Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
25 Capítulo 24
O Feastes mais se assemelhava a um galpão abandonado. Danyel não conseguia compreender como um local escuro, silencioso e gelado poderia comportar um evento. Até onde sabia, as comemorações dos povos urbanos eram tão animadas quanto as tradicionais kalari, ou mesmo um pouco mais.
Desconfiou da possibilidade do veterano Eelia tê-lo enganado. Assim como Dan, alguns outros calouros pareciam bastante confusos, vasculhando com os olhos o ambiente.
Já era demasiado risco perambular pelo campus àquela hora, apesar de ter ouvido de Eelia e da própria Atis que eventos como aquele eram costumeiros. O que Dan perguntava a si mesmo era: que evento?
Feastes não era o maior bloco da Academia, mas estava longe de ser o menor. Esteticamente, parecia ser o mais simplório de todos, semelhante a um prédio qualquer dos muitos que Dan vira em Elyrasia, o que ia contra o apelo arquitetônico rústico notável no Habitares ou no Elareum. Talvez fosse a mais recente das construções ali, embora seu estado de conservação não fosse muito fácil de perceber com tamanha escuridão.
Melinda, uma das estudantes, perdera a paciência.
— Aposto que os imbecis que armaram isso estão rindo de nós agora!
— Calma, Melinda. Eu acho que os veteranos têm mais afazeres do que enganar calouros. Talvez só estejamos no lugar errado. – disse Hector, tentando se manter calmo.
— Só se existir outro Feastes e ninguém nos contou, Ogund. Os monitores saberão disso!
Nathaniel, um dos mais velhos calouros, manifestou-se.
— Você tem certeza de que quer os monitores sabendo disso? Até onde sei, nem deveríamos estar a…
— Cale a boca, Nathan. Eu sei disso.
A educação dos naklerin surpreendia Danyel diariamente.
Porém, desconsiderando as palavras ásperas, Melinda tinha um ponto. O que levaria os acadêmicos mais antigos a convidar os calouros para uma cerimônia de boas-vindas no meio da noite, longe das ruas principais da Academia e dos olhos de qualquer Oficial? A possibilidade de armação, a cada segundo que eles passavam naquele galpão vazio, parecia mais forte.
Dan ouviu um rangido. Uma forte luz atrás de si projetou sombras compridas na parede do galpão.
— Ora, então vocês que faziam esse barulho sobre o teto. – quando Danyel olhou para trás, reconheceu Vinicus. O syrel fora um dos veteranos que acompanhava Eelia no refeitório, distribuindo convites para as boas-vindas— Já estava ficando tarde. Venham. – ele segurava numa das mãos a tampa de um alçapão, não muitos metros longe do fundo do Feastes. Na outra mão tinha uma coxa de ave cozida. Pelo cheiro, devia ser temperado com especiarias do Império.
Dan perguntou-se de onde meros alunos tirariam estoque como aquele de alimento. Mas como já ouvira muitas vezes antes de tornar-se acadêmico, a Academia era uma instituição de elite.
Naquele momento, Melinda resolveu seguir as próprias ordens e calar a boca. Sem muito a se fazer, os estudantes fizeram o que foi pedido por Vinicus. No alçapão, havia uma escada de madeira de firmeza duvidosa.
Ao descer, Dan sentiu-se até intelectualmente ofendido: a festa ocorria, literalmente, debaixo de seus narizes. Sim, festa. Como desconfiou, cerimônia de boas-vindas era um eufemismo. Alguns jovens pareciam um pouco mais alegres do que o comum para um evento social.
O galpão subterrâneo era duas vezes maior do que o Feastes original, e também mais bonito, embora não da mesma maneira que os outros edifícios: sua beleza era mais artesanal, como se a decoração tivesse sido feita na tentativa e erro, sem mãos profissionais.
Luzes fortes de origem desconhecida e música em tom ensurdecedor animavam o espaço. Se no centro do galpão houvesse uma fogueira e a música fosse um cântico kalari, Dan se sentiria em casa.
Ao que parecia, tudo era organizado pelos próprios estudantes. Viu o colega da turma de Geografia, Britan, servindo petiscos aos presentes numa bandeja. Ele tropeçou no pé de Glenn, que a julgar pelas risadas não pareceu nem um pouco preocupado com o outro jovem. Notou também que os músicos eram todos jovens, mas ele só reconheceu o violoncelista: Curtis Bäars, aluno-prodígio da turma de Arquearia de Danyel. Pelo jeito, o talento com o arco se refletia também nas cordas do instrumento.
Apesar da maioria discente, viu alguns Oficiais também, embora nenhum fosse professor ou monitor. A maioria, pesquisadores e assistentes, talvez presentes por serem ex-alunos recentes.
Vinicus, atuando como guia da nova leva de convidados, sugeriu que se eles se espalhassem. Não parecia muito interessado em ocupar tal papel. Assim que todos se dispersaram, correu para a mesa principal, repleta de comida.
Danyel, porém, não sabia para onde ir. Seu colega de quarto Arthuel não estava presente. Chegou a ver Victor e Elae, mas ele parecia um tanto desconfortável, e ela já bastante entrosada com outros alunos. Preferiu não incomodar.
Sentou-se, então, num dos bancos dispostos, meio solitário. O máximo de contato que manteve por alguns minutos foi com os estudantes que carregavam bandejas de comida. Não aceitou muito. Mas apreciou uma bebida de coloração estranha a que foi oferecido. Torceu para que não o deixasse tonto.
Duas garotas e um garoto se aproximaram. Uma delas se pôs à frente.
— Oi. – disse. Era ruiva e alta. A outra era uma syrel de cabelos curtos, e o jovem careca que as acompanhava era provavelmente advindo de Aethia, pelo bronze natural.
— Olá. – respondeu educadamente.
— Você é o príncipe, não é? Dos kalari? – ela falou, com entusiasmo.
— Sou. – Dan fingiu um sorriso – Por que pergunta?
Ela e a amiga ficaram aos risos. Dan não compreendia.
— Mas que honra. Olha, nós só queríamos saber se…
A syrel interrompeu.
— Nosso amigo está… interessado em você.
A notícia era… surpreendente. Dan se inclinou um pouco, fitando o jovem por alguns segundos. Era bonito. Tentava desviar o olhar de Danyel.
— Olhem, eu… – não conseguia pensar numa maneira educada de despistar o trio – Eu estou ocupado agora. Quem sabe no próximo evento?
Foi possível notar o desânimo do estudante de longe. As amigas, pelo contrário, riam.
— Tudo bem. A gente não esperava nada muito diferente. Na próxima vez, eu mesma venho falar com você. – disse a ruiva, de maneira suspeita – Eu sou a Fenelle, e esses são Juno e Ahziz.
— Huh, estarei à disposição. Eu acho. Kyalat.
— Kyalat?
— Quer dizer “prazer em conhecer”.
— Ora, um prazer também, vossa alteza.
— Só Danyel está ótimo.
Os três se afastaram. Dan achou irrelevante demais para contar o fato de que kyalat também significava preciso ficar sozinho. Por vezes, se perguntava como duas mensagens tão diferentes chegaram a ponto de ser resumidas numa única palavra. O kalari tinha suas peculiaridades.
Algumas outras pessoas vieram conversar, a maioria questionando sobre a ascendência de Dan. Ele fora alertado ainda criança sobre o fascínio que seu povo e outros nativos da Floresta despertavam nos indivíduos das cidades, então ser tratado como uma descoberta viva não o aborrecia. De fato, na maior parte das vezes era mesmo engraçado. Jurou que, sendo o estranho no ninho em sua estadia na Academia, seria ele o responsável pelas perguntas, mas em geral ele só respondia às indagações em relação a seu pai, suas tradições, e em especial, sobre lobos.
Elae e Victor passaram por ele.
— Você não parece do tipo que viria para um lugar como esse, Danyel. – disse Victor. Tinha na mão um saco cheio de… feijões.
— Acho que podemos falar isso de nós dois, Victor. Pelo menos você tem uma… guia.
Elae estava distraída, olhando a banda tocar uma melodia dançante.
— Vocês disseram meu nome? – ela comia os mesmo feijões.
— Diga, Elae, como é ser socialmente ativa? – perguntou Victor com sarcasmo.
— Ora, estou te fazendo descobrir agora, não estou? Uma pena que Sophie não quis vir. Vocês três se dariam bem.
— Eu já conheço a Sophie. – disseram os dois, em semi-uníssono.
— O que um kelar faz aqui, isolado? Achei que tinha vindo à Academia para conhecer os citadinos, Danyel.
— Eu começo a perceber que eles vêm até mim, então só me resta esperar. – tomou mais um gole da bebida colorida – Não pretendo me forçar a ser inserido.
— Mas quanta segurança. Se você diz… – alguém gritou o nome de Elae à distância – Alguém precisa de mim. Torçam para não ser mais um engasgado. Já foram cinco essa noite.
Ela saiu correndo entre as pessoas dançando. O espaço começava a parecer mais apertado. O ponto de quase-solidão de Dan era um verdadeiro oásis na multidão.
E no mesmo momento em que Elae partiu, três pessoas caminharam de aparentemente lugar nenhum até Danyel e Victor. Um deles era Vinicus. Os outros dois, completos estranhos.
— Boa noite, senhores.
— Boa noite. – disseram os dois, mais uma vez em harmonia.
— Não acho que já nos conhecemos. – o que falava era definitivamente o mais velho deles, talvez com mais de trinta anos. Tinha o cabelo cacheado escuro caindo sobre o rosto, e olhos ameaçadoramente verdes. – Como organizador da festa, achei digno que me apresentasse aos convidados. Chamo-me Aclus. Thoryn, se estivermos sendo profissionais.
— Victor Harland. – disse o colega. Sua voz soou nervosa.
— Danyel Kadrach. Kyalat— desta vez, Dan queria mesmo dizer “prazer em conhecer”.
— Ah, o príncipe kalari! – Aclus bateu palmas. Dan não achou que ele estivesse embriagado. Talvez o entusiasmo fosse de sua natureza – Vinicus me falou sobre você. Este outro ao meu lado é Valimund. – ele apontou para um jovem desconfiado com uma enorme falha no cabelo castanho. – Ele que montou quase tudo. – sussurrou, como se aquilo devesse ser um segredo.
— Fico feliz em saber que meu nome já é conhecido por aqui.
Victor tentou falar algo, mas foi cortado por Aclus.
— Estão gostando das boas-vindas? Eu sempre me esforço para fazer um evento agradável. Eu adoro este lugar. A Academia é minha casa… ou era. – a naturalidade com que ele falou aquilo sem sequer piscar estava deixando Danyel nervoso.
— Aprecio as bebidas. – foi tudo que Danyel conseguiu dizer.
Aclus riu alto.
— Vocês não parecem estar se divertindo tanto. Algum problema?
— Não, claro que não.
Vinicus cutucou Aclus.
— Tem Oficiais aqui. – disse, olhando ao redor – O que a gente faz?
— Não tem problema. Deixa eles se divertirem.
— Escuta, Aclus, você organiza essas festas… o que você faz na Academia? É um Oficial?
Valimund suspirou. Aclus deu um sorriso.
— Já que você está curioso.
Ele pôs as mãos em torno dos dois.
— Eu vou contar para vocês, Danyel e…
— Victor – disse Harland, comendo os feijões sem muita reação.
— Danyel e Victor. É claro que eu adoro dar as boas-vindas aos calouros, especialmente quando se trata de gente importante, como um nobre kalari. No entanto, nem todo mundo aprecia a minha presença na Academia.
— Huh…
— Vai mesmo falar, Aclus? A gente não tem a noite toda – disse Valimund.
Aclus ignorou.
— Eu quero mostrar a verdade. Eu quis saber mais do que o permitido. E é assim que funciona neste sistema. Faça a coisa certa no lugar errado e os Darchinia te jogam fora como lixo. Eu fui expulso.
— E como exatamente você se manteve aqui dentro?
— Eu dou meu jeito. Escutem o que eu estou dizendo, rapazes…
Elae voltou. Na verdade, já esperava ali há alguns segundos.
— Quem seria… ? – tinha em mãos a mesma bebida de Danyel.
— Eu sou Aclus Thoryn, senhorita. O idealizador desta festa. Está gostando?
— O suficiente – disse ela, com um sorriso.
— Como eu dizia, a verdade. Os Darchinia agem como inimigos do Império, mas quando convêm, eles agem em conjunto. Para fazer todo tipo de males que possamos imaginar.
— Como… ? – Elae parecia incrédula.
— É isso que eu estou tentando descobrir há um tempo. Se eles conspiram contra nós, reles mortais, nós também conspiraremos contra eles.
— E se contarmos tudo isso para algum Oficial? – mais uma vez, a pertinente dúvida veio de Elae.
— Ora. A escolha é sua. Você não seria a primeira. Eu tenho meus próprios métodos para me esconder. Você não vai sequer lembrar que estive aqui.
Perdurou o mais constrangedor silêncio.
— Escute, Aclus, você pode me dizer onde fica o banheiro? Acho que o
suco de arando não me fez bem. – disse Victor de súbito, pressionando o torso.
Aclus piscou, confuso.
— Valimund, leve o nosso amigo até o banheiro. Não deve estar muito bonito, a essa altura da festa, mas é o que temos.
Elae contorceu o rosto.
— Às vezes me pergunto porque ando com Victor Harland…
A bebida estranha acabou. Dan ainda estava com sede.
— Onde posso pegar o suco de arando?
— Ele, huh, acabou. É um dos mais procurados, em todas as festas. Desculpe.
Vinicus sussurrou algo no ouvido de Aclus.
— Escutem, eu preciso ir. Melhoras para o… Victor. Ainda há dezenas de pessoas para conhecer aqui. Caa— ele fez uma mesura – É assim que os kalari fazem, não é?
— Próximo a isso. Caa— Danyel respondeu o cumprimento. Boa sorte. Não entendeu porque precisaria de sorte ali, mas esta é sempre bem-vinda.
Elae e Danyel ficaram sozinhos. Quando Aclus se virou, Dan teve a impressão de ver uma faca em sua cintura. Achou melhor desconsiderar a possibilidade. O sujeito se fora, deixando para trás um aroma de lírios.
— Você entendeu alguma coisa do que ele falou? – perguntou a garota.
— Um pouco. Sabemos que o Conselho tem muito a esconder.
— Saber algo é diferente de ser paranoico. Se ele foi mesmo expulso da Academia, surtou no processo.
— Você vai contar a alguém sobre ele?
— Sinceramente, vale a pena? – sem resposta, ela continuou – Acho que vou pegar alguma coisa na mesa. Britan machucou o pé e não está mais passando com as bandejas de comida. Quer ir comigo? Eu posso te apresentar algumas pessoas. Você vai adorar o Seth. E acho que você já conheceu a Melinda, infelizmente.
Ficar sentado ali, isolado, já estava ficando cansativo. Dan deu de ombros.
— Por que não?
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