Notas iniciais
Feliz ano novo, pessoal!

Uma manhã anormalmente fria, especialmente após o inverno. A primavera já começava a se manifestar, mas o tempo naquele dia parecia ter esquecido desse detalhe. Era a primeira vez na Academia que Sophie se via obrigada a usar mais de um casaco.

Já fazia alguns minutos que ela havia se desligado completamente do que Elae falava, sentada ao seu lado num dos bancos da praça em frente ao Habitares. A última informação que havia absorvido foi algo sobre Victor Harland estar agindo de maneira estranha. Juntando as peças, Sophie imaginava que a garota se referia à noite anterior, durante o evento em que felizmente não estava presente.

Ainda pensava no que a voz dissera sobre o professor Flamel. Considerava a possibilidade de falar com o dito cujo, mas ele obviamente não era dos personagens mais extrovertidos dentre os Oficiais da Academia.

A brisa fria soprou em seu rosto, fazendo-a piscar e retornar à realidade.

— Sophie?

Elae parecia mais curiosa do que preocupada.

— Estou bem. Você estava falando…

— De ontem. Eu sei. Parece um pouco fútil, agora que pensei direito sobre.

Um pouco?

— Não foi de todo ruim. Você também falou que se divertiu.

— É – ela deu de ombros – Foi legal enquanto o Danyel estava lá. Ele é mais simpático do que parece. – Elae fez uma pausa – Escuta, eu não vou perguntar por que você não foi. Seria até idiota. Mas o que você fez ontem à noite?

— O mesmo que faço na maioria das noites, Elae. Tentei dormir… e fracassei. Passar o tempo sozinha não é uma novidade pra mim.

— Você continua com seus problemas de sono? Achei que os remédios estavam funcionando. – comentou, desta vez preocupada.

Mentalmente, Sophie suspirou.

— Mais ou menos. É complic…

Elae a interrompeu bruscamente.

— Não. Nem pense em usar essa palavra. Eu vou socar o próximo que usar isso como desculpa para não me contar alguma coisa. Até eu faço isso, e eu me socaria!

Sophie arregalou os olhos, o que era incomum.

— Isso foi intenso.

— É. Perdão. Acho que soei como… como se você tivesse a obrigação de ser aberta comigo. Eu não sou assim. Não era minha intenção. – disse, cabisbaixa. – É que… ah, chega de segredos pra mim. Quer dizer, eu respeito sua privacidade, Sophie, mas… as pessoas em geral são misteriosas demais aqui. Eu te disse, Victor ontem estava… não quero nem pensar nisso mais.

— Está tudo bem. Entendo seu lado. Discordo, mas entendo.

— E você tem todo o direito de discordar. – ela olhava para o horizonte, delimitado por um muro. – Sophie… você ainda faz aqueles desenhos?

As duas já tinham conversado sobre o assunto outras vezes. Sophie nunca havia tentado explicar o que era, até porque mesmo ela não os compreendia muito bem, mas Geltfer agora tinha vaga noção sobre os sonhos de Sophie.

— Quando convém. Quando dá tempo. Quando eu tenho os sonhos. Não os faço exatamente porque quero.

— Um dia tudo isso vai fazer algum sentido, eu espero.

— Prefiro não criar expectativas. – era uma meia verdade. De fato, se pudesse escolher, preferiria não tê-las, mas as expectativas estavam lá de todo jeito. Era quase instintivo a Sophie procurar por respostas em todos os lugares para onde olhava, a cada minuto de seus dias.

Elae bocejou. Ainda era cedo, e a garota havia varado a madrugada no Feastes. Uma decisão que Sophie, com seus problemas para dormir, achava estúpida. Mas não diria isso; não queria ofendê-la.

Aquela gélida manhã era pacata. Tanto Sophie como Elae estavam em horário vago, mais uma das coincidências que uniam as duas semana após semana. Talvez já pudesse se acostumar a chamar a loura de “amiga”, embora não fizesse questão.

Na praça havia umas duas dúzias de pessoas, fossem sentadas nos bancos, caminhando tranquilamente pelo local ou reunidas sob as árvores em grupos de leitura. Viu Britan caminhar com uma perna enfaixada, acompanhado pelo garoto arqueiro, Curtis. Um grupo em particular Sophie já reconhecia de longe, embora não soubesse o nome de nenhum dos estudantes. Os cinco ou seis alunos sempre passavam distribuindo sorrisos e diversos “bom dia” para os transeuntes. Vestiam os uniformes comuns, mas também levavam nos pescoços ou pulsos faixas multicoloridas com estampas floridas.

Sophie ouvira pelos corredores que aqueles eram os únicos estudantes de Turmelyi, uma das regiões mais misteriosas do Alto-Reino, escondida em Aethia. Poucos deles se entretiam em explorar o resto do mundo. Seus encontros na praça, sempre sentados na grama descalços, pareciam ter fins mais religiosos do que acadêmicos. Um deles, o mesmo das outras vezes, notou Sophie e acenou para ela pacificamente. Nunca se falaram, mas o cumprimento já era parte da rotina da garota nas manhãs em que resolvia sair do quarto.

— Bom dia – disse alguém ofegante atrás das duas.

— Bom dia – disse outra voz, e esta Sophie reconheceu como sendo a de Danyel Kadrach.

As garotas se viraram no banco. O kalari estava acompanhado de Arthuel Cyriac, o prodígio daquele ano. Sophie se deu conta de que, apesar de sua popularidade, nunca tinha ouvido a voz do garoto antes.

Enquanto Danyel estava vestido com suas roupas de costume (o que era um pouco menos do que o comum), o rapaz loiro ao seu lado, um pouco suado, vestia-se como se fosse para uma maratona naquela manhã.

— Esteve se exercitando? – perguntou Elae com certo cinismo.

— Não consigo imaginar como você adivinhou. – ele retrucou. Apoiava-se no banco com um dos braços, respirando pesadamente.

O princípe indígena sorria.

— O Mestre Alifas recomendou a Arthuel que desenvolvesse suas aptidões físicas.

— Minha esquiva anda defasada. Tenho passado tempo demais sentado escrevendo. – seu fôlego já estava mais ritmado.

— Como não tenho aula no momento, resolvi acompanhá-lo na caminhada…

— Corrida.

— … corrida diária. O dia está bonito.

— Poderia estar um pouco mais quente— Elae apertou os próprios ombros, de braços cruzados. – Achei que o inverno já tivesse acabado.

Danyel olhou para o céu, respirando fundo.

— Bem… acho que não fui apresentado a ela ainda. – comentou Arthuel.

Elae arregalou os olhos.

— Oh. Você está longe de ser o único. – riu – Arthuel, esta é a Sophie. Sophie Norne.

Sophie olhou para ela com breve desaprovação. Nem pretendia se apresentar, mas se era obrigada a isso, sabia fazê-lo sozinha. Virou-se para Arthuel novamente. Ele não era alto ou particularmente forte, mas tinha porte atlético. Talvez as corridas surtissem efeito. Tinha um curativo no ombro esquerdo, exposto.

— É um prazer. – ele estendeu a mão.

Sophie apenas sorriu.

— Então, Dan, como foi o final da sua noite? Vi que estava conversando com garo…

— Eu só voltei para o quarto, Elae. Não aconteceu nada – ele respondeu, até um pouco risonho – Fiquei pensando no que aquele Aclus falou.

— Aclus? – Sophie e Arthuel questionaram em uníssono, embora em tons diferentes. O garoto tinha mais urgência na pergunta.

— O organizador do evento… figura excêntrica. – comentou Elae, como que querendo desconversar.

— Vocês o viram pessoalmente?

— Huh… sim. Mas não conte a ninguém, Arthuel. Ninguém nem deveria estar fora do Habitares durante a noite.

Sophie considerou sugerir a Elae que se socasse.

— Não contarei. – dirigiu-se de imediato ao colega – Espero que tenha conseguido dormir mesmo assim, Dan. – deu um tapinha nas costas de Kadrach e olhou para o céu. Após alguns segundos de silêncio, começou a se esticar – Preciso voltar a correr. Meu descanso acabou. Até mais. – disse, já se afastando.

— Não exagere! Não quero você na enfermaria de novo! – gritou Elae para o já distante Arthuel.

— De novo? – Danyel perguntou.

— Pelo jeito o Mestre Alifas exige bastante de seus alunos. Aquele curativo no ombro dele eu mesma coloquei. – de súbito, ela mudou de assunto – Dan, você não… eu não recomendo que comente tão abertamente sobre Aclus ou qualquer uma das maluquices que ele disse.

— Achei que você não o levasse a sério.

— E não levo.

— Qual o problema, então?

— O problema é que as pessoas não precisam saber que o vimos. Como eu já disse, nem deveríamos estar lá. E não importa se ele é só um maluco ou não, ele é um membro banido da Ordem.

— Você checou isso? – perguntou Sophie.

Elae pareceu surpresa com a participação da amiga feciter na discussão.

— Huh, não, mas…

— Certo, certo, eu entendi o seu ponto, Elae. Não posso discordar de você. Sinto muito. Ainda estou me acostumando a tantos segredos.

— Nem me diga. Acabo de me provar uma hipócrita e tanto – disse Elae, e Sophie fez toda a questão de expressar com um sorriso que concordava com a colocação. – Você tem dezessete anos, Danyel. Não me parece ingênuo.

— E não sou. Sou apenas otimista.

— Percebo – ela sorriu – Tudo bem. Eu não quis repreender você.

— Não achei que quisesse. Sem problemas. Vou tomar mais cuidado.

Um ou dois minutos de silêncio se passaram. Os três apenas contemplavam o ambiente. Algumas pessoas conversavam com o grupo de turmalines sentados sob um pinheiro, os amigos à distância de Sophie.

— Preciso me aprontar. Não quero Eldar batendo na minha porta. É melhor eu chegar no estágio cedo.

— Beba algo para ficar acordada. – disse Danyel com naturalidade.

— Do que está falando?

— Você bocejou umas cinco vezes desde que sentamos aqui. A noite foi longa, Elae. – Sophie falou – Eldar não vai gostar se você dormir na enfermaria, vai?

Elae assentiu, baixando a cabeça.

— Nem um pouco – a frase era quase um suspiro – Eu me viro. Obrigada pelos avisos.

Ela se afastou.

— Soube que você desenha bem, Sophie. Eu gosto de desenhos.

O rapaz era quase um avatar da empatia, então Sophie não sentiu-se incomodada pelo comentário. Mesmo assim, preferia evitar falar sobre sua… arte.

— Você viu naquela noite, não foi? Tire você suas conclusões.

Dan soltou uma sincera e discreta risada.

— Acho que você não quer falar disso. Tudo bem.

Arthuel estava passando novamente, trotando. Ele acenou para os dois, mais para Danyel que para Sophie.

Danyel caminhou até ele e começou a acompanhar seu trote. Também acenou para a garota, como que se despedindo. Sophie acenou de volta.

A brisa, já não tão fria, tocou seu rosto mais uma vez. Desligou-se do momento novamente. Ouvia um zumbido ecoar na sua cabeça. O ruído se aproximava até se tornar algo audível.

Desenhos são uma ótima ideia, afirmou a voz. Mas não sei se são suficientes.

Pressionando as têmporas, Sophie soltou um longo suspiro.