Quanto tempo havia se passado desde a última vez que fizera aquilo? Arulus não fazia ideia. Ainda precisava se reacostumar.

As oito portas estavam lá, como sempre estiveram. Fechadas tão impiedosamente que chegava a ser fúnebre. Para a maioria dos alunos, o Habitares era um verdadeiro labirinto. Assim pensavam por nunca terem tentado explorar o Elareum. Arulus mal conseguia achar a si mesmo ali.

O escrivão Helmut, a alguns metros de distância, estava claramente impaciente.

— Já decidiu? – as batucadas com o indicador no tampo de sua mesa eram imemoriais.

Um, dois, um, dois, um, dois…

— Honestamente? Ainda não. Há muito a ser feito hoje, e eu não sei por onde começar. Alguma sugestão?

Helmut revirou os olhos e suspirou.

— Por que não tenta a terceira porta, então?

— Hmmm, é viável. Uma pessoa me espera lá dentro.

— Esplêndido. Posso anotar…? – disse, ansioso, já com a pena em mãos.

— Mas… na quinta sala há um glossário que me pediram para procurar…

As batucadas estavam mais violentas.

— Vá na quinta porta, então, Valet. – grunhiu Helmut.

— Ah, acho que a ocasião da terceira sala é mais urgente. Obrigado pela elucidação, Helmut. Bom trabalho. – respondeu, com algo que não sabia se era cinismo ou sinceridade.

O escrivão, irritado, apenas cumpriu seu dever: escrever a identificação de Arulus e para qual sala ele se dirigia. Apesar de que era possível sentir que o que Helmut desejava naquele momento era escrever um punhado de ofensas.

Arulus atravessou o salão das reuniões semanais, o Elareum propriamente dito, e passou pela terceira porta das oito que circundavam-no. Atrás dela havia aposentos mais reservados, estes destinados a encontros de teor mais urgente e secreto.

Passou por um curto corredor mal-iluminado até chegar à sala em si. Era

como uma réplica em miniatura da Biblioteca. As estantes de livros estavam dispostas no mesmo padrão. A diferença era a presença de um móvel acolchoado e uma grande lareira próxima às estantes, o que Arulus sempre considerou estúpido da parte do arquiteto original de um local repleto de livros.

Sentado de frente para a lareira, um sujeito de grande porte. Estava saboreando… cerejas (?).

— Patrekios detesta frutas silvestres.

A figura levantou-se cordialmente.

— Suas capacidades de observação sempre me surpreendem, jovem.

Brunnos vestia uma túnica cerimonial da Legião, o que o deixava um tanto quanto… deslocado, naquele local de visual tão humano.

— O que faz aqui? Patrekios deveria se encontrar…

— Poupe-me de lamúrias, Valet. Minha vontade de estar aqui é tão grande quanto sua animação em me ver no lugar de seu tio. Ultimamente, ele anda… ocupado. Porém, é mais do que óbvia a necessidade deste encontro, e por isto, ele pediu-me, não como superior, mas como amigo, que eu atravessasse o mundo e encontrasse seu querido sobrinho, para que discutíssemos… o quê mesmo?

— Se ao menos fosse Laurus… – resmungou. Na curta lista que estabelecera de compatriotas que gostaria de rever, Brunnos seguramente não constava.

— Oh, é claro. A misteriosa sociedade da qual você, seu tio e eu somos membros fervorosos e orgulhosos. Como andam os iniciados? Há tempos que não visito a Excelsis. Foram bons tempos. – ele engoliu sua última cereja.

— Esta não é a prioridade, Brunnos. Não estou certo se Patrekios comentou, ou mesmo se ele se importa, mas há aquele problema com os Darchinia.

— Ele não deixaria passar algo desse tamanho, meu jovem. – sibilou. – Espero que tenha consigo todos os detalhes do dossiê… não tem?

— Sua desconfiança me ofende. – Arulus puxou de seu cinto um rolo.

— Um pergaminho? Estamos de volta aos tempos das três dinastias? – disse Brunnos, não conseguindo esconder sua curiosidade.

— Não, mas os Darchinia vivem desde estes mesmos tempos. – Arulus abria o rolo, disposto sobre uma mesa de mogno ao lado da janela. – Eles não querem o Régio Conselho colocando o dedo onde não deve. Que escondiam algo, até Othalrod já sabia, mas isso está se tornando insustentável.

— Eles não eram marionetes do Império?

— Ou davam a entender que eram. Mas, como já ficou claro, o próprio imperador é uma marionete. Resta seguir os fios até encontrarmos o titereiro.

— Seu gosto por metáforas é quase equiparável ao do seu tio.

— Pena que não possamos dizer o mesmo do gosto por amizades. – Arulus prosseguiu – Há coisas obscuras pairando sobre o Elareum há tempos remotos, Brunnos. Antes mesmo da Academia. Ouvi, certa vez, o Grão-Mestre falar algo sobre os ladir…

— Antigos. – corrigiu Brunnos, com ar arrogante.

— Antigos. Os anos aqui criam vícios de linguagem nocivos, mas inevitáveis, você sabe.

— Não sei e dou graças aos Soberanos diariamente por isto.

— Vai me deixar concluir? – respondeu, impaciente. Considerou o silêncio como um “sim” – Falam sobre profecias. Sobre os corpos celestes, e sobre a morte das faerie, amaldiçoadas sejam.

— Ora, então de que iremos reclamar? – comentou, passando as mãos sobre o pergaminho cuidadosamente.

— O fim destes seres desprezíveis está incumbido a nós. Se os Antigos falam disso, se outro povo fizer isto… falhamos em nossa missão.

— Acho que você está pensando longe demais, Valet. Guarde o futuro para Deleth. Ele sabe o que faz com seus olhos.

— Não estou muito disposto a fazer parte da história da maior frustração dentre todos os povos. Guardo este título para os nagathe. Com Marcus no poder, e os Darchinia escondendo tanto, o Império está mais próximo de desabar do que nunca.

— Cada segundo a mais é um a menos, e isto se aplica aos mortais, aos deuses e aos reinados. Não há muito a se fazer. Agora, passe este documento para cá – pegou o pergaminho e enrolou-o. – Tenho outras coisas a resolver por aqui. Por Syrelis, seu tio faz de tudo nesta bagunça que chamam de Reino.

— É a maldição da família. Agora, sobre o pergaminho…

— O que há?

— Não leia seu verso. Deixe isto para Patrekios. E falo com a melhor das intenções.

Brunnos riu, sarcasticamente.

— Aprecio sua graciosa ameaça, jovem. Pode deixar.

Dito isto, foi embora da sala.

Apesar da incredulidade (já prevista) do sujeito, Arulus ainda sentia calafrios ao lembrar do que viu no outro lado do pergaminho. O selo de proibição não estava marcado no rolo à toa.

Perdido em meio às preocupações com os Darchinia e seus mistérios, lembrou-se de repente do glossário que precisava pegar para Mestre Alifas.