O prédio não se destacava tanto entre os edifícios do distrito administrativo de Ilydas, embora tivesse sua parcela de imponência, resquício dos tempos de glórias da Mão Branca.

Estava sentada num dos bancos da bonita praça localizada bem em frente à sede da Idrafentur. Após um inverno ameno, as árvores que preservavam o ar fresco no ambiente apresentavam folhas em tons escuros de verde. Algumas até ostentavam uns punhados de flores azuladas, rodeadas por passarinhos curiosamente silenciosos. Não muito longe, as aves barulhentas cantarolavam empoleiradas nos frágeis galhos das tais árvores, mesmo que estes não oferecessem tanta segurança; mesmo os mais pacíficos invernos não poupavam alguns detalhes.

Respirar ainda era um incômodo, tão ofegante que se encontrava. Não por nervosismo ou espanto; situações de vida ou morte eram corriqueiras em seu trabalho, apesar de preferivelmente evitadas. O arfar e a respiração pesada eram culpa dos inúmeros degraus que Kristin foi obrigada a descer correndo, ainda levando Alec num dos ombros. Mesmo após deixar o Distrito das Mariposas, caminhou mais uma ou duas centenas de metros até encontrar um guarda da cidade e murmurar o nome de Waldriff.

Bastou pensar nele que o dito cujo apareceu, saindo do saguão do prédio e caminhando na direção de Galten. Estava de óculos novos e o cabelo bagunçado, detalhe notável para alguém que parecia se preocupar tanto com isso. Vestia um terno branco impecável, em contraste com o cabelo. Sua expressão, porém, era a de sempre: desdém.

— Não pergunte como ele está. A resposta será a mesma. – manteve-se de pé, ao lado do banco onde Kristin se encontrava. Evitava encará-la. Seu olhar permanecia voltado para os arredores do distrito. O rapaz desajeitado e de sorriso tímido que conhecera antes mostrava agora uma faceta completamente diferente; a cada vez que se encontravam, William dava mais sinais de estresse. Lidar com a busca pela garota devia estar sendo uma sobrecarga.

E Kristin não podia dizer que não o entendia. Tudo que tinha até então eram alguns comentários de populares que poderiam, talvez, porventura, quem sabe ter visto de longe uma feciter encapuzada à distância nos últimos meses. E, na cidade com a maior população da raça em todo o Império, isso passava longe de bastar para suas investigações.

Homens altivos vestidos com sobretudos brancos entraram numa das portas da sede, acompanhados por guardas da própria cidade e pelo olhar atento de Kristin. Eram cinco ou seis, todos carregando malas também brancas como se fossem extensões do próprio corpo. William soltou um resmungo incompreensível, quase como que para si mesmo.

— Eu preciso entrar.

— Amigos do seu tio?

— Não necessariamente. Alguns. Isso não é importante. Se estiver disposta a esperar aí por umas duas ou três horas, trarei mensagens de Alecsandar.

— Eu passo aqui amanhã. Não tenho todo esse tempo sobrando; na verdade, tempo é algo que tem me feito falta.

Ele já tinha caminhado alguns metros, indicando sua pressa para encerrar o diálogo.

— Continue com sua investigação. Mas faça o favor de avisar quando avistar algo, ou quando for ter outra dessas aventuras por partes da cidade onde os guardas não gostam de pisar.

— Sem querer ofender – e ela queria, um pouco –, mas isso não diz respeito à Mão Branca ou mesmo a Alecsandar. Estou cumprindo minha missão independentemente de vocês.

— Meh. Faça o que quiser. Mas nossos serviços médicos não estão sempre à disposição.

E, como ambos desejavam, a conversa se encerrou. Alguns segundos depois, porém, Kristin se virou novamente para o já distante William, que caminhava até a portaria.

— Waldriff!

Ele deu sinais de frustração. Estava mesmo ansioso para voltar ao prédio.

— O quê?

Kristin soltou um sorriso de canto antes de falar.

— Algum progresso na sua busca?

Ele respirou fundo. Limpou os óculos na camisa.

— O suficiente para minhas metas. Já eliminamos uma dúzia de locais onde ela poderia estar.

— Suas metas?

— Não se faça de tola. Você entendeu o que eu disse. A Idrafentur tem muitos objetivos, mas atualmente eu só venho sendo encarregado de um. A sua tal Morrigan. – o comentário deixou claro que as conclusões prévias de Kristin sobre William estavam corretas.

— É tão aliviante quanto desesperador saber disso.

De feição impassível, ele pôs os óculos de volta.

— Não devia ser tão difícil, Galten. Há algo de errado nessa sua missão. Espero que não esteja nos arrastando para um abismo.

— É só parte do meu trabalho… parecer que tudo dará errado. Se não está habituado, pode desistir a qualquer momento.

— Agora é tarde. Já investimos demais. Vamos ver até onde tudo isso vai. – ele tossiu discretamente – Nestas semanas aqui, chegou a considerar a hipótese de fuga do alvo? Não é como se ela estivesse ansiosa para encontrá-la, ao que vejo.

— Achei que tinha se certificado de evitar a possibilidade.

— E me certifiquei. Mas, se tratando de um desses dotados que vocês da Ordem adoram, sabe-se lá o que ela é capaz de fazer. – felizmente para a segurança da missão, nem Kristin nem Alec tinham a menor ideia do que a garota poderia de fato fazer. Quanto menos William e os Waldriff pudessem saber, melhor.

Mesmo assim, mentiu um pouco.

— Eu tenho vagas ideias. E, de fato, a possibilidade existe. Mas o meu prazo ainda não acabou, e eu sinto que há algo a fazer por aqui.

— Hah. – ele ironizou o senso de Kristin – Cuidado onde pisa, Galten. Vejo você em dois dias. Espero que não sinta incômodo em ser acompanhada por soldados.

— Já aconteceu antes.

E se despediram em silêncio. Kristin virou as costas e caminhou calmamente na direção oposta ao prédio, antes mesmo de ouvir os passos de Waldriff até a sede. Mas passou por mais um dos senhores de branco, este sem a companhia de seguranças.

Junto aos pássaros que bicavam as flores azuis, uma mariposa pousou em plena luz do dia no tronco de uma das árvores. Clima estranho. Apenas mais um dia frustrante em Ilydas.

Notas finais
Eeeeeee outro hiato. Quem sabe em dezembro/janeiro/fevereiro eu consigo escrever com mais regularidade Até o próximo capítulo!