Prego e Motor
1 Waterloo Bridge
Notas iniciais
[Gui]
Era um dia quente de inverno. Primeiro, isso era estranho. Estávamos na Inglaterra, em Londres, em uma viagem com a família e nessa época do ano as temperaturas chegam até a -5ºC. Mas ainda assim, estava quente, e, bem, eu não me queixava de nada. O que é que eu estava fazendo num dia quente como esse, viajando com todos os parentes? Bem, se minha memória não falha, eu e minha prima, Nana, estávamos caindo de uma ponte, direto no convés de um barco que estava passando.
Vou explicar. Meu nome é Gui. Essa história ocorreu á um tempo atrás, mas Nana e eu (Principalmente ela) decidimos escrevê-la. Não sei uma boa explicação pra isso, talvez deixar na forma de registro e alguém se interessar algum dia. Eu dei a ideia de talvez colocarmos ela em algum concurso de histórias, estamos pensando na ideia. Bom, agora eu vou tentar explicar como nós fomos parar numa ponte, e melhor, como nós caímos dela.
A ponte era a Waterloo Bridge, na Inglaterra. Depois de um passeio no Big Ben e outros pontos turísticos de Londres, a família decidiu tirar um dia de folga. Eu e Nana decidimos passar o dia na ponte, uma das coisas que mais tínhamos gostado na cidade, fazendo nada o dia inteiro. Nico, o irmão de Nana, decidiu ir com a gente (O suficiente pra deixá-la emburrada), mas ele decidiu dar uma volta longe de nós.
Mas Nico era do tipo "engraçado", e volta e meia surgia pra dar um susto na gente. No começo foi até engraçado (Pelo menos pra mim), mas depois começou a ficar bem chato. Nana ainda estava emburrada, principalmente por causa do tempo — Ela havia colocado duas blusas grossas esperando o frio dos dias anteriores, e, claro, tinha um irmão enchendo a sua paciência.
Até que uma hora Nico parou. Eu e Nana então começamos a olhar a água e, por algum motivo, começamos a brincar de quem contava mais peixes no mar. Era divertido, e ocupou uma boa parte do dia...
... Até Nico voltar com mais um de seus sustos, é claro. Mas agora a gente estava distraído, e fixos na água. O susto foi tão grande, mas tão grande... Que nós caímos da Waterloo Bridge.
[Nana]
Enfim, foi isso que aconteceu. Graças ao meu irmão, nós caímos de uma ponte de mais ou menos 10 metros de altura. "Talvez a água suavize o impacto", eu pensava. Tentei até ajeitar os braços pra ver se conseguia um mergulho de ponta. Enfim, isso não foi necessário, já que tinha um navio passando no momento e eu dei com tudo no convés. Logo atrás, Gui caiu com um bom impacto.
— Ai — ele reclamou — Onde estamos? Posso bater no Nico?
— Pode — eu disse — Mas primeiro, onde estamos? É uma boa pergunta.
Olhei pra cima da ponte, e Nico estava correndo. Torci pra que ele fosse pedir ajuda. Disse á mim mesma mentalmente que se ele estivesse apenas fugindo, eu nunca mais iria olhar na cara dele.
— Isso é um navio, acho — enfim, Gui disse — Bem, provavelmente. Acho que nós poderíamos achar alguém. Talvez eles nos levem de volta á costa.
— Não é má ideia — dei uma olhada pelo convés do navio — Mas não tem ninguém aqui. Devem estar em reunião ou...
— ... Ou talvez seja um Navio Fantasma...
— Não seja ridículo, Gui. Navios Fantasmas não existem. Hey, olhe, tem alguém ali. Vamos chamá-lo!
Enfim, Nico chamou o homem. Ele olhou pra nós com curiosidade, depois com interesse. Tinha um rodo na mão, o que me levou a pensar que era seu dia de faxina, ou que ele era o faxineiro do barco mesmo. Enfim, ele se aproximou de nós, sorrindo.
— Duas crianças, perdidas — ele sorriu mais ainda — O que fazem aqui? Como chegaram?
— Nós caímos daquela ponte — apontou Gui — Por favor, moço, nos ajude. Vocês podem virar o navio de volta para terra firme? Meus pais vão ficar preocupados.
Ele se aproximava, e sorria mais.
— Eu imagino que seus pais estejam preocupados, realmente — o homem com o rodo começou — Mas eu também imagino que essa é uma preocupação que eles vão ter que ter, afinal. E eu imagino que, bem, eu não vou poder levar vocês pra casa — e enfim, o homem levantou seu rodo para o céu, com as duas mãos segurando firme.
E então ele tentou acertá-lo com toda a força na cabeça de Gui.
— GUI! — eu gritei, e pulei, empurrando ele pra longe. Um casaco meu caiu no meio do ar — SEU MONSTRO!
Ele girava o rodo em uma das mãos. Enfim, ele falou — Eu acho que vocês não podem ficar aqui. Negócios são negócios — por fim, ele investiu contra mim com velocidade...
[Gui]
...Mas, por impulso, eu empurrei... Não Nana, mas sim, o homem com o rodo. Ele perdeu o equilíbrio, derrubou o rodo e caiu do barco, em cima de uma pedra, com força.
— Você está bem? — eu perguntei à Nana. Ela estava chorando.
— Estou... O que aconteceu aqui?
— Talvez esse navio seja mesmo fantasma, hey.
Ela suspirou e tentou levantar — Ok, Gui, eu acho que eles não vão nos levar pra casa, e eu não sei nadar. Você sabe? — fiz que não com a cabeça — Muito bem, então... Vamos nos esconder. Alguma hora eles vão ter que parar em algum lugar, não acha?
— Sei lá. Talvez eles vivam no mar — comecei a observar o barco — Acho que não é tão grande, se não não passava por debaixo da ponte — me debrucei na amurada do barco — O nome é Prego e Motor.
— Do barco? Que legal — ela observou o barco — Esse é o Tombadilho, acho. Estudei barcos na escola outro dia, eu entendo um pouco.
— Legal. Mas o que é um Tombadilho?
— A parte mais alta do barco, se não me engano. Enfim, nós devemos nos esconder. Enfim, comer também. Enfim, nós precisamos chegar á terra firme. Enfim, precisamos nos esconder, chegar á terra firme, ficarmos vivos até lá... Enfim, vamos fazer isso agora, então — ela começou a ofegar — Enfim, vamos? En...
— Calma. — Nana tinha a estranha mania de se empolgar em "Enfim" e acabar nervosa assim — Você está certa. Vamos procurar um lugar pra se esconder. Olhe, há alguns barcos de emergência ali.
— Eu não sei dirigir barcos, e nem você — ela parecia mais calma agora — Vamos procurar algum lugar, sem fazer barulho.
Acabamos descendo uma escadaria. Não vimos ninguém pelo barco, mas havia uma movimentação estranha na cabine do capitão. Concordamos que todos deveriam estar ali, menos o pobre faxineiro que nós tentamos o contato.
— Olhe, é a sala do estoque. Aqui eles devem guardar a mercadoria deles. Vamos entrar, eu acho que não vão mexer aqui até chegarem — Nana disse.
— E quando chegarmos no destino?
— Enfim, a gente pensa nisso depois.
Entramos na sala. A sala inteira estava preenchida com caixas.
— Tem algo escrito nessas caixas... "Tabaco"...
— Eles transportam Tabaco, então. O que é isso?
— Eu ouvi falar que era algo ruim. Não sei dizer. Hey, tem jornais no chão...
Nana pegou os jornais e leu. A notícia era de 2009. As reportagens de capa diziam algo como "Traficantes de Tabaco são pegos pela polícia inglesa" "Contrabandistas de Tabaco são liberados por bom comportamento", entre outras coisas relacionadas á contrabando de Tabaco.
— Uma coisa é certa, Gui — ela começou a tremer — Ou esses caras são caçadores de contrabandistas...
— Ou esse aqui é um navio de contrabando. E por isso, acho que não nos querem aqui.
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