[Nana]

O dia estava bonito, e ENFIM.

Eu estava enlouquecendo, completamente. Eu havia matado um homem. "Eu não sou uma assassina", eu havia dito ao Cozinheiro, mas na verdade, eu era. Enfim, eu estava pouco me importando para o fato de que algumas horas antes, eu também tinha arremessado um prego no motor do barco e agora ele ameaçava parar de funcionar.

— Se fosse apenas isso, menina, estava bom — o homem disse, entrando na sala do Capitão — Mas parece que ele vai explodir.

Enfim, as coisas estavam com uma tendência a piorar.

— Havia alguns equipamentos aqui — ele continuou — Acho difícil, mas... Vocês sabem onde eles estão? Tipo, a gente vai precisar deles se quisermos ter alguma chance de arrumarmos o motor.

— Ahnn... — disse Gui — Eles estão naquele armário, ali.

O homem abriu o armário e lá de dentro tirou um martelo — Quem deixou um martelo aqui? — Gui parecia nervoso, por algum motivo — Aah, aqui estão! Isso vai serv... — e, de repente, os olhos do homem se arregalaram.

— O... O que aconteceu? — perguntei, com medo da resposta, que, enfim, a cara de Gui já parecia me responder.

— ...ISSO ESTÁ QUEBRADO! Como o Capitão mantém algo quebrado no seu armário? Ele quebrou isso?

— Não... — disse Gui, tremendo — F-fui eu. E-eu ar-arremessei o m-martelo para dentro do armário, ele escap-p-pou da minha m-mão...

— AAAAAAAAAAAAH! — Ele arremessou o martelo contra a janela, que se desfez em mil pedaços. Em fúria, veio até Gui.

— Não me at-ataque! Eu, eu, eu... Eu fiz sem querer! Não tive a intenção!

— Assim como não teve a intenção de cair no barco e desviar nossa rota para a América? Assim como não teve a intenção de roubar comida da Cozinha? Vocês dois estão acabando com esse navio, mesmo sem ninguém saber onde vocês estavam.

— Não só isso — eu disse — Nós também matamos o seu Capitão e atiramos o prego no motor. Enfim, espero que você não esteja bravo.

— Vocês deviam ser condecorados por acabarem com o contrabando de uma forma bem inusitada — ele bufou — Mas não vão sobreviver á tempo de ganharem medalhas por isso, se vamos todos explodir. Ou melhor, vocês vão — ele começou a girar o martelo em alta velocidade — Andem para a Sala do Motor e consertem aquilo! Caso contrário... Bom, vocês explodem.

[Gui]

Pelo menos estava quente naquela sala do Motor. Eu gosto do calor. Porém, aquele calor estava indicando que ia tudo para os ares, então não fiquei tão feliz assim.

Eu peguei o martelo do homem ("Pode ficar, eu acho, não vou ter uma utilidade boa pra isso mesmo") e comecei a martelar o motor. O homem não muito gentilmente tirou o martelo da minha mão e mandou eu parar com aquilo.

— Assim você só vai acabar de destruir o motor — mas ele também não sabia o que fazer com o motor — Bem, vocês que se explodam. Nós, da tripulação, vamos para os botes salva-vidas. Se vocês tentarem sair, hm... — ele começou a pensar — ... Um raio cai em vocês. Boa sorte!

Ele saiu e fechou a porta.

— Um raio não vai cair na gente, vai? — perguntei.

— Eu acho que não. Enfim, nem que não caia, a gente não sabe manusear um bote salva-vidas. Eu acho que é bem inútil, enfim.

— Legal. Pelo menos, se a gente consertar o motor, teremos um navio só pra nós! — ri, e Nana riu junto — Bem, é bom ter otimismo.

Tentamos continuar com a martelagem, mesmo sem ter ideia do que carambas estávamos fazendo. Depois de algum tempo, Nana sugeriu a gente tentar achar o prego e tirá-lo do motor, o que, bem, pareceu bem lógico.

— Enfim, se o prego causa o problema, tirar o prego vai resolver ele, não? Enfim, faz sentido.

Nana ficava murmurando "enfim" para si mesma enquanto a gente tentava consertar o negócio. A sala ficava cada segundo mais quente, e eu suava bastante.

Bem, depois de um tempo, a gente achou o prego. Estava preso entre duas "hélices" (Ou seja lá o que for aquilo), impedindo-as de girar. O prego estava muito bem preso, então ele não saía, e as hélices eram resistentes demais pra quebrar. O atrito entre os dois estava fazendo fumaça, e em breve, provavelmente, fogo.

— Achamos o prego! Vamos tirá-lo daí, e ficar com um barco apenas pra nós.

— Enfim, é uma boa id... — Nana parecia pensar — ... Não. Não é.

— Ah, legal, mais uma notícia ruim. Mande.

— Bom, assim que nós tirarmos esse prego, as turbinas vão começar a girar, certo? Eu acho que, se nós não quisermos perder uma mão, não é uma boa ideia, enfim. A não ser que você queira ser o Capitão Gancho, enfim.

— Ahn, eu não quero, obrigado. E agora? Podíamos jogar algo ali, quem sabe não tiraria o prego?

— Acho mais provável que o que quer que a gente atire, fique preso ali também. Ou, caso a gente derrube, as coisas caiam dentro do motor, ficando pior ainda pra pegar, enfim.

— Ou que as hélices destruam o que quer que seja... Ah, bem, se elas não destroem esse prego...

— Exato. Enfim...

— "Enfim"... Se elas não destroem o prego, Nana, como vão destruir a nossa mão?

Isso fez ela pensar.

— É... Você está certo.... Ok, então, vamos pegar esse prego, enfim — ela começou a estender a mão para pegar, mas nesse momento, alguém gritou: — PAREM!

Olhamos para trás... E lá estava ele, nosso amigo Cozinheiro.

— Eu não posso deixar que vocês tentem se matar mais uma vez. Vão, corram daqui! Eu cuido desse motor.

— Legal, muito nobre da sua parte — eu disse — Mas nós não temos como ir embora do barco. Nós não sabemos controlar um barco salva-vidas.

— A gente encaixa vocês em um dos barcos que estão saindo, eles não foram embora ainda. Eles estava arrumando a comida, estão partindo agora.

— E como eu vou saber que você não está nos jogando aos leões? — perguntei — Você não me salvou quando fui pego pelo Capitão.

— Eu não tinha como! É a mesma coisa que trair o capitão. Eu não estou do lado de vocês, não estou do lado do Capitão...

— E mesmo assim está salvando a gente?

— Você não quer viver, é isso? Vão, sumam daqui agor...

— Vocês escutaram ele. Sumam daqui, sumam do meu barco para sempre — outra voz conhecida disse — ... Amigos.

Olhamos para trás, e vimos uma assombração. O Capitão estava vivo, com uma cara bem zangada e um kit de ferramentas, além de uma multidão de tripulantes atrás dele.

[Nana]

— Ai, caramba... — eu disse, enfim.

O Capitão estava vivo. Não muito bem de saúde, mas vivo. Capengando, sangrando, possivelmente com dois ou três ossos partidos. Mas, enfim, vivo, e com raiva.

— Vocês me deixaram pra morrer, amigos. Vocês três. A garotinha, Fernanda, acho, me derrubou de uma escada. O moleque ali jogou minhas chaves pela janela e ainda tentou me atirar da escada também. E você, Rodrigo, me largou para a morte para vir cuidar desses dois pestes!

— Eu achei que você tinha morrido! Eu achei...

— Bem, eu já mandei todos vocês saírem daqui. Vão embora do meu barco. Sumam, desapareçam. Eu não vou matar vocês, amigos, vocês devem ser protegidos por alguém superior, porque não morrem. Peguem, sei lá, alguma provisão, se enfiem num bote e sumam da minha vista! Eu consertarei esse negócio, para meus verdadeiros amigos, minha tripulação!

— Mas... Capitão — um deles disse — Sua condição... Você consegue?

— Está duvidando da minha capacidade? Claro que sim, amigo! Só, alguém, por favor, tire esses daí da minha vista. Eu tenho trabalho á fazer.

Fomos, enfim, para a área dos barcos. Eu e Gui estávamos felicíssimos da expectativa de sairmos dali e, talvez, ir pra casa. O Cozinheiro, já, não tanto.

— O que é que eu faço agora? — disse ele, girando uma faca — Nem fui pago ainda pela missão.

— Pense pelo lado bom. Você não vai mais contribuir para o Contrabando!

— ... E só. Quem sabe se eu usar essa faca, e tomar o barco pra mim...

— Não! — falamos em uníssono, enfim. Não era uma boa ideia, mesmo.

Pegamos algumas provisões na cozinha e fomos levando para o barco. "Acho que, no mar, não vamos precisar de água", Gui brincou, mas eu expliquei que a água do mar não era exatamente pura e própria para o consumo pra ele. Enfim, pensando bem, acho que isso foi muito chato.

Enfim, nós acabamos os preparativos. O Cozinheiro sabia manejar o bote, então não tínhamos muito a temer. Embarcamos nós três no barco e o Cozinheiro estava girando uma manivela para o bote ir descendo lentamente, até chegar na água, ele pular lá e nós irmos embora tranquilamente. As provisões já estavam lá dentro, enfim.

Mas quando ele estava girando a manivela, olhamos para dentro da Sala do Motor. As pessoas corriam, gritavam e saíam lá de dentro.

— Enfim, o que está acontecendo... — eu disse.

— Eu não sei, mas parece que algo deu errado — o Cozinheiro disse — Não saiam daí...

Mas então, alguém saiu correndo daquele espaço, gritando, para nossa informação — FOGOO! TODOS, CORRAM DAQUI! O NAVIO VAI EXPLODIR!

— O QUÊ? — o Cozinheiro gritou. Nisso, o Capitão saiu da sala, inalando fumaça.

— VOCÊS! Vocês são a maldição desse navio, enquanto vocês estiverem aqui, amigos, nada dará certo! Eu não ligo mais se matar vocês está fora de questão, eu vou ACABAR com vocês, AMIGOS!

Enfim, um reflexo de dúvida passou pelo rosto do Cozinheiro. Ele, então, pegou a faca... E, com uma rapidez incrível, cortou a corda da manivela e entrou em posição para lutar contra o Capitão, enquanto nosso bote caía para o oceano.

— Cozinheiro! — gritei — Enfim, não abandone a gente, enfim, nós precisamos de você...

Algumas provisões caíram do bote na queda para o oceano. Pelo menos um cacho de bananas em ótimo estado foi para o fundo do mar. Gui estava apavorado, e eu não estava menos.

E, enfim, o barco explodiu.

Notas finais
CA-BUM! Esse capítulo era pra ser o último (tanto que o nome do capítulo é o nome da própria história), mas acabou ficando excessivamente longo, então eu dividi ele em dois. E olhe, a pequena menina não cometeu um assassinato! --- só ajudou indiretamente a explodir um barco, mas isso não vem ao caso.