A noite foi longa. Victor mal podia acreditar na chegada do alvorecer. Por sorte, só teria aula a partir das duas da tarde. Fez bem em reservar os dias de Virdas para descansar durante a manhã. O cansaço tomara conta de Victor, e era mais mental do que físico.

Junto a ele, outros estudantes sonolentos caminhavam pelo campus em busca de seus quartos, fosse para fechar os olhos e sonhar, fosse para lutar contra a natureza e se forçar a ir para as aulas que em meia hora iriam começar. Alguns imprudentes apontavam traços de embriaguez, o que fez Victor se perguntar o que aconteceria se algum monitor mais exigente (como Ereven) os encontrasse daquele jeito. Desistiu do pensamento, pois também não estava no auge da sobriedade, embora estivesse mais ébrio de fadiga do que de bebidas.

Quando foi do Habitares ao Feastes, no meio da noite, o caminho parecia simples e direto. Na volta, no entanto, e não sabia se era por culpa da tontura, as ruas do complexo que irradiava da Praça Central (onde ficava aquela magnífica estátua que sempre exercia imenso fascínio no jovem Harland) se tornaram tortuosas e demasiado compridas. Parecia que ainda seria obrigado a caminhar uma eternidade até entrar no prédio principal. Chegar ao seu quarto estava se tornando tarefa ingrata.

E saber que Britan estaria lá não era nada motivante. O garoto, com o pé machucado após brincadeiras de um certo Glenn, foi levado de volta para o quarto que dividia com Victor no meio da festa, por volta das onze horas. Àquela hora, devia estar dormindo, e as previsões pessimistas de Victor já vislumbravam-no acordando com um “bom dia” desnecessário do companheiro de quarto.

Com um tanto de esforço, chegou no Habitares e caminhou pelos corredores, subindo dois lances de escadas sem o menor sinal de ânimo. Mal pode acreditar quando pisou no corredor de seu quarto. Os outros estudantes que acompanhavam a manada, um por um, foram entrando em suas portas. O quarto de Victor ficava no fim do corredor, próximo a uma daquelas grandes janelas por onde a luz do sol adorava saudá-lo sempre que saía sonolento para começar seu dia. Mais trinta ou quarenta passos, e lá estava. Girou a maçaneta, torcendo para Britan não tê-la trancado.

Suas preces foram atendidas, e a visão do quarto sanou suas necessidades momentâneas naquele exato instante. Não pensou muito, nem procurou por Britan; apenas jogou-se na sua cama.

Afundou o rosto no colchão, se sentindo paradoxalmente aliviado e aflito ao mesmo tempo. Após a cansativa noite, tinha a oportunidade de deitar-se e descansar, mas tinha certeza de que o que aconteceu não abandonaria seus pensamentos tão cedo.

…

— Já está melhor? – Elae recostava-se na parede, atrás do assento onde Victor estava. Cruzava os braços.

— O quê?

— Da indigestão. Suco. Arando. Você sabe.

— Ah… Sim. Obrigado. Não foi nada.

— Espero que esse tal suco não fosse o real problema. Muita gente bebeu. Imagina o pesadelo que eu teria com Eldar amanhã. – ela sentou-se ao lado de Victor. Estavam num canto mais afastado do salão do Feastes.

— É. Tomara. Cadê o Danyel?

— Preferiu se retirar, há uns trinta minutos. Disse que estava tomando gosto demais pelas bebidas aqui. Não queria arriscar. Mas tive tempo suficiente para apresentá-lo melhor às pessoas. Digo, todo mundo só conhece ele através daquele posto de “príncipe de sei-lá-o-quê” e “aluno prodígio”. É bom conhecer a outra face dele. Gente como a gente. Que nem com o seu amigo Arthuel. Viu ele por aí?

— Não. E eu não diria que ele é meu…

— Amigo. Certo, que seja. Mas vocês parecem ter uma boa relação. Ao contrário do Dan, ele ao menos se esforça para ser carismático. Quem dera fosse assim com a Sophie.

— Talvez você pudesse ser mais cautelosa com ela. Não sou próximo da garota, mas as caras que ela faz em público deixam bem claro que ela não é das mais fáceis de lidar.

— Não fale como se você fosse o exemplo de socialização. Danyel já foi embora, mas aproveitou o evento muito melhor do que você. E, considerando a quantidade de vezes que fui chamada para resolver algum problema médico,

diria que melhor do que eu.

— Me explique, por favor, como na instituição acadêmica mais poderosa do Império, o chefe do departamento médico só tem um assistente, que é um calouro?

— Os melhores médicos e enfermeiros não ficam aqui. Vão para o Templo de Virmani. E eu não sou a única. Sou só a mais sociável. E a única aluna do nosso ano que ele aceitou.

Victor sempre se considerou péssimo lidando com diálogos. Não que não soubesse ou gostasse de conversas, mas nunca imaginava forma alguma de mantê-las. Mesmo assim, resolveu arriscar mudando de assunto.

— Você podia estar aproveitando essa… festa. Ou seja lá o que for. Eu não sou a pessoa mais divertida que conheço. Por que está aqui, sentada comigo?

Elae fitou Victor com ar curioso.

— Eu não sei, Harland. Eu pretendia arrastá-lo para algum grupo, mas pelo jeito você que me puxou para cá. Eu gosto da sua companhia. Você foi a primeira pessoa com quem falei aqui, e isso significa algo para mim.

— Também gosto de você. Um pouco.

Ela deu uma cotovelada leve em Victor.

— Não precisa falar se for só porque eu falei.

— Eu falo sério, Elae. Gosto de você. Isso já é mais do que a maioria das pessoas. Eu só… ando ocupado demais para me preocupar em deixar esse tipo de coisa muito clara.

Mesmo um pouco abafada, a música recomeçou. Pelo que Victor soube, os músicas tinham parado após uma confusão entre os mesmos, relacionada à divisão dos ganhos com a festa. Típico, mesmo numa banda amadora acadêmica. Eles tocavam uma melodia mais lenta, para compensar as canções dançantes das horas anteriores.

Deuses, aquele Curtis é muito bom.

— Sua cabeça, seus problemas. Você que sabe. Mas eu, em seu lugar, me deixaria esquecer um pouco dessas “ocupações” para viver um pouco, mesmo que só de vez em quando. – ela olhou nos olhos do jovem, e em seguida pôs a mão em seu rosto. Aproximava o seu rosto – Victor…

Embora não pudesse se ver naquele momento, ele teve certeza de que estava vermelho como o suco de arando falso que dissera ter bebido. Não era a primeira vez que passava por uma situação como aquela, mas a experiência não

fora o suficiente para o ensinar como reagir.

— Elae, espera! – levantou-se de imediato, se afastando da moça. – Eu não acho que…

Elae olhava para ele, espantada.

— Não acha o quê?

— Que seja o momento. Eu não vim aqui para isso. Me desculpe, mas…

— Espera. Eu só ia perguntar sobre esse corte na sua boca. – a informação veio como uma flecha em direção a Victor – Você não achou que eu… ? Ah, droga.

— Você não… – estava se cansando das tantas frases incompletas naquela situação.

— Não. – ela respondeu, quase em tom de desculpa.

— Eu não sei bem o que dizer.

— Victor, eu gosto de você, mas não sei se… se é para tanto. Ainda não.

— Sem problema. Eu tenho o hábito de estragar tudo mesmo.

— Não diga is… – mais uma vez, um grito pelo nome de “Elae!” irrompeu de algum lugar do salão – É… eu tenho que ir, de novo. A gente se vê mais tarde, certo?

— Já são três da manhã. Qualquer coisa, vejo você de manhã. Se eu acordar. Pode ir – seu estômago se embrulhava.

— Tudo bem – ela ajeitou uma mecha de cabelo na frente do rosto – Até depois.

Mesmo após ela se afastar, Victor ainda sentia o péssimo clima que tinha criado, e a música não ajudava.

…

Teve tempo para observar o quarto após se afundar nas lembranças recentes. Britan já saíra. Havia deixado um bilhete sobre sua cama, avisando que passaria a manhã na enfermaria cuidando de seu pé. Victor estava tão distraído que nem se importou em se questionar se seu colega de quarto seria capaz de inventar uma mentira convincente para explicar o machucado.

Bilhete.

Ao ler a mensagem de Britan, lembrou-se do papel que guardava em seu bolso. Torcia para não ter sido rasgado ou sujo.

…

Valimund o levou a uma sala fechada, longe de todo o barulho do salão principal. Aclus aguardava, sentado atrás de uma mesa improvisada e cercado por quatro jovens um pouco mais velhos do que Victor.

— Pode se sentar.

Sem hesitação, Victor obedeceu, embora as palavras de Aclus não soassem como uma ordem. Imergiu no fundo dos olhos de Victor com seu olhar caótico. Assim ambos permaneceram por breves segundos, até a vontade latente de abrir a boca voltar a tomar conta de Thoryn.

— Valimund disse que é você. Deixe-me verificar. – ele fez uma pausa – Uma coroa…

Victor recordava-se mais do que gostaria daquilo. Suspirou antes de continuar.

— Para os artesãos.

Aclus manteve a mesma feição.

— A segunda coroa…

— Para seus irmãos.

— Ambas pertencem…

— Aos verdadeiros reis.

Seja lá o que isso quer dizer.

Finalmente, ele sorriu.

— Afinal. Sabe, estive torcendo para não estar errado. Fui avisado de que você estaria presente entre os novos estudantes, mas achei que o encontraria mais rápido. Ou vice-versa. Não importa. Temos trabalho a cumprir, Victor. Se colaborar, será recompensado.

— Eles me disseram exatamente as mesmas frases.

— Eles têm consciência de suas missões. Assim como eu. – ele escreveu num pequeno papel, tirado de dentro de um livro grosso e velho – Tome. Como sabe, estou ocupado agora. Preciso me manter presente no evento ali fora, então infelizmente teremos que ser rápidos aqui. – ele nunca tirava o sorriso do rosto – Isso é tudo de que precisamos agora. Traga-nos isso, e terá minha confiança.

— Eu não recomendaria confiar nele. – disse Valimund.

Aclus balançou a cabeça com ar distraído.

— E… ?

— Veja, não acho saudável que coloquemos todas as nossas esperanças…

— Eu já sei o que quer dizer. Cale a boca, por favor.

— Aclus, você sabe… todos aqui sabem que me mantenho fiel à causa. Só estou dizendo que…

Aclus levantou-se, assim como os ânimos dos presentes.

— O quê? Se quer tanto assim colocar isso para fora, tentando provar seu valor ou coisa do tipo, fale de uma vez!

Ele estava agora cara-a-cara com Valimund.

— Ele tem razões para estar aqui. Para querermos a colaboração dele. Mas ninguém pode confiar nele. Não podemos. Eu conheço a linhagem dos Harland.

Aquilo foi suficiente. Victor desferiu um soco em Valimund, acompanhado por um grito irracional. O grunhido no entanto, carregava significados que o jovem Harland não seria capaz de descrever com meras palavras. Mas ele já estava farto de comentários como aquele sobre si, sobre seu pai, sobre seus antepassados.

Infelizmente, o esperado ocorreu, e Valimund não foi capaz de compreender nenhum traço daquele propósito no soco recebido. Em resposta, ainda com a boca sangrando, devolveu o soco quase que instantaneamente.

…

Seu lábio ainda estava dolorido. Valimund era adepto da magia, mas também sabia machucar com os punhos. Após o ocorrido, Victor não se lembrava de muito dos momentos que se passaram até a conversa com Elae horas depois. Mas tinha noção de que Aclus e seus amigos confiavam ainda menos nele.

Espreguiçou-se antes de se deitar, mesmo sem pôr suas roupas de dormir. Estava cansado demais para trocar-se. Verificou o bilhete uma última vez e guardou-o em sua gaveta, ao lado da cama. Precisaria tomar cuidado para que Britan não flagrasse o que estava escrito ali.

Com as ordens recebidas e o material que reuniu na tarde anterior, finalmente começaria a colaborar com seu propósito. Esperava não ter que machucar ninguém no processo.

Notas finais
Como quem acompanha percebeu, acabamos de passar pelo primeiro grande hiato da história :D Minhas aulas voltaram, então o tempo e a energia não estão mais sobrando, espero que entendam Mesmo assim, quem sabe eu não consigo entregar mais um capítulo ainda esse mês? Obrigado para quem ainda está acompanhando