Prazeres Sombrios - Indômita
16 Capítulo XV - Caótica
Notas iniciais
(não imitem a tia Miya em casa, ok? kkkkkkk)
Bom, volta a animalção kkkkkkkkkkkkk xD
leiam, esperneiem, chorem, e acima de tudo, mandem um review com todas essas reações! vocês não sabem como isso faz uma diferença vital... ;D
OBS: tô postando hoje porque não sei o que vai ser da minha vida essa semana... se ela acabar, ou não.... ENFIM, não acredito nessas coisas, mas se acontecer... kkkkkkkkkkkkkkk
BEIJOS E ATÉ O PRÓXIMO CAPÍTULO :P
John estava bem.
Ela o deixara em um quarto de hóspedes assim que terminara de cuidar dele e seguiu para seu quarto, trancando a porta. Precisava de um pouco de privacidade. Agora que John não corria riscos de vida e Catriona já estava presente para cuidar dele, Leonor podia se dar ao luxo de descansar. Arian mandara criadas prepararem uma tina para que se banhasse e Tess estava esperando para servi-la.
Ela não queria estar na companhia de ninguém, mas permitiu que a donzela a despojasse de sua regata encharcada e a levasse para a água quente, banhando-a com os sais, lavando seu cabelo. Massageou seus ombros, tentando relaxa-la, mas não estava surtindo efeito. Por mais delicioso que estivesse seu banho, por mais cansada que estivesse, a dor em seu peito não desaparecia. Não conseguia entender por que ele estava tão irritado. Catriona lhe dissera que o chefe estava zangado porque Leonor estava praticamente nua e exposta ao olhar de quem quisesse ver, mas ela sabia que não era apenas isso. McGregor estava furioso e ela estava magoada por suas palavras.
Ele a tratou como se fosse uma rameira. Humilhou-a diante de seus homens, menosprezando-a, subjugando-a. Zombou dela. Ela nunca permitiu ser tão maltratada, mas não queria que ninguém visse suas lágrimas. Os homens não gostavam de mulheres choronas, tampouco ela própria. Sentia-se ferida, e nem sabia por quê.
Tess subiu sua massagem para seu couro cabeludo. Leonor suspirou, tanto de deleite como de dor. Suas costas doíam como se tivesse sido açoitada por látegos, queimando pelos arranhões feitos pela rocha contra a qual se chocara e pela pancada brusca. Não tinha quebrado nenhum osso, podia sentir, mas se machucara muito.
É o que ela sempre faz, não é? Prestando seus serviços a quem precise.
Cerrou os punhos. Não choraria por ele. Nunca. Dane-se a paz entre as famílias, ela daria a guerra que seu marido estava pedindo. Oh, ele que a aguardasse. Leonor o castraria enquanto dormia e arrancaria sua maldita língua. O bastardo veria até que ponto uma inglesa era fria como um cadáver. Leonor tinha um coração de gelo inalcançável e mostraria a ele como era comprar briga com uma Knightley. Um Knightley nunca baixa a cabeça para um McGregor; esse era o legado passado de geração em geração em sua família, assim como as táticas de batalha.
Tess ergueu um balde e derramou a água morna sobre seu corpo, retirando o sabão, lavando-a. Leonor saiu da tina e a donzela se dispôs a enxugar seu corpo com uma toalha de linho. Havia um vestido branco e uma túnica azul-marinho para vestir. Quando esteve pronta, sentou-se em uma banqueta diante da lareira e Tess começou a escovar seus cabelos, mecha por mecha, até secar sua juba. Tess odiava os cachinhos nas pontas do cabelo de Leonor, que era liso e volumoso, então escovava ao máximo até desfazer os halos, que voltavam a encaracolar teimosamente pouco depois.
Alguém bateu na porta três vezes.
-- Entre – Leonor disse. Mary entrou no quarto, sorrindo resplandecente, seguida por um Drustan preocupado e aborrecido. Quando ela fechou a porta, ele correu até Leonor, afastando Tess para abraça-la.
-- Tenho novidades – disse alegremente Mary. Com a juba ainda úmida, Leonor se levantou, olhando para a prima com curiosidade, mas teve de trincar os dentes para não gemer de dor nas costas. Mary se aproximou, carregando dezenas de papeis bagunçados nos braços, a bochecha com uma mancha de tinta.
-- Descobriu alguma coisa?
-- Claro. – Mary olhou para Tess – Poderia nos deixar a sós um momentinho?
Tess franziu as sobrancelhas.
-- Agora estão me excluindo do grupo? – resmungou com uma carranca – Tudo bem, só porque são importantes, não querem mais saber da criada. Obrigada pela consideração. Nunca me senti mais...
-- Tess – interrompeu-a Leonor secamente. Seu humor estava péssimo para aguentar a donzela ruminando suas amarguras. – Apenas saia.
A donzela arregalou os olhos, chocada pela aspereza de sua senhora.
-- Sim, minha senhora – disse magoada – Perdoe a minha indiscrição.
Quando Tess saiu, Mary soltou um suspiro aliviado. Drustan estava brincando com Gengis Khan, deitado de bruços no chão, provocando o filhote com animação, pouco se importando com o que elas falavam. Leonor gesticulou para Mary ir para a cama e as duas se sentaram na beira do colchão, uma de frente para a outra.
-- O que descobriu?
-- Passei noites em claro estudando ervas e mais ervas. Fui até o pomar catalogar as que eu não conhecia, li todas as anotações da mamãe, inventei misturas, juro que trabalhei como uma escrava. Estava me desesperando, prestes a queimar tudo e jogar as mãos para o céu, quando Iain veio a meu socorro.
-- O que ele fez?
-- Avaliamos sua situação. Não consigo ver alguém que se beneficiaria com a sua morte, prima, a não ser seu marido. Não que seja ele, porque eu e Iain temos certeza de que não é, mas não sei quem poderia querer te fazer mal. Pensamos nos aldeãos, mas eles estão encantados com a sua coragem. Elogiam como você é gentil, corajosa, protetora... Ouvi de um soldado que vão jurar fidelidade a ti depois do que fez pelo pequeno John. Então, não acho que seja alguém da aldeia, a não ser que ainda haja alguém que remoa mágoas da sua origem. Conhece alguém que poderia lucrar de alguma forma com sua morte?
Leonor ponderou. Não se lembrava de ninguém que poderia se dar bem com sua morte, além de seu marido. Por mais que pensasse, não lhe vinha ninguém à mente. Balançou a cabeça em negativa.
-- Não consigo pensar em alguém que possa se dar bem com minha morte, e meu marido só seria privilegiado se eu já tivesse lhe dado um herdeiro.
Mary mordeu o lábio inferior em frustração.
-- Não progredimos muito. Já pensamos em muitas possibilidades, mas nenhuma é viável. Os primos dele também não lucrariam com sua morte, a não ser que ele também morresse e o foco dos assassinatos é você.
-- E nem você nem meus primos ganhariam alguma coisa me matando – completou Leonor – Westminster jamais seria de vocês. Talvez dos parentes mais distantes de meu pai, mas foram exilados por traição na época de William Rufus e eles nem sabem que existo.
-- O que nos restringe aos McGregor – disse Mary – Não faz sentido. Não consigo entender.
-- Estamos nos limitando, Mary. E os inimigos do meu marido?
-- Os McDonald e os McLeod? – ela ponderou por um curto espaço de tempo – Acho que não. Eles poderiam te matar para impedir que engravidasse, para logo matar o Duncan e encerrarem de vez com o clã, mas...
-- Apesar de ganharem as terras, lucrariam mais com minha vida – prosseguiu Leonor, a cabeça palpitando de dor – O chefe poderia me tomar como esposa e ganhar terras na Inglaterra. Terras próximas do castelo de Henrique, onde poderiam iniciar uma rebelião e talvez derrubar o rei. Meu Deus, Mary, minha vida vale mais que minha morte, então...
-- Vingança? – ela supôs.
-- Não possuo inimigos. Se os McGregor me aceitaram, não há ninguém que queira me matar.
-- E os inimigos do Duncan? Podem tentar mata-la por vingança.
-- Como se ele fosse se importar com isso – Leonor grunhiu amargamente, as palavras sendo proferidas como fel. – McGregor não tem sentimentos por mim, seria tolice achar que alguém me mataria para machuca-lo. Estariam lhe fazendo um favor.
-- Leonor! – repreendeu Mary – Não diga isso! Duncan gosta de você, mas do jeito dele. Iain disse que ele nunca conheceu o amor e a compaixão, então, é natural que não saiba como agir com relação a isso. Tenha paciência. Lembra-te de como domava os cavalos mais irascíveis da Irlanda? Todos os lordes levavam seus garanhões para você, sabiam que era a única que podia conquista-los. Cavalos de guerra só conhecem a guerra...
-- ... então não adianta usar látegos para força-los a serem dóceis – completou com um suspiro pesaroso – Pensarei sobre isso.
-- Muito bem.
-- Brigamos de novo – Leonor confessou, sem tentar dissimular a mágoa que a deprimia pelas palavras dele – Mas não acho que faremos as pazes dessa vez.
-- Por que não?
-- Salvei um menino do povoado de morrer afogado. Mas não podia nadar com o vestido, pesaria muito e eu acabaria morrendo antes de chegar a ele.
-- Então, foi com a regata de linho?
Anuiu com a cabeça.
-- Não podia deixa-lo morrer. Sei que foi arriscado demais, machuquei minhas costas quando a água me chocou contra uma pedra, mas salvei o filho de Catriona. Mas ele não ficou feliz. Ficou furioso. Olhou para mim com desprezo, Mary, cuspiu palavras que ainda estou remoendo.
-- Oh, prima, sinto muito! Converse com ele, acho que podem se entender.
Leonor negou com a cabeça.
-- Quando me acalmar, talvez consiga olhar para ele. Agora, vou assumir finalmente minhas tarefas como senhora do castelo e evitar ao máximo me esbarrar com ele.
-- Vocês nunca se juntaram nas refeições, não é?
Era verdade. Desde quando se conheceram, não houve uma única refeição que compartilhassem e a distância entre eles só cresceu depois que chegaram a Dragon Seafront Castle. Nunca sentara ao lado de seu marido à mesa, nunca foi servida por ele, mal se viam e quando o faziam, já estavam brigando. E o que mais a chocava era que ele só dormiu com ela na noite de bodas. Depois, quase fizeram amor, mas foram atacados no quarto dela. Desde então, não recebeu sequer um beijinho na testa. Deveria estar aliviada, contente pelo selvagem não ver nela nem a utilidade para a reprodução, mas isso apenas a magoava mais. Diabos, ele sequer queria ter filhos com ela. Leonor lhe era tão repulsiva, que não sentia atração o suficiente para tentar copular. O que significava que ele teria bastardos para herdar a Península de Trotternish. E bastardos eram filhos de malditas rameiras e...
Maldição. Uma sombra abraçou Leonor naquele momento, envenenando sua mente. Sabia que tinha se afeiçoado ao cão raivoso, por isso estava tão magoada e irritada. Era normal um homem ter amantes, mas ela não queria que ele tivesse sequer uma amiguinha que suprisse suas carências. Talvez...
-- Mary, o que mais descobriu?
Não pensaria em nada disso. Não, agora não. Duncan McGregor não era um assunto saudável a se ter em mente. Nem no coração.
-- Iain me ajudou a descobrir as ervas que usaram na flecha. Ele testou em uma lebre hoje mais cedo e veio me mostrar os resultados. Por Deus, Leonor, o efeito é assombroso.
-- Conte-me, Mary!
-- Você me disse que ele estava com fortes dores de cabeça, fraqueza muscular e visão fraca, além de dormência... Para a nossa sorte, Duncan é um homem grande, isso diminuiu o efeito de acordo com a quantidade do veneno na seta. Se ele fosse do seu tamanho, estaria morto. Iain e eu estudamos as anotações que fiz, até que chegamos a uma hipótese e tivemos de testar na pobre lebre. O que deram a ele foi uma mistura pouco diluída de azaleia, anil e anêmona.
Leonor franziu as sobrancelhas profundamente. Azaleia era perigosa. De todas, a que poderia ter matado a ela e a seu marido teria sido a folha dessa maldita planta. Ela teve de dar chás e sopas a ele à força para diminuir a intoxicação e elevar seu sistema imunológico. Era um milagre McGregor ter sobrevivido.
E ela só estava viva porque ele a protegera.
-- Vou preparar um antídoto para a próxima vez – murmurou, seu humor cada vez mais decadente – E precisamos colher mais ervas, o que temos não é o suficiente.
-- Posso fazer isso – Mary disse – Não tenho muito que fazer durante o dia e não gosto de ver o treinamento dos homens sem poder me juntar a eles. Acho que vou me disfarçar como você, prima, estou precisando de emoções – elas intercambiaram um sorriso travesso – Pedirei a Iain que me acompanhe, estou me sentindo sempre observada.
-- Cuidado, Mary.
-- Não se esqueça de que sou melhor que você nas lutas.
-- Sei bem, prima, ainda tenho uma cicatriz feita por sua lança, mas isso não significa que deva ser descuidada.
-- Estarei bem – garantiu com um de seus radiantes sorrisos – Faça as pazes com seu marido, está bem?
Leonor assentiu com a cabeça.
☺
Já tinha falado com Bessie sobre o jantar, fazendo um levantamento da quantidade de porco que deveria ser assada, assim como o hidromel e a cerveja, escolhendo quantas lebres deveriam ser caçadas. Havia peixe também. Leonor optou por uma variedade dos três pratos, dizendo exatamente o que deveria ser feito e para quantas pessoas, pedindo a opinião de Bessie a respeito. Juntas, organizaram tudo o que deveria ser feito. Mandaram algumas mulheres para colherem temperos e frutas no pomar.
Arian havia saído para ajudar no parto de uma aldeã, então, Leonor aproveitou para estabelecer seu lugar como senhora do castelo. Todos seguiam suas ordens naturalmente, obedecendo rapidamente. A decoração do salão era simples e lhe agradava, então não mudou nada. Ordenou que limpassem o castelo – ajudou quando foi necessário – e auxiliou as mulheres da cozinha como deveriam servir os pratos. Até mesmo pediu a Bessie que fizesse doces para a sobremesa. Contente com seu trabalho, mandou um escudeiro acender as velas do candelabro e dos candeeiros nas paredes, iluminando o ambiente para o jantar. O forno da cozinha queimava turfa e almíscar, não só esquentando o castelo, mas aromatizando-o também. Tudo estava perfeito. Leonor não perdeu um único segundo descansando, o que apenas piorou sua dor nas costas. Quando anoiteceu, pediu que Tess entrançasse seu cabelo e passou alguns minutos reclusa em seu quarto, pensando e relaxando. Diante de todos, fazia-se de forte, mas sozinha, dava vazão a dor que a dilacerava. Não aguentava se manter de pé por muito tempo, não aguentava se movimentar, até sentar doía infernalmente.
Não tenho tempo para você, mulher. Prestando seus serviços... Tirar a roupa para quem quiser...
Ele nunca saberia como aquilo machucou. As palavras retumbavam em sua mente, ecoando, impregnando-se em sua memória, repetindo-se e repetindo-se incessantemente. Seria uma ferida que não cicatrizaria tão rapidamente, por mais forte que ela fosse. Ergueu-se em toda a sua estatura de 1,74m, empinando arrogantemente o queixo. Seu reflexo no espelho era deprimente. Não parecia ela. Elegante, altiva. Forçou um sorriso, enterrando no mais profundo de sua alma a tristeza que veio com as palavras dele. Era uma máscara de fingida alegria, sabia disso. Não era típico dela não expressar seus reais pensamentos, o que sentia, mas era tolice ser tão aberta. Seria simpática e dócil, assim evitaria mais confrontos.
Por Deus, não necessitava que ninguém lhe dissesse, mas os soldados de seu marido estavam perdendo o respeito por ele por causa dos desafios dela. Quanto mais o enfrentava, mais eles se mostravam decepcionados com o chefe e Leonor não queria isso, por mais que ele merecesse por suas cruéis palavras.
Você está ótima, Leonor. Agora sorria e seja receptiva.
Mas eu não sou assim.
É sua responsabilidade. Desde quando falta com seu dever?
Não posso sorrir quando nem quero pisar lá embaixo.
Besteira! Estampe o sorriso na cara e vá jantar.
Ensaiou o sorriso para não parecer tão forçado, mas sempre parecia uma careta tenebrosa. Tentou mostrar os dentes, mas se pareceu a um cavalo indo ao leilão.
Respirou fundo, controlando o próprio temperamento como se faz a uma besta indomável, preparando-se para enfrentar outro estágio da fúria de seu marido. Aparentemente calma, saiu do quarto com passos graciosos dignos de uma imperatriz, tão régia e elegante que causaria inveja em Afrodite. Dolorida, continuou mantendo a respiração superficial. Não sabia até que ponto aguentaria a dor, mas iria até o limite. Antes de descer a escada, já estava rezando para o final da noite. Bessie e as outras criadas estavam esperando suas ordens no salão. As crianças brincavam com Gengis Khan alegremente, correndo sobre o patamar. Leonor desceu o último degrau já suando frio, as mãos geladas e úmidas.
-- Podemos servir, minha senhora?
-- Sim, Bessie, por favor.
As mulheres começaram a trazer travessas com frutas, pondo-as exatamente onde Leonor ordenara, logo trazendo as carnes frescas que acabaram de ser assadas, junto de jarras com hidromel e vinho. Logo a mesa esteve cheia, o aroma do jantar revolvendo seu estômago de fome. As criadas tomaram seus lugares, paralelas às paredes, aguardando mais ordens.
-- Boa noite – disse Mary, descendo as escadas e se colocando ao lado de Leonor. Sua prima vestia uma túnica verde por cima de um vestido de uma tonalidade mais clara. Seu cabelo foi recolhido em duas tranças por sobre os ombros. – Está melhor, prima?
-- Sim – mentiu, abrindo seu tão ensaiado sorriso – Conseguiu o que queria?
-- Sim! – Leonor podia jurar que Mary brilhava, reluzente como uma fada de tão alegre – Encontrei tantas ervas, você tem que ver!
Leonor não ouvia verdadeiramente o que ela falava, sua mente estava em outro lugar. Não sabia se estava fazendo o certo. Seu marido ou seu sangue? Ignoraria tudo o que aprendeu dos Knightley por seu casamento?
Seus lábios tremeram.
Engoliria seu orgulho para ter um pouco de paz?
Tentaria ignorar a ferida que seu marido infligira onde ninguém poderia ver ou saber que ela estava magoada?
Quando as portas do salão se abriram e Duncan McGregor entrou com seus homens, o coração dela foi aos pés de tão oprimido. Juntou as mãos diante do corpo, mantendo seu sorriso da forma mais simpática possível, apesar de não se sentir feliz. Ele conversava com um homem que ela nunca tinha visto e pareciam íntimos, uma vez que seu marido esboçava sorrisos para ele – sorrisos que Leonor nunca receberia, o que deixou um gosto amargo em sua boca. O homem era notável, não porque era tão alto quanto Duncan, mas porque seu cabelo era de um ruivo-alaranjado que parecia fogo ondulando em uma face alva e marcada suavemente por claras sardas. Ambos os homens tinham peles por sobres seus ombros, sinal de riqueza e honra. Mas ela já sabia que Duncan era rico.
Sem reparar em nenhuma mudança no salão, eles tomaram seus assentos, conversando abertamente, já sinalizando para as criadas enxerem suas taças. Iain puxou um banco para Mary sentar ao seu lado. Ao contrário de seu marido, que sequer a viu. Irritada, Leonor puxou um banco ao lado do bastardo, tomando seu lugar à mesa como esposa. Completamente ignorada. Ela ignorou a ofensa, mas já sentia seu próprio temperamento aflorando, bulindo nervosamente em seu interior, buscando uma válvula de escape. Que Deus tivesse piedade dele, porque Leonor o deceparia. Mantendo a imagem agradável e silenciosa da esposa inglesa morta-viva, permaneceu olhando para suas mãos sobre o colo em uma pose de submissão, apenas ouvindo o que seu marido discutia com o visitante. Havia homens na mesa que ela não conhecia e soube que eram de outro clã porque usavam um tártan azul-marinho e preto.
Duncan usou sua adaga para partir um pedaço de carne de porco, que comeu sem se importar se ela estava comendo ou não, então, todos os outros começaram a se servir da fartura de carne e pescado. Cada vez mais irritada, tirou sua adaga chinesa de dentro da manga da túnica e serviu a si mesma de uma grandiosa fatia de lebre, sustentando o suculento pedaço na folha prateada, ignorando o prato que deveria dividir com seu marido.
O que havia de errado com ele hoje?
Leonor nunca fora tão ofendida na vida. Mas não podia se esperar muito de um bruto acéfalo, não é? Ela tinha passado uma tarde inteira organizando aquele jantar, trabalhando arduamente com as mulheres para que tudo saísse perfeitamente, e ele nem notou.
A carne estava deliciosa e o hidromel nunca esteve mais suave e agradável ao paladar como naquela noite. No entanto, estar fora da conversa a irritava profundamente. Seria uma boa hora para seus assassinos tentarem mata-la. Ao menos eles se lembravam de sua existência, apesar de estarem ignorando-a ultimamente.
As costas dela latejavam, doendo até com o mínimo esforço de mover o braço para comer, como se milhares de lanças trespassassem sua carne até a coluna. Ninguém notaria se ela simplesmente comesse e voltasse para o quarto. Mas ela não queria estar isolada no quarto. Talvez fosse aos estábulos. Cavalgar a acalmava, principalmente quando ia à praia.
Duncan não a olhou. Leonor olhou para sua adaga, imaginando como cairia bem crava-la na lateral do pescoço dele...
A de abestado. De anta. De assassinato.
B de bastardo.
C de... de corno.
D de diabo.
E de ensanguentado. De evita-lo.
F de... Forca. De fu...
Leonor!
Certo, a distração não estava sendo saudável. Antes que percebesse, terminara de comer e não se sentia muito bem para repetir. O jantar estava delicioso, mas ela estava cansada e dolorida, além de estressada com seu marido. Provavelmente, ela não tinha vocação para casar. Olhou para ele, recebendo um perfil mais direcionado ao ruivo.
-- Quem é a moça? – ouviu a voz de barítono do ruivo. Escocês legítimo.
Duncan lançou um olhar frio para ela. Leonor apertou o punho da adaga, repelindo a vozinha que lhe dizia para cortar a garganta dele.
-- Leonor, minha esposa.
O ruivo se levantou, seus movimentos comedidos e elegantes como os de um predador. Quando se aproximou dela, ela também se levantou, trincando os dentes pela dor que espetou toda a linha de sua coluna. Com os lábios tremendo, forçou um sorriso quando o escocês tomou sua mão e a beijou, os olhos azuis-anil focados nos dela.
Deus, deveria ser um pecado existir um homem tão lindo.
-- É um prazer conhece-la, milady – ele disse contra o dorso da sua mão, elevando-se em toda sua estatura. – Sou Erik Ferguson.
-- É escocês?
Ele abriu um sorriso brincalhão.
-- Highlander desde quando nasci e até o dia em que morrerei.
Ela segurou as saias e fez uma polida reverência.
-- É uma honra, então.
Ele puxou o banco para ela se sentar, ganhando uma sobrancelha arqueada de Duncan. Leonor aceitou sua gentileza com grande alívio. Erik voltou para seu lugar do outro lado de seu marido, mas tentava inclui-la na conversa de algum modo, perguntando a ela sobre política. Leonor lhe respondeu graciosamente, revelando, para a surpresa de muitos na mesa, que não era uma mulher frívola que se interessava unicamente em seus bordados. Nem bordar ela sabia. Mary também expôs suas opiniões sobre a política inglesa, vez ou outra comentando sobre a escocesa. A discussão perdurou por um longo momento, até que chegou a sobremesa.
De repente, a bebida que ingeria ficou mais amarga, com um gosto mais forte, que desceu queimando sua garganta, requintando-lhe o estômago. Fazendo uma careta, bebeu outro gole. Deus amado, o que Bessie estava botando em seu hidromel? O outro gole foi mais profundo. Quanto mais bebia, mais seu corpo parecia leve e o mundo lhe pareceu mais alegre. Que estranho. Sem motivo algum, Leonor riu e bebeu mais do hidromel ardente, gesticulando para que alguém enchesse sua taça.
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