Prazeres Sombrios - Indômita
19 Capítulo XVIII - Jogo Perigoso
Notas iniciais
Eu me coço por spoilers, mas vou ser forte, não posso ceder à tentação kkkk
E, claro, hoje vou homenagear Angel e Morgana Le Fay por recomendarem meu bebê, foi o melhor presente de Natal que eu poderia ter recebido e Gíih, obrigada pelos comentários lindos *u* Papai Noel com certeza deu uma rapadura de coco pra vocês !!!
Sério, liguei pra Miya (que me abandonou e está no Rio kkkkk) na hora da ceia de Natal só pra dizer o presente que vocês me deram, obrigada mesmo!
E para as fãs do meio-viking do Iain, do escocês do Erik e do irlandês do Will, os três terão suas respectivas histórias e a Miya já está me ajudando com elas. E, Morgana Le Fay, calma, o Will logo logo será seu kkkkkkk
BOA LEITURA!!
CAPÍTULO DEZOITO
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Leonor havia congelado. Havia muitos soldados McGregor e uns poucos Ferguson, mas não eram o suficiente para deter aquele batalhão. Por mais que fossem muito bem treinados, não superariam aquela emboscada. A garganta dela fechou ao ver a aldeia que cercava a muralha. Aquelas pessoas eram importantes para ela. Crianças que ajudara a trazer ao mundo, outras que tratara de doenças e machucados, mulheres que riram e lhe confessaram certos prazeres da cama que a deixaram horrorizada por sua ignorância, homens que pescavam ou simplesmente plantavam; pessoas gentis e... Eram sua família. Perdera os Knightley no passado, mas ganhara os McGregor agora. Olhou para as casinhas simples, para as famílias pequenas que trabalhavam – crianças brincando, mulheres tecendo, homens olhando seus peixes.
Seria como no passado. Deus, teve vontade de chorar. Ela era muito pequena na época, sequer recordava o rosto de seu pai. E em apenas um dia, todo o clã que deveria ser seu, todas as pessoas como as que via agora, seus pais, seus avós, sua história... Tudo se foi. E ela nem teve a oportunidade de conhecê-los. Sua única lembrança se resumia ao sofrimento de sua mãe. Isabel sofrera como se tivesse perdido a alma e a vida naquela noite até o dia de sua morte.
Estava se repetindo. O passado voltava a bater em sua cara. Não, não podia deixar que nada acontecesse a eles. Anna Leonor Knightley de Westminster agora era Anna Leonor McGregor e o sangue de reis corria por suas veias, assim como as almas de guerreiros ingleses a protegiam. Nunca tivera motivo melhor para empunhar uma espada. Determinada, fuzilou com um frio olhar cada homem McDonald que saltava para a praia com desejo de matar sua nova família. O maior erro de um homem era subestimar uma mulher e ela provaria isso da maneira mais diabólica possível.
Perdera sua família para uma guerra ridícula e não o faria de novo.
Deu meia-volta para a escada e olhou para Erik com altivez. Danem-se, eles teriam de ouvi-la, ou ela lutaria sozinha.
-- Mande uma frota trazer os aldeãos para dentro do castelo – gritou, superando a balbúrdia que explodira no barmkin. Os homens a olharam como se fosse louca – Quero os aldeãos aqui dentro agora!
-- Vá para o castelo, minha senhora, eu cuido do que me foi incumbido. – respondeu Erik. Ela poderia esmurra-lo por isso.
-- Mandei trazer os aldeãos aqui! – Leonor vociferou. Ele fez ouvidos surdos a ela e voltou a conversar com Fergus, disparando ordens inteligentes, mas que não salvariam a todos. A fúria esquentou o peito dela, mesclando-se ao desespero. As pessoas morreriam se não fizesse nada – Erik! – gritou.
Eles teriam apenas uma hora para organizar a defesa do castelo, para trazer todos os aldeões para as proteções da muralha, para proteger os animais nos estábulos, para prepararem os guerreiros para o confronto. Mas uma guerra não era um confronto de um único dia e Leonor sabia que não aguentariam ser sitiados. Se a ouvissem, poderiam montar uma estratégia inteligente, não suicida. Mas os homens eram... Burros. Diabos, muito burros. Precisavam de sacrifícios para pensar. Ela não era idiota. Seu mestre a ensinara A Arte da Guerra com a perfeição de um verdadeiro guerreiro chinês. Argh!
Leonor quis gritar e quebrar alguma coisa, mas guardaria sua raiva e a canalizaria para um inimigo que realmente a merecesse. Seu sangue fervia, borbulhando, quase explodindo. Gritou por Erik, que disparava ordens para os homens. Os escudeiros preparavam os cavalos e traziam as pesadas armas de seus senhores, correndo de lado a outro. Viu Mary preparando um escasso grupo de mulheres para cuidar dos feridos, levando os criados para a proteção da fortaleza. Sua prima sabia o que fazer. Assim como Leonor. Irritada por ser ignorada, arrancou o arco das mãos de um dos soldados que guardavam as ameias e lhe roubou uma flecha do alforje. Não precisou de mais de um segundo para posicionar a seta, mirar e deixar o arco fazer seu trabalho. A flecha cortou o ar em um piscar de olhos e passou raspando o nariz perfeitinho do highlander. Oh, isso chamou muita atenção. Todos se voltaram para ela, inclusive um surpreendido e irritado Erik. Ela tirou outra flecha do soldado embasbacado e a posicionou.
-- Enlouquecestes? – urrou o ruivo.
-- Ouça-me ou não errarei da próxima vez, maldito seja.
-- Não tenho tempo para isso, moça, estamos sendo atacados.
-- Mandei que trouxesse todos os aldeãos para o castelo e quero agora, entendestes?
-- Moça – ele disse amavelmente – Nunca esteve em uma guerra antes. Temos de agir rapidamente...
-- Temos uma hora – ela o interrompeu – Mandar os homens para uma escaramuça na aldeia é idiotice. Conhecemos o terreno, é uma vantagem, e deveria usar a nosso favor. As árvores não facilitarão nada aos arqueiros e não podemos ver quem vem assim. Não duvide da minha capacidade de compreender a guerra.
Ele meneou os cabelos com impaciência.
-- Não duvido – disse por fim – Mas recebi ordens para protegê-la e não poderei fazê-lo se estiver lutando comigo. Lá fora não é treinamento, não haverá ninguém que terá pena por ser uma mulher. Por favor, moça, não dificulte meu trabalho.
Estreitou os olhos ameaçadoramente e, grunhindo uma imprecação, disparou a outra flecha, que raspou a bochecha dele. Erik amaldiçoou.
Estava claro que ninguém a ouviria. Leonor entregou o arco para o soldado e começou a descer a escada o mais depressa possível. Ela não precisava da ajuda de ninguém. Simplesmente não poderia permitir que homens sanguinários liderassem o que poderia ser resolvido com mais sabedoria. Olhou para Erik com desprezo patente e, jogando os cabelos por sobre os ombros, empinou o queixo rígido e caminhou silenciosamente pelo pátio. O exército estava se formando, escudeiros e soldados prontos para a batalha, os criados se reunindo no interior do castelo. Os portões ainda estavam abertos para alguns poucos aldeões trazerem as ovelhas e carneiros. Leonor estava mais furiosa que quando discutia com Duncan.
Oh, como sentia falta dele! Ele a ouvia, mesmo quando estavam em uma situação tão tênue entre a vida e morte.
Engoliu qualquer sentimento que a cegasse e se forçou a pensar com clareza. Precisava manter a mente fria e imparcial. Certo. Teria um plano depois de trazer os aldeãos para a fortaleza. Não podia demorar muito, ou os McDonald os emboscariam. Leonor não podia lutar apenas com sua adaga, era muito pouco se comparada ao arsenal inimigo e ela não poderia matar a todos assim.
Matar a todos... Sim, até parece que uma única mulher seria capaz de fazer tanto. Mas ela tentaria. Faria o que estivesse ao seu alcance por quem lhe era querido. Com isso em mente e um gélido brilho obstinado nos olhos, entrou no castelo. Disse a Mary para assumir seu lugar e a prima não a contestou, pois sabia que Leonor nunca dava nós em pontos cegos. Tudo era planejado, sempre fora assim. Leonor subiu correndo as escadas para seu quarto e fechou a porta, exalando pesarosamente. Que seus antepassados não a repudiassem agora, porque precisaria deles mais do que nunca.
Erik praguejou.
Adoraria dar ouvidos à esposa de seu amigo, mas não havia tempo. Faria o que pudesse para proteger a todos, tudo o que estivesse ao seu alcance, mas tinha de mantê-la segura. Duncan nunca o perdoaria por deixar a moça morrer nas mãos de um McDonald.
-- Seamus – chamou. O homem atendeu seu chamado prontamente – Leve quinze homens e tragam todos os aldeãos imediatamente para a fortaleza. Seja rápido, não temos muito tempo.
-- Sim, senhor.
Sentiu-se menos terrível quando Seamus correu para um grupo de soldados e montou em seu cavalo de batalha, partindo para além dos portões.
Só Deus sabia como Erik gostaria de estar longe daquele estranho sentimento que unia os casais. Niall era um guerreiro feroz em campo e um completo bobo em casa. Amélia o tornara um cachorrinho babão. E Duncan? Duncan era todo olhos brilhantes para sua esposa inglesa, por mais que fingisse indiferença. Não, Erik definitivamente não desejava aquele tipo de fraqueza para si. Uma mulher podia fazer um homem ser a criatura mais ridícula do mundo quando envolvia sentimentos.
Longe dele.
Lady Mary levara as mulheres e as crianças para o interior do castelo, onde estariam todos seguros, o que garantia uma preocupação a menos.
-- Arqueiros! – gritou. Os soldados na muralha prepararam seus arcos.
Fergus lhe dissera que a senhora de Dragon Seafront Castle era tão hábil quanto o próprio chefe dos McGregor nas artes da batalha, mas como podia ser, se era mulher? Ele crescera com moças choronas e manipuladoras, sabia reconhecer uma criatura frágil de olhos fechados. Apesar de interessantes, as inglesas eram mulheres e frágeis. Como aquelas mãos delicadas e perfeitas, sem calos ou cicatrizes, poderiam erguer uma espada? Era loucura. Até Seamus lhe advertira sobre as peripécias de Leonor de Westminster, mas Erik custava a digerir tal absurdo, ainda estava ruminando a ideia. De todo modo, prometera a Duncan que cuidaria de sua esposa até seu regresso sem ultrapassar os limites da amizade.
Erik bufou. Era um libertino, verdade. Um sem vergonha, sem dúvida alguma. Libidinoso desde o berço, incontestável. Cara-de-pau além do extremo. Mas jamais tocaria na mulher de seu melhor amigo, não importava o quão bela fosse a moça.
Os ilhéus eram loucos. Sim, era uma explicação crível para o comportamento deles. A senhora, guerreira? As únicas mulheres que se atreviam a tocar em uma espada eram as vikings, mas apenas em situações urgentes. Uma donzela inglesa, atada a um casamento de conveniência? Sonhavam demais.
Erik organizou o exército, ordenando a primeira formação. Seus escassos homens encabeçavam o vasto grupo de guerreiros, preparados para encarar o diabo em pessoa se lhes fossem ordenado. Um escudeiro qualquer trouxe seu corcel cinza já preparado e lhe entregou a claymore, duas adagas e um machado. Rapidamente se ocupou de colocar as armas em seus devidos lugares, encaixando o machado nas costas. O rapaz lhe deu o escudo de ferro com o brasão Ferguson. Erik montou em seu cavalo. O soldado no alto da torre da guarda fez o sinal de que o exército McDonald estava próximo.
Onde estava Seamus?
Os aldeãos atravessavam correndo o portão da muralha, carregando seus filhos e alguns poucos pertences, seguidos de cachorros, galinhas e ovelhas. Até vacas participavam da comitiva que cercava o castelo. Erik teria rido em outro momento, teria brincado para descontrair o ambiente, mas a tensão na base de sua coluna lhe pressagiava algo ruim.
E não era dor. Oh, não, não era dor, não estava tão velho assim. Ele era jovem e fornido. Era uma sensação de que algo ruim aconteceria.
Palmas para ele, estava se tornando alguma espécie de vidente para malefícios. Poderia montar uma tenda na estrada e passar a se chamar de Mãe Erik. Mãe Erik: traz a pessoa amada de volta. Ele poderia ganhar muito dinheiro com isso.
Ainda bem que Leonor estava dentro do castelo, conformada com seus deveres de mulher, ou ele juraria que ela estava fazendo algo de ruim. Então, devia ter alguma ligação com Seamus, que ainda não voltara com os outros homens, ou com o fato de que... Não, não perderiam. Erik Ferguson nunca perdia, fosse na cama com uma amante ou no campo de batalha.
Com um terreno tão limitado como o que tinha diante de si, seria difícil lutar, mas os homens conheciam melhor aquelas terras que os inimigos. Certo, uma vantagem. Os arqueiros não podiam disparar, as árvores impediam que vissem além de suas copas e usar fogo era muito arriscado, podiam incendiar a floresta inteira. Teria de ser um confronto direto. Homem contra homem. E se sitiassem a fortaleza... Não poderia haver negociação. Não importava o que acontecesse, não haveria negociação. Erik levaria os inimigos para longe do castelo, de alguma forma.
De repente, ele ouviu um grito choroso que só poderia ter sido emitido pelo cavalariço. Bem treinados como eram, os homens sequer se voltaram para ver do que se tratava. Voltando-se sobre os arreios, tudo o que Erik foi capaz de ver foi uma mulher em trajes de homem montando sem sela – a pelo – em uma imperiosa égua malhada, com uma lança atravessada nas costas e um escudo de ferro no braço. A juba de ébano fora recolhida em uma grossa trança. O kilt xadrez dos McGregor revelava pernas nada esquálidas e quebradiças, mas muito femininas e... Leonor passou cavalgando como uma valkyria por ele.
Todos os homens estavam boquiabertos e embevecidos com sua visão. Uma mulher alta e curvilínea, empunhando uma lança, com uma trança ondulando com o vento como a bandeira de um estandarte, vestida como um homem e montando de forma selvagem uma égua bela e indômita. Parecia uma criatura mística, uma guerreira. Por todos os infernos, com quem seu amigo se casara?
Erik estava prestes a esporear o cavalo para segui-la e fazê-la retornar, quando Angus se colocou em seu caminho. Certo. Ele não estava entendendo mais nada.
-- Deixe-a – ele disse. O quê? – Minha senhora é... – ele corou, como se o assunto o envergonhasse deveras – Excepcional. Luta melhor que muitos homens que já vi e...
Erik sequer era capaz de encontrar a própria voz.
-- É uma mulher, tem de estar dentro do...
-- As mulheres foram influenciadas – alguém disse atrás de Erik. Olhou por sobre o ombro e ficou chocado ao ver aqueles que deveriam estar se refugiando carregando dificultosamente barris de cerveja e outros de óleo. O que eles fariam com aquilo?
-- Pelos dedos de Barnabas, o que está acontecendo aqui?
Lady Mary se adiantou. Sua cabeleira dourada estava presa por um laço no alto da cabeça e tinha uma adaga de formato estranho embainhada no cinto de prata de seu glorioso vestido turquesa. Ela ergueu o queixo de forma desafiante e descansou a mão no punho de sua arma.
-- Vamos impedir uma invasão, milorde – ela disse tranquilamente, como se falasse do almoço.
Deus, onde produziam mulheres assim? Onde estavam as fibras de medo e submissão que ele estava acostumado a ver?
-- Embebedando os inimigos? – ele tentou brincar, mas ela permaneceu séria e determinada.
-- Não tenho uma mente tão limitada – respondeu asperamente – Mas lhe aconselho a preparar flechas de fogo.
-- O que milady e sua prima estão planejando?
-- Está disposto a nos ouvir?
Ouvir e fazer eram coisas completamente diferentes. Deu de ombros.
-- Tenho escolha?
Quando ela lhe contou o que planejavam, ficou boquiaberto.
Leonor esporeou Vento Selvagem outra vez, disparando por entre as árvores. Seamus ainda não retornara e os aldeãos ainda estavam migrando de moradias, quase como se não tivessem pressa. Eram muitas pessoas e os inimigos se aproximavam rapidamente, subindo a montanha. Ela sabia que não valia a pena encarar o exército McDonald sozinha, era suicídio, mas podia apressar sua gente a correr para dentro das muralhas de Dragon Seafront Castle. O escudo era muito mais do que seria capaz de suportar em peso e a lança era incomparavelmente maior do que ela. Se lutasse com aquelas armas, não aguentaria ficar de pé por muito tempo. Carecia de uma arma leve e proporcional, como a adaga chinesa que tinha presa à coxa, oculta pelo kilt.
Passou velozmente pela comitiva que se dirigia ao seu lar. Já podia avistar o caos instalado na aldeia. Esporeou outra vez, sentindo vagamente como os galhos cortavam sua pele. Ouviu um uivo e, olhando por sobre o ombro, viu Gengis Khan correndo quase emparelhado com sua égua, a pelagem negra esvoaçando pela velocidade. Ele crescera muito este mês. Para um filhotinho gigante e quase morto, agora era um filhote corpulento e ameaçador, com frios e humanos olhos negros que demonstravam compreensão, com garras e caninos fatais. Quem o visse juraria que era quase um adulto. Ele uivou para ela, aumentando a velocidade de sua corrida para acompanha-la.
Leonor não estava sozinha naquela guerra e um lobo podia fazer a diferença. Ele ficaria vivo, afinal, era seu lobo e protegeria Drustan com a própria vida.
Quando chegaram à aldeia, viram seus soldados gritando e ordenando para que o povo se apressasse, que corresse para o castelo, pois Trotternish estava sob invasão. A balbúrdia dava dor de cabeça e desespero e Leonor teve de reduzir sua carreira para um cuidadoso trote. Faltavam poucas famílias a se retirar e Seamus coordenava tudo perfeitamente. Para sua sorte, quem via seu lobo negro se apavorava e corria para longe, o que adiantou a marcha dos refugiados. O pobre Seamus empalideceu ao vê-la.
-- Por Deus, minha senhora, o que faz aqui?
-- Vim ajudar a levar os aldeãos para o castelo – ela disse, aproximando-se dele – Não achei que Erik fosse fazer minha vontade.
-- Ele também se preocupa com o povo. Os McDonald estão se aproximando cada vez mais, então, volte para o castelo também.
Leonor bufou.
-- Só quando o último aldeão estiver em segurança.
-- E sua segurança?
-- Ficarei bem. Sempre soube quem eu era, verdade?
Ele corou.
-- Suspeitava apenas – ele confessou – Tive a certeza quando a vi bêbada. Angus descobriu antes que qualquer um de nós, mas ficou quieto até todos os homens começarem a falar. Somos leais a ti, minha senhora, mas precisamos que fique viva.
-- Não vou me meter na batalha – grunhiu – Só vou me certificar de que estejam todos bem. Mary vai cuidar do castelo em minha ausência.
-- Está planejando algo, certo?
-- Sim – ela sorriu orgulhosa – Vamos, Seamus, essas pessoas têm de estar em segurança e agora.
Com uma leve pressão dos joelhos nos flancos de Vento Selvagem, Leonor a dirigiu pela aldeia, certificando-se de que não havia ninguém nas casas, apressando quem passava correndo por ela, mandando que desistissem de seus pertences e lutassem pelas próprias vidas. Rapidamente, a aldeia foi esvaziada, os homens de seu marido – seus homens também – guiando o povo para o castelo a trote rápido, deixando apenas uns três ou quatro com ela para se certificarem de sua segurança e de que não restara mais ninguém. O silêncio que se instalou foi incômodo, quebrado apenas pelo sopro do vento entre as árvores e os cascos dos cavalos sobre a terra, que vibrava pela aproximação do inimigo. Estavam muito perto.
Deus, ela podia sentir o medo e a ânsia escavando suas entranhas, incrustando-se em suas células. Nunca tinha estado em um combate real, não em uma guerra daquele tamanho. Já lhe tinham dito que os McDonald tentariam reaver as terras McGregor – como se lhes pertencesse! – mas nunca teria esperado que fossem fazê-lo enquanto... A compreensão a atingiu como uma bordoada na cara, um balde de água fria na espinha. Não era uma coincidência. Sabiam que seu marido estaria fora e se aproveitaram para invadir suas terras. Alasdair McDonald esperava encontrar uma terra frágil sem seu chefe e ela o faria voltar com o maldito rabo no traseiro se subjugava seus guerreiros e a mente das moças Knightley.
Mary e as criadas estavam pegando todos os barris de cerveja e óleo do castelo e os levariam para o barmkin. Rezava para Erik compreender o que planejavam e não se opusesse a isso. Eles podiam trabalhar bem juntos se ele deixasse o machismo de lado.
Leonor puxou a crina de Vento Selvagem e estava prestes a se voltar para o caminho que levava ao castelo, quando um zumbido familiar ecoou por seus ouvidos. Atendendo aos seus instintos, esporeou a égua, grunhindo de dor quando algo rasgou seu ombro. A flecha se cravou em um tronco, sua haste balançando pelo impacto. Se não tivesse saído do alvo a tempo, teria sido atingida no coração. A égua relinchou e disparou em trote apressado pelas casas, tentando salvar a ambas. Enquanto fugiam, ouviu o grito de guerra dos homens. Ignorou-os para olhar para sua ferida, aliviada por ser superficial. Incomodaria como o inferno, mas já suportara coisas piores. Os inimigos saíram da floresta como um enxame, preenchendo a aldeia com gritos e tinidos metálicos de espadas sendo desembainhadas. Seus cavalos relinchavam e trotavam diabolicamente para ela. Vento Selvagem voou pela terra, os cascos mal tocando o chão em sua pressa. Logo seus soldados a cercaram, protegendo-a de qualquer ataque.
-- Está bem, minha senhora? – perguntou um deles, olhando para ela com preocupação.
-- Sim – ela respondeu asperamente. Sangue escorria por seu ombro, empapando a camisa de linho muito alva – Precisamos voltar para o castelo agora. Não se preocupem comigo, apenas sejam velozes.
-- Sim, milady.
Eles dispararam com ela pela aldeia, cavalgando velozmente, sendo seguidos de perto pelo exército inimigo. O uivo do lobo a fez saber que ele estava bem e que ia mais a frente deles. A ferida latejava, sangrando, colando o fino tecido a sua pele, fazendo o mínimo movimento que fizesse parecer uma tortura. Flechas eram lançadas contra eles e o terreno acidentado e em aclive não era vantajoso para uma fuga. Um dos homens foi atingido na cabeça, caindo para o lado, sendo deixado para trás, mas seu cavalo seguiu os sobreviventes, logo atrás de Leonor.
E se Duncan também tivesse sofrido uma emboscada? Ele já deveria estar de volta. E se não sobrevivesse? Ele tinha de viver, ou ela o buscaria no inferno só para mata-lo de volta. Esperava que a demora dele se devesse a caçada, mas temia que o ataque à fortaleza não fosse tão limitado. Se sabiam que ele estava fora, também o matariam. Um arrepio de puro terror a fez estremecer. Agora que eles estavam se entendendo bem, que ela finalmente aceitara que o amava... Não permitiria que o bastardo morresse.
E ele não podia ser tão parvo para morrer. Será que sabia que se Alasdair McDonald dominava Trotternish, não só haveria um massacre, mas também que ele a violaria? Como esposa do chefe, ela era um grande prêmio e seria uma desonra para Duncan ter a mulher estuprada. Não, Duncan não morreria. Era o Mensageiro da Morte, o Feto do Diabo, o bastardo mais cruel que existia. Ele voltaria.
E ela o esmurraria por seu atraso.
Leonor trincou os dentes com força quando sentiu um puxão brusco em sua trança, tentando derruba-la. Amaldiçoou mentalmente. Estavam quase cercados por guerreiros inimigos. O homem ao seu lado teve a cabeça degolada e os outros dois guerreavam pela própria vida.
-- Rapazinho – disse o McDonald que puxava seu cabelo – Parece uma moça.
Ele tocou a garganta dela com a espada. Argh! Malditos fossem! Com o sangue quente, Leonor ergueu o kilt até o quadril e desembainhou sua adaga. Com um giro de pulso, atravessou o pulso do McDonald com a folha prateada antes que ele a decapitasse. Ele gritou de dor e largou a espada, que se perdeu no trote veloz que eles desempenhavam. Livre, Leonor esporeou a égua outra vez. Guardou a adaga na bainha, cobrindo as coxas com a lã e puxando a lança das costas. Mantinha-se sobre sua montaria apenas com as pernas, os músculos tão tensionados que era visível seu esforço. Os gritos da batalha ecoavam pela floresta como um alerta aos soldados da muralha. As flechas ainda choviam sobre ela, cravando-se no chão ou nas árvores, errando seu alvo por causa da irregularidade do terreno.
Os McDonald viviam no litoral, em praia, não conheciam as montanhas como os McGregor e não possuíam o conhecimento sobre as terras de Trotternish. Dois guerreiros inimigos ladearam-na, tentando espremê-la entre eles para captura-la entre suas espadas. Diabos. Leonor ergueu o escudo de um lado para se proteger. Não tinha espaço suficiente para usar a lança e os golpes desferidos contra sua defesa de metal faziam seu braço tremer e fraquejar. Furiosa por não ter a força de um varão, segurou o escudo com mais força e ergueu a lança sem pensar duas vezes, cravando a seta no pescoço do cavalo quando o soldado tentava perfura-la com a claymore. O animal derrapou, levando seu dono consigo, fazendo a lâmina raspar levemente a garganta dela.
Já podia ver os portões de Dragon Seafront Castle. Um arqueiro a avistou e ordenou que fechassem as pesadas portas de carvalho, assim como ela instruíra Mary a fazer. Leonor apressou sua montaria, recebendo com o escudo os golpes desferidos por seu inimigo. Soltando um grito de fúria contida, baixou o escudo e desceu a lança com toda a força. O infeliz defendeu, mas foi pego de surpresa por sua explosão. Qualquer soltado saberia que nunca se pode baixar o escudo, é morte certa. Leonor atravessou a cabeça dele com a lança, ignorando a dor da claymore dele no braço. O sangue jorrou como uma fonte, principalmente quando retirou a lança, manchando ao cadáver e a ela.
Olhando por sobre o ombro, avistou as sombras que se moviam pela floresta, cavalgando para ela como demônios saídos dos portões do inferno, empunhando tochas e espadas. Muito mais atrás, ela sabia que vinha Alasdair McDonald e um aríete para derrubar os portões de Dragon Seafront Castle. Outro McDonald a alcançou, carregando sua lança para atravessa-la pelas costas.
Faltava muito pouco... Muito pouco para estar em segurança...
Sentiu a ponta da lança nas costas, pressionando. Apesar do frio intenso, suor escorria por sua fronte. Leonor estava prestes a se defender, quando um rosnado explodiu ao seu lado e uma sombra saltou sobre o homem, a bocarra engolindo a garganta humana e desaparecendo com seu corpo pelas entranhas da floresta. O uivo que se seguiu a arrepiou até a alma. Se algum dia Duncan se arrependeu de ter salvado a vida daquele lobo, agora teria de retirar cada palavra. Aquele animal era leal a ela e acabara de salvar sua vida. Sim, seu marido teria de ser devoto ao lobo. Como uma sombra, ele retornou para o alado dela, os dentes banhados em sangue McDonald. Quando passaram pelos portões da fortaleza, estes foram fechados pesadamente e muito bem travados. Leonor respirou com alívio ao entrar no barmkin. Seus homens a cercaram, entre eles Erik Ferguson e Mary, que mostravam sua preocupação. Vento Selvagem agitou a crina branca, parando no centro do pátio, resfolegando. O lobo se sentou imperiosamente, como se esperasse que ela descesse.
-- Prima, está bem? – perguntou Mary.
Leonor entregou a lança e o escudo à primeira mão que viu e apeou. Suas feridas latejavam, queimando e sangrando, mas estava bem. Incapaz de falar, anuiu com a cabeça e olhou para Erik. Não tinham muito tempo para terminar os preparativos para a batalha. Os barris estavam perto da muralha, os arqueiros prontos, os soldados em ponto de guerra, as crianças e os animais refugiados nas torres e calabouços subterrâneos, a criadagem e os aldeãos munidos com coragem para ajudar no que fossem necessários.
-- Se eu brigar por você estar ferida, vai ouvir algo do que eu disser? – Erik disse com desolação. Ela sorriu para ele.
-- Não. Estar casada desenvolveu minha surdez seletiva.
Ele apertou seu ombro bom com cumplicidade, os olhos brilhando de orgulho.
-- Então, apenas saiba que não pode morrer, porque é uma boa esposa para o meu irmão.
Ela poderia abraça-lo por isso.
-- Obrigada – limitou-se a dizer timidamente – Está pronto para cumprir com sua função?
-- Sempre estou.
Leonor rapidamente subiu a escada que levava às ameias, colocando-se entre dois arqueiros. Eles a saudaram com um simples balançar de cabeça, concentrados em seu trabalho. Apoiou as mãos na muralha, o vento acariciando sua face esquentada pela luta. Não estavam queimando a aldeia ainda, o que era uma verdadeira surpresa. O exército inimigo começou a se aproximar da parede larga e extensa de pedras escuras, rodeando o perímetro, abrindo espaço para Alasdair McDonald e seu maldito aríete passarem até os portões.
Esteja bem, Duncan.
Seu inimigo era um homem corpulento, de compleição impiedosa e cruel, trajando um tártan vermelho. Parecia ter mais de quarenta anos, com alguns fios grisalhos em seus cabelos de cobre longos e rebeldes. Os olhos frios a miraram como flechas envenenadas. Ele parecia tranquilo e um brilho de interesse coloriu sua face estranha e deformada por cicatrizes e queimaduras.
-- Não abrirá os portões para receber seu visitante? – urgiu ele, a voz mais parecida a um trovão. Leonor arqueou uma sobrancelha.
-- E eu achando que não tinha ninguém mais cara-de-pau que eu – resmungou Erik, colocando-se ao lado dela, observando com visível antipatia a forma assustadora de Alasdair McDonald.
Leonor lhe deu uma cotovelada nas costelas para silencia-lo.
-- Nosso senhor está ausente, não há permissão para a entrada de visitantes até seu retorno – Leonor disse em alto e bom som. Erik a olhou como se repreendesse o que dizia, mas ela sabia que Alasdair McDonald já estava ciente da ausência de Duncan. Alasdair sorriu e aquilo a arrepiou até a alma.
-- Sou um velho amigo – ele disse. Erik amaldiçoou.
-- Claro que é – grunhiu com ódio – O mesmo velho amigo que o vendeu aos ingleses.
Leonor arregalou os olhos. Duncan... Duncan foi feito de escravo? Seu coração gelou e pareceu parar de bater. Aquelas horrorosas cicatrizes no corpo dele, aquelas que não foram feitas por espadas ou lanças, mas por látegos e lâminas dentadas... Infligidas por ingleses. E por culpa daquele monstro que a amedrontava só com o olhar. Sua expressão de choque se transformou em fúria fria outra vez. Tinha mais um motivo para matar Alasdair McDonald.
-- Não vai me convidar e oferecer hospitalidade? – insistiu a besta.
Não, grunhiu a consciência dela e, pela primeira vez, Leonor estava de acordo.
-- Milorde não está em casa – repetiu secamente.
-- Então – Alasdair McDonald sorriu de orelha a orelha, mostrando todos os dentes de sua arcada dentária desprezível – Terei de entrar à força.
Ele ergueu uma mão e os solados que carregavam o aríete se posicionaram. Leonor sustentou o olhar do homem mesmo quando os primeiros tremores assolaram a muralha. Era como um terremoto sob seus pés, com gritos e alaridos. O céu trovoou, ecoando a fúria dela.
-- Devo erguer os barris? – sussurrou Erik.
-- Ainda não. Eles precisam estar mais próximos.
Ele assentiu com a cabeça.
Os soldados próximos à muralha lançaram ganchos e cordas para as ameias, pendurando-se, escalando as paredes, enquanto outros usavam o aríete para derrubar os portões. Os tremores estavam cada vez mais intensos e não tardaria até a madeira ceder e rachar. Leonor foi paciente. A preocupação por Duncan e o medo de falhar com seu povo a fez encolher os ombros, por mais que devesse se mostrar forte e corajosa para servir de exemplo a quem a seguia. Alasdair a observava com interesse, como se soubesse que era mulher, mesmo debaixo dos trajes masculinos. Ela se mataria antes de permitir que ele a violasse. Seu corpo pertencia a Duncan McGregor. Ponto.
Lentamente, foi erguendo a mão. Os arqueiros McDonald dispararam uma chuva de flechas, algumas atingindo os arqueiros dela, os corpos caindo para frente, para o local da batalha, outros caindo para dentro, outros apenas sendo feridos. Mas nenhum dos seus quebrou sua ordem e atirou antes do tempo. Eram todos homens rigidamente disciplinados. Quando o braço esquerdo dela esteve completamente erguido, as pessoas no pátio começaram a se mover com uma velocidade medonha, erguendo os barris para as ameias, trabalhando em conjunto, acendendo flechas e passando pelas escadas para distribuir entre os arqueiros. A gargalhada macabra de Alasdair McDonald foi como um soprano diabólico em seus ouvidos, arranhando seus canais auditivos e aumentando seu terror. Os soldados inimigos escalavam a muralha, quase atingindo o topo, enquanto outros se preparavam para subir.
Erik gritou uma ordem e os barris foram virados. O conteúdo despejou pelas paredes, banhando as pedras e os homens em uma substância pegajosa, escorrendo para mais além, imobilizando os inimigos, colando seus pés na terra. Alasdair franziu as sobrancelhas. Leonor viu como os McDonald lutavam para tirar o óleo dos pés, para sair de seu alcance. A maioria dos que escalavam escorregou para o chão e quebrou alguns ossos com a queda, enquanto outros permaneciam na tentativa de subir. Olhando Alasdair nos olhos impassivelmente, Leonor foi baixando a mão com a mesma lentidão com a qual a erguera. Quando por fim esteve baixa, seus arqueiros dispararam as flechas em chamas. O fogo explodiu como o sopro de um dragão. As setas voavam em uma parábola ascendente e, mal tocavam o chão, as línguas de fogo subiam em perigosas rajadas, percorrendo as paredes rochosas e descendo para chão, alastrando-se por cada parte, devorando homens e árvores impiedosamente, como uma besta faminta e furiosa. Alasdair McDonald se viu forçado a recuar para sobreviver, mas seus homens permaneceram empurrando o aríete contra os portões.
A chuva de chamas não cessou nem por um segundo. Erik ordenou que parassem de derramar óleo, mas as flechas ainda eram disparadas, destruindo, consumindo, engolindo. Os alaridos desesperados de dor chegaram aos ouvidos dela. Homens eram queimados vivos, presos ao óleo, atingidos diretamente por flechas, ou simplesmente arrastados pelo fogo.
Aquela era uma tática ensinada pelo mestre dela para a defesa. Uma das doutrinas da Arte da Guerra que ela aprendera muito bem. O único problema era que o céu parecia estar muito perto de chover e isso tiraria dela a vantagem que conseguira.
-- Espero nunca ser seu inimigo, moça – disse Erik, despertando-a de seus devaneios – Isso é espantoso. Onde aprendeu?
-- Com o mesmo homem que me ensinou a lutar – respondeu sem pensar – Se chover, perderemos essa vantagem.
-- Os homens estão prontos para lutar e leva-los para longe – ele disse, pondo a mão sobre seu ombro bom como se falasse tranquilamente com um irmão mais novo, o que a relaxou apenas um pouco – Conhecemos bem o terreno. Se formos mais para cima, forçaremos os McDonald a recuarem. Não estão acostumados com o frio das Cuillin Hills e morrerão rapidamente se não partirem.
-- É um bom plano, mas como os levaria ali, se o que querem está aqui?
Ele ponderou.
-- É uma guerra, moça. Vão nos seguir sem perceber, querem matar.
-- Não podemos crer em suposições, Erik – ela mordeu o lábio inferior – Talvez possamos conseguir ajuda dos McLeod.
Erik franziu as sobrancelhas.
-- Eles não ajudariam. Se não odiassem os McDonald muito mais, tenha certeza de que teriam feito uma aliança para dominar Trotternish.
Leonor grunhiu de frustração.
-- Será que todos os homens gostam de viver atolados no passado? – rosnou com impaciência, andando de lado a outro, a ponto de arrancar os próprios cabelos – Precisamos de alianças!
-- Moça – Erik abriu aquele pícaro sorriso travesso que arrancava suspiros apaixonados de todas as criadas – Acalme-se um pouco e pense comigo. Podemos derrotar Alasdair McDonald, só precisamos de uma estratégia.
-- Vai chover, moço – ela disse rispidamente – O que nos tira a vantagem do fogo. Eles vão derrubar os malditos portões e todos seremos violados e mortos. A não ser eu, claro, porque serei um brinquedinho bem legal para aquela fuinha. Mas deixando de lado meu dramático destino... Precisamos de uma aliança e estou muito disposta a negociar com um McLeod.
-- Estamos cercados, como sairia daqui?
-- Falcões. Temos falcões. Posso mandar um recado... Sinceramente, sou capaz de cavar um caminho até o chefe McLeod e chorar para ele. – riu amargamente – Ou ameaça-lo...
-- Está divagando – Erik riu – Teremos de aguentar até o retorno de Duncan, mas ainda acho que...
Leonor apertou os punhos.
-- Não vamos depender dele. Podem ter feito uma emboscada para ele também, porque aquela fuinha com certeza sabia que ele não estava aqui. É muita coincidência que tenha vindo apenas quando ele saiu.
-- Agora que disse... Faz sentido que ele esteja tão tranquilo. Alasdair tem mais medo de Duncan que da própria morte. – Erik ficou em silêncio, imerso nos próprios pensamentos, permitindo que a mente de Leonor vagueasse em uma leque de possibilidades infindáveis, buscando a melhor alternativa para forçarem aos McDonald a recuar – Quando chover, o terreno ficará difícil para os cavalos.
-- Sim, e horrível para lutar também. – ela concordou – Não podemos usar os arqueiros cegamente, seria desperdício e podemos necessita-los caso haja a invasão. O que sugere?
-- Um ataque surpresa – Erik disse em meio aos pensamentos que se encaixavam – Ao anoitecer. O que acha?
-- Muito óbvio. Poderíamos buscar uma passagem secreta e cerca-los por fora...
-- Muito lento, chamaria a atenção.
-- Que droga – rosnou Leonor – Maldita chuva. Vamos segura-los até lá... Enquanto houver fogo, terão de manter distância, mas podem tentar rodear o castelo em busca de outro lado... Disperse os arqueiros, não precisamos de tantos aqui. Não quero nenhum ponto fraco. E... Arranje-me uma espada ou qualquer arma que não pese mais do que eu.
Os gritos se fizeram mais altos à medida que o fogo se espalhava pelo perímetro de Dragon Seafront Castle, como se realmente um dragão houvesse cuspido fogo naquelas terras, mostrando que era o senhor daquele lugar. No caso, o dragão era Leonor. E ela era a senhora de Trotternish. Não permitiria que aquela fuinha ruiva sequer cuspisse em uma pedra McGregor.
Ela ouviu vagamente Erik disparando as ordens, mas estava mais ocupada em sustentar o fixo olhar de Alasdair McGregor. Ele sorriu e levou um longo e enluvado dedo até a garganta, fazendo um sinal de corte. Leonor permaneceu inexpressiva, mas o medo acelerava seu coração. Sabia que ele cumpriria o que dizia. Seu instinto a urgia a fugir, mas seu senso de dever era mais forte e a fazia ficar por sua gente. Por Drustan. Eles estavam cercados e tudo o que ela podia fazer era usar sua inteligência para salva-los.
☺
Quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair, Leonor sentiu como se uma lança atravessasse seu peito. O fogo seria apagado e as defesas estavam mais fracas. As chamas enfraqueceram as pedras e os portões, tornando mais fácil a invasão. A noite já caíra e os trovões explodiam no céu. Mary lhe levara as refeições. Sua prima estava armada com um arco que media pouco mais da metade de seu tamanho e com flechas banhadas em uma substância derivada de cogumelos venenosos, além de adagas em seu cinto e um escudo nas costas. Erik arranjara o mesmo arsenal a Leonor, mas com a adição de uma lança, uma vez que ficara encantado com suas habilidades.
Enquanto o fogo queimava, Alasdair McDonald foi forçado a recuar. Mas agora, todas as vantagens caíram sobre ele e ela ainda não pensara em nenhuma solução viável. A preocupação por Duncan também não ajudava em porcaria nenhuma. Aflita e nervosa, precisava lutar para se acalmar, mas não naquela guerra, onde dezenas de inocentes seriam brutalmente assassinados. As tochas foram acesas e espalhadas pelo pátio. Nunca houve noite mais escura.
Ela ainda tentou calcular mentalmente as possibilidades de atingir Alasdair McDonald com uma flecha daquela distância, mas era impossível. Ao menos, para ela. E ele a observava. Sempre de olho, avaliando, estudando... Ameaçando sem carecer de palavras.
A chuva foi ganhando força, apagando as chamas pouco a pouco, os trovões ribombando no céu, as explosões de luz cada vez mais violentas. O vento era selvagem, tão intenso que arrancou até os aros que sustentavam as tochas das paredes. Mesmo empapada, com o cabelo colado ao rosto e às costas, Leonor permaneceu no alto da ameia, esperando a invasão, pensando em uma solução antes que fosse muito tarde.
Deus, tinha de se acalmar. Se eles entrassem, só lhe restaria ficar com Mary no salão e deixar Erik comandar os homens.
-- Venha, moça – ele disse delicadamente, segurando-a pelo cotovelo – Já fez o que tinha de fazer aqui fora, agora vá para dentro e cuide das mulheres, o resto faço eu.
-- Erik – a voz dela tremeu, o que a irritou. Limpou a garganta, munindo forças para falar. Olhou-o nos olhos para lhe mostrar sua determinação férrea – Não importa o que aconteça, não haverá negociação, entendeu? Não faça a besteira de nos render a ele. Prometa para mim.
-- Milady...
-- Leonor. Meu nome é Leonor.
-- Sabe o que está propondo, não é?
-- Claro que sei! Não... Não há alternativas. Não quero que nos rendamos a alguém que realmente não terá piedade. Vi nos olhos dele. Sentirá prazer com nossa derrota e matará cada McGregor até não restar nenhum.
Erik anuiu com a cabeça.
-- Sim, eu prometo a você que não vamos nos render até o final.
Leonor se esticou e o beijou na bochecha. Ele pareceu desconcertado, certamente surpreendido. Olhou para ela com incompreensão e uma estranha tristeza no olhar. Ela forçou um sorriso.
-- Obrigada. Hmm... Você é um bom homem, Erik. Quando sairmos dessa... Espero que encontre uma boa mulher para você.
Ele fingiu um arrepio.
-- Eu pertenço a todas, nunca a uma única.
-- Sim, claro – ela revirou os olhos – Pense assim e casará antes de minha prima.
Deixando-o com uma careta no rosto, Leonor desceu a escada cuidadosamente. Sentia-se cansada, mas repousar estava fora de cogitação. Enquanto andava pelo pátio, pensou que as coisas poderiam ser diferentes se ela ainda possuísse um exército. Mas talvez, se o tivesse, não estivesse casada com Duncan McGregor.
Os homens estavam prontos para a batalha e uma parte dela se sentia mortificada por ter falhado. Em breve, Erik abriria os portões e sairia com o exército para atacar primeiro, na tentativa de guiar o inimigo para as montanhas mágicas. O frio acabaria com eles. No entanto, a garantia de que fosse dar certo era mínima.
Distraída como estava, sequer percebeu que o castelo estava quieto e silencioso demais, como nunca estivera, mesmo depois da ameaça do ataque. Mary armara todas as mulheres e aldeãos com facas, frigideiras, paus e improvisados escudos de metal e escondera todas as crianças e idosos nos calabouços. Ninguém ficaria incapaz de lutar pela própria vida ou de ajudar. Elas os protegeriam do pior, mas não podiam fazer muito por um exército.
Ai, Deus...
Empurrou as pesadas portas duplas de carvalho e entrou no salão, fechando imediatamente as portas e pondo uma trava que impedisse a entrada ou a saída de qualquer um. Todo o castelo estava lacrado, a não ser o pátio. Ela rogava para que Deus protegesse cada um deles, principalmente Erik e Duncan. E Iain. E Mary. E Fergus. E Drustan. E... enfim, todos eles.
-- Leonor – Arian chamou.
-- O que...? – a voz minguou imediatamente. Sentiu o coração caindo aos pés e foi como se a tivessem esbofeteado. Ficou congelada em seu lugar, pálida e mortificada, sem saber como reagir. Lágrimas borraram sua visão, mas engoliu cada uma delas para não demonstrar fraqueza. Ao lado de uma sorridente Arian, estava um Duncan acorrentado pelos pulsos, segurado por seis homens McDonald. Fergus o segurava pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás o suficiente para revelar seu rosto desfigurado por hematomas roxos, quase pretos e sangue. Apenas um olho dele era capaz de ficar aberto e estava fixo nela com sua habitual inexpressão. Um corte fora aberto em sua face, percorrendo sua testa, passando sobre o olho inchado e aberto e terminando na bochecha. Ainda sangrava. Duncan estava de joelhos. Se não estivesse tão petrificada, Leonor teria caído no chão.
– Seja bem-vinda, Leonor de Westminster. – disse Alasdair McDonald, tocando a garganta de Duncan com a lâmina de sua claymore.
Um estrondo reverberou pelo pátio e gritos de guerra se fizeram ser ouvidos em meio a balbúrdia que explodiu lá fora, com os sons dos tinidos metálicos e gemidos sôfregos.
A invasão começara.
Notas finais
Comente e salve a vida do Duncan!! kkkkkk
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