Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
19 Capítulo 18
Poucos professores na vida de Victor haviam atraído sua atenção. Em geral, eles não fugiam do estereótipo. Lecionavam, repreendiam, testavam, aprovavam (ou reprovavam) e só. Dias depois, já eram uma mera lembrança turva na memória do jovem.
Volgard, provavelmente, seria mais um desses na vida dos alunos de Cartografia. Mas não parecia querer admitir tal destino.
— Você está linda hoje, Sora! Olá, Enrien, o grande rei! Ander, adorei o projeto que você fez semana passada, mandei até para o Drian na Torre! – um por um, o professor substituto cumprimentava os estudantes à medida que eles entravam na sala. Victor torceu para ser ignorado, mas… – Victor! Conversei com Nadlya recentemente, e ela disse que aprecia seu gosto pelos estudos. Sempre com um livro à mão, não é? Espero que tenha estudado um pouco sobre mapas também.
O garoto apenas balançou a cabeça positivamente. Preocupou-se, antes, em achar seu lugar na janela da sala. Aquele era um dos poucos espaços na Academia que permitia uma vista tão boa. Apenas outros dois lugares se comparavam: a Torre de Vigia e o terraço do Habitares. Ou era o que diziam. Nunca estivera em nenhum dos dois.
Alguns minutos depois, todos estavam acomodados em seus lugares. Cada assento era acoplado a uma mesa inclinada de desenho para que os alunos pudessem desenhar os projetos. Victor não fazia ideia do porquê de ter escolhido aquela disciplina para sua grade. Era péssimo desenhista. Os melhores da turma eram Ander Mykon e Sophie Norne.
— Então… – Volgard começou a falar – Como vocês sabem, eu não sou nada mais do que um substituto temporário para o professor Lucas. Ele partiu numa viagem com membros do Conselho exatamente quando cheguei da minha estadia em Vallerica.
Britan levantou a mão.
— Professor, eu ouvi dizer que o professor Lucas morreu numa vila perto daqui!
O professor emudeceu por um instante tênue.
— Ora, Britan, é certo que não sabemos o paradeiro exato da comitiva, mas… é leviano dizer que trata-se de morte. É comum perdermos comunicação em alguns momentos enquanto viajamos. Não ouvimos nada deles há duas semanas, mas… – sua expressão indicava desconforto – Enfim, o que eu queria dizer é que muito em breve eu, infelizmente, não estarei mais aqui com vocês. Tenho muitos afazeres, e lecionar não é a prioridade para o momento.
— Então você não gosta de ensinar? – perguntou Sora, sentada na cadeira da frente.
— Não se trata disso. Antes de professor, eu sou um Oficial da Ordem de Elyrach. Isso implica em muitas responsabilidades. Estou de mãos atadas – disse, dando de ombros com ar cínico. Victor pensava que Volgard, de fato, não gostava de ensinar. – De qualquer maneira, a professora Anna irá me substituir à altura, então não se preocupem.
Anna?
Harland não gostava de como aquela instituição parecia apreciar trazer de volta das memórias nomes que lhe traziam dor.
— Vamos ao que importa. – disse o docente, batucando sua mesa – Victor, pode me dizer onde paramos na última aula?
Apesar de não ter problemas com professores simpáticos, não entendia por que aquele precisava lembrar de seu nome. Folheou o seu caderno, que tinha mais rabiscos relacionados a Aclus Thoryn do que qualquer referência a Cartografia.
Se esforçou para ler a própria letra. Estava com sono na última aula.
— O Sonho… de um… mapa-múndi. E as maneiras de projetá-lo.
— Esplêndido. Então, o que vocês pensam? Semana passada eu pedi para que vocês desenhassem possíveis projeções de um mapa-múndi hipotético. Alguém o fez?
Alguns dos alunos levantaram a mão, puxando grandes rolos de seu material e abrindo-os em suas mesas.
Victor havia esquecido do projeto. Nos últimos dias, estava preocupado demais com o livro que “pegou emprestado” da biblioteca. Além do mais, estava se preparando para o tal evento para calouros em que fora convidado. Era sua maior chance de encontro com aquele que procurava.
Tentando fugir do olhar desapontado de Volgard, virou-se para a grande janela ao seu lado, que ocupava quase toda a parede.
Era uma visão e tanto.
Infelizmente, não era o bastante para ver muito além dos muros. Pelo que sabia, apenas a vista panorâmica da Torre permitia tamanho luxo. Ouviu certa vez que alunos avançados de Cartografia tinham acesso ao local. Foi quando se deu conta de que havia, então, um bom motivo para estar na disciplina.
Olhando para fora, deparou-se de repente com uma cena no mínimo inusitada no terraço, um andar abaixo.
O velho Darkas, ao lado de uma mulher parda, conversava com alguém que trajava vestes imperiais. Victor não podia ouvi-los, mas estava bastante claro que Darkas parecia aborrecido. Exclamava algo contra o syrel, que todavia carregava serenidade no rosto, enquanto comia o que pareciam frutas silvestres.
Victor teve certeza de que Darkas estava aborrecido quando viu o Grão-Mestre lançar uma magia brilhante pelos ares. Nesse momento, o syrel se assustou. A mulher falou com Darkas, aparentemente tentando acalmá-lo, e apontou para outro lugar. O Elareum.
A figura imperial concordou e saiu de cena. Só restaram no local Darkas e a mulher. Uma outra pessoa apareceu. Era um homem alto e esguio, de monóculo e cabelo loiro-claro ralo. Carregava um pergaminho em sua mão.
Os três confidenciaram entre si. Após alguns minutos, entraram, ficando fora de vista. Quatro andares abaixo, no térreo, era possível ver o syrel saindo do edifício e dirigindo-se ao Elareum, como indicado pela mulher.
— Victor? – era a voz de Volgard, trazendo Harland de volta ao mundo real. – Onde está seu projeto?
— Ah, professor. Eu… – pensou em mentir, mas não viu necessidade – Eu esqueci. Ando… ocupado.
— Isso é o que você sempre diz. Tem algo de errado? Você pode procurar ajuda como a Sophie fez. Está funcionando. Ouvi dizer que ela conseguiu socializar com aquela garota… Elae.
— Eu a conheço. E, não. Não se trata disso. Obrigado pela sugestão, professor.
Volgard se aproximou de seu ouvido.
— Escute, eu nem sou muito íntimo do cargo de professor, e odeio ter que fazer isso com adolescentes que mostram claro despreparo, mas você sabe como são as regras. Se não entregar o próximo projeto, eu vou ter que assinalar uma nota nula, Victor.
Apesar de não estar mesmo preocupado, Victor sabia que muitas notas nulas em seu primeiro ano na Academia poderia levá-lo a ser jubilado. E se afastar da Ordem era algo proibido para ele.
— Não vai acontecer.
— Fico feliz de ouvir isso. – ele sorriu cinicamente – Você disse que conhece Elae? Eu adoro aquela garota. Pena que é a mais nova faz-tudo de Eldar.
A aula não estava nem na metade.
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