Prego e Motor
2 Ratos no Navio
[Nana]
Agora estava frio. Enfim, o inverno inglês decidiu mostrar para que servia e congelar todos os tripulantes daquele navio estúpido de contrabando. Por sorte, eu tinha um casaco.
Infelizmente, eu tinha dois casacos, não um. Enfim, eu o perdi enquanto tentava correr de um maníaco com um rodo e estava sentindo bastante falta dele. Principalmente porque meu primo, Gui, estava congelando do meu lado, e ocasionalmente a gente trocava o casaco. Quando um de nós começava a congelar, o outro dava a blusa.
Nós decidimos nos abrigar na sala do estoque, mesmo. Enfim, Gui acabou derrubando uma das caixas de tabaco por engano uma hora, espalhando o conteúdo dela no chão. Pouco tempo depois, chegou um homem pra fiscalizar a mercadoria (Nós estávamos bem escondido, atrás de um barril). Ele olhou o tabaco no chão, suspirou, levantou a caixa e foi embora. Enfim, nós nos abrigamos naquela caixinha vazia, mas com bastante espaço, e, agora que o conteúdo dela tinha caído, concordamos que ninguém ia ver o que tinha nela.
Enfim, sala do estoque ficava na frente da cozinha, o que era incrível. Descobrimos que, enfim, todo dia, ás 19:00, eles saíam pra fazer uma reunião na Cabine do Capitão, e era nessa hora que nós saíamos para buscar comida. A cozinha ficava embaixo da Cabine do Capitão, enfim, nós conseguíamos ouvir um pouco (bem abafado e difícil) das reuniões.
— ... Stan desapareceu... Blusa encontrada... Rosa... Alguém aqui... — era uma amostra do que a gente conseguia ouvir da cozinha. O suficiente para a gente ficar apavorado, claro — Comida desaparece... Queijo em falta... Ratos aqui... Ratos... Ratos... — e o resto se resumiu á ratos.
Enfim, no dia seguinte, nós encontramos veneno de rato na cozinha. E assim os dias se seguiam...
[Gui]
... Até, é claro, alguma coisa acontecer. Depois de um tempo de alguns dias (Não tínhamos noção do tempo — Só sabíamos do horário da reunião por que tinha um relógio na cozinha), indo pegar comida, Nana ouviu barulhos na cozinha.
— Tem alguém aí, acho — e foi o suficiente para nós voltarmos á Sala do Estoque e comer o que tinha sobrado do dia anterior. No dia seguinte, o barulho continuou.
— Pense, Nana! Se o barulho continua, deve ser algo ligado na cozinha, certo?
— Não sei n... — mas eu ignorei Nana e abri a porta da cozinha com tudo, só pra ver um cozinheiro sorridente lá dentro — ... Gui! Não abra a porta desse jeit... — e ela viu o cozinheiro — ... Ah não...
— Feche a porta — ele disse, e pegou um facão da gaveta. Nana obedeceu.
— Você vai... Você vai matar a gente? — eu perguntei, com lágrimas nos olhos
— Não, não, não — Nana interrompeu — Enfim, desculpe o incômodo. Enfim, nós só estamos de passagem, não se preocupem com a gente. Enfim, tem uma reunião lá em cima, você devia estar lá, né? Opa, enfim, eu não sei de reunião nenhuma. Enfim, esqueça o que eu disse. Enfim, nós não pegamos comida, não estamos aqui á tempo nenh...
— Nana! P-pare. V-você só es-está piorando as c-coisas pra nós.
O cozinheiro começou á girar a faca na mão, semelhante ao que Stan fez com o rodo — Vocês são engraçados. Acho que eu encontrei os ratos de minha cozinha. E estão aqui á tempos, sem ninguém descobrir — ele bateu palmas — Meus parabéns.
— V-você não vai nos matar?
— Não... Bem, não é minha intenção. Desde que encontraram o seu casaco, moça — e ele pegou uma blusa em cima da mesa e atirou para Nana — e que comida começou á sumir daqui, eu comecei á ligar os pontos — ele deu uma risada — Mas não vou matar vocês, moleque. Todos morremos um dia. Não é a hora de vocês.
— Então... V-vai nos levar até terra firme?
— Bem, novas notícias para vocês. Nós estamos muito longe de qualquer terra firme. Estamos rumando para a América Central. Contrabando de tabaco. Eu não ligo muito pra isso, só estou aqui porque eu gosto de navegar e cozinhar, e de facas — ele atirou a faca no chão —, mas não gosto de clandestinos. Apesar de que eu prometi não matá-los, ah.
Nana parecia apavorada. Ambos parecíamos concordar que o homem tinha algum parafuso á menos.
— Já que, literalmente — ele riu — , estamos todos no mesmo barco, eu vou ajudá-los. Vocês querem comida? Peguem. Não vou perguntar onde estão, mas vocês podem vir aqui e pegar a comida. Vocês sabem o horário. Agora, vão, antes que alguém os descubra.
— Muito obrigado — Nana agradeceu — Enfim, por curiosidade... Qual o seu nome?
— Não é necessário. Mas não tenham medo de morrer. Todos devemos partir um dia.
— Ahn, Valar Morghulis. Digo, valeu — e nos encaminhamos de volta á Sala de Estoque.
[Nana]
Enfim, os dias se passaram, cada dia com mais comida. Mas Gui estava triste.
— O que há? Somos os ratos deste Navio, lembra? Os ratos que roubam comida — ri — O cozinheiro disse ao Capitão que não tinha conseguido matar os ratos, e que seria difícil isso acontecer. Ele é um cara legal, apesar de bizarro.
Ele enxugou uma lágrima — E de ter um costume estranho por facas. Mas... Eu tenho saudades de casa, você não? Será que nossos pais não se preocupam? Será que algo saiu nos jornais? Será que estão procurando o barco?
— Desde que Nico tenha nos ajudado, sim.
— Sabe, eu acho que foi uma decisão ruim nós termos vindo pra Inglaterra. Nós podíamos ter ido pra América Latina. Com a Margarida, sabe? Ela foi pra lá, num tal Parque das Laranjas Azuis. Parece um lugar legal, não?
— Parece. Mas tudo vai ficar bem. Não se preocupe. Eu também tenho saudades, Gui, muitas saudades, mas... Um dia, tudo isso vai se resolver. Enfim, eu espero.
— Eu também. Vou dar uma volta.
— O QUÊ? Eu não sei se você sabe, mas as pessoas aqui querem nos matar. Não vá, Gui, é sério, você pode morrer.
— Ahn, nem, eu sei me cuidar. Eu peguei uma faca do cozinheiro, qualquer coisa... De cortar manteiga — ouvi ele sussurar pra ele mesmo a última parte. E ele abriu a porta e saiu.
Enfim, eu tomei uma atitude. Como a única pessoa que pensa antes de agir naquele barco, eu decidi ir com ele, para que ele não tomasse nenhuma atitude estúpida. E, enfim, acabamos parando na sala do motor.
— Esse é o motor do navio? — perguntei.
— Não foi você que estudou os barcos? — ele riu — Mas, sim, acho que é. Que bonito.
— Enfim, não sei bem se eu chamo ele de bonit... AI!
— Mas... O que foi?
— Um prego! — peguei ele do chão — Esse danado espetou meu pé! Droga, está sangrando um pouco. Talvez passar água melhore — peguei o prego e joguei longe — Prego estúpido.
— Você é muito rabugenta — ele disse — Vamos voltar ao estoque, então. Lá tem água que o cozinheiro deu. Poxa, mal saímos e já estamos voltando.
— Dói — reclamei — Mas vamos lá, então — e assim, depois de nossa incrível viagem até o motor, nós voltamos ao estoque — Que viagem incrível e estúpida — reclamei — Só serviu pra eu cortar o pé. Devíamos ter ficado aqui.
— Pare de reclamar. Acabou a água, caramba. Vou buscar mais.
— Como assim, você vai buscar mais? O sol está aqui! Deve ser meio dia ainda, aonde você vai?
— Na cozinha, oras. E nem tente correr atrás de mim com esse pé, você só vai piorar as coisas — ele abriu a porta, e foi entrar na cozinha.
Chegando lá, Gui encontrou o cozinheiro e uma pessoa barbuda, e a porta fechou, me negando apenas ás vozes deles.
— Q-quem... É você...?
— Eu sabia que tinha alguém aqui... Você conhece esse cara, Rodrigo?
— Não, Capitão — ouvi barulho de uma faca. Provavelmente, as do cozinheiro. As vozes do Capitão voltaram — O que você sabe sobre o barco?
— Nada! Nada! Não sei nada, não conheço tabaco! — e ouvi o grito do Capitão, e sua voz enfurecida — Ele sabe demais. Prendam ele! Estamos ocupados agora, há um caminho perigoso agora... Deixe-no na minha sala e eu vejo o que faço com ele depois.
E eu ouvi passos pesados subindo as escadas do barco, em direção á cabine do Capitão. E eu, querendo gritar o nome do meu primo, em desespero, mas em um silêncio mudo, pra não ser descoberta também. E o pé continuava a doer.
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