Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
15 Capítulo 14
O treinamento de combate fora, até então, a parte mais empolgante da estadia de Arthuel na Academia.
Mesmo o sol a pino não era capaz de desanimá-lo. Sempre fora considerado um jovem intelectual, e talvez por isto chegava a ser subestimado por um observador desatento em suas habilidades com espada e punhos.
Estava gostando de provar o contrário. No rodízio entre os alunos proporcionado pelo Mestre Alifas, fora o único a não ser atingido uma vez sequer até então. Já caminhava para o quarto adversário derrotado.
O Mestre, porém, exigia cautela. Insistia em dizer que aquela aula era puramente hipotética, e que, numa batalha real, tudo seria bem diferente. Alifas era um syrel de meia-idade que, embora espirituoso, parecia acometido por uma constante melancolia ao falar sobre a arte do combate. Arthuel desconfiava de algum possível trauma de guerras passadas. Um tremor incessante nas suas mãos calejadas e uma longa cicatriz no ombro eram indicativos fortes da teoria.
— Certo, fim do turno! – exclamou o professor. Os alunos pararam imediatamente, exceto por uma dupla que parecia ter levado o treino a sério demais. Demoraram alguns segundos extras para encerrar o combate, trocando também alguns insultos no processo. Alifas olhou com desprezo para os dois – Desta vez, iremos treinar sem os escudos. O movimento correto é este— ele demonstrou a pose típica dos guerreiros que lutam sem escudo, de maneira quase ritualística – Lembrem-se que isto não é uma luta real. Então, para evitarmos problemas, não exagerem. As espadas são de madeira, mas ainda machucam.
— Mestre! – um dos alunos levantou a mão. – Quando teremos princípios da arquearia?
— É a quarta vez que você me faz esta pergunta, Britan. O importante é que não será hoje. Certo? – Alifas parecia querer esganar Britan. O garoto ainda veio a repetir a questão mais duas vezes naquela aula.
O Mestre sorteou novamente as duplas de alunos. Arthuel foi sorteado com um garoto ruivo e franzino, chamado Johann. Questionou-se se valia a pena dar tudo de si contra o garoto, que mais fugia do que participava do combate propriamente dito.
Nenhum dos seus amigos estudava com ele naquela aula, se é que poderia chamá-los assim. Victor e Danyel ainda eram figuras recentes demais na sua memória para definir o que exatamente pensava ou sentia por eles.
De súbito, lembrou-se da conversa com aquele veterano, três dias antes. Deimos mostrou simpatia, apesar dos assustadores e cintilantes olhos escarlate, e dos assuntos estranhos que trouxera consigo.
Embora a proposta parecesse tentadora, a julgar por tudo que fora dito a Arthuel, ele sabia que havia mais do que simples generosidade num convite para uma sociedade de alunos prodígios da Academia. Já ouvira que, dentro daquele muro circular, se escondiam segredos que nem mesmo o Império imaginaria.
Talvez a Excelsis fosse um desses segredos. Tamanha era a responsabilidade em saber de sua existência que Arthuel sequer conseguiu dormir, com a culpa de mentir para seu colega de quarto Danyel pesando como nunca.
Pouco sabia, na verdade, sobre a tal sociedade. Deimos estava obviamente tentando vazar o mínimo de informação possível, tendo em vista o caráter secreto do grupo. O que sabia era: todos os melhores colocados em cada exame de ingresso na Ordem de Elyrach eram convidados; eles se reuniam para partilhar conhecimentos ocultos e descobertas em primeira mão; e indivíduos como Postumas Claustruff, Hela Norkvaesjund, o antigo Grão-Mestre Heinrich Darkas e o brilhante estudante Arulus Valet fizeram ou faziam parte da Excelsis.
— Ponto. – falou, quase sem pensar.
Havia derrotado Johann. Mais uma vez, de maneira impecável.
O jovem, prontamente, largou sua arma. Pelo jeito, não estava muito interessado na arte da esgrima. Arthuel dirigiu-se a Alifas, pensando em pedir por um novo adversário, mas ele já conversava com alguém.
À distância, era difícil descobrir a pauta do diálogo. O outro sujeito era um jovem provavelmente de Aethia, mais ou menos da idade de Arulus. Carregava um peso no olhar, como se estivesse eternamente arrependido de algo. Paradoxalmente, o sorriso leve na sua boca indicava zombaria.
Ele pegou uma espada de treino, ainda falando com Alifas.
O Mestre virou-se, olhando fixamente para Arthuel.
— Você!
Arthuel arregalou os olhos, como quem diz “eu?”.
— Sim, Cyriac. Você! Aqui.
Arthuel, ainda hesitante, caminhou até a dupla.
— Este é Eelia. Ele é um veterano, e costuma me assistir em minhas aulas. Acho que temos que concordar que você está um pouco acima do nível em relação a seus colegas aqui, então… quero que treine um pouco com ele.
— Huh… tem certeza? Eu poderia terminar o rodízio…
— Eu não vou te dar esse prazer, garoto. Você tem talento, mas se começar a se achar por vencer uns adolescentes raquíticos, não vai chegar a lugar nenhum. Agora, vão. Mesmo estilo. Sem trapaças, Eelia. – ele se afastou – Conheço bem seus truques.
Eelia estendeu a mão livre.
— Pelo jeito, você é o único que tem alguma salvação por aqui.
Arthuel devolveu o gesto, respondendo-o.
— Eu não sei dizer, afinal… quem sou eu para julgar os outros alunos? Acho que esse é o papel do professor.
— Você bem que podia ser político com esse papo bonito, porém falso. – ele já se posicionava na área de combate, aguardando por Arthuel – Vamos lá, você sabe do que eu estou falando. Todo ano, a mesma coisa: quase cem fedelhos se inscrevem na aula de Alifas, pensando que são alguma coisa por terem conseguido dar uma estocada perfeita na vida, e geralmente num espantalho. Quando chega a hora, poucos mostram potencial.
Arthuel entrou na área do treino e se colocou em posição, como seu oponente fazia.
— Eu sou um dos fedelhos. Depois de míseras duas semanas aqui, acho que ainda não é hora de me comparar com ninguém.
— Certo, certo— respondeu ele com desprezo – Daqui uns anos você vai admitir.
Dito aquilo, eles iniciaram o embate.
Eelia era veloz, e feroz. Mal precisava defender-se, pois sua capacidade de esquiva poupava-o de erguer a espada para bloqueio. Ao mesmo tempo, não hesitava em atacar constantemente. Seu olhar transmitia confiança total, como se dissesse ao adversário que aquela era uma luta perdida. Arthuel não conseguia encontrar brecha alguma em sua guarda.
Ao menos, também não fora atingido até então.
— Você é exatamente como imaginei, Cyriac. Talentoso. Rápido – golpeou novamente, e mais uma vez, passou perto – hábil, focado, porém… – numa fração de segundo, atingiu o jovem com um golpe de destra. O golpe foi seguido por uma pontada de dor – Longe de ser o melhor.
Eles trocaram olhares por alguns segundos um tanto desconfortáveis.
— Mais uma vez. – grunhiu. Não estava disposto a perder, mesmo num treino.
Eelia apenas assentiu, abrindo os braços e fazendo um convite para que Arthuel tomasse a iniciativa.
A sombra do muro da Academia começava a se projetar sobre eles. Tentando não hesitar, o jovem partiu para cima do veterano, que apenas esquivou com desprezo.
Ficaram, então, neste movimento que quase tornou-se uma espécie de valsa violenta, por longos minutos. Eelia sempre fazia questão de ridicularizá-lo, como que querendo provar sua superioridade a cada instante.
Arthuel ainda foi atingido mais duas vezes antes de conseguir, surpreendentemente, ter sucesso em alguma investida. No momento em que foi golpeado, o rosto de Eelia contorceu-se mais que seu corpo. Sua expressão era então de furor, apesar de parecer que ele tentava esconder.
Seus golpes, então, ficaram ainda mais ágeis e perigosos. Logo, todos os outros alunos pararam seus respectivos combates para observar o duelo que se desenrolava. Cyriac começava a perceber padrões, facilitando a esquiva. Atingi-lo, porém, ainda era tarefa ingrata: Eelia nunca baixava a guarda, ao passo que Arthuel constantemente se deixava distrair.
Diferentemente de seus estudantes, Alifas parecia pouco empolgado. Apenas fitava os dois, com feição serena.
— Tem certeza que ainda tem pique? – questionou seu adversário.
Arthuel tentou balbuciar uma resposta à altura, mas estava mesmo sem pique; faltava-lhe fôlego para falar, então limitou-se a tentar atacar novamente. As espadas já estavam desgastadas de tanto se chocar.
Para sua surpresa, Eelia não parecia ter tanta energia sobrando também: conseguiu atingi-lo, e direto no estômago. Ele parecia aborrecido.
— Chega – disse, ofegante.
Partiu para cima de maneira feroz, olhando para Arthuel como um lobo olha para sua presa. Passou o pé pelas pernas de Cyriac, derrubando-o.
Acho que esses são os tais truques dele.
Desferiu golpes tão precisos e rápidos que o mais jovem nada pôde fazer
a não ser ficar no chão, contorcendo-se de dor.
Eelia, porém, não parou.
— Ei, Eelia! – exclamou uma voz, estranhamente próxima.
Arthuel arregalou os olhos. Arulus segurava o braço de Eelia, impedindo-o de continuar.
— Ninguém chamou você, Valet. Eu não tô fazendo nada de mais.
— Eu tenho noção de como isto é clichê, mas… por que não vai brigar com alguém do seu tamanho? Espancar um calouro não te faz um combatente melhor.
— Espancar, você diz. Pff. O que achou, que eu iria matá-lo? Não sou insano.
— Não a esse ponto, pelo menos. Certo? O Mestre Alifas quer trocar algumas palavras com você. Por que não vai falar com ele? – e lá estava, de volta. O já clássico sorriso sarcástico do veterano syrel.
Eelia grunhiu, mas obedeceu. Alifas não parecia muito feliz com ele.
— O que está fazendo? – perguntou a Arulus quando os dois ficaram a sós (apesar de, na verdade, haver uma pequena multidão ao redor deles).
— O quê? Eu só estava passando— ele pigarreou – e vim ajudar meu amigo. Além do mais, é sempre uma atividade interessante desmoralizar babacas. Quase uma arte. A propósito, não há de quê.
— Obrigado – revirou os olhos. Estava cansado demais para reclamar do nítido sarcasmo na frase. – Tem algo contra ele?
— Praticamente tudo. E você deveria também.
— Não sei do que está falando. Conheci o sujeito meia hora atrás.
Arulus aproximou-se, soando um pouco assustador:
— Ele tem alguns… problemas com o Conselho. E com outras entidades relevantes para os rumos desta instituição. O único que ainda insiste em acolhê-lo é Alifas. Eelia tem talento, mas está a um passo do precipício e recusa-se a reconhecer isto.
— Entidades relevantes… como a Excelsis, você diz? – Arthuel guardava sua espada junto às outras.
— Como diria o poeta… não sei do que está falando, Cyriac.
— Então não é sobre isso que veio falar comi…
— Eu disse – retrucou Valet, quase em transe – que não sei do que está
falando. – levou o indicador à boca. – De fato, eu tinha alguns objetivos ao passar por aqui, mas… acho melhor deixar para depois.
— Se você insiste…
— Insisto. Tenho alguns compromissos agora, Arthuel. Espero que aproveite melhor as próximas aulas. Sem nenhum… intrometido implicando com você. Cuide-se.
— É impressão minha ou você parece preocupado comigo? – disse, quase rindo, apesar do cansaço. – E, caso não tenha notado, ainda não sei como entender seus enigmas.
— Que seja. – foi embora, em direção ao prédio do Conselho, o Elareum.
Arthuel permaneceu mudo pelo resto da tarde. Estava com a cabeça mergulhada no ar misterioso que parecia envolver tudo em que tocava.
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