamente do que o habitual. Além disso, o barulho ritmado dele irritava um pouco Anna. A mulher oriental, porém, parecia calma e complacente.
— Podemos continuar, Anna? — A psicóloga perguntou.
— Claro. — A garota respondeu, tentando manter seu pensamento centrado.
— Então tudo bem. Me fale sobre esse velhinho, o Ethan.
Anna sorriu ao pensar em Ethan.
— Ele foi um grande homem.
E então ela se sentiu voltando no tempo.
Anna visitara Ethan na semana seguinte ao suicídio de Phillip. Ela prometera que iria vê-lo, e prometera também que viveria uma vida diferente, mais ativa, mais libertária. Reencontrar-se com o velho era seu primeiro passo em direção a essa nova vida.
Janet estava segurando a cadeira de rodas dele no jardim quando Anna entrou, segurando uma cesta de piquenique e fantasiada de Dorothy, como lhe era característico. Ethan, porém, parecia emburrado, com uma expressão carrancuda em seu rosto.
A garota cumprimentou a enfermeira, mas quando foi cumprimentar o homem, ele a repeliu, afastando a cadeira alguns centímetros. Anna não compreendeu o que estava acontecendo, mas a mulher foi logo lhe explicando:
— Ele ouviu eu te chamando de Anna ao telefone e está magoado. Ele acha que você o enganou fingindo ser a Judy Garland. Me desculpe.
Anna abriu um sorriso triste e meneou a cabeça positivamente, pedindo que Janet deixasse ela e Ethan a sós. A enfermeira assentiu e saiu dali a passos lentos, olhando várias vezes para trás para se certificar de que o veterano ficaria bem.
A estudante de psicologia sentou-se no banco de madeira em frente à cadeira de rodas, mas Ethan Hasselbeck não virou o rosto em sua direção. Ele continuava fitando o horizonte naquele fim de tarde. O pôr do sol estava próximo.
— Me desculpe. — Ela disse do modo mais gentil que conseguiu. — Nunca foi a minha intenção te enganar ou te magoar, Ethan. Eu só queria que você tivesse um pouco de alegria. As coisas podem ser duras numa casa de repouso.
O homem resmungou alguma coisa ininteligível e então se calou. Segundos depois disse:
— Você ao menos conhece a Judy?
— Só nos filmes. — Anna respondeu de maneira sincera. — Ela parece ser muito doce.
Os olhos do veterano se iluminaram ao ouvir aquilo. Ele virou-se para Anna e disse:
— Sim, ela é! É a mulher mais doce de todas. Nós nos encontramos uma vez e ela me deu um beijo no rosto. Eu nunca vou me esquecer desse dia.
Anna sabia que isso provavelmente era verdade. Aquele momento marcara a vida de Ethan, assim como a visão em Pearl Harbor. Para ela, o seu beijo mais especial fora o último que dera em Big J, logo antes do fatídico jogo. Se ela fechasse os olhos, ainda conseguiria sentir os lábios dele de encontro com os seus. Daria tudo no mundo para senti-los mais uma vez. O que a consolava era o fato de que ela conseguira se declarar. Ele se fora, mas fora sabendo que ela o amava.
— Meus amigos estão todos mortos, Ethan. — Anna disse num rompante, também fitando o horizonte. — Não sobrou nenhum. Todos que estiveram do meu lado e compartilharam comigo os melhores anos da minha vida se foram. A minha melhor amiga, o meu namorado, o meu primo... Todos eles. Eu estou sozinha, Ethan. Eu não tenho ninguém.
O velhinho observava o rosto de Anna de maneira intrigada. Ele então aproximou a cadeira alguns centímetros e tocou o queixo dela, virando o rosto da garota em sua direção.
— Você não está sozinha, doce Anna. Eu sou seu amigo.
Lágrimas surgiram nos olhos da garota ao ouvir aquela frase. Todo o rancor que Ethan guardara pela mentira se dissipara numa nuvem de solidariedade e empatia. Aquele homem era bom, do tipo que dificilmente guarda um sentimento ruim consigo. Ele continuou:
— Eu sei como é difícil, minha querida. Meus dois filhos se foram desse mundo antes de mim. Nenhum pai deveria ser obrigado a viver mais do que seus filhos, mas eu fui. E eu sobrevivi. Eu estou aqui, do seu lado, tocando sua mão e te dizendo que as coisas vão melhorar. Você não está nem na metade da sua vida, Anna. Viva! — E diante da expressão de consternação dela, continuou: — E se precisar de um amigo, eu sempre estarei aqui. A Janet e as outras dizem que minha cabeça está ruim, mas isso não é verdade. Esse velho aqui ainda tem alguma utilidade.
Anna riu com aquela fala dele. Jamais saberia porque o destino os unira, mas agradecia por isso.
Antes que o velho pudesse fazer ou dizer qualquer outra coisa, Anna esticou os braços e o abraçou. Ethan retribuiu o gesto de maneira firme, afagando os cabelos da garota com o carinho de um avô. Ao fundo, os raios de sol iluminavam aquele fim de tarde melancólico. Havia dor, sim, mas havia esperança acima de tudo.
E então Ethan cessou o movimento de sua mão. Apesar disso, porém, ele não se afastou dela. Anna ficou parada durante alguns segundos, mas então sentiu que o peito do veterano não se mexia mais. Afastou-se dele e o observou com um misto de carinho, dor e alívio.
A expressão no rosto de Ethan era de mais pura calma e paz. Seus olhos estavam fechados, e lágrimas ainda escorriam de seu rosto inerte. O último suspiro já havia sido dado quando ele a abraçara. Era quase como se ele estivesse esperando por ela para partir. Uma última conversa, sua última missão nesse mundo. Me dar esperanças, Anna pensou. E então tocou a mão ainda quente de Ethan e ficou observando o céu por vários minutos.
x-x-x-x-x
Um ano depois.
O coquetel de estreia de “Island of Vultures” estava sendo um sucesso. Laura caminhava por entre os convidados, cumprimentando a todos com empolgação e um enorme sorriso no rosto. Naquela noite, ela era a maior estrela.
Aquela era a sua primeira participação em uma grande produção de terror trash desde sua estreia com Wishmaster 5. O filme de agora era sobre uma ilha assolada com um vírus mortal que transformava a todos em zumbis. Laura interpretava Louise McBride, uma noiva que via o dia mais importante de sua vida se transformar em um pesadelo sem fim. O filme era, claro, trash, de modo que a loira passava o longa todo com um vestido de noiva rasgado e ensaguentado e uma metralhadora nas mãos. Mas era aquilo que ela amava mais do que tudo em sua vida.
Anna estava há alguns metros dela, em uma rodinha junto de Kelsey, Angel e um casal que Laura não conhecia. A amiga estava com um vestido azul comprido e com alças, e com um par de brincos de prata em suas orelhas. Brincos estes que foram presente de aniversário da atriz. Laura achava que estava bela, com um terno feminino preto e o cabelo preso num rabo de cavalo, mas admitia que Anna estava ainda mais. Ela parece outra pessoa. O tempo está fazendo bem a ela.
Laura caminhou até o grupo e cumprimentou-os. Angel elogiou sua aparência e sua atuação, e o elogio foi confirmado por Kelsey. A garota então apresentou o casal que estava com ela:
— Esses são os meus amigos Melissa e Brody. Eles são fãs do seu trabalho.
Antes que a atriz pudesse se dirigir a eles, Brody disse, empolgado:
— Eu sou seu fã desde Wishmaster 5, Laura! É uma honra finalmente te conhecer!
Laura sorriu com aquela fala. Era bom se sentir apreciada.
— Obrigada, Brody!
E então observou a garota que estava com ele, a tal Melissa. Ela era loira e tinha a expressão mais doce de todas. Ela estava com um vestido preto florido e tinha as unhas da mão pintadas da cor índigo. Laura não a conhecia, tinha certeza, mas por algum motivo ela lhe parecia estranhamente familiar.
Anna também não sabia quem ela era. Não tinha ideia de que a garota diante de si era a irmã do rapaz que ela incorporara em sua visão em Oahu, quando descobriu sobre a maldição de Laura. Sabia apenas que ela havia sobrevivido a lista junto de Kelsey, mas as duas nem ao menos chegaram a conversar sobre aquele assunto.
Laura conversou com os cinco por alguns minutos, mas então seu recém contratado assessor, Brandon, lhe chamou com um aceno de mão. Laura se aproximou dele e o rapaz cochichou em seu ouvido:
— Um homem deixou uma caixa aqui dizendo ser um presente pra você. Nós abrimos por precaução, mas ele continua sendo meio estranho. Acho que você deveria ver, big boss.
A atriz concordou com um aceno, agradecendo Brandon pela informação. Ela então despediu-se do grupo e seguiu até o escritório de seu assessor, onde estava o objeto, já que o coquetel estava ocorrendo no prédio comercial da empresa para a qual ele trabalhava.
A sala estava completamente escura. A única luz que entrava era a proveniente da lua, penetrando através do vidro da janela que ficava exatamente atrás da mesa de madeira escura onde Brandon trabalhava. O teto era alto, e de ambos os lados havia estantes de livros apinhadas com diversas enciclopédias que Laura imaginava que o homem jamais havia lido.
A caixa de madeira estava em cima da mesa. Por algum motivo, a atriz sentiu uma sensação ruim ao observá-la de longe. Aquela noite estava lhe dando terríveis lembranças da fatídica noite em que ela conhecera o Djinn, durante a festa de Wes Aja. Mesmo assim, Laura seguiu na direção da mesa.
O objeto de madeira estava fechado, mas Brandon dissera que ele já fora aberto. Laura olhou para frente e observou a noite quente, sem nenhuma estrela no céu.
Suspirou. Abriu a caixa com ansiedade, o coração batendo forte dentro do peito.
— Não...
A pedra. Vermelha, brilhante e refletindo Laura em vários ângulos.
A pedra do Djinn.
Laura teve vontade de chorar, de esmurrar a caixa de madeira, de gritar, de pedir ajuda... Mas não fez nada disso. Ela apenas esticou o braço, tremendo, e pegou o objeto vermelho. A atriz ergueu-o diante de seu rosto e fitou-o por vários segundos. Era difícil acreditar que algo tão belo e inofensivo podia ser tão perigoso.
Um ano depois de todo o ocorrido, Laura não acreditava que as coisas tinham ocorrido só por causa dela, só por causa da maldição que o gênio colocara sobre Jessica e ela. Acreditava que o Djinn tivesse se aproveitado da lista da morte para tirar a vida dela, mas não acreditava que a lista toda havia sido criada por sua causa. Aquele pensamento que ela tivera no começo parecia exagerado, uma explicação para algo que era inexplicável. Quando chega a sua hora, chega a sua hora, não é? Uma maldição não poderia mudar aquilo. Os desígnios da morte era mais antigos e certeiros do que os de um demônio qualquer.
Por algum motivo, Laura se lembrou de algo que ouvira durante o sermão no velório de Phillip. Na ocasião o padre citara as palavras de Paulo, em Coríntios 15:26, em que o apóstolo de Jesus se referia à morte: “Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte”. O último inimigo. O mais implacável de todos. Seria possível escapar dele?
Laura não tinha certeza. Mas sabia que o que quer que fosse acontecer dali em diante era inevitável.
Suspirou longa e fortemente.
Atrás de si, a garota ouviu uma respiração pesada. Suas mãos tremiam e ela suava frio. Havia chegado a hora.
Havia chegado a hora?
Laura virou-se e sentiu como se seu coração se desfizesse dentro do seu peito.
Fim.
Fale com o autor