Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
20 Capítulo 19
A aula de Volgard demorou para acabar. Sophie não tinha nada contra ele, mas sua simpatia era tão excessiva que mais se assemelhava a puro cinismo.
Estava, finalmente, em casa. Não literalmente. O laboratório de Alquimia, porém, cumpria bem este papel.
Após seu primeiro mês dentro da Instituição, estava começando a se adaptar à rotina. O ponto alto desta, no caso, eram as aulas de Introdução à Alquimia. Além de ser uma das poucas aulas em que não precisava lidar com comunicação, tendo em vista que os alunos estavam concentrados demais tentando não explodir nada para iniciar alguma interação, Elae não cursava aquela matéria.
Sophie apreciava os gestos da garota, mas estava começando a se irritar com as tentativas de aproximação. Apesar de inegavelmente estar um pouco mais aberta para a jovem nos dias recentes. Odiaria ter que admitir isso em voz alta.
O Mestre Flamel chegou na sala.
Em silêncio quase ritualístico, como sempre. Só se manifestou após organizar todo o seu material sobre sua mesa. Gesticulou para que os alunos pegassem seus utensílios também. O objeto de estudo do dia era uma pepita de ouro.
— Analisem a composição do ouro com o que anotamos na última aula e usando suas lentes. – ele sentou-se novamente, parecendo entediado – Em seguida, discutiremos maneiras de transmutá-lo.
Um aluno levantou um questionamento válido.
— Mas o ouro não é o material de máximo valor na tabela de transmutação?
Flamel sorriu de maneira divertida.
— Esse é o ponto da discussão. Agora, se não for incômodo, comecem.
Todos se puseram a analisar as pepitas.
Sophie já tinha decorado a maioria das características do ouro. Dureza, condutibilidade, raridade… estava pronta para qualquer pergunta que Flamel fizesse. Desde criança, quando seus pais compraram um modelo de laboratório para que ela se distraísse durante sua reclusão em casa, Alquimia tornara-se sua matéria preferida. Não tinha certeza se iria viver daquilo um dia, mas… por que não?
Ela não sabia muito bem o que queria para sua vida, ou mesmo se queria algo. Ter uma vida normal parecia tão… monótono. E Sophie já estava farta de monotonia há pelo menos uns oito anos.
— Ei – o aluno sentado atrás dela cutucou seu ombro – Pode me emprestar uma das suas lentes? A minha está começando a rachar – ele sorriu timidamente, como que envergonhado pela falta de cuidado com seus utensílios.
Achei que pudesse ficar em paz, pensou ela. Mas não hesitou em entregar uma lente de reserva para o garoto. Além disso, nenhuma interação. Um túmulo faria mais barulho do que aquela sala.
Talvez por já ter conhecimento de tudo que precisava sobre o assunto da aula, Sophie estava começando a se perder em seus pensamentos. O futuro, o passado… os pesadelos continuavam voltando, quase toda noite. Sentiu calafrios só de pensar. E a voz… ultimamente aparecia tantas vezes para atormentá-la que Sophie considerava a possibilidade de dar a ela um nome. Foram quatro vezes em um mês, um recorde desde que tudo isso começou.
— Mestre Flamel! – uma aluna levantou desesperadamente a mão.
— Apenas “professor” já…
— Professor Flamel! – ela continuou. Parecia espantada. – Essa pepita possui fragmentos de alguma outra coisa!
— Ora, e o que há de mais? Metais fragmentados se misturam a todo o tempo.
— Sim, mas… eu analisei a tabela e não achei nada que se encaixasse com este metal.
Flamel exalava curiosidade.
— Deixe-me ver. – ele se levantou e observou a pepita por alguns minutos, através de suas lentes.
Subitamente, Sophie foi acometida por um princípio de forte enxaqueca.
— Tem razão, Hazel. Este metal não está nas tabelas. É um dos metais de Segunda Ordem. Mas, aproveitando a deixa, será que algum dos presentes poderia falar sobre eles?
Mais uma vez, silêncio. Porém, desta vez ele não representava empenho, apenas constrangimento. Ninguém parecia saber. Sophie sentiu-se, então, na obrigação de falar algo, por mais que detestasse chamar atenção.
— Professor, eu – a dor de cabeça estava piorando – … talvez saiba algo. – ela levou a mão à cabeça, tentando ser discreta.
— Você está bem, huh… Sophie?
— Estou – mentiu ela – Os metais de Segunda Ordem são aqueles que não possuem associação aos astros, nem podem ser transmutados completamente, só podendo – sentiu mais uma pontada atrás dos olhos – ser submetidos ao nigredo e albedo.
Claramente incomodado com a situação de Sophie, porém satisfeito com a resposta, Flamel prosseguiu:
— Exato. Vocês podem me dizer “achei que não estudaríamos isto ainda”, e de fato não o faremos, mas é perfeitamente aceitável e até incentivado que cada um de vocês se empenhe em estudar assuntos mais complexos e além por conta própria. Da mesma forma que a colega… – ele apontou para Sophie – Você tem certeza de que está bem?!
A resposta era definitivamente não, mas Sophie não fez menção de responder. Preocupou-se mais em tentar calar a voz na sua cabeça, pressionando com força as têmporas.
— Acho melhor você tomar um ar, minha jovem. – diferentemente das outras vezes em que fora acometida pelas dores, a feciter não recusou a ajuda oferecida. Foi acompanhada pelo professor até a porta da sala.
Ao sair, sentou-se num dos bancos alinhados à parede.
Pelo jeito, era hora de aceitar: estava passando por mais uma das crises. Só então respondendo a pergunta que lhe fora feita, falou consigo mesma:
Eu não estou nem um pouco bem.
Não entendia ainda como funcionava o padrão de aparição da voz, se é que havia algum padrão. Ela queria dizer algo.
Saia de perto. Flamel.
Talvez atordoada demais para rebater, Sophie só tentava afastar a voz da sua cabeça.
Ele sabe. Sophie, ele sabe. Sophie…
A garota deu um grito, batendo com a cabeça na parede. Estava bastante tonta. Flamel pôs a cabeça para fora da sala.
— Precisa de ajuda para ir até a enfermaria?
Ah, de novo não.
— Eu estou melhor.
— Eu não sou médico, mas acho que até uma árvore saberia dizer que você não parece bem. Eu posso chamar ajuda…
— Professor. Já passou. – disse, convicta. A voz, de fato, parecia ter ido embora. – Quero assistir à aula.
Depois de vencer certa resistência do professor, Sophie conseguiu voltar à aula. Não conseguiu mais se concentrar nela, porém. Tudo que fazia era olhar para o professor, pensando no que poderiam significar as palavras que ecoaram em sua mente no corredor. O que poderia, afinal, haver de errado com Flamel?
Seu lado racional achava melhor deixar para outra hora, pois o professor continuava falando sobre as propriedades dos metais de Segunda Ordem, mas inconscientemente aquelas palavras passaram a perseguir Sophie pelo resto do dia.
A aula acabou. A maioria dos alunos, já acostumados com as peculiaridades de Sophie, não fizeram questão de incomodá-la. Exceto por Glenn, é claro.
— Ei, Sophie… você esqueceu isso.
Ela se virou. Glenn tinha em mãos a lente reserva, que emprestara ao outro garoto durante a aula. O sujeito choramingava no canto, pressionado contra a parede por um dos seguidores de Glenn.
— Ah, isso. Pode ficar, Glenn. Eu tenho outras três reservas. – era mais do que óbvio para qualquer um que observasse o modus operandi da Academia que gente como Glenn não chegaria a lugar nenhum. Logo, o melhor jeito de frustrá-los é ignorando suas tentativas de se destacar através da implicância.
E foi um disparo certeiro. O sorriso de Glenn se desfez de imediato.
Sophie apenas se voltou para o seu caminho costumeiro até a sala de mapas, onde teria a aula de Geografia do Império.
— Quem você acha que é? Eu vou quebrá-la, hein? Não se faça de surda, anomalia!
O termo “anomalia” irritou a garota um pouco, mas não o suficiente para encerrar sua calma caminhada. Ela não precisava de mais tensão. Tudo que queria era tempo para organizar seus pensamentos e analisar mais cuidadosamente as coisas que a voz, vez ou outra, simplesmente despejava na sua cabeça.
Os sonhos que estava tendo com um laboratório tornavam-se cada vez mais realistas, ao mesmo tempo em que pareciam formar uma imagem completamente borrada, como que visualizada através de um espelho manchado. Ela podia sentir a dor, o calor, a tensão transmitida pelo contexto do pesadelo, mas tudo que poderia dar a mínima indicação do real significado daquilo parecia ser propositalmente escondido.
Chegou na sala. Teria que novamente deixar tudo aquilo para o próximo intervalo. Seus desenhos a aguardavam em seu quarto. Só esperava que ninguém batesse à sua porta no exato momento em que parasse para pensar no assunto.
Como de costume, Hela ainda não havia chegado. Diferentemente das aulas de Alquimia, Sophie precisava se juntar a um grupo que formou uma semana antes. Parte da metodologia da professora. O grupo, no caso, era formado por ela, Danyel Kadrach, Britan Sesammus, Melinda Nyctall e um outro garoto que mais faltava às aulas do que comparecia, chamado Icarus.
Não tinha nada contra nenhum deles em particular, mas o único dos quatro com quem Sophie se sentia minimamente afeiçoada era o kalari. Talvez pelo favor que ele fizera a ela nos primeiros dias de aula.
Britan era falante e inocente demais. Por vezes, parecia bobo.
Melinda era inteligente (a décima colocada da seleção), mas um pouco soberba. Reclamava da incompetência de tudo e todos.
Icarus… bem, era uma incógnita. Talvez Sophie conseguisse apontar algum defeito nele se ele viesse para as aulas.
Como em todas as aulas anteriores, nenhum dos cinco trocava mais palavras do que o necessário. Mas Britan sempre insistia.
— Eu já falei para vocês do sonho que tive hoje? Eu falei para o Victor e ele ficou impressionado.
Sophie teve a plena sensação de que o universo inteiro estava querendo zombar dela.
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