[Gui]

O dia estava muito bonito. Perfeito para qualquer coisa, menos estar num bote com um navio afundando atrás. Nós continuamos fortes em cima do bote, mas não seguros.

Partes do barco voavam por cima da nossa cabeça. Um prego voou em alta velocidade a um palmo do meu pescoço. Algumas pessoas e corpos caíam na água... Era uma visão assustadora. O impacto criou ondas fortes, que nos levavam embora, mas por algum motivo, ficávamos.

— O barco, quando afunda, suga tudo em volta para o fundo. Enfim, Gui, tente remar, não sei como, mas nós não vamos sobreviver assim!

... E aí, um pedaço de madeira atingiu Nana na nuca. Ela caiu do bote e afundou, para o fundo do mar, para o fundo do oceano. Eu arranquei minhas mãos da água e gritei, em desespero.

— NANAAAA!

Não houve resposta. Entrei em desespero, e comecei a tentar pegar impulso para me jogar na água e tentar fazer algo de útil, mas... Por sorte, nesse momento, alguém vivo emergiu da água e se agarrou na amurada do bote. Era o Cozinheiro.

— Você não morre, mesmo? — pareceu meio rude, mas eu estava apavorado.

— Hey, eu salvei sua vida mais de uma vez... Algumas pessoas estão vivas, mas estão afundando. Vocês têm o único bote... Espere, onde está Nana?

— AFUNDANDO! ELA CAIU DO BARCO! — eu gritei, agora com lágrimas.

— COMO? — ele hesitou por um segundo — Eu vou pegá-la. Fique aqui, não saia daqui! — ele tirou algo do bolso — Tome isso. Se alguém te ameaçar, use isso!

Era a faca dele, a lendária faca que já nos tinha salvado a vida.

— Mas... Você vai morrer! Ela já está funda demais!

Ele sorriu, um sorriso que indicava que ele sabia disso. O Cozinheiro pegou uma garrafa pet dos nossos suprimentos que haviam caído na água, despejou o que tinha dentro na água e mergulhou.

O bote estava indo para trás, o barco sugava ele. Eu havia parado de remar com o susto, e estava pagando por isso.

— Se for para vocês voltarem — eu disse — deve haver um bote para vocês voltarem — e assim, comecei a remar, com toda a força que eu tinha e mais o que não tinha, torcendo e na espera que Nana re-emergisse da água.

[Nana]

Bem, eu não sei se Gui citou, mas eu estava afundando. E rápido. Enfim, e eu não sabia nadar também. Era a combinação perfeita para o que, enfim, tinha sido um dia perfeito.

Gui dizia que sou inteligente. Até hoje ele diz isso. Provavelmente porque, enfim, é verdade. Mas nenhuma dessa inteligência poderia me salvar quando estava afundando, em pânico, para o fundo do oceano. Eu fui tentar gritar, o som mal saiu, mas a água entrou.

Eu ainda estava segurando o ar, portanto, não estava me afogando, apenas batendo as mãos e os pés descontroladamente dentro da água. Vi pessoas, cada vez mais longes, nadando acima de mim. Lá longe, o Prego e Motor submergia, para sempre, junto com toda a sua carga de contrabando.

Comecei a perder a consciência. Tudo o que eu via eram vultos, e esses vultos, cada vez mais negros. Eu já não me movimentava mais, e meus olhos não focavam em nada. O ar entrava pelas vias aéreas, e eu submergia, submergia, submergia.

Alguém me alcançou. Eu não lembro quem, mas acredito que até você que está lendo consegue imaginar. O alguém também estava se afogando. O homem colocou uma garrafa pet na minha boca e começou a me puxar pra cima. Puxar, puxar, puxar, enfim, puxar.

E quando eu me dei por mim, eu estava de volta á superfície. O homem não estava mais comigo. Outra pessoa, mais nova, me pegou e me jogou num barco. O barco foi embora, junto com a água. Uma garrafa pet foi colocada sobre meu nariz. Senti empurrarem meu peito, medirem meu pulso.

E, enfim, apaguei.

[Gui]

O nosso bote viajava pelo mar afora sem nenhum senso de direção.

Nana estava viva. O Cozinheiro usou suas últimas forças para conseguir trazer Nana de volta, com ajuda da garrafa de oxigênio, mas ele mesmo não resistiu. Seu último suspiro foi empurrar Nana para a superfície, e afundar, para sempre, para o fundo do oceano.

Ele salvou Nana de afundar, e afundou ele mesmo. É até poético. Depois de colocá-la no barco, verifiquei o pulso, que estava fraco, mas não chegava ao ponto de uma Parada Cardio-Respiratória, ou seja, sem pulso, mas viva. (Eu li esse nome na internet depois, por curiosidade)

Ela desmaiou e ficou assim por um bom tempo. Torci para que alguma corrente marítima tivesse pego o bote e estivesse levando ele para terra firme. Os suprimentos não tinham todos submergidos, ainda havia o suficiente. Abri uma garrafa de refrigerante, me apoiei na amurada do barco e fiquei lá, vendo o mar e a noite. Já tinha sido suficientemente difícil remar com força o suficiente para o bote não afundar enquanto eu esperava Nana...

— Gui?

Olhei pra trás. Nana, por fim, tinha acordado. Estava meio zonza.

— Nana! Ainda bem, você está viva! — dei um abraço de felicidade na minha prima.

— Onde... Enfim, onde nós estamos?

— No meio do oceano. O Cozinheiro salvou você de afundar, e cá nós estamos.

— O Cozinheiro... Onde ele está?

Não respondi, apenas abaixei a cabeça. Ela piscava o olho, de sono, mas ainda assim abriu a boca de espanto quando entendeu.

— Ele... Ele...

— Ele... Não sobreviveu... O último ato dele foi salvar você, Nana. Ele impediu você de afundar, para afundar ele mesmo.

Nana começou a chorar. Continuei fitando a noite e a lua no céu. Eu também estava com vontade de chorar, ali.

— Enfim... — ela disse, enxugando uma lágrima — Para onde estamos indo? Estávamos no meio do Atlântico, rumando para a América Central, correto?

— ...Correto, eu acho... O Cozinheiro disse isso uma vez.

— O que provavelmente indica, enfim... — ela começou a pensar — Que nós estamos na Corrente Sul-Equatorial. Ela vai desembocar nos Estados Unidos, o que não vai ser um problema, já que, como nós, o resto da Austrália e da Inglaterra, eles falam Inglês.

Agora eu parecia meio tonto.

— Como você sabe de tudo isso?

— Bem, eu estudo nas horas vagas.

— Está decidido. Se a gente voltar para casa, no seu próximo aniversário eu vou te dar um videogame — ela riu.

— Bom... Alguma hora chegaremos lá — ela parou de repente — O que é isso, no seu bolso?

Olhei. Era a faca do Cozinheiro.

— É a faca...? — ela continuou.

— Ah, sim, ele me deu isso. Pra me proteger de ameaças, algo assim — sorri — Vou guardar isso, sempre. Quer dar uma olhada?

Assim fomos de viagem, esperando chegar. Dias se passaram, talvez semanas. A Corrente Sul-Equatorial levava a gente e nosso bote para onde as águas nos levassem. O mar ás vezes estava agitado, mas, por muita sorte, nada nos aconteceu.

Até que uma noite, enquanto dormíamos no bote... O barco bateu em algo. Levantei, e dei uma olhada. Era areia.

— Areia...? — disse, sonolento — De onde veio essa areia...?

E então, a ficha caiu.

— AREIA! NANA! NANA! ACORDE! AREIA! — eu gritei, desesperado. Nana acordou num salto — OLHE ISSO!

— Areia...? AREIA! TERRA FIRME!

Batemos na porta da primeira casa que encontramos de frente ao mar. Não tínhamos ideia de onde estávamos, só sabíamos que era terra firme, era vida, e que alguém devia estar ali. Alguém abriu a porta.

— Boa noite? — a pessoa disse, sonolenta.

— Boa noite... Hã, exatamente, que horas são?

Ele me olhou com uma cara que gritava "você me acordou a essa hora da manhã pra perguntar as horas?", mas mesmo assim respondeu — Duas. E meia.

— Aaahn... — Nana respondeu — Enfim, sinto muitíssimo por te acordar num horário como esse. É, que, bem, nós estamos perdidos.

O homem resmungou algo como "eu já vi vocês em algum lugar", deu um bocejo e disse — Querem um telefone emprestado? Ligar para o pai de vocês?

— Enfim, isso não vai dar muito certo. Nós meio que moramos na Austrália. Nós caímos de uma ponte, alguns meses atrás, em um barco de contrabando. Enfim, o barco explodiu e nós provavelmente somos os únicos sobreviventes. Escapamos naquele bote ali, ó.

Ele parecia raciocinar. Então, arregalou os olhos.

— Vocês não são... Aqueles meninos do jornal, que caíram da ponte, na Inglaterra...? O mundo inteiro estava falando de vocês...

— Isso, isso! Somos nós! Você pode ajudar a gente, enfim, por favor?

[Nana]

Enfim, a partir daí, as coisas melhoraram.

O homem (Seu nome era Malcolm) sugeriu ligar, então, para a imprensa. Assim seria mais fácil de localizarem a gente pelo mundo. Aceitamos a ideia, e ligamos. Em menos de dez minutos, a imprensa inteira já estava na frente da casa do homem.

Ao longo dos dias seguintes, contamos nossa história diversas vezes para a imprensa americana (Eu realmente acertei, estávamos nos Estados Unidos), falando sobre a aventura que tivemos, sobre a nossa sorte, sobre o nosso amigo Cozinheiro. A faca dele foi fotografada pelo menos umas cem vezes.

Estávamos em todos os jornais, e depois de três dias, nossa família chegou. Foi um reencontro lindo, enfim, digno de novela (Principalmente pelas câmeras filmando a gente). Meus pais choravam, e os de Gui também. Enfim, Nico também estava lá, e eu lhe dei um abraço apertado, e agradeci por ter avisado todo mundo da nossa queda.

— Se não fosse por você, não estaríamos aqui agora.

— Se não fosse por mim, vocês não teriam nem caído da ponte — enfim, dei um tapa nele.

As próximas semanas foram maravilhosas. Nossos pais nos levaram, em comemoração por estar tudo bem, ao Parque das Laranjas Azuis, o maior da América Latina. Minha prima, Margarida, já tinha ido pra lá antes, e ela disse que era incrível. Era mesmo, enfim. Conhecemos até um pipoqueiro que se escondia nas árvores.

Depois de alguns dias de passeio, voltamos pra casa, para a Austrália. Nossa chegada foi repleta de câmeras, enfim, mas elas sumiam dia após dia. Vivemos uma vida normal, eu, Nico, e meus pais. Gui também viveu uma vida normal com os pais dele. Ah, sim, algum tempo depois, a gente teve a ideia de escrever esse relato.

Atualmente, as coisas são diferentes aqui na Austrália. O clima é de revolta, parece. Enfim, parece que alguma hora alguém vai tomar o poder e fazer o caos no país. Gui virou médico, inspirado pelas suas habilidades em me salvar no bote. Nico virou químico, parece estar interessado em achar o elemento 200 da Tabela Periódica.

E eu? Inspirada também na nossa viagem, virei Geóloga. Daqui algum tempo, farei uma viagem para o exterior, examinar a geografia do nosso mundo mais á fundo. De barco, claro.

A vida segue, e continua normal, por enquanto. Mas a história não vai mudar e não vai deixar de ser verdadeira. Por isso, decidimos escrever esse relato. Estamos acabando por aqui. Se você leu até aqui, muito obrigado.

[Gui]

Eu também dou obrigado! Agora vamos colocar isso num concurso de histórias, vejamos se a gente ganha.

[Nana]

Enfim, por enquanto é só. Se a gente fizer alguma coisa estupidamente inútil, vamos tentar colocar em livro de novo, apesar de eu achar difícil de acontecer algo dessas proporções novamente.

A história sobre dois passageiros clandestinos num barco acaba aqui. A nossa história, daqui pra frente, ainda estamos construindo. Vamos ver no que dá, enfim. Como bem disse o Cozinheiro, todos os homens devem morrer...

...Mas não é por isso que você deve deixar de viver. Carpe Diem!

Notas finais
Sim... Esse Nico também é AQUELE. Desde criança, o Maníaco da Bazuca já se revelava uma peste. Que bonito! E, de verdade, a morte do Cozinheiro me pareceu extremamente forçada. Ele podia muito bem ter pulado pro barco também. Mas eu precisava de uma cena dramática, e, bem, aquele era o último dia do prazo. Deu no que deu. Ainda não sei como ganhei... Se algum dia eu for re-editar isso, acho que vou fazer que um polvo puxou ele pro fundo do oceano. Não é menos bizarro, mas pelo menos é mais plausível que o sujeito simplesmente afundar sozinho.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!