Prazeres Sombrios - Indômita

18 Capítulo XVII - Vento que vem do Norte


Notas iniciais
Oii !!! :D Queria agradecer a todos que comentam/comentaram!! Ainda mais no capítulo anterior kkkk Escrevi aquilo com minha avó fazendo palavra cruzada do meu lado e, definitivamente, foi muito tenso kkkkk
Enfim, agora temos um capítulo fofo *---* E... o começo de muitas emoções muito fortes hahahaha
Minha paixão avassaladora é pelo Duncan, mas confesso que sofro um coma pelo Erik PQP ele é muito safado kkkkk
Também queria agradecer a Miya, minha gêmea, por ter postado os capítulos quando eu não podia e por me ligar pra ler os comentários de vocês. Enfim...
FELIZ NATAL E BOA LEITURA!! Que Papai Noel lembre de todos vocês e lhes deem uma rapadura de coco! kkkkk

CAPÍTULO DEZESSETE

Vento que vem do norte

A luz do sol entrou pela janela, despertando-o de um delicioso sono. Nunca tinha dormido tão bem na vida. Abrindo os olhos, encontrou uma juba esparramada sobre seu peito, as mechas negras espalhadas por todos os lados, formando halos nas pontas. Leonor o agarrava com muita força para quem estava dormindo, a cabeça sobre seu coração, o braço o rodeando como uma corrente, uma perna sobre as dele. Era muito folgada. Ele só sabia que estava dormindo porque a ouvia roncar. Apertou-a contra si, cobrindo-a mais com as peles para que não sentisse frio.

Não que precisasse fazê-lo, porque acordou várias vezes à noite para ver que estava descoberto. Ela monopolizou todas as cobertas enquanto dormia. Duncan tentou puxar ao menos uma para si, mas ela resmungava qualquer coisa e se enrolava ainda mais, afastando-se dele e levando até os travesseiros consigo. Outra vez, acordou com os pés dormentes de frio e quase caindo da cama. Ela dormia como uma pedra e roubava dele qualquer meio de obter calor. Duncan só foi capaz de conciliar o sono com o dela quando a puxou para si, abraçando-a e cobrindo aos dois com as peles. Então, Leonor se aninhou contra ele e dormiu tranquilamente até agora.

Queria ficar mais um pouco com ela na cama, mas tinha muito a fazer. Hoje era o dia de sair com os homens para caçar e tinham de fazê-lo cedo. Voltaria apenas na outra semana na melhor das hipóteses, e ficar longe dela parecia errado. Não apenas porque conhecera o corpo dela, os prazeres que poderiam dar um ao outro, mas... Sinceramente, não sabia o que havia de errado com ele mesmo. Não queria trabalhar.

O conforto da cama e do corpo de sua esposa eram incomparavelmente melhores que o duro chão do acampamento.

-- Leonor – ele chamou, tentando acorda-la. Nenhuma resposta – Leonor, acorde. – Nada. Balançou-a e ela permaneceu dormindo como uma pedra – Estamos sendo atacados! Levante – Por Deus, nada a tirava daquele sono pesado? Erik também era daquele jeito, mas despertava ante a menção de um ataque – Bessie preparou doces, não está com fome? – e nada de novo.

Cuidadosamente, afastou-se dela e se arrastou para fora da cama. Deixá-la-ia dormir até mais tarde então. Ela merecia, de todo modo, uma vez que a atividade da noite passada foi intensa. Por Deus, seriam todas as vezes daquela forma? Ele também merecia um dia inteiro para dormir, já que ela o ocupou com sua inquietação.

Enquanto ela dormia, ele foi catando cada peça de roupa suja largada no chão, balançando negativamente a cabeça pela bagunça que tinham feito. Dobrou as dela e a colocou sobre a arca ao pé da cama, para logo vestir as dele. Abriu uma arca e tirou um pedaço de linho velho que ele nunca usou para nada. Quando voltou para a cama, Leonor havia desaparecido debaixo das cobertas. Ela realmente era como um gatinho: manhosa, gostava de lugares quentes, folgada... E muito feroz. Não era do tipo de moça que caía aos prantos ante um problema ou que fugia covardemente, tampouco era indefesa. Ele nunca pensou que uma mulher pudesse ser daquela forma, mas assim era a sua inglesa. Afastou as peles que a cobriam e delicadamente lhe separou as pernas. Ela gemeu no sonho, mas não acordou nem quando ele começou a limpar o sangue virginal entre suas pernas. Quando ele tinha cortado o próprio braço para simular as bodas, não fazia ideia da quantidade de sangue e achou que era melhor muito do que pouco. Tinha manchado o lençol, mas pareceu tão escasso que se cortou de novo. No entanto, pelo o que lhe disseram, foi sangue demais.

Passou o linho suavemente por suas coxas e sobre o delicado triângulo de cachos escuros entre suas pernas, ouvindo-a murmurar qualquer coisa ininteligível no sonho.

Fazer amor com ela tinha sido a coisa mais incrível que já lhe acontecera.

Depois de limpa-la, amassou o linho ensanguentado no punho e voltou a cobri-la com as peles. Jogou a prova do que tinham feito noite passada na lareira para que o fraco fogo queimasse até as cinzas. Puxou as botas que tinha abandonado ali perto para calça-las.

Deixaria Erik no comando dos homens até voltar da caçada e pediria a Arian para ajudar Leonor no que ela precisasse, por mais que acreditasse que ela saberia cuidar de tudo sozinha. Antes de se calçar, apoiou uma mão na cama e se curvou sobre Leonor, aproveitando que estava dormindo para depositar um beijo em sua testa.

Como ela não acordou, calçou as botas e se levantou, indo até a parede onde estavam suas espadas e as embainhando nas costas em um X. Sentiu um arrepio na nuca e, instintivamente, virou-se, ao mesmo tempo em que puxava uma espada sobre a cabeça e cortava em dois um... travesseiro? As penas de ganso explodiram ao redor dele, caindo lentamente em espiral, como uma nevasca. Olhou incrédulo para as penas que preencheram metade do quarto e depois para uma Leonor nua e de pé na cama, armada com outro travesseiro contra o peito.

Franziu as sobrancelhas.

-- Você é muito sério – disse ela, fazendo uma careta para as penas que os rodeavam. Saltou da cama graciosamente para o chão. Ele embainhou a espada – Nunca brincou?

-- Não. Não tenho tempo para isso.

Um sorriso travesso repuxou seus lábios com picardia.

-- Oh, que pena – murmurou, lançando-lhe um olhar cheio de inocência – Você não parecia tão ocupado ontem, marido.

Descarada. Sim, era uma palavra que se encaixava perfeitamente bem nela.

-- E que tipo de brincadeira tem em mente, esposa?

Ela mordeu o lábio inferior.

-- Esqueça, você não tem tempo, lembra?

Que Deus o ajudasse. Podia derrotar exércitos inteiros, mas nunca sua própria esposa. Tirou as espadas das costas, deixando-as recostadas na parede e se voltou para Leonor. Como uma leoa espreitando sua presa, ela andou lentamente até ele, fazendo o rebolado de seu quadril distrai-lo de qualquer outra coisa que se interpusesse na missão dela. Olhou-o de cima a baixo sem qualquer pudor e, inconscientemente, lambeu os lábios. Definitivamente, era descarada. E sabia o poder que tinha sobre ele, para a sua infelicidade.

Ela colocou uma mão em seu peito, sobre o coração.

-- Tem roupas demais, marido.

Como se movido por uma força sobrenatural, começou a se livrar de suas vestimentas sem pensar duas vezes. Seu corpo já estava reagindo ante o descaramento dela, fazendo algo entre as pernas dele se erguer como uma espada pronta para ser empunhada. Jogou as peças no chão e logo se dispôs a arrancar as botas. Ela sorriu e se afastou dele lentamente. Duncan a segurou pela mão e a puxou para si, pressionando os lábios sobre os dela.

-- Aonde vai, inglesa?

Ela mordeu seu lábio inferior e se afastou dele quase correndo. Saltou sobre a cama e arremessou o travesseiro nele. Duncan o agarrou antes que o atingisse na cabeça. O que havia de errado com ela, estava louca?

Arqueou uma duvidosa sobrancelha para ela. Leonor apenas riu de forma travessa e segurou o poste da cama, olhando-o sem nem piscar. Dando de ombros, ele também jogou o travesseiro nela. Ela desviou e riu deleitosamente como uma criança. Duncan franziu as sobrancelhas. Não entendia o que ela estava fazendo. Qual era o sentido de jogar travesseiros um no outro?

Leonor revirou os olhos como se estivesse desapontada. Quando ele avançou para ela, ela recuou, até que desceu da cama outra vez, fugindo dele para sua total consternação.

-- Qual é o objetivo deste jogo? – balbuciou ele, o cenho tão franzido que suas sobrancelhas quase se uniam.

-- Jogo? – ela riu – Isso é só diversão.

-- Tenho trabalho a fazer...

-- Sim, você tem e o fará perfeitamente como sempre, mas agora, Duncan McGregor, seu dever é outro.

Ele cruzou os braços diante do corpo.

-- Não entendo isso.

Ela se aproximou dele, ficando tão perto que ele poderia agarra-la e facilmente joga-la na cama. Mas não podia ser brusco com ela, suas costas estavam arranhadas e cheias de hematomas roxos de sua impulsiva ação heroica para salvar John. Olhou naqueles olhos cristalinos que brilhavam maliciosamente e se perguntou o que ela planejava, mas era impossível prever seus movimentos. Ela era intrépida, imprevisível. Indômita.

Leonor estava determinada a fazer aquele soldado sempre sério e rabugento sorrir um pouco, então, movida por sua curiosidade, levou as mãos às costelas dele e começou a mover os dedos. Para sua total surpresa, ele se contorceu, tentando se afastar, mas ela o seguiu, vendo como ele apertava os lábios em uma linha fina. Duncan se contorcia e tentava agarrar suas mãos, até que explodiu em gargalhadas, rindo como uma criança, recuando, mas completamente capturado. A risada era tão nova para ela como era para ele próprio e o som a deixou encantada, embevecida. Rouco, forte. Ela sorriu e riu com ele, fazendo-lhe cócegas, até que ele se chocou contra a parede, rindo e tentando se desviar de suas cruéis mãos de moça.

Oh, o moço tinha uma fraqueza que ela estava muito disposta a explorar.

-- Chega, chega – ofegou ele, agarrando-a pelos pulsos, ainda rindo e sem fôlego. Ainda assim, ela se desvencilhou de seu suave aperto e voltou a atacar, recebendo a resposta esperada: um Duncan que se contorcia e que lutava por fugir de suas garras. Ele ria muito alto. Ela tinha total certeza de que era a primeira vez que aquilo acontecia, que alguém tentava fazê-lo rir e isso a motivou ainda mais. Percorreu suas costelas, subindo e descendo pela cintura, deleitando-se com suas gargalhadas. Ele estava vulnerável, lânguido e com lágrimas nos olhos de tanto rir.

Quando ela lhe deu tempo para respirar, ele demorou um pouco para recuperar o fôlego. Ela abriu um pícaro sorriso e se afastou, vendo como o peito dele subia e descia rapidamente.

Sim, seu marido era muito bonito, ainda mais quando ria e mostrava aquelas covinhas nas bochechas. Infelizmente, ela teria de fazê-lo rir todos os dias agora.

-- O que disse? – ele murmurou sem forças.

Ela corou. Não acreditava que tinha falado em voz alta.

-- Nada – mentiu.

De repente, ele avançou para ela, agarrando-a e virando de costas para ele, imobilizando-a habilmente. Leonor gritou pelo susto, antes de começar a rir e a se contorcer quando ele soprou na linha de sua coluna, bem na base de seu pescoço. Arrepiou-se até a alma.

-- Não! Por favor, aí não! – gritou ela, contorcendo-se em seu abraço. Com um brilho diabólico nos olhos, ele fungou em sua nuca. Ela se contorceu, lutando pela liberdade, mordendo o lábio inferior para não rir, mas era inútil. Como ele descobrira seu ponto débil, onde ela era mais sensível? – Duncan, Duncan... Não! Meu Deus, para!

Ele respirou sobre sua pele, aumentando os protestos dela. Leonor se debateu, pisou no pé dele, rindo incontrolavelmente, arrepiada, contorcendo-se. Duncan era cruel, aproveitando-se da fraqueza dela... Jesus! Ele tocou a nuca dela com a língua e, lentamente, foi descendo pela linha da coluna. Leonor gritou e se arqueou, enrijecida, estremecendo com a sensação de sua fraqueza sendo explorada impiedosamente.

Ele a apertou contra si, fungando em seu pescoço, arrastando-a para a cama.

-- Duncan, eu vou morrer – ofegou ela entre risadas e tremores. Ele passou a língua pela curva de seu pescoço.

-- Não, mo gra, não vai. É apenas diversão, lembra-te?

Por todas as cadelas leprosas do mundo, ele a estava provocando! E o efeito realmente estava deixando-a exaurida de forças e energias físicas, espirituais, psicológicas e emocionais. Desfaleceu nos braços dele, já sem conseguir lutar. Mas isso não impediu que sofresse um espasmo quando ele soprou em seu pescoço. Não sabia se gritava de alegria pela forma carinhosa como ele a tinha chamado ou se gritava por ajuda para ser salva das malévolas garras de seu marido. Tremendo e se convulsionando, foi jogada na cama. Ele caiu sobre ela, imobilizando-a e explorando cruelmente a zona sensível de seu pescoço. Leonor riu e se arqueou, batendo no peito dele, enquanto ele se limitava a sorrir como uma criança psicopata – na verdade, era um belo e pícaro sorriso, mas as circunstâncias do momento a fizeram ver tudo diabolicamente – enquanto a cutucava na cintura. Ela fechou os olhos e riu, arfando, sem fôlego e morta. Seu estômago doía pelas gargalhadas incessantes.

-- Eu morri – retrucou ela, buscando dramaticamente o ar pela boca. Quando Duncan se afastou um pouco para olhar sua vítima, Leonor rapidamente deslizou por seu braço, desvencilhando-se da mão que tentou agarra-la. Correu para longe da cama, rindo e sem qualquer reserva de ar nos pulmões. Seus joelhos tremiam.

Ele a tinha matado. Pobrezinha dela. Depois de perder a virgindade, foi assassinada pelo marido. Realmente morreu de tanto rir. Leonor tinha pena de si mesma. Não importava quantas vezes respirasse, jamais se recuperaria da crueldade dele ao fazê-la rir descontroladamente. Mas seu espírito voltara por vingança. Sorrindo como um demônio, ela moveu os dedos no ar, vendo como ele se levantava.

Aquilo não ficaria impune. Ah, não mesmo. Ela empregaria sua vingança para descansar em paz. Assim que ele se voltou para ela, Leonor disparou em uma carreira louca e se lançou em um mergulho sobre ele, agarrando-o com as pernas e os braços. Os dois foram arremessados sobre o colchão pelo impulso dela e ouviu-se um estalo. De repente, a cama cedeu e eles desabaram direto para o chão. Leonor explodiu em gargalhadas e surpreendeu-se ao olhar para baixo e ver que seu marido também tremia de tanto rir. Ela caiu sobre ele, sendo sacudida pelos movimentos da barriga dele, o que a fez rir ainda mais.

Por todos os deuses, eles tinham quebrado a cama.

-- Eu não acredito nisso – riu ela, o cabelo caindo como um véu ao redor deles, isolando-os do mundo.

-- A cama era velha – ele colocou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha – E a culpa é sua, moça, quebrou nossa cama.

-- Minha? – ela se fingiu de ofendida – Você que é muito pesado!

-- Claro que não. A cama não foi feita para uma guerra, sabia?

-- Não foi uma guerra, foi uma brincadeira. E a culpa é sua por ser tão grande. Eu estava pensando em invadir seu quarto e toma-lo para mim, porque sou uma cruel conquistadora, mas já não vale a pena. Você quebrou a cama!

Repentinamente, a porta se abriu com um baque e Leonor se esticou para ver o que demônios estava acontecendo. Sua boca caiu ao ver dez criadas armadas com colheres, panelas e facas, acompanhadas de Seamus e mais outro homem, invadindo o quarto. Eles perderam a cor ao ver Leonor sentada escarranchada sobre Duncan. Ambos nus, rodeados de peles e em uma cama partida em duas, os postes se unindo em uma pirâmide, as cortinas quase soltas. Duncan reagiu mais rápido que ela, puxando uma das peles para ocultar sua nudez. Tirou-a de cima de si, sentando-a no colchão e a colocando atrás de si, nenhum pouco envergonhado por estar nu. As mulheres escancararam as bocas, os olhos estufados.

-- Que demônios fazem aqui? – rugiu Duncan e elas recuaram. Os homens, tremendo, engoliram em seco, alternando o olhar entre ela e o chefe do clã, como se buscassem alguma mancha de sangue ou alguma parte do corpo dela que fora arrancada. Leonor os olhou tão constrangida, que nunca rezou tanto para achar um buraco onde enterrar a cabeça.

-- Nós... Quero dizer... As mulheres... – gaguejava Seamus, vermelho até a raiz dos cabelos ao encarar Leonor. – Todos ouvimos gritos e... As mulheres se preocuparam pela senhora e... Perdão, meu senhor, tememos pela segurança da moça e... e... Íamos embora, mas ouvimos um estalo e um barulho e viemos ver...

-- Se eu não a tinha matado? – grunhiu Duncan com ferocidade, completamente diferente de poucos minutos atrás. Era incrível a velocidade com a qual ele mudava de humor. – Minha esposa está perfeitamente bem. Agora saiam daqui.

Eles deram uma última olhada nela. Leonor sorriu timidamente e anuiu com a cabeça para relaxa-los. Viu um leve brilho de reconhecimento nos olhos de Seamus, mas ele se retirou com a comitiva que veio em seu socorro. Quando a porta se fechou, ela suspirou aliviada.

Não acreditava que tinham vindo em seu socorro. Aos poucos, ela finalmente vinha conquistando seu espaço em Dragon Seafront Castle, e saber que a criadagem e os soldados se preocuparam com a sua segurança a deixou muito feliz. Sorriu como uma parva, completamente boba.

-- O que fez com eles? – disse Duncan, olhando-a por sobre o ombro – Parecem cachorrinhos.

Ela deu de ombros com fingida indiferença.

-- Meu carisma deve ter influenciado positivamente – brincou ela, recostando-se no colchão que fazia um U muito estranho debaixo deles. Acomodando-se em seu lugar, Duncan se sentou ao lado dela, cruzando as pernas. Olharam-se por um longo momento e ela acabou por sorrir timidamente, as bochechas adquirindo um leve tom rosado. – Certa vez, um guerreiro chinês me disse que só se pode conquistar um cão ferido com amor e paciência. Eu e Mary seguimos seus conselhos como se fosse uma doutrina.

Os olhos dele brilharam de interesse.

-- Ele te treinou?

-- Sim. A mim e a Mary. Ele estava apenas viajando, conhecendo novas artes marciais... Minha mãe tinha acabado de morrer. Ele viu que nos interessávamos pelas batalhas e que meu tio tentava nos ensinar, então, prometeu que nos ensinaria a lutar como os guerreiros chineses em troca de estalagem. Ficou conosco por uns anos, até que partiu. Nunca soube para onde ele foi. Eu tinha ganhado um torneio e estava indo contar a ele quando descobri que se foi. Meu Deus, ele era muito sábio. E o que ele sabia... Juro, não havia como ele ser humano. Era simplesmente incrível. Conheci armas estranhas e que pareciam inofensivas... Acredita que um leque pode matar?

-- De você, esposa, não duvido nada. O que mais ele ensinou?

-- Medicina. Como matar sem necessitar de armas, os pontos de energia do corpo, os vazios, as fraquezas e as forças do ser humano... De início, não acreditei nele, mas quando matei pela primeira vez – estremeceu – Estou te chateando?

-- De forma alguma. Como foi a primeira vez que matou?

Leonor levou os joelhos ao peito, encolhendo-se pela lembrança.

-- Fui treinada para não hesitar, mas a teoria é muito diferente da prática. Meu tio me fez praticar com passarinhos primeiro, depois com galinhas... E me mandava caçar. Mas matar um animal não é o mesmo que matar uma pessoa, então... Eu vomitei, mas ninguém sabe disso. Sempre gostei de cavalgar, então, tinha acabado de deixar Vento Selvagem em sua baia, quando um cavalariço novo que bebeu demais entrou no estábulo e tentou me agarrar. Tentei deixa-lo inconsciente, mas fiquei com muito medo e ele se enfureceu e me bateu e eu... Cortei sua garganta com minha adaga.

-- Fez bem, moça – Duncan colocou a mão em seu ombro e deu um leve aperto, como se conhecesse o tipo de sentimento que atordoava uma pessoa naquela situação desesperadora. Ao contrário do que ela esperava, não havia repulsa ou deboche em seu olhar, mas uma crua admiração que a encheu de orgulho. Ele não se importava se ela era uma guerreira, se já tinha matado, se, como mulher, estava exercendo a ocupação errada. Ele estava orgulhoso dela por ela ser capaz de defender a si mesma com valentia.

-- Como foi a sua primeira vez?

Se possível, os olhos dele se tornaram ainda mais escuros e ela viu o tique de irritação em sua mandíbula.

-- Não quero falar sobre isso.

Ceeeeerto. Ela respeitaria seu espaço, mas não por muito tempo.

Forçou um sorriso.

-- Seu povo precisa te conhecer, sabia? – disse mudando drasticamente de assunto – Você se mantém muito distante deles e dá margem para que acreditem nos boatos. Tente relaxar e conhecê-los também.

-- Eu nunca precisei provar nada a ninguém, moça.

-- Então o faça agora. – ela disse com convicção, olhando-o nos olhos – Mostre que eles podem confiar em ti.

-- Você é estranha, esposa – ele disse suavemente – Mas é ardilosa e eu gosto disso.

Ela enrubesceu como nunca o havia feito na vida.

-- Obri... Obrigada. – gaguejou. Teria estado menos surpresa se ele a tivesse chutado na cara.

Vendo seu desconforto pelo repentino elogio, os lábios dele se repuxaram em um meio-sorriso malicioso e, segurando-a pelos ombros, lentamente foi deslizando a pele para baixo, os dedos lhe acariciando os braços. Ela sorriu libidinosamente e lambeu os lábios, já arrepiada de expectativa.

-- Então, minha inglesa – ele murmurou, a voz rouca e extremamente sensual, em um tom baixo e grave, aproximando a boca da dela – Ainda não me disse por que me queria nu.

-- Dizer? – ela capturou o lábio inferior dele entre os dentes – Tem certeza de que quer conversar, Duncan?

-- Agora não.

E a beijou apaixonadamente.

Leonor desceu para o salão após banhar-se com seu marido – e fazer amor mais uma vez, porque eles pareciam dois gatos no cio: completamente insaciáveis – para tomar o desjejum e se surpreendeu ao notar a balburdia que estava o castelo. As criadas corriam de um lado a outro, apressadas, levando suprimentos em bolsas de couro para o barmkin, enquanto os homens se armavam e reuniam os escudeiros, mandando que preparassem os cavalos. Ela era ignorante, não abestada, então não lhe custou pressupor que se preparavam para partir.

Seu marido também não lhe contou nada. Sim, a comunicação entre eles ia de cem a mil. Ela: falava por dez comadres da corte. Ele: nada a declarar. Mas ao menos ele já era capaz de trocar uns monossílabos com ela, era uma evolução.

Os criados lhe lançavam olhares estranhos, quase constrangidos, baixando a cabeça quando ela passava. Leonor não se recordava de ser tão intimidante. Ela era inglesa, intrépida e – provavelmente – briguenta, mas nunca tinha recebido tal reação. Ignorando a balbúrdia em Dragon Seafront Castle, seguiu rapidamente para a cozinha, onde estava ainda mais agitado. Bessie foi a primeira a lhe desejar um envergonhado “bom dia”. Leonor pegou um crocante pão recém-saído da fornalha, mordendo um pedaço.

-- Está bem, minha senhora? – ouviu a voz de Catriona por sobre o ombro da mulher que fazia os melhores doces do mundo. Leonor franziu o cenho em confusão. Tinha quase toda a atenção da cozinha posta em si.

-- Sim – respondeu, sem exatamente saber como dirigir o assunto. Todos pareciam desconfortáveis, o que a deixou apreensiva – Muito bem – reforçou. Houve um suspiro em conjunto de alívio.

-- Tem certeza? – Tess lhe segurou as mãos entre as suas – Absoluta?

-- Sim.

-- É admirável que esteja viva após ele ter afogado o ganso com tanta raiva como estava ontem – comentou sua donzela e os criados na cozinha assentiram com a cabeça. Leonor fez uma careta. Afogar o ganso? O que significava aquilo?

Sua mente girava com desconcerto e confusão.

-- Nós não afogamos nenhum ganso – garantiu com convicção. Algumas mulheres fizeram caretas, outras lhe lançaram um olhar penoso e os homens baixaram as cabeças, negando silenciosamente, como se reprovassem algo. Pois bem, ela não estava entendendo nada.

-- Oh, pobre moça – disse-lhe Catriona amavelmente – Pensei que o pescoço do ganso dele fosse gigante, mas parece que é pequenino, para deixa-la tão insatisfeita.

Do que estavam falando?

-- Não compreendo...

-- Cat está falando dos dotes de seu marido, minha senhora – murmurou Annie com curiosidade. Lentamente, as palavras foram penetrando a densa bruma de sono e confusão. Afogar o ganso era... As bochechas dela arderam como se fossem explodir, esquentando até que toda sua face estava incrivelmente avermelhada de vergonha. Deus, que grande vergonha!

Seria muito tarde para procurar um buraco onde enterrar a cabeça?

O que havia feito noite passada?

Todos a inspecionavam tão meticulosamente, que não seria surpresa alguma se se enchesse de buracos. Procuravam horrendas feridas pós-sexo com seu marido sinistro – para os outros, porque ele era encantadoramente irritante para ela e não descansaria até ter o amor daquele ilhéu – ou a ausência de alguma parte de seu corpo. As únicas dores que a acossavam eram na cabeça e nas costas machucadas. Fora isso, Duncan a tratara amavelmente, levando em consideração seus medos e prazeres.

-- Estou bem – forçou um sorriso tranquilizador – Meu marido é gentil.

Silêncio.

-- Senhora – Annie disse como se ela fosse louca, demente, acéfala como uma pedra – Não precisa defendê-lo, conhecemos sua reputação.

Claro que não.

-- Estava ébria, como pode se lembrar de algo? – replicou Tess com uma careta de desprezo e raiva contidos – Ele a levou como se fosse sua rameira.

Não gostava nem de longe que falassem mal dele, ainda mais quando era tão injustamente.

O instinto de proteção borbulhou em seu interior.

-- Não transforme as coisas – disse duramente a Tess, fazendo-a arregalar um pouco os olhos, pois não estava acostumada a receber tal tratamento seco – Duncan é muito bem dotado – corou ainda mais – E me tratou com muita gentileza. Não quero ouvir ninguém falando da constituição dele.

Sem dúvida alguma, muito bem dotado...

-- E eu achando que ele escondia bananas nas calças.

Leonor pulou como um gato ao ouvir uma voz atrás de si. Virou-se quase com um chiado, deparando-se com a muralha ruiva que era Erik Ferguson. Ele a olhava com divertimento, mas sua mandíbula mostrava sinais de tensão, como se não estivesse tendo um dia muito alegre. Ela sentiu o coração cair aos pés ao perceber o que acabara de dizer e o quanto ele certamente ouvira. Um dia, a língua dela a mataria.

Recuou por constrangimento, quase esbarrando em uma Bessie exageradamente preocupada. Por algum estranho motivo, as pessoas pareciam acreditar que ela estava danificada, como se Duncan não tivesse feito amor com ela, mas realizado uma brincadeira sádica, cortando-a em rodelas para fazer uma sopa de esposa inglesa. Bom, eles acreditavam que ele comia criancinhas então... Uma esposa poderia ser aderida ao seu regime.

Ela já deixara a língua solta por tempo demais, era hora de acordar de seu estado letárgico de sono e começar a trabalha como bem lhe incumbiram. Ergueu o queixo altivamente para o escocês, desafiando-o a desafia-la, ordenando silenciosamente que se calasse. Ele estava se burlando dela, sabia disso, mas os criados falavam asneiras demais e seu marido já possuía uma dura reputação para zelar, não precisava de mais nada.

E pelo o que estava percebendo, ela falara demais noite passada. Deus, o que fizera?

-- Meu marido não precisa disso – retorquiu Leonor, olhando-o de cima a baixo com zombaria – Mas você deveria seguir seu próprio conselho, senhor. Talvez as bananas lhe conviessem, de fato.

Como se ele precisasse. O homem era simplesmente fenomenal, como se Deus tivesse acordado inspirado e de bom humor e tivesse decidido criar a perfeição em carne e cabelos de fogo. Definitivamente, ele não precisava de bananas, mas era seu dever defender a honra de Duncan. Só ela poderia xinga-lo ou ameaça-lo de morte, ninguém mais.

-- É uma criaturinha viperina – disse ele tranquilamente, sem abandonar o ar travesso e descontraído que o rodeava como um manto de vitalidade e diversão – Lady Mary me disse que era como um gato, mas não achei que realmente possuísse garras.

-- É um néscio. – ela mordeu o pão, dando-lhe as costas para encarar Bessie – Bessie, por favor, vamos discutir o que podemos fazer para o almoço?

-- E o seu desjejum, minha senhora? – perguntou Annie, lançando um rápido olhar para Erik. Leonor podia jurar que a moça babava só de vê-lo.

-- Depois eu como – respondeu, dando outra mordida no delicioso pão de Catriona – O que temos na despensa?

-- Ainda há pescado, mas é pouco e a carne acabou. Há pouco cordeiro também.

Leonor ponderou. Muitas bocas para alimentar com pouca comida.

-- Faça um cozido e uma sopa – disse por fim – Com pão e hidromel, ficarão cheios até a caçada.

-- Os homens estão partindo agora – murmurou Catriona – Vão passar a semana caçando nas montanhas, talvez consigam um urso.

-- Mas até voltarem – disse Bessie austeramente – vamos nos arranjar com o que possuímos. Mais tarde, Lady Mary vai conduzir um grupo de moças para recolher frutas e ervas na floresta.

-- Sem escolta? – Erik arqueou uma sobrancelha duvidosa.

Leonor sorriu, orgulhosa da criação que tiveram.

-- Sim – anuiu solenemente, mas logo uma ideia curiosa a distraiu de provoca-lo um pouco mais. Se os homens estavam partindo para caçar, por que Erik estava parado diante dela, conversando sem pressa de partir? Vestia seu kilt e calçava botas, mas não estava com o manto de pele que o esquentaria durante a viagem ou um arsenal adequado para derrubar um dinossauro. – Erik, não deveria estar com os outros?

Ele deu de ombros.

-- E perder as emoções do castelo? – negou com a cabeça, os cabelos se agitando com seus movimentos – Não. Ficarei para cuidar das moças, sabe? Há muitas donzelas que precisam de um príncipe e seria muito cruel de minha parte negar-me a uma delas.

Era uma criaturinha arrogante, cujo ego deitava nas nuvens e brincava com as estrelas. Irremediável, provavelmente. Deus caprichou tanto em sua aparência que devia ter se esquecido de lhe colocar humildade.

-- Se o diz – foi a vez dela de dar de ombros com indiferença.

-- Prepararei algo para o seu desjejum – disse Bessie com um caloroso e breve sorriso – Tem certeza de que o senhor não a machucou? Todos estamos dispostos a protegê-la, minha senhora.

-- Obrigada, mas estou realmente bem. Dê uma chance a ele, Bessie, verá que é um bom homem.

-- Duvido muito, mas pensarei sobre isso.

Quando a criada se retirou, Leonor caminhou para a sala, disposta a ver o que faltava fazer no castelo. Queria conhecer cada torre e andar, até mesmo as masmorras e a sala de armas. Erik parecia muito íntimo de Duncan para ser um desconhecido, então talvez soubesse algo sobre a planta de Dragon Seafront Castle. Se fosse útil, ela o faria guia-la por cada centímetro dali. Sentou-se elegantemente à mesa. Drustan passou correndo com Gengis Khan a seus talões, brincando alegremente sem nada realmente ver ante seu nariz, perdido em suas traquinagens de menino. Arian passou correndo para o barmkin, parecendo bastante atarefada com a cesta pendurava na curva interna do cotovelo. Drustan sorriu para Leonor e se aproximou, a bochecha suja de terra.

-- Leonor! – disse ele, saltando sobre ela, rodeando seu quadril com os bracinhos de menino. Sorrindo, ela revolveu seu escuro cabelo, recebendo tímidas maldições em resposta – Leonor, fala com o maninho!

-- Sobre o que, carinho?

-- Ele não quer que eu vá caçar, mas eu já sou homem. Quero ir com ele – choramingou Drustan. Como se soubesse do que se tratava, o pequeno lobo gemeu a seus pés – Posso abater o mais feroz dos javalis, juro!

-- Sei que sim – ela disse amavelmente. Na idade dele, já caçava e não se importava nenhum pouco com isso. – Mas seu irmão lhe deu um serviço, mais importante, não vê?

Drustan franziu as sobrancelhas.

-- O que pode ser mais importante que caçar? – perguntou ele.

-- Proteger o castelo. Quer que sejamos atacados sem que haja um feroz guerreiro para nos proteger?

-- Eu não tinha pensado nisso. – admitiu Drustan contrariado – Tem certeza?

-- Sim. Ele deixou seu melhor guerreiro para nos proteger.

-- E o Erik?

Com um sorriso perverso nos lábios, Leonor lançou um olhar sardônico para o ruivo, que estava no marco da porta da cozinha, bebendo algo em uma taça de ferro. Ele arqueou uma duvidosa sobrancelha para ela antes que ela se voltasse para o pequeno.

-- É seu subordinado – ela disse – Está aqui para obedecer suas ordens.

Erik engasgou, quase cuspindo o que bebia, tossindo ao ouvir o que ela acabara de dizer. Olhou-a com incredulidade, como se lhe custasse absorver as palavras. Agora ele teria de entrar no papel e se submeter aos desejos do menino, a não ser que possuísse melhores argumentos para escapar de seu novo dever.

Drustan sorriu de orelha a orelha, empolgado com o fato revelado. Oh, Erik não poderia lhe partir o coração, não é?

-- Fala sério? – disse o menino claramente animado, alternando o olhar entre eles – Erik vai me obedecer?

-- Sim.

A julgar pela expressão do montanhês, era como se ela o estivesse condenando à forca. Mas tudo bem, o problema era dele, não dela.

-- Leonor, me ensina a usar uma espada?

-- Seu irmão não está fazendo isso?

-- Não, ele disse que sou muito novo para erguer uma espada. E eu não posso proteger o castelo se não sei usar uma espada.

Droga, era um bom argumento.

-- Pensarei sobre isso – lhe disse – Por que não vai brincar um pouco até o almoço? Seu parceiro – sinalizou para o lobo – está sozinho.

Ele ponderou.

-- Tá bem.

Drustan saiu correndo. Imediatamente o lobo o seguiu a trotes velozes, abandonando o salão. Erik se aproximou, olhando-a de igual para igual.

-- Vou me lembrar de tomar cuidado com as moças inglesas – ele disse em um tom descontraído.

-- Muito sábio, senhor – ela respondeu, dissimulando um sorriso travesso – Então, ficou para trás também?

-- Claro. E perder as fofocas das moças? – negou com a cabeça.

Os dias foram passando lentamente, os deveres aumentando e pesando em seus ombros. Foi dezenas de vezes com Arian para a aldeia para resolver problemas ou ajudar a tratar doentes e fazer partos. Estava mais familiarizada com os soldados e os aldeões, sabia os nomes de cada um, conhecia suas famílias. Vez ou outra, dizia a Erik o que poderia fazer no treino dos homens, o que resultava em uma careta e dez minutos de resmungos, mas ele a escutava. Sabia que a opinião dela era para ser levada em conta, uma vez que era a senhora de Dragon Seafront Castle, mas não tinha muita fé nas habilidades dela como guerreira. Porque era uma mulher. E sempre se oferecia para acompanhar Mary à floresta quando sua prima ia com as mulheres recolher frutas e ervas, ou falar com os aldeões sobre o pescado. Dizia que uma moça não deveria se arriscar e blábláblá. Ele se preocupava com elas e, Deus, o homem sabia como fazer qualquer um rir até chorar.

Houve noites em que jantaram todos juntos e Erik desembestou a tagarelar histórias e mais histórias de sua vida e a forma com a qual narrava os acontecidos quase a fez chorar de tanto rir. Ele encontrava humor em tudo, até mesmo quando contou que foi perseguido pelo marido de uma de suas amantes. Erik terminou cavalgando nu pelas highlands até encontrar as terras de Niall Ashenbert, onde foi acolhido. E vestido.

Erik se responsabilizava pelo treino dos homens e ganhara Drustan como sombra. O menino o seguia a toda parte, ordenando-lhe que o ensinasse a lutar. Erik segurava um galho na maioria das vezes e lhe mostrava uma ridícula sequência de movimentos.

Tudo estava tranquilo e a semana, graças a Deus, estava acabando. Logo Duncan estaria de volta, para a sua alegria. Ela tinha passado os últimos dias arrumando as torres e os outros andares, inclusive mandou que consertassem a cama dele para quebrarem de novo em outra ocasião.

O castelo estava mais cheio, os aldeões se encorajavam a visita-la, fosse para pedir auxílio ou simplesmente ajudar em algum pesado serviço. As mudanças que fizera foram poucas e estava tentada a arrancar dali a maldita tapeçaria com o retrato bordado de Lachlan McGregor. Sempre que olhava para seu rosto diabólico, sentia vertigens, um enjoo agonizante. Seu coração parecia gelar no peito, porque sabia que aquele era o rosto de quem havia matado seu pai. Sua família. Fazer as refeições olhando para aquela face aterrorizante a deixava assustada, congelada no assento como se temesse que ele voltasse para mata-la e extinguir os Knightley de vez.

Sempre que olhava para aquela tapeçaria, pensava que era uma traidora, porque escolhera Duncan no lugar de seu sangue. Traiu a confiança deles, traiu seu legado, traiu tudo, apenas para tentar ser feliz com seu marido. Mas olhando para Lachlan McGregor, quase podia ouvi-lo rir, burlando-se dela, de sua tolice sentimental de mulher. E se lembrava de que tinha se rendido ao filho dele.

Ela não se arrependia do que tinha feito e o faria de novo, quantas vezes desejasse, mas isso não tornava sua situação mais amena. Na verdade, parecia pior. Que Deus tivesse piedade, porque ela não aguentaria viver com o fantasma de Lachlan McGregor lhe soprando o ouvido.

Mordeu o lábio inferior. Talvez Duncan ficasse com muita raiva por ela querer se livrar da tapeçaria do pai dele, ela também ficaria se fosse o contrário, mas aquele retrato sinistro tinha uma aura pesada, opressiva, atroz. Algumas coisas tinham de mudar, certo? Ela superou o passado por ele e era a vez dele de superar por ela. Senão... Paciência.

Duncan estreitou os olhos. A floresta estava silenciosa e quieta, o que era muito estranho. Apontou a flecha para o cervo que pastava tranquilamente na relva dos pastos montanhosos, regulando a própria respiração, expulsando qualquer pensamento que pudesse alterar o resultado almejado. Iain partira com outro grupo para mais abaixo. Depois de tantos dias caçando, logo poderiam retornar para o castelo. Disparou a fecha. A seta cortou como um raio por entre as árvores, cravando-se entre os olhos do animal assim que este ergueu a cabeça para saber de onde vinha o ruído. Quando o corpo caiu inerte no chão, Duncan ousou se aproximar, guardando a aljava nas costas com o arco. Queria ter capturado um urso, mas não encontrara nenhum. O inverno já batia nas portas de seu castelo e necessitaria de mais peles e mais carnes.

Jogou o cervo por sobre o ombro. Seus homens estavam dispersos em grupos, caçando e recolhendo. Encontravam-se ao anoitecer para acampar e contar as provisões. Tinham o suficiente para o inverso, ainda mais se contassem com o pescado. As ovelhas também estavam dando muita lã e a turfa para ser queimada tinha mais do que o que careciam. Demoraria dois dias para descer as Cuillin Hills para Dragon Seafront Castle e ansiava se juntar a sua indômita inglesa.

Deus, só de pensar nela aquela sensação irritante em seu peito despertava, revolvendo-se alegremente.

Arrastou o cervo até seu cavalo, jogando-o sobre o lombo do corcel e usando uma corda para prendê-lo à cela. Enquanto o amarrava, pensou distraidamente em como a vida era uma fodida droga, porque tudo para ele sempre deu errado. Seu pai violou sua mãe. Ela o rejeitou. Ele o rejeitou. Foi criado como cão pelos ingleses, até que obteve idade suficiente para escapar. Seu pai era uma criatura hedonista e abusiva, que o fez ser a criatura mais desprezível como homem. E agora não sabia como retribuir o amor de Leonor.

Sério que estava pensando sobre sentimentos? Em que tipo de parvo ela o transformou? Estava todo bobinho pela inglesa. Que ridículo.

Subitamente, um arrepio de apreensão deslizou por sua coluna. Franziu o cenho profundamente, ficando tão alerta que até uma folha caindo o faria desembainhar as espadas. O silêncio que perdurava como um manto isolante o deixou em guarda. Não era normal tamanha quietude. Seu cavalo agitou a densa e negra crina, mostrando-se igualmente inquieto. Como se pressentisse algo, Duncan puxou as espadas gêmeas das bainhas presas à sela do cavalo e girou nos calcanhares, empunhando uma das lâminas. O tinido metálico pareceu ecoar por toda a relva montanhosa. Olhou para seus pés, deparando-se com o mesmo tipo de agulha que lhe acertara as costas.

Estranho. Muito estranho. Queriam matar Leonor, então... Por que estavam disparando nele? Uma raiva fria o consumiu. Lembrava-se perfeitamente da dor de cada ferida em sua carne e odiava quem quer que as tenha infligido por ter podido ser em sua esposa. O que ele sofreu era para ela. Uma mulher que não estava acostumada com a guerra, mas que fora forte o suficiente para costurar a própria ferida. Apenas um soldado conhecia a dor de ter uma maldita agulha lhe costurando a pele, estando sóbrio ou ébrio. Se pudesse, derrubaria todas as árvores da floresta apenas para revelar o filho de uma cadela leprosa que lhe atirara a agulha estranha.

Mais uma vez movido por seus instintos, movimentou a espada em um corte vertical no ar, barrando outra agulha. As localizações tinham mudado. A primeira viera do noroeste e a segunda do sul. Não era apenas uma pessoa. Teve vontade de sorrir como um demônio. Oh, uma matilha de cadelinhas leprosas! Que gracinha. Divertir-se-ia muito matando cada um deles. As agulhas foram lançadas por todas as direções simultaneamente, voando para ele. Rápido e letal como um berserker, moveu as claymores habilmente, defendendo-se como um possesso. Uma agulha lhe perfurou a coxa e ouviu o relincho de seu cavalo quando também foi atingido. Não havia tempo para se preocupar com nada mais que salvar a própria pele.

Erik provavelmente estaria rindo e provocando, vociferando bobagens para distrair os inimigos, para irrita-los e fazê-los se revelar, dando-lhe a visão necessária para o confronto. No entanto, o estilo de Duncan era mais silencioso, sem troca de palavras com a pessoa que logo teria a cabeça quicando no chão.

Sua defesa não era perfeita. Sentiu uma quente espetada no ombro, outra na canela esquerda, outra passando de raspão por sua bochecha. Seu cavalo também estava sendo atingido, apesar de estar protegido pela armadura negra. Inferno, odiava lutar as cegas.

O bom de ser criado por ingleses era aprender que a dor pode ser suportada com o manejo de seu psicológico. Com o sangue fervendo em gelo, Duncan mal sentia o efeito da droga em seu corpo ou a dor das agulhas na carne. Sabia que não podia morrer até provocar Leonor outra vez – seu lado ridículo se afeiçoou a ela, a ponto de achar formosa sua face enraivecida e encantadora sua face apaixonada. Ou seja, não podia morrer e ponto. Determinado e com um objetivo em mente, caiu de joelhos na relva, ameaçando tombar para frente, os braços caídos ao lado do corpo. Agulhas lhe atingiram no peito, nas pernas, no estômago, perfurando cada ponto de seu corpo, até que os disparos cessaram.

Tudo doía horrivelmente. Se lhe tivessem atravessado uma estaca no traseiro estaria doendo menos, disso tinha absoluta certeza. A visão estava turva, mas nada que não pudesse aguentar. Era um homem de constituição grande e acostumado ao pior, então não seriam aqueles palitinhos envenenados que o derrubariam. Seria uma vergonha, uma desonra. E que demônios lhe passava para pensar em Leonor quando estava sendo assassinado? Aquela bruxa o tinha enfeitiçado até na hora de morrer.

Praguejando entre dentes, tentou manter os olhos abertos. Viu uma leve movimentação entre as árvores. Ouviu pés esmagando a relva, aproximando-se. Quem quer que fosse não era grande e corpulento, mas esquálido e totalmente vestido de negro, como se fosse uma camuflagem. A coisinha se manteve longe dele, observando-o, estudando-o, sem pronunciar uma única palavra. Duncan quase caiu, mas recusava-se a ficar de quatro. Assim como uma Knightley jamais baixava a cabeça ante um McGregor, um McGregor nunca se rebaixava a ser nenhum. O orgulho o mantinha de pé. Um desgraçado orgulho que sequer deveria ter se levasse em conta seu passado, mas era isso o que travava seu corpo naquela humilhante e letárgica posição.

A coisinha se aproximou um pouco mais, examinando-o. Duncan ergueu o olhar para o homenzinho. Esquálido. Tinha uma espécie de cilindro de madeira nas costas e uma coleção ridícula de palitinhos envenenados em um cinto em seu quadril e atravessando o peito. Aqueles brinquedinhos eram capazes de abater um homem, era impressionante. E irritante também. O homenzinho tirou de um alforje uma lâmina banhada em um creme estranho e odorífero, apontando a ponta da folha para o coração de Duncan.

Venha, bastardo, perfure o que não há aí, espetou sua mente aguçada, apesar de lenta pela droga. Esperou com a mesma paciência de um urso que aguarda o momento oportuno de descer as garras e capturar sua truta. Quando o homenzinho deu outro passo adiante, crente de que Duncan estava completamente torpe e inválido, Duncan rosnou bestialmente e se lançou para cima, empunhando as espadas como um dragão destruindo uma aldeia. O inimigo, pego de surpresa, recuou com um salto, mas a lâmina lhe cortou horizontalmente o ventre, perfurando o tecido escuro de seus trajes. Sem lhe dar tempo para usar a adaga, desceu a outra espada de cima para baixo, cortando o gorro que lhe cobria o rosto o suficiente para ver sangue em sua arma. Oh, as coisas estavam melhorando. Todo o seu corpo estava pesado, os pés sendo arrastados dificultosamente, mas ainda podia lutar. Ainda podia vencer. Os companheiros do infeliz lançaram agulhas em suas costas, mas Duncan as ignorou. O esquálido se lançou para ele, tentando feri-lo com a adaga gotejante de veneno. Duncan o chutou no estômago para manter distância e avançou pesadamente, por pouco não decapitando a maldita cabecinha do bastardo, que recuava a cada segundo. As espetadas em sua carne se intensificaram, mas ele não se deteria até matar o maldito que ameaçara a vida de sua mulher.

O homenzinho girou nos calcanhares para lhe dar um chute. Com as duas mãos ocupadas, só pode tentar lhe arrancar a perna com a espada. No entanto, parecendo prever seus movimentos, a criatura desistiu do movimento e ergueu a adaga direto para seu peito.

Leonor viu com certo alívio a tapeçaria de Lachlan McGregor indo embora. Seamus e Ian carregavam a maldita peça para a torre oeste, onde seria guardada – leia-se: escondida – em um cômodo não usado para nunca mais ser visto. A parede ficou com aquele vazio, mas logo seria preenchido pela tapeçaria que Mary estava costurando – ela pedira a Leonor para manter distância do tecido até este estar pronto. Até os criados pareciam absurdamente aliviados ao não ver mais aquela coisa horrorosa pendurada no salão.

Sem aquilo, não só ela, mas todos ali respirariam mais tranquilamente. Inclusive seu marido, que parecia ser perseguido por uma sombra. Sempre com aquele olhar de quem espera rejeição. Bom, ela consertaria o que fosse possível.

-- O que está fazendo? – a voz de Arian a deteve a meio caminho do barmkin. Voltou-se para a ruiva, a ponto de sorrir, mas a mulher parecia furiosa. Olhava para o local onde a tapeçaria do monstro deveria estar com desassossego, quase transtornada. Leonor resistiu ao ímpeto de arquear uma sobrancelha e responder com soberba. – Cadê a tapeçaria do meu pai?

-- Mandei que tirassem – respondeu impassível, avaliando a reação da irmã de Duncan. Ela se voltou para Leonor com lágrimas nos olhos.

-- Não podia fazer isso! Era meu pai!

Claro que podia, era a senhora do castelo.

-- Ele destruiu minha família – Leonor respondeu suavemente – Sinto muito – mentiu – Mas não vou ficar olhando todos os dias para o rosto de quem matou meu pai.

-- Onde colocou a tapeçaria?

-- Guardada.

-- Diga-me!

Um tique raivoso pulsou no pescoço de Leonor. Odiava receber ordens, tanto de homens como se mulheres, mesmo quando tentava ser compreensiva com Arian.

Dando-lhe as costas para evitar uma briga, caminhou forçadamente com tranquilidade para o pátio, onde os homens treinavam com Erik e Drustan brincava de ser seu escudeiro. Já haviam se passado mais três semanas depois de a semana em que Duncan partira. O sol banhava agradavelmente Dragon Seafront Castle em seus últimos dias, pois muito logo o inverno os castigaria com seu gelo por vários meses. As chuvas estavam se tornando mais comuns, o tempo esfriando como um sopro gélido em sua nuca, raras vezes caindo neve. O inverno em Skye era como as terras do norte das quais ouvira falar, tão frias e brancas que até o mais resistente dos guerreiros se dobrava ante o castigo divino. Os preparativos para aguentar ao frio longo já estavam em andamento, acumulando mantimentos, peles, levando sacas de grãos para uma torre, juntando turfas e madeiras, adaptando os estábulos para receberem os animais.

Erik criara diminutos grupos para supervisionar as fronteiras de Trotternish, percorrendo as terras McGregor em todos os pontos cardiais, caso um ataque surpresa acontecesse. Os McLeod e os McDonald não eram de confiança e podiam aproveitar facilmente a ausência de Duncan para tomar conta de Dragon Seafront Castle. Reforçara a defesa na muralha e treinava o dia inteiro, do amanhecer ao anoitecer, com os homens. Leonor sentia uma estranha excitação perto dele, o tipo de ansiedade que só tinha quando queria lutar contra um formidável inimigo. E era isso o que ela queria: treinar com ele.

Inferno, mulher não podia. Era subjugada. Ele com certeza teria um surto de cavalheirismo do tipo moça, a única espada que poderá ter é a de seu marido. Ela mesma ouvira as criadas murmurando coisas assim pelas cozinhas. Não estava disposta a ser humilhada. Podia não ter uma força máscula, mas era hábil e inteligente. Seu mestre fora um chinês, afinal e para ela, os chineses eram conhecedores das artes mais indefensáveis do mundo.

Contentava-se observando, memorizando os movimentos que ele ensinava. Erik era realmente muito bom.

Talvez, se ela o provocasse e o forçasse a usar suas reais habilidades consigo...

Um som estranho e agudo perfurou seus ouvidos como uma lixa em seus canais auditivos. Todos congelaram em seus postos, petrificados, como se as portas do inferno tivessem sido arreganhadas repentinamente. Os guardas nas ameias ficaram rígidos, erguendo seus arcos e preparando as flechas. O coração de Leonor bateu mais rápido no peito. O som alarmante ficou mais alto e mais insistente.

O que era aquilo?

Algumas pessoas ficaram pálidas.

Erik largou a espada de treinamento e correu para perto da muralha, chamando por Fergus, que usou uma escada para descer da ameia norte e ir encontrar o guerreiro escocês. Eles trocaram algumas palavras que Leonor não foi capaz de ouvir. Curiosa, ergueu as saias e se aproximou dos homens quase correndo. No entanto, antes que chegasse a Erik, viu a grandiosa imagem de Seamus barrando seu caminho como uma parede. Leonor franziu as sobrancelhas. Chutá-lo-ia se ficasse em seu caminho.

-- Não deve ir, minha senhora – ele disse solenemente. Ela tentou contorna-lo, mas ele continuou atrapalhando. Deus, ela lhe mostraria os dentes e rosnaria para tira-lo do caminho – Volte para o castelo.

-- Vá se ferrar, Seamus – falou sem pensar. Ele parecia estar esperando por isso. Seria possível que soubesse quem ela era? Ela limpou a garganta – Quero dizer... Bom homem, dê-me licença.

Ele arqueou uma duvidosa sobrancelha.

-- Volte para o castelo, senhora, e organize as mulheres.

-- Meu ovo! – ela gritou ultrajada. Erik arregalou os olhos para ela. Deus, Leonor precisava morder a língua – O que está acontecendo? – esticou-se para olhar por sobre o ombro dele – Por que disparam o alarme?

Seu marido poderia ter voltado!

-- Estamos sendo atacados, milady, e espero que minha senhora cumpra com seu dever e vá reunir as mulheres.

Ela soltou um bufo deselegante.

-- Até parece – revirou os olhos – Vá você reunir as mulheres.

Antes que qualquer um pudesse contestar, ela ergueu as saias indecorosamente e correu como um gato para a escada, desviando das mãos de Erik e Fergus, que gritavam para que retornasse para o castelo e deixasse de birra. Leonor não ficaria quieta como uma mocinha indefesa. Enquanto respirasse, defenderia o que era seu com unhas e dentes. Subiu a escada rapidamente, tomando um escasso cuidado para não pisar na barra do vestido, escapando de mãos que tentavam aprisiona-la. Os homens nas ameias pareciam escandalizados ao vê-la de pé e espiando por sobre a muralha, mas não tinham qualquer poder para lhe dar ordens. Nem mesmo o rei podia obriga-la a muita coisa. Além de casar com o selvagem chefe de um clã bárbaro e dono de terras sem leis, enfim... Esticou-se na ameia, estreitando os olhos para ver melhor.

Seu coração foi aos pés, senão mais abaixo, tipo, ultrapassando os limites terrestres. Pestanejou, incerta de como reagir. Estava com medo, de fato. Engoliu em seco. Demônios. Inferno. Malditas pulgas peçonhentas. Ao longe, aproximando-se do litoral de Trotternish, estavam oito birlinns McDonald transbordando soldados armados e prontos para a carnificina.

Notas finais
CAMPANHA: DÊ DE PRESENTE DE NATAL UM COMENTÁRIO RECHEADO DE AMOR PARA UMA ESCRITORA CARENTE kkkkkkkkk