Notas iniciais
Esse trocadilho no título...

[Gui]

O clima continuava frio. Mas, por sorte, eu estava com um casaco agora.

Mas, falando de sorte, era só isso mesmo. Eu havia sido descoberto por um Capitão enfurecido, o Cozinheiro (Rodrigo, não?) me apunhalara pelas costas e Nana tinha metido o pé em um prego e mal conseguia andar.

Eu estava sendo carregado, no ombro do Capitão, para a cabine dele. Eu devia ser realmente leve, já que ele estava subindo uma escadaria relativamente longa e comigo no ombro. Porém, ele não reclamou, o que deveria significar que ele devia ser forte ou eu muito leve. Provavelmente, a segunda.

Por fim, chegamos na cabine do Capitão, que ficava encabeçando a escada — logo que ela acabava já dávamos de encontro com a porta. Ele me atirou lá dentro e fechou a porta. Deu pra ouvir um barulho de trinca, então eu soube que eu não ia poder sair. Assim, decidi explorar a sala.

Achei alguns equipamentos num armário e um martelo, o qual impulsivamente eu comecei a martelar o armário. Infelizmente o martelo escapou da minha mão e voou com tudo para os equipamentos. Torci pra que não tivesse quebrado nada.

E foi assim que meia hora depois eu já tinha amarrado uma corda na frente da porta, tentado arrumar os equipamentos, sem resultado, e naquele momento, eu estava jogando xadrez comigo mesmo. Se bem, me lembro, eu estava ganhando.

E foi aí que eu ouvi novamente o trinco, e a porta se abriu com um estrondo. Com uma veia na testa pulsando de raiva, ele entrou na cabine...

...Pra tropeçar na minha "pequena surpresa" na porta, a corda. Ele caiu com tudo no chão e parecia ter machucado bastante o dente. Com o resto de dignidade que lhe restou, ele se levantou e trancou a porta.

— Então — ele sorriu — Bem-vindo ao Prego e Motor!

— Obrigado — tentei sorrir — Posso ficar vivo?

— Ah, isso vai ser difícil, vai sim — ele começou a andar pela sala, como se estivesse pensando — A questão é que a gente já teve que fazer um desvio de rota por sua causa, amigo. Então digamos que você não me encontra no meu melhor humor... Principalmente com você, depois da sua brincadeirinha.

O Capitão, então, pegou um rádio em uma gaveta qualquer e atirou ele pra mim — Há uma gravação aí, de um jornal que a gente conseguiu pegar sinal alguma hora — ele disse, e clicou no botão de ligar — Escute. Com atenção.

O rádio ligou e começou a chiar — ...falaremos do desaparecimento que comoveu o mundo. Os primos Guilherme e Fernanda, duas crianças da Austrália que desapareceram na última Sexta-Feira, em uma viagem com a família pela Inglaterra... — um longo chiado — ...relatos de que eles caíram da Waterloo Bridge... Nico, o irmão de uma das vítimas, relatou que viu um barco passando na hora da queda e que provavelmente os dois primos caíram dentro deles...

Nessa hora, me veio uma sensação de alívio. Nico pelo menos havia sido legal uma vez na vida einformado as pessoas da nossa queda.

— ...Porém, nenhum barco autorizado era pra ter passado neste momento pela Waterloo Bridge... a polícia faz buscas pelo suposto barco, que, segundo a testemunha, tinha o nome de Prego e Motor... — e aí, por fim, os chiados venceram e a conexão caiu de vez.

O Capitão me olhava com uma cara de quem ia me matar — Então? — ele começou a andar de novo pela sala — A Polícia está vindo atrás de nós. Isso é um navio de contrabando. Se nós formos pegos pela Polícia, estamos mortos. A nossa rota, originalmente para Portugal, teve de ser desviada para não levantar suspeitas. E desde essa gravação, nós estamos vasculhando o barco em busca de dois ratinhos que roubam comida do nosso estoque.

— D-dois? — eu perguntei, tentando disfarçar.

— Você não ouviu a notícia, amigo? Guilherme e Fernanda. Aqui só há um Guilherme, eu presumo. Deve ser questão de tempo até que encontremos a Fernanda. Mas, bem, enquanto isso, a gente pode se livrar de um aqui agora — ele começou a sorrir, e abriu a gaveta, colocando a mão lá dentro... Mas não encontrou o que queria — ...Droga!

— O que... O que...

— Eu esqueci minha faca na cozinha. Mas não se preocupe... Eu volto já. Não saia daí.

[Nana]

Enfim, vamos voltar no tempo um pouco até a parte onde Gui é pego por um Capitão malvado e eu tenho um pé dolorido. Enfim, eu decidi ser sensata (Exatamente o que Gui não foi) e me esconder até a poeira baixar. Então, após isso, o plano era salvar Gui, tentando não morrer no processo.

Depois de meia hora escondida numa caixa vazia esperando as coisas acalmarem (só nesse tempo, cinco patrulheiros foram vasculhar a Sala do Estoque) e morrendo de medo, enfim, eu saí dali. Infelizmente, eu, sozinha, não ia fazer muita coisa. Portanto, fui pra cozinha em busca de ajuda. Por sorte, lá estava o nosso Cozinheiro. Logo que eu entrei, mancando, ele sorriu pra mim.

— Eu acho que não é muito seguro você ficar aqui, Nana.

— Eu também... Porém, eu preciso de ajuda. Preciso resgatar Gui.

Enfim, ele riu — Ah, sim. Uma pequena menina de casaco rosa, querendo resgatar o pobre primo que foi pego pelo Capitão do Navio. Você quer morrer, é isso?

— Todos devemos morrer um dia. Não é o que você diz?

Ele suspirou — Eu e minha boca grande. Fazer o quê. Não vou me voltar contra o Capitão, mas se quiser tentar uma loucura... Pode pegar algumas coisas na Cozinha, caso queira.

— Muito obrigado — enfim, eu comecei a busca. Peguei uma faca, uma corda e uma bacia de batatas que podia ser útil caso eu precisasse de defesa. Coloquei uma bacia de metal na cabeça e enfaixei o pé com umas fitas, e me declarei pronta pra "guerra", enfim. Isso tudo não durou mais que cinco minutos — Até alguma hora, eu acho. E valeu.

— O máximo que eu te desejo é boa sorte. Mas lembre-se de um pequeno conselho que vou te dar agora... Sim, todos devemos morrer, Nana. Mas não é por isso que você deve desperdiçar sua vida.

Assenti com a cabeça, e ele continuou — Além de que, lembre-se de uma coisa... Seja o que você fizer, não vai acabar bem. Em uma das hipóteses, você e Gui estarão mortos. Na outra hipótese, você vence o Capitão e continua se escondendo no barco, porém, com muito mais procura atrás de vocês e sendo mais provável te acharem novamente. Por fim... Se você por alguma sorte acabar matando o Capitão, ninguém irá controlar esse barco. Estamos longe do continente. Então, o que quer que você fará agora, selará nosso destino.

Enfim, ele parecia estar exagerando um pouco no tamanho da coisa. Mas, assenti e agradeci — Eu não sou uma assassina. Qualquer coisa, a gente foge. Nadando, sei lá. Mesmo não sabendo nadar — e subi as escadas, em busca do confronto.

Não havia ninguém por ali, o que era estranho. Provavelmente deviam todos estar concentrados em alguma tarefa séria que eu não dava a mínima. Enfim, eu cheguei até uma porta onde eu deduzi ser "a cabine do Capitão".

Ouvi lá dentro o Capitão gritando com Gui. Pelo menos ele estava vivo. Ouvi um rádio, mas o que estava tocando, não prestei atenção. Estava criando coragem e, enfim, escutei o Capitão dizer que ia na Cozinha pegar uma faca.

E então eu olhei pra porta, olhei pra corda que eu tinha na mão e, enfim, tive uma ideia.

[Gui]

O Capitão estava se dirigindo á porta. Ia abrir ela, me trancar de novo e voltar com uma faca pra me matar. Divertido. Então, instintivamente, eu decidi agir antes que ele fizesse algo... Corri pra cima dele e, num pulo, peguei as chaves do bolso e saí correndo pela cabine.

— Como... SEU BURRO! Volte aqui com essa chave, amigo! — mas, bem, eu não ia voltar, então ele decidiu correr atrás de mim — Amigo, amigo, você está brincando com fogo...

Infelizmente, a cabine não era pequena, então ele ia me alcançar logo. Eu não era muito bom em pensar, mas eu não ia devolver as chaves pra ele. Fiz a primeira coisa que me veio á mente — atirei as chaves pela janela, e vi elas caírem no mar.

Vi apenas a boca do Capitão se abrindo e fechando, o queixo caindo de surpresa.

— SEU MALDITO! — O Capitão começou a respirar fundo, inalando e exalando oxigênio — Ok, amigo. Acha que venceu? Que agora não vou poder te matar porque eu não tenho uma chave?Que você vai fugir? Não, nada disso.

— É? E vai me deixar aqui como?

— Eu vou ali, abrir a porta e chamar alguém pra cuidar de você. Ser sua babá, amigo. Que tal?

Agora eu estava sem palavras. Jogar a chave tinha sido inútil e estúpido. Só tinha me dado uns dois minutos á mais de vida. Eu estava começando a entrar em desespero.

O Capitão ia sair pela porta, até ele rever minha "pequena surpresa" na qual ele já tinha caído, a corda. Ele não tinha desfeito a armadilha.

— Bem, não vamos cair nisso de novo, né? — ele desarmou a armadilha, e, seguro, abriu a porta e foi chamar alguém.

O que ele não esperava é que por algum motivo tivesse outra corda, outra armadilha, agora do lado de fora da porta. Novamente, o Capitão não viu e tropeçou... Mas não caiu no chão. Na frente da porta do Capitão, se encontrava a escada que ia parar na Cozinha, e o comandante do barco rolou escadaria abaixo.

— Mas... Mas... — saí pela porta e olhei para um lado, sem ver ninguém. Olhei para o outro, e vi Nana — ...NANA!

— GUI! VOCÊ ESTÁ VIVO!

Demos um abraço, comemorando a vitória. Então, Nana olhou pra baixo da escada.

— Vamos embora, antes que ele volte. Não se preocupe, eu estou armada, caso algo aconteça — ela tirou uma faca do bolso.

— Mas... Como você sabia?...

— Eu ia invadir a sala com a faca, mas ouvi o Capitão dizendo que ia descer. Pensei em derrubar ele, pegar você e sair correndo, para algum lugar. Enfim, pensando agora, é um plano besta, eu não sei nem pra onde devemos correr...

— Eu não sei nem se devemos correr, Nana. O Capitão não está se mexendo lá embaixo, eu acho. Deve ter desmaiado.

Vimos o Cozinheiro sair da Cozinha, e olhar o Capitão desacordado. Ele deu uma olhada, exclamou um grito e berrou pra Nana — Nana!... Eu sinto em dizer, mas... Eu acho que você conseguiu a terceira alternativa — os olhos de Nana se arregalaram e ela começou a ficar branca.

— Mas... Mas... — ela olhou pra mim — Enfim, nós temos que sair daqui. Enfim, agora. Enfim, enfim, enfim, enfim, enfim, enfim, enfim, enfim, enfim,...

— NANA! Pare com isso, pare, pare! O que está acontecendo? O que é a terceira alternativa?

Mas eu não tive tempo de descobrir. Neste momento, chegou um dos tripulantes do barco. Ele não pareceu se importar muito pela nossa presença. Estava muito preocupado.

— Cadê o Capitão? Ele pode arrumar isso.

— O Capitão... — disse Nana, enxugando uma lágrima — ...Enfim, ele caiu da escada. Acredito que você não vai mais conseguir falar com ele. Qual o problema?

— ...É difícil de explicar, garotinha, principalmente sem o Capitão pra arrumar, mas... O motor está com problemas. Não acho que ele vá aguentar.

— COMO?

— Estamos tentando fazer de tudo pra arrumar, parece que algo entalou fundo lá dentro e está muito difícil de ser retirado. Pelo que nós conseguimos ver... Parece que um Prego está preso no Motor.

Olhei para o pé de Nana e dei uma risada. "Parece um nome apropriado pro barco, afinal"

Notas finais
Esse "amigo" do Capitão surgiu do mesmo jeito que o "Enfim" do Nana, completamente ao acaso, e se encaixou bem no personagem. Essa história começou a ter um rumo mais "dark" do que eu pretendia...