Prazeres Sombrios - Indômita
15 Capítulo XIV - Lágrimas
Notas iniciais
Não tenho mais nada pra falar, podem ir ler a história! :D [/grossagzuis kkkkkkkkk
-- Vamos, Leonor! – chamou Drustan ao longe. Ele parara de correr pela praia, as mãos transbordando conchas de diferentes tipos, os cabelos assanhados pelo vento forte do litoral. Eles estavam descalços, correndo sobre a areia como duas crianças, caçando caranguejos e conchinhas. Ele estava animado. – Venha logo, ou pegarei mais que você!
-- Como se fosse possível – ela desdenhou, dissimulando um sorriso.
O garoto era incorrigível e tinha um apresso inigualável por travessuras, o que a lembrou de suas próprias, quando era uma menina.
Ela sequer recordava quando ficaram tão íntimos, mas ele já não a seguia resmungando o tempo todo. Na verdade, parecia feliz por estar com ela, sempre inventando passeios para os dois, vangloriando-se por suas artimanhas de criança. Era o único McGregor que apreciava sua companhia e que fazia questão de procurar aventuras para ambos. Nem seu marido a queria, então... Enfim, Drustan era adorável.
Leonor correu para ele, erguendo as saias. A cesta na curva de seu braço – antes cheia de alimentos para o almoço que eles devoraram ferozmente – estava lotada de conchas coloridas. A preferida de Leonor era uma cinza que refletia as cores do arco-íris e uma branca com o formato de um coração. Tentaria fazer um colar com ambas mais tarde. Drustan jogou mais conchas na cesta e logo correu para procurar por mais.
Havia pessoas na praia, todos da aldeia, despedindo-se de seus entes queridos, que partiam para uma boa temporada de pesca. Leonor reconheceu alguns criados do castelo, assim como viu muitos rostos dos quais não se recordava. Encontrou Bessie e Rionna, que a cumprimentaram, algumas crianças – poucas delas familiares. Falou com todos antes de partir em sua missão com o pequeno irmão de seu marido.
O menino subiu em uma rocha, ficando equilibradamente em pé, pondo as mãos na cintura e elevando o queixo para o brilhante horizonte azul. Já era tarde, o sol em seu ápice. Leonor viu as nuvens cor de grafite que se aproximavam da costa, preludiando a chuva que cairia. O céu estava ficando escuro, o vento mais forte, as ondas mais agitadas. Era lindo. Uma tormenta revoltosa e cinzenta. Muitos odiavam as tempestades, mas Leonor as amava desde pequena, principalmente quando vinham acompanhadas de trovões e relâmpagos. Costumava tomar banho debaixo das tempestades, girando com os braços abertos, dançando enquanto o céu rugia como um dragão e explosões sinistras de luz, que banhavam o jardim do castelo de Ulster em seu esplendor. De início, sua mãe dançava com ela, segurando-a nos braços e rodopiando. Mas a tristeza pela perda foi incomensuravelmente mais forte, e logo ela voltou a ficar recusa e melancólica.
Agora, depois de tantos anos e olhando para aquele mesmo céu escuro e perigoso, ela se sentiu impelida a voltar a dançar na tempestade. Já estava ansiosa para as primeiras gotas.
-- Eles não deveriam sair com um tempo desses – murmurou Drustan, saltando da pedra para a areia fofa.
-- O mar é imprevisível – disse ela, segurando-o pela mão e o puxando pelo caminho que eles tinham combinado de seguir – Eles estão acostumados a lidar com isso.
Drustan franziu as sobrancelhas.
-- E as bestas marinhas?
Ela realmente não acreditava nelas.
-- Acha que um McGregor temeria uma besta marinha? – brincou Leonor, revolvendo os cabelos de ébano do garoto, provocando-lhe um sorriso que dissimulava travessuras em mente – Elas que devem nos temer!
-- Se eu tivesse um birlinn, todas elas teriam medo de mim?
-- Sim. Você seria o McGregor dominador dos mares. Piratas fugiriam apenas com a menção de seu nome, Drustan o Terrível.
Ele riu.
-- Quero ser tão forte quanto meu irmão. Acha que eu consigo?
-- Claro que sim. Não é o McGregor terrível dos mares?
-- Você está me bajulando, Leonor!
-- Claro que não! O que eu ganharia com isso? – brincou ela. As gotas começaram a cair em sua face, o vento soprou agitado, emaranhando sua juba negra como os cabelos da medusa. Drustan olhou outra vez para o mar, que estava envolto por uma capa negra de nuvens carregadas. Um raio desceu do céu no horizonte e seu rugido se fez ouvir em cada ponto cardial. Drustan agarrou sua mão, estremecendo a cada trovão e relâmpago. As explosões de luz dançavam no céu escuro, algumas cortando o ar ao longe, descendo para as águas furiosamente, como a magia lançada por alguma criatura mística. Entre as nuvens da cor do chumbo, parecia que um dragão de luz serpenteava em seu ápice, rugindo bestialmente, aumentando a força e a intensidade da chuva. As águas estavam ficando violentas, as ondas mais altas e perigosas, escuras. Ela apertou a mão de Drustan para acalma-lo, puxando-o pela areia na direção de sua égua. – Não tenha medo, está bem? É apenas chuva.
-- Não estou com medo – ele estava apavorado – Você está?
Não. Ela amava aquilo. Aquele caos no céu, as explosões de rugidos e luz, a água tempestuosa, as ondas violentas, o vento forte, a escuridão que sempre caía sobre a terra quando a tempestade estava próxima.
-- Sim – mentiu – Vamos voltar para casa, está bem? Então comeremos os doces de Bessie enquanto te canto uma música. O que acha?
Ele a olhava com tanto pavor, que Leonor teve vontade de abraça-lo e carrega-lo como se fosse um menino de calo, mas sabia que o pequeno mantinha indícios de orgulho de guerreiro, o que tornaria isso detestável para ele. Drustan seria tratado como homem por ela, assim como fez com seus primos. Apertou a mão dele, compadecendo-se cada vez que ele estremecia involuntariamente com os trovões. Vento Selvagem estava tranquila ao longe, apenas aguardando seu retorno. Fora excepcionalmente treinada por Leonor e tio Richard.
-- Mas, e as conchas? – protestou um assustado Drustan.
-- Não se preocupe, carinho, pegamos muitas e podemos voltar quando estiver ensolarado. A praia não vai fugir de nós.
Ele anuiu com a cabeça.
Leonor franziu levemente as sobrancelhas ao ver que as criadas se amontoavam na beira da água, agitas e balbuciando todas ao mesmo tempo, como galinhas lutando por grãos. Pareciam aflitas, desesperadas. Algumas juntavam as mãos diante do peito como se rezassem. Alguns soldados do McGregor, que viera acompanha-las com poucos homens da aldeia, também estavam inquietos. Um deles veio galopando pelo caminho que levava ao castelo e murmurou algo para os outros. As mulheres choravam, os homens estavam pálidos. Era um caos na beira da água. Leonor levou Drustan para perto de sua égua e se ajoelhou diante dele. A chuva estava mais intensa, empapando e fazendo pesar seu vestido, colando seu cabelo ao rosto e as costas.
-- Pode me esperar aqui um minutinho? – ele apenas assentiu com a cabeça. Sabendo o quanto uma arma podia reconfortar, ela tirou do interior da manga em sino de seu vestido a adaga que escondia para as necessidades. Entregou a arma ao menino, olhando-o nos olhos para encoraja-lo. – Você é um guerreiro, Drustan. Nunca deixe seus medos te vencerem, ouviu?
-- Aonde você vai?
-- Ver o que está acontecendo.
-- Volta logo, Leonor.
Ela sorriu para ele e se ergueu regiamente, as costas eretas, o queixo erguido. Descalça, caminhou como uma rainha para os soldados McGregor. Eles só notaram sua presença quando esteve muito próxima. Rapidamente trataram de reverencia-la com o devido respeito, mesmo estando sobre suas montarias. Ela se lembrava vagamente de seus rostos, provavelmente treinaram com ela nas duas semanas que substituiu seu marido. Eles pareciam exasperados, mas dissimulavam bem suas emoções. Ela deu uma rápida olhada em Drustan, apenas para se certificar de que ele estava bem, antes de se voltar para os homens.
-- O que há com todos? – perguntou diretamente, vendo a inquietação agonizante das aldeãs. Uma mulher explodiu em lamúrias, seus gemidos superando os trovões. Leonor estremeceu. Nunca soube lidar bem com lágrimas, nem as suas nem as dos outros. O soldado mais próximo lhe revelou uma triste expressão de impotência.
-- O filho de Catriona foi brincar com outras crianças nas cavernas – informou ele – Foi o último a sair de lá. A maré subiu e está agitada, minha senhora. O pobre John será comida para o mar.
Leonor franziu as sobrancelhas.
-- Onde está o menino?
Outro soldado se adiantou, curvando-se um pouco na direção dela.
-- A água o levou – disse ele tristemente, erguendo um braço e apontando para algum lugar por sobre o ombro de Leonor – Ali, minha senhora. Em algumas horas, se afogará e não temos como tira-lo de lá. Meu senhor já está chegando para tomar uma providencia, mas não há o que fazer. Só podemos rezar...
-- Obrigada – ela o interrompeu e se virou para andar na direção das mulheres. Elas formavam uma meia-lua na beira da água, voltadas para a direção que o soldado apontara. Leonor abriu caminho a cotoveladas por entre elas, espremendo-se para chegar ao local onde Catriona estava ajoelhada e chorando como se sua alma estivesse sendo arrancada lenta e dolorosamente de seu corpo.
Leonor não sabia como deveria ser a sensação de ver seu filho morrer diante de seus olhos e não poder fazer nada. Ela não tinha filhos, por mais que quisesse tê-los. Vendo a dor dilacerante de Catriona, imaginou como seria ter um garotinho de cabelos escuros e olhos negros, um garotinho que ela ensinaria a lutar e a nadar. E vê-lo ser arrancado de suas mãos impiedosamente sem que tivesse forças para impedir tal arrebatamento. A dor deveria ser incomensurável. Leonor já vira homens agonizando de dor após uma batalha, com feridas no corpo, na alma e no coração. Mas nada se comparava àquilo.
Catriona chorava e rogava por seu menino, enquanto as outras mulheres tentavam acalma-la e rezavam para que John aguentasse até a maré baixar. Leonor ficou ao lado da mulher. O menino estava longe delas, muito longe, mas estava relativamente próximo aos escarpados. Seu grito mudo só podia ser por ajuda, por sua mãe. Ele se agarrava com pernas e braços a uma rocha que se erguia no meio do mar junta de algumas poucas outras, como a lança de Poseidon sendo atacada por ondas fortes e perigosas. Ele chorava, tossindo pela água que o atingia no rosto redondo e infantil.
-- Levante-se – Leonor ordenou. Catriona ergueu o rosto inchado e vermelho pelas lágrimas. Suas companheiras pareciam prontas para brigar com Leonor, inclusive Bessie. Catriona a obedeceu, chorosa e furiosa. Abriu a boca para argumentar – Quero a sua ajuda para salvar seu filho.
Silêncio profundo.
Catriona arregalou os olhos.
-- O que quiser, minha senhora.
-- Preciso que vá até onde a água lhe bater na cintura para recebê-lo nos braços – Leonor disse com uma seriedade que negava qualquer objeção a sua decisão. Olhou para Bessie, que estava entre as mulheres – Bessie, cuide de Drustan, ele está sozinho – Bessie assentiu com a cabeça e correu para acatar sua ordem. Os três soldados se esticavam em suas montarias para saber o que estava acontecendo – Catriona, fará o que eu mandar?
-- Não sei nadar, minha senhora, e as ondas...
-- Alguém segure a sua mão. Façam uma corrente humana para ninguém ser levado.
-- O que vai fazer, minha senhora? – perguntou Annie aflita.
-- É o dever da senhora cuidar do povo, não? Não aceito objeções. Catriona, vá para seu posto. Trarei seu filho de volta.
O coro de perguntas sobre o que Leonor ia fazer lhe fez arder os ouvidos. Ignorando o séquito de mulheres desesperadas, Leonor correu de volta para Vento Selvagem. Bessie conversava com Drustan, perto dos soldados, tentando distrai-lo da chuva intensa. Leonor se colocou ao lado de sua égua. Ela era impulsiva, verdade, mas sabia o que estava fazendo. Não arriscaria a própria vida por algo infrutífero. Começou a desatar os laços da túnica atrás das costas, fazendo-se de surda aos ofegos de sua plateia. Suas bochechas estavam coradas, mas não era algo que não pudesse superar pela vida de uma criança. Tirou a túnica por sobre a cabeça.
-- Em nome de Deus, menina, o que está fazendo? – Bessie arfou, cobrindo os olhos de Drustan com as mãos – Ponha a roupa! Se o senhor a ver...
-- O senhor se entende unicamente comigo, não tema sua reação.
Duncan a espancaria dessa vez. Mulher nenhuma deveria mostrar seu corpo a alguém que não fosse seu marido. No entanto, Leonor o fazia diante de 10% da aldeia, entre eles aldeãos e soldados. Todos homens, alguns solteiros. Entregou a túnica para Bessie, que estava tão boquiaberta como todos os outros. Leonor tirou o vestido o mais rápido que seus dedos trêmulos foram capazes, ficando apenas com a regata de linho, que já estava ficando encharcada pela chuva. Deu a peça a Bessie, cujos olhos pareciam prestes a saltar das órbitas. Leonor estava decidida. Faria o que fosse necessário pelos seus, mesmo que para isso fosse levar uma surra de seu marido.
Duncan era paciente, mas não permitiria tamanho desrespeito.
-- O senhor a matará, menina! – protestou Annie – Por favor, minha senhora, vista-se!
Catriona a olhou com olhos chorosos e suplicantes. Uma de suas mãos estava segurando a de uma mulher, que era segurada por outra e por outra, até que formavam uma corrente que ia da praia até as águas. Leonor forçou um sorriso para reconforta-la antes de olhar para Annie e Bessie.
-- Está tudo bem. Já fiz isso muitas vezes.
-- É perigoso – prosseguiu Bessie – Morrerão os dois!
-- É loucura, minha senhora, não permitirei que o faça – disse um soldado. Era o primeiro que falara com Leonor. Levara sua montaria até elas, estufando o peito de orgulho de si mesmo – Meu senhor não gostará que arrisque sua vida.
Por algum motivo, Bessie se colocou entre Leonor e o homem.
-- Eu lhe suplico, senhora, por favor...
Leonor lhes deu as costas e, segurando a crina branca de sua égua, impulsionou o corpo e montou em Vento Selvagem, sem arreios, rédeas ou qualquer outro equipamento de equitação. Também não estava sentada de lado como uma dama, mas escarranchada como um soldado. Seu cabelo, mesmo pesado pela água, ainda foi agitado violentamente pelo vento.
-- Cuide do Drustan, Bessie, volto em breve.
-- Eu não...
Leonor entreabriu ameaçadoramente os olhos para o soldado insolente que ousava desafiar suas ordens.
-- Diga ou tente qualquer coisa que me impeça de salvar o menino e lhe castrarei com minha adaga, soldado.
-- Senhora...
Sua cabeça palpitava. Com uma pressão feita por seus joelhos, ela esporeou Vento Selvagem, disparando em uma louca cavalgada pela praia, jogando a areia para o alto.
☺
Mary estreitou os olhos para as ervas que tinha diante de si. Era uma estudiosa completamente obcecada pelo o que fazia, portanto, há horas estava naquele impasse. Tinha todas as ervas que poderiam obter uma anestesia total dos sentidos, mas nenhuma exalava o odor que ela buscava. Fez cálculos de probabilidade, criando misturas e mais misturas, mas não obtinha a resposta desejada e isso a deixava com uma enxaqueca infernal.
Olhou para as folhas que colhera e estudara e depois para a estranha substância pegajosa que retirara da flecha. Seu efeito já passara, o odor enfraquecera, mas ainda não perdera sua utilidade. Tirou uma mecha de cabelo dos olhos e passou a página de suas anotações medicinais. Nada se encaixava.
-- Conseguiu alguma coisa, moça?
Mary pulou na cadeira e levou a mão ao peito, sufocando um gritinho de susto. Olhou por sobre o ombro para Iain, que estava tão perto de si que ela facilmente poderia belisca-lo por assusta-la daquela forma. Ele se curvou na direção dela, seus rostos a centímetros, mas sua atenção focada no trabalho dela. Infelizmente, Iain não parecia corresponder aos seus sentimentos e isso a entristecia a um nível que ele jamais imaginaria. Recomposta e impecável, Mary também olhou para os catálogos em suas mãos.
-- Não – respondeu por fim – Não sei o que usaram no Duncan. Todas as ervas que conheço, mesmo combinadas, não produzem tal efeito. Sei que a intenção era Leonor, mas...
-- Já tentou todas as possibilidades?
O cheiro de madeira de sândalo e sol da pele dele a inebriava. Não havia monja no mundo que resistisse fielmente a um homem tão misteriosamente pecaminoso. Lambendo os lábios e esfregando o pescoço pelo nervosismo, Mary leu suas anotações e comparou os catálogos com o que tinha diante de si, buscando mentalmente uma combinação de ervas que causasse aquele efeito.
Mary não sabia se queriam matar sua prima ou apenas sequestra-la. Se fosse o primeiro, a julgar pelo tamanho de Duncan, a dose foi pouca para as Valkyrias virem busca-lo, mas teriam um efeito terrível em Leonor. Se fosse apenas um anestésico, a dose foi cavalar para derrubar um homem como Duncan McGregor. Mary franziu as sobrancelhas. As suposições eram muitas e os resultados eram zero.
-- Conhece alguém que se beneficiaria com a morte de Leonor? – perguntou Iain. Mary ficou rígida na cadeira. A respiração dele soprava em seu ouvido, o hálito percorrendo a curva de seu pescoço, arrepiando-a.
-- A... Apenas Duncan – gaguejou – Se ela morresse, ele ficaria com suas terras em Westminster e muito mais que apenas o generoso dote que ela lhe pagou.
Iain permanecia tranquilo e inabalável, mas seus olhos eram duas chamas azuis de fúria por sua suposição.
-- Meu primo não machucaria sua prima, moça. Ele nunca ergueria uma mão para uma mulher, por mais descontrolado que estivesse.
-- Não estou dizendo que foi ele. Sei que Duncan é um bom homem, que não faria mal a Leonor, ou eu já o teria matado por machuca-la. Mas não conheço ninguém que se beneficiaria com a morte dela. A herança dos Knightley seria apenas para os filhos deles, e Leonor ainda não engravidou.
-- E voltamos ao ponto zero.
-- Sequer saímos dele, Iain.
-- Não conhece ninguém mais?
Ela negou com a cabeça.
-- Leonor não tem irmãos que possam se beneficiar, tampouco outros parentes. A família da mãe dela em Aquitânia não ganha nada, muito menos meu pai. As terras de Westminster estão inférteis e destruídas. Ela não tinha pretendentes antes da tia Isabel morar conosco, então não há um noivo amargurado. Eu realmente não conheço ninguém que ganharia algo matando Leonor antes de ela dar um filho ao Duncan.
-- Inimigos ela tem de sobra – ponderou Iain – Mas o povo está se encantando por ela, o que nos faz voltar para a mesma questão.
-- Falarei com Leonor sobre isso. – disse Mary – ela deve ter alguma ideia.
As sobrancelhas de Iain se uniram em uma carranca de quem estava pensando demais em várias coisas ao mesmo tempo. Logo ele pegou uma olha das mãos de Mary, lendo-a atentamente antes de devolvê-la. Então pegou um frasco com a essência de uma erva e colocou o pó em uma terrina que Mary ainda não usara. Olhou para a substância que ela retirara da flecha e pegou outro frasco. Mary apenas o observou misturar os ingredientes, antes de dilui-los na água. Mary pegou a colher de pau que acabara de lavar e mexeu na experiência, a mente funcionando rapidamente, abrindo-se em um infindável leque de possibilidades. Passou as folhas de suas anotações até encontrar a que procurava.
-- Iain, pegue minha bolsa.
Ele foi até a cama, onde havia uma bolsa de couro aberta, parte de seu conteúdo dispersado sobre as peles de forma bagunçada. Ele fez o que ela pediu e voltou para o seu lado, dando-lhe a bolsa. Mary remexeu em seu interior, cavando entre os pertences até encontrar um pequeno frasco com a seiva de uma planta que ela não tinha catalogado ainda. Voltou-se para a terrina e derramou um pouco do líquido denso e pegajoso. Voltou a misturar. O odor que subiu às suas narinas arrepiou os pelos da nuca de ambos. Mary gritou de euforia, saltando da cadeira. Sem pensar, rodeou o pescoço de Iain com os braços em um abraço de comemoração.
-- Conseguimos, Iain!
Ele a apertou contra si. O coração de Mary bateu mais rápido, tão acelerado e louco que ela quase perdeu o fôlego. Seus seios estavam pressionados contra o forte peito dele, seus batimentos no mesmo ritmo, um contra o outro. Mary sorriu, recendo um terno sorriso como resposta. Iain era o homem mais lindo para ela quando sorria. Seus traços escandinavos o deixavam mais belo e mais feroz. Quando se separaram, o corpo dela sentiu sua ausência como se tivesse perdido a roupa e caminhasse sobre a lava.
-- Fez um bom trabalho, moça.
Mary negou com a cabeça, pois não sabia se era capaz de formular uma resposta. Molhou os lábios.
-- Eu apenas terminei o que você fez – respondeu, desviando o olhar. Rapidamente voltou a se sentar, temendo se jogar nos braços dele novamente – Bom... – limpou a garganta – Agora precisamos testar para saber seus efeitos.
-- Deixe comigo.
-- Obrigada, Iain. Vou catalogar a mistura antes de esquecê-la. Finalmente estamos progredindo em algo.
-- Sim, moça, estamos, e não vamos descansar até ter o assassino nos calabouços.
☺
Leonor cavalgou como se estivesse sendo perseguida por um exército de demônios, subindo os escarpados como um raio cortando o céu, montada a pelo em sua égua. Olhava para o garotinho e a pergunta que retumbava em sua mente era se seus pais a amaram tanto a ponto de fazerem o que ela estava prestes a fazer por ela. Mesmo que John não tivesse nada a ver com ela, não conseguia vê-lo morrer e não fazer nada. Ela sabia nadar. Tio Richard a ensinara a superar o mar, a doma-lo e a usa-lo a seu favor. Raros são os homens que enfrentam as águas e essa era uma vantagem de ela ter tido uma criação diferente. Quando chegou ao escarpado mais próximo do garoto e longe das pedras, apeou. Vento Selvagem resfolegou e a cutucou com o focinho. Leonor a afagou no pescoço, tranquilizando-a. Sua égua refletia suas emoções, sensível aos humores de sua dona. Leonor a beijou no focinho e foi até a beira do escarpado, olhando para baixo, para onde as ondas quebravam, chocando-se contra as paredes de pedra. Respingos salgados molharam seu corpo.
Ela ia simplesmente arranjar mais um motivo para brigar com ele, mas não podia deixar de fazer aquilo. Duncan se zangaria outra vez, rosnaria, grunhiria, talvez até gritasse com ela pela primeira vez. E ela, incapaz de aguentar, também gritaria com ele. Brigariam diante de todos, ele perderia a paciência e a esbofetearia. Seria merecido, uma vez que ela se despira diante de toda a aldeia e ainda se jogaria de cabeça em um mar caótico. Ou, ele poderia ficar irritado se ela sobrevivesse. E a esbofetearia outra vez e um pouco mais.
Algo no coração dela discordou desse pensamento.
Leonor olhou para as águas violentas que subiam pelas pedras ao se chocar contra a parede rochosa. Não havia tempo a perder. Seu marido entenderia, de uma forma ou de outra. Ela recuou, andando vários passos para trás, criando um grande espaço entre ela e a beira. Respirou fundo, retendo o ar nos pulmões antes de solta-lo lentamente, acalmando-se. Era imperativo que mantivesse suas emoções a raia para agir com frieza e obter resultados satisfatórios, foi para isso que foi arduamente treinada. Quando começou a sentir que relaxava, iniciou mentalmente uma contagem, ao mesmo tempo em que pensava como acalmaria John quando chegasse até ele. Talvez, se o deixasse inconsciente... Não. Foi apenas uma hipótese... Não. Inspirou pelo nariz e expirou pela boca. Três, dois... No um, Leonor saiu em disparada, correndo com todas as forças, até se lançar do alto do escarpado em salto corajoso. Sentiu leveza de não ter o chão sob os pés, a sensação de não ter no que se segurar, de estar voando, com o vento lhe açoitando o rosto e cada parte do corpo que pudesse tocar. Era como ser lançada no vazio, no vão de um espaço sem salvação, onde havia apenas você e o que lhe esperava lá embaixo, fosse o que fosse. O impulso foi perdendo força aos poucos, a gravidade lhe puxando para as violentas e escuras águas, os trovões ribombando em seus ouvidos furiosamente. A chuva estava ganhando intensidade. Quando Leonor começou a cair, ergueu os braços acima da cabeça, juntando as mãos, de forma que pudesse romper a água sem causar danos a si mesma.
Ela mergulhou como uma flecha, indo cada vez mais para o fundo, onde era mais tranquilo. A água era tão fria que lhe gelou os ossos instantaneamente. Se parasse de se mover um único segundo, morreria congelada. E arrastada contra as pedras. Ainda submersa, nadou na direção que seu instinto lhe alertava para seguir, lutando contra a força das águas com a sua própria. Seus olhos queimavam por causa do sal e da temperatura, mas não podia ceder. Até levar o garoto para a praia, não podia ceder. Não estava muito longe do filho de Catriona e Leonor sempre foi veloz quando nadava. Esforçou-se ao máximo para não engolir água e se manter forte, ignorando o frio que tentava paralisa-la. As águas escocesas eram incomparavelmente mais frias que as irlandesas, a ponto de Leonor estar implorando para sua missão acabar o quanto antes e mal pulara na água.
Não pense no frio. Não pense na dor. A criança precisa de você, Anna Leonor.
Determinada, moveu os braços e as pernas com toda a força de vontade que possuía, sendo levada pelo caminho que fizera mentalmente para chegar ao menino. Seus pulmões começaram a protestar por falta de ar, forçando-a a emergir o quanto antes, ou desmaiaria. Forçou-se apenas o suficiente para ver os pés de John, então nadou para cima. Ela emergiu, já puxando ar pela boca. As ondas tentavam leva-la, a chuva cegando-a. Estava escuro demais, mas ela ainda conseguia ver os contornos do menino. Respirou o suficiente para aliviar a necessidade de seu corpo, desafiando as ondas a jogarem-na com mais força para longe, então, voltou a mergulhar, como um predador sondando sua presa, estuando as melhores rotas para atacar. Leonor nadou para o mais fundo possível, avançando para John, até que suas mãos agarraram a pedra que ele estava. Ainda se segurando, impulsionou-se para o alto, voltando a ser atingida pela chuva e pelo vento.
-- Moça! – disse John, a voz esganiçada e afogada. Uma onda os atingiu com muita força, ameaçando leva-los para a parede rochosa, mas se mantiveram firmes – Moça, me ajuda! Minha mamãe...
-- Você vai voltar para a sua mãe – ela disse com uma firmeza que realmente não sentia. – Vou te levar para ela, mas preciso que me ajude.
-- Não tem como fazer isso, moça – ele estava chorando e tremendo -- Eu quero a minha mamãe!
-- Você terá a sua mãe, não prometi? Mas preciso da sua ajuda.
-- Leve-me até minha mamãe! – choramingou ele aos soluços – Estou com medo! Eu nem sinto mais meu corpo... – um soluço estrangulado.
Deus, como Drustan era agradável. O pequeno podia estar apavorado, mas não chorava tanto. Leonor tentou forçar um sorriso, mas saiu algo perto de uma careta, o que fez o garoto chorar ainda mais.
-- Mantenha a calma! – gritou ela e o menino chorou ainda mais – Ouça-me!
-- Eu quero minha mamãe!
-- Já disse que a terá, mas precisa me ouvir, ou vai ficar aqui até uma besta o devorar! – ele chorou ainda mais desesperadamente, deixando-a aflita. De repente, a possibilidade de deixa-lo inconsciente a animou – Vou segura-lo, mas não quero que me segure, ou ambos morreremos. Está me ouvindo?
-- Mamãe!
Ela enlouqueceria. John simplesmente não a escutava e estavam falando o mesmo inglês.
-- Acalme-se – ela lhe disse em gaélico, atraindo sua atenção – Precisa trabalhar comigo. Sua mamãe está te esperando na praia, mas para encontra-la, tem de me ouvir. Entendestes, John?
-- Você fala gaélico, moça...
-- Sim. Então, vamos cooperar?
Ele anuiu com a cabeça. Leonor esticou a mão para ele, mas neste instante, uma onda forte os atingiu, fazendo-a engolir água. A garganta dela queimou. Tossindo, Leonor olhou para o local vazio onde estivera o filho de Catriona. O desespero lhe serviu de combustível para esquentar o corpo, varrendo as águas com o olhar, fechando os olhos e detendo a respiração sempre que uma onda se chocava contra ela. Piscando para tirar a água dos cílios, estreitou os olhos para a escuridão. Prometera a Catriona que devolveria seu filho e não estaria enfrentando uma tempestade para recuperar algo que pudesse perder facilmente.
No meio das furiosas ondas, um diminuto corpo boiava, sendo arrastado para as pedras. Rogando a Deus para que tudo desse certo, Leonor se lançou de volta para a tormenta, permitindo ser levada até onde ele estava. Ela se agarrou ao corpo dele e o protegeu com o próprio quando uma onda a espremeu contra uma pedra. Leonor soltou o ar em um ofego de dor, aferrando-se a John como se assim pudesse se salvar. A dor era lancinante. Por um momento, ela desejou apenas poder se encolher e sofrer, sem mover um dedo que pudesse aumentar aquela tortura, mas sabia que só poderia se dar por vencida quando retornasse à praia e entregasse o filho a Catriona. Munindo uma força que não possuía, prendeu o ar nos pulmões e mergulhou, indo para o fundo. Segurando o garoto com um braço, teve de usar todas as forças para transporta-los. Seus músculos reclamavam de cansaço, seu corpo pedia por ar e uma massagem do McGregor. Sim, as massagens do McGregor eram dignas de um rei. Ele tinha mãos perfeitas.
Enquanto nadava, isso a fez rir. Durante seu casamento, ficara olhando fixamente para as mãos dele, cheias de medo. Não ouvira a voz dele, não olhara para ele. Apenas olhou para as mãos grandes e calosas de guerreiro, marcadas por cicatrizes de batalha. As mesmas mãos que matavam impiedosamente também a tocavam de um jeito único, despertando um calor líquido e voraz que ela nunca soube que havia dentro de si.
Estava perdendo as forças e as águas estavam conseguindo leva-los. Sem conseguir fazer mais que isso, ela emergiu, respirando com toda a energia que ainda restava. Ergueu a cabeça de John para que não se afogasse, nadando com ambos para a praia, onde ela vagamente via pessoas acenando e acreditava ouvir suas vozes, apesar de não ter ideia do que falavam. Respirando com cuidado, esforçou-se para bater as pernas debaixo da água, puxando-os com um braço só. O medo a encheu quando seu corpo ameaçou parar de mover. Seus dentes rangiam e não seria uma surpresa se se quebrassem. Tremendo de frio, continuou nadando até ultrapassar seus limites. Leonor afundou, fraca, todos os ossos de seu corpo congelados, as forças minguadas. Estavam tão perto, e ao mesmo tempo tão longe... Ela sabia que tinha de voltar a nadar, mas um minutinho de descanso, apenas um, não faria mal, certo? Permitiu ser feita de boneca pela natureza, a escuridão a chamando. Suas costas doíam, queimando como o inferno, paralisando cada célula de seu corpo.
Mexa-se.
Não. Por que haveria de fazê-lo, quando parada não sentia dor?
Mexa-se.
Estava afundando cada vez mais, levando o menino consigo. Suas costas queimavam, mas não doíam mais. Poderia morrer assim.
Mas não vai. Mexa-se.
Leonor tentou, mas seu corpo desobedecia. A paz era confortável, mas a falta de oxigênio a estava desesperando, ardendo seus pulmões, impulsionando seus músculos a forçarem-na a se mover, mesmo que apenas um pouco.
Mexa-se!
Agoniada por ar, Leonor se debateu, gemendo de dor nas costas. Trincou os dentes com toda a força, impedindo-os de rangerem e se concentrando em algo que não fosse a dor que a dilacerava.
Mexa-se! Mexa-se! Mexa-se! Maldita seja, mexa-se!
Ela tinha de viver. Onde estava com a cabeça para desistir assim? Uma Knightley nunca desistia. Não era por isso que as lutas com os McGregor perduraram por tanto tempo? Estava em seu sangue ser uma guerreira, nunca ser subjugada. Bàs roimh gèill, disse seu marido. Sim, e ele estava certo. Ela morreria antes de se render. Impulsionada por um instinto que não sabia que tinha, forçou-se a mover as pesadas pernas, abusando de uma energia que sequer possuía. Respirou profundamente quando emergiu, voltando para sua jornada.
Catriona agarrou seu menino antes que Leonor pudesse firmar os pés na areia. Annie correu para ela, puxando-a para cima, dando-lhe o suporte necessário para caminhar até a praia. Suas pernas não a mantinham erguida, os joelhos tremendo. Leonor estava fraca o suficiente para ser assassinada sem sentir dor. Annie mandou que um dos soldados tirasse seu tártan, envolvendo-o sobre os ombros da senhora para esquenta-la. Leonor tremia, os dentes rangendo furiosamente, mas as costas a matavam.
-- Minha senhora, isso foi loucura – disse Annie, tirando cuidadosamente os cabelos revoltos que caíam sobre a pálida face de Leonor. Ela sentiu os olhares sobre si, mas fez pouco caso. – Poderia ter morrido.
Leonor não confiava na própria voz para falar.
-- Por Deus, minha senhora, tornaste-te louca? E se algo lhe acontecesse?
Drustan correu para ela e envolveu seu quadril com os braços, enterrando o rosto em seu ventre molhado. Ela não conseguiu sorrir, então, limitou-se a passar os dedos trêmulos pelos cabelos dele. Sua égua vinha correndo para ela como de costume, como se Leonor tivesse ido dar apenas um mergulho. A chuva ficou ainda mais intensa e os trovões continuavam explodindo no céu.
-- Você está bem, Leonor? – Drustan perguntou, olhando-a com um medo que não era apenas pela tempestade. Aquilo mexeu com o coração dela, porque nunca esperou realmente que ele se importasse com ela. Passou os dedos por seu cabelo, afagando-lhe a face.
-- Si... Sim – gaguejou, detestando os tremores de dor e frio que a assolavam.
-- Graças a Deus! – disse Bessie.
Leonor abraçou Drustan languidamente, a felicidade por sua preocupação lhe dando um pouquinho de energia para não ficar estática até alguém decidir leva-la nos braços. Finalmente, ela estava conseguindo um lugar para chamar de próprio, uma família. Também compreendeu que sofreria igual ou mais que Catriona se fosse Drustan no lugar de John. Aquele menino pequeno e travesso era muito importante para ela.
-- Meu filho não acorda! – o grito de Catriona a despertou de seus devaneios. Olhou para a mulher que agarrava o corpo torpe de seu menino nos braços, o desespero em sua face. – Minha senhora, ele não acorda!
-- Deite-o no chão – Leonor ordenou, reencontrando sua voz. Apartou-se de Drustan e apertou a lã xadrez sobre os ombros, buscando por calor. Catriona deitou John sobre a areia, enquanto Leonor se aproximava e ficava de joelhos. Colou o ouvido ao peito do menino – Está vivo.
Colocou as trêmulas pontas dos dedos sobre as costelas do menino, iniciando uma massagem pulmonar que pudesse alivia-lo, contando o tempo para subir para o peito, pressionando nos pontos adequados. Lembrava-se da explicação de seu mestre, o chinês que ensinara a ela e a Mary a matar e a salvar vidas. Seguindo as coordenadas do corpo humano, massageou o peito do menino, aplicando leves pressões, estimulando sua reação. Por fim, a criança tossiu, expulsando o excesso de água engolida, abrindo os olhos devagar. Catriona gritou de alegria, puxando-o para seus braços.
-- Obrigada, minha senhora, obrigada!
Bessie ajudou Leonor a levantar.
-- Ele precisa de cuidados, Catriona, ainda não está salvo – o rosto da mulher ficou sulcado de preocupação ao ouvir as palavras de Leonor – Precisamos leva-lo para o castelo.
-- Oh, meu Deus...!
-- Vou leva-lo em minha égua, está bem? Assim chegaremos mais rápido. Vou precisar massagear seus pulmões para desobstrui-los e Mary preparará um remédio de ervas para que não adoeça.
-- Leve-o, milady, por favor!
Catriona se ergueu com o menino nos braços, a aflição deixando-a séculos mais velha. Dificultosamente, Leonor voltou a montar em sua égua. Esticou os braços para erguer Drustan, colocando-o atrás de si, enquanto Catriona lhe passava o menino. Leonor acomodou John estre as pernas, cobrindo-o com o tártan para esquenta-lo também, segurando a crina de Vento Selvagem. Trocou algumas ordens com os aldeãos e esperou seu cavalo, partindo mais uma vez como uma flecha pela areia, seguindo para a estrada pedregosa que a levaria para o castelo. Drustan se apertou sobre suas costas e ela teve de trincar os dentes para não chorar de dor.
-- Leonor, está ferida – disse ele.
-- Não é nada, carinho, está tudo bem.
-- Você está sangrando!
-- Foi apenas um arranhão.
Ele não disse mais nada, mas ela ficou aliviada quando não voltou a tocar suas costas. No entanto, a cavalgada não facilitava nada. O trote desesperado parecia mata-la milhares de vezes. A dor era indescritível, insuportável. Lágrimas lhe encheram os olhos, mas não ousaram ser derramadas. Ela tinha de levar John para o castelo, onde poderia trata-lo adequadamente. Depois de se certificar de que ele estivesse bem, cuidaria de si mesma. Pediria que McGregor passasse um bálsamo em suas costas e fizesse uma daquelas gloriosas massagens. Então...
Por que eles dormiam em quartos separados? Ele não gostava dela? Talvez a aparência dele realmente fosse estranha, como diziam seus primos e seus pais. Leonor era tão feia, que ele não gostaria de acordar com ela a seu lado? Ou, despertar no meio da noite e se assustar com ela...
Chega.
Esporeou Vento Selvagem, subindo a montanha. O frio parecia se instalar em suas células, congelando-a, enfraquecendo-a. Leonor se encolheu dentro do tártan, rezando para chegar ao castelo logo. A água penetrava por seus poros, petrificando cada pedacinho de si.
Ela já não conseguia ver a praia por entre as árvores altas e frondosas, entrando cada vez mais na floresta, avançando para Dragon Seafront Castle. Um estremecimento desceu por sua coluna. Por Deus, ela terminaria doente. Se não morresse na próxima vez que tentasse ajudar que carecia de cuidados. Depois de um tempo, começou a ouvir o trote de cavalos. Se não fosse seu marido, eram inimigos, mas duvidava que um McLeod ou um McDonald fosse tolo o suficiente para se aventurar em terras McGregor. Apressou sua montaria para se encontrar com quem descia a montanha. Se fosse inimigo, bom, eles teriam de fugir.
Drustan segurou sua cintura com mais firmeza, como se tentasse não se apertar contra suas costas. Leonor estremeceu outra vez. Foi um alívio ver seu marido e Fergus – e mais dois homens – descendo pela estrada, montados em seus cavalos de batalha. Ele estava bem e pronto para outra luta, imperioso como um rei vingador. Ela puxou a crina de Vento Selvagem, parando seus cavalos emparelhados.
McGregor olhou para suas pernas expostas, uma vez que a regata de linho erguera-se até o meio de suas coxas, subindo lenta e lascivamente por seu corpo molhado. Um meio sorriso provocante repuxou inconscientemente a comissura de seus lábios, agitando-a febrilmente. Lembrou-se de como ele a havia tocado semanas atrás, de como sua boca e sua língua passearam por sua pele, excitando-a, levando-a a desejar o desconhecido desesperadamente.
No entanto, aquela expressão de deleite no rosto dele se tornou a máscara raivosa que ela detestava quando os dois soldados atrás dele ofegaram e lamberam os lábios. McGregor entreabriu os olhos ameaçadoramente para eles, fazendo-os virarem os olhos para o outro lado, logo a fulminando com o olhar. Leonor ficou régia, suas costas reclamando de dor.
-- Onde está sua roupa? – grunhiu ele.
-- Na praia, eu...
-- Cubra-se! – ordenou ele. Debaixo de todo o frio, Leonor sentia a chama de seu péssimo temperamento aflorando.
-- Ouça o que eu tenho a dizer antes de rosnar comigo!
-- Não há explicação viável para você tirar a roupa para quem quiser, esposa.
Aquilo a feriu profundamente.
-- O que quer dizer com isso?
-- Exatamente o que você ouviu. Volte para casa agora.
-- Eu não entendo você, sabia? Não há necessidade de me...
-- Não tenho tempo para você, mulher.
Deus, aquilo machucava muito. A dor em seu peito foi tão profunda, que nem todo o vocabulário dos vários idiomas que ela falava seria capaz de suprir a descrição do quanto ele a feria. Por que estava sendo tratada daquela forma? Não tinha feito nada para enraivecê-lo, para ser humilhada diante de seus homens, como se não passasse de... Ela nem sabia ao que se comparar.
Engoliu seu sofrimento, mantendo-se fria e inabalável.
-- Maninho – intrometeu-se Drustan – Leonor só queria ajudar!
McGregor lhe lançou um olhar ácido, mordaz.
-- Sei que sim. É o que ela sempre faz, não é? – replicou ele ironicamente – Prestando seus serviços a quem precise.
Ela sentiu a garganta fechando. Não, não, não. Chorar não.
Sem dizer mais uma única palavra, Leonor esporeou Vento Selvagem, disparando pela floresta, sem conseguir olhar para trás. Por que as lágrimas escorriam por suas bochechas?
Notas finais
Bom, espero que vocês tenham gostado, esperneado, chorado, se desesperado, pois por hoje acabou! E QUE VENHAM OS REVIEWS :D
Um aviso aos navegantes! (eu sempre quis falar isso kkkkkk)
ILUSTRÍSSIMA PODERÁ USAR O PC NO PRÓXIMO SÁBADO! AEEEEEEE
depois de um castigo longo - é, eu vou falar isso e vocês nunca mais vão me ver, adeus! kkkkkk - e sofrido, ela sairá ilesa depois das provas. É bem capaz de nós almoçarmos juntas na quinta e na sexta, e poderemos conversar sobre projetos futuros - HUUUUM! kkkkkkkkkk
enfim, isso tá muito longo e ninguém vai ler, então...
ATÉ O PRÓXIMO CAPÍTULO :P
Fale com o autor