Possuídos

3 Capítulo Dois


Notas iniciais
Espero muito que vocês apreciem a leitura beijinhos de luz

Sophie abriu os olhos com dificuldade e percebeu que estava no mesmo quarto, porém suas companhias tinham saído, e havia outro homem ali, ela nunca o vira antes, ele era muito bonito, cabelos escuros, olhos verdes com um certo brilho. Tinha o tipo de rosto que faziam as pessoas confiarem nele. Ele estava olhando-a com lindos olhos verdes curiosos e isso a deixou meio sem jeito, o que era, Sophie percebeu, uma grande bobagem, pois aquele homem não era nem sequer um humano. Sophie nem sabia ao certo o que ele era. Ela se mexeu um pouco na cama e percebeu que sua cabeça estava latejando. Muito.

— Como está sua cabeça? — O homem de olhos verdes perguntou.

Sophie se perguntou como ele sabia que ela estava com dores na cabeça. Foi ai que ela percebeu que sua nuca estava molhada e seu travesseiro estava vermelho, a cabeça dela sangrara. Ela não respondeu, não conseguiu encontrar sua própria voz para fazê-lo e nem sabia ao certo se queria responder àquele homem. Simplesmente ficou olhando para ele com seus olhos cor de mel assustados e arregalados.

— Como fez aquilo? — Perguntou ele. — Como impediu Samy de possuí-la?

Sophie queria respondê-lo, queria dizer-lhe que ela não fazia a menor ideia do que ele estava falando, mas algo dentro dela a fez continuar em silêncio.
Ele esticou seus braços para tocar em sua nuca e Sophie se encolheu, e parecendo quase impossível seus olhos se arregalaram ainda mais.

— Não vou machucá-la. — Disse ele, estendendo sua mão para encostar no machucado atrás da cabeça dela. Seu simples toque fez Sophie se encolher mais, não por medo, e sim por surpresa, ela não esperava que aquele toque fosse tão gentil e quente. — Samy fez um belo estrago. — Comentou. — Você deve estar com fome.

Sophie fez que sim com a cabeça, o que foi uma grande burrice, pois isso fez com que ela latejasse mais.

— Aliás, meu nome é Erick.

Ele pegou uma tigela que estava em cima da cômoda e a entregou para Sophie. Ela aceitou a tigela, e viu que era uma sopa rala, com alguns legumes picados, Sophie fez uma careta. Nunca gostara de legumes. Erick estava observando-a e sorriu quando viu a careta que fizera.

— Eu sei, não é muito apetitoso. Nós ainda estamos conhecendo a comida humana, são tantas variações — Disse ele ainda sorrindo.

Realmente Sophie nunca fora muito fã de sopa com legumes, mas ela estava faminta então deu de ombros e começou a comer. O gosto não era tão ruim quanto a aparência, mas mesmo assim ela não gostou da sopa. Quando terminou, percebeu que ainda estava com fome, mas não se atreveria a pedir mais, eles já estavam sendo muito bonzinhos alimentando-a.
Ele viu que ela tinha terminado então se levantou da cadeira onde se sentara e pegou a tigela colocando-a na cômoda novamente. Erick retirou de uma das gavetas da cômoda um kit de primeiros socorros, se aproximou e começou a limpar o machucado na cabeça de Sophie. Enquanto limpava e fazia o curativo, Erick percebeu que Sophie não parava de tremer. Ele abriu a boca para falar algo, mas gritos do lado de fora do quarto o fizeram continuar em silêncio. Sophie ouviu várias vozes fora do quarto, mas apenas uma realmente chamou sua atenção, era seu pai gritando o nome dela, e com certeza o choro que ela ouvia era de seu irmão. Sophie entrou em pânico. Erick saiu do quarto para ver o que estava acontecendo.

— Erick, volte para lá e fique de olhos nela. Isso é uma ordem. — Disse Beatriz a ocupante do corpo de sua mãe.

— Não, eu vou. Erick é muito bonzinho. — Disse outra voz, uma voz de homem, bem mais grave e que despertava bem mais medo. — Erick, ajude os outros com esses dois. — Ele estava se referindo ao pai e ao irmão de Sophie e ela não gostou nada de seu tom de voz.
Erick obedeceu, e quem entrou no quarto de Sophie era o homem de olhos azuis, que a havia capturado. Ele ficou olhando-a curioso, não como Erick que a olhava como se ela fosse especial, ele estava tentando decifrá-la, pensando em como um ser humano insignificante poderia ter detido um deles.
Sophie estava desesperada e confusa. Ela sabia o que eles iriam fazer com seu pai e com seu irmão, e sabia que eles não teriam a mesma sorte que ela teve ao conseguir impedir que fosse possuída por Samy. E por alguma razão não conseguiu ficar mais em silêncio.

— O que são vocês? — Sua voz saiu trêmula e fraca pelo medo que obstruía sua garganta.
Ele se aproximou dela. Ela se encolheu.

— Pensei que soubesse. — Disse.
Ele não falou mais nada, e Sophie se arrependeu de ter rompido seu silêncio.
Ele continuou olhando para ela e isso a deixou muito desconfortável. Parecia que aqueles olhos azuis quase cinzas a perfuravam, eram tão profundos, e intimidadores que ela não sabia como se comportar diante deles.

— Como fez aquilo? — Suas palavras soaram como uma ameaça, ou ela respondia ou ele faria alguma coisa com ela.

— Eu... Eu não sei. — Foi tudo o que conseguiu dizer.

— Aqueles outros humanos conseguem fazer isso? — Ele Perguntou.
Ela não respondeu. Nem sabia direito o que acabara de fazer.

Ele percebeu que Sophie não ia responder e pareceu irritado, se aproximou dela e agarrou seu pescoço. Ela estremeceu ao seu toque, e grunhiu com o aperto forte ao redor de sua garganta. Sophie achou irônico o fato de que por um momento quando Samy tentava possuí-la, olhou justamente para a criatura que agora a estava estrangulando esperando por ajuda. Se seu ar ainda continuasse indo para seu pulmão, teria conseguido dar um sorriso irônico.

— Olhe nos meus olhos e diga a verdade. — Disse ele. Ela olhou e tentou com muito esforço sustentar aquele olhar, mas continuou em silêncio. Ela já dissera a verdade, não sabia como fizera aquilo.

— Diga! — Gritou apertando ainda mais seu pescoço.
Ela estava assustada, e seus olhos arregalados se encheram de lágrimas. Sophie ficou aborrecida consigo mesma pelo seu momento de fraqueza. Algo nos olhos dele mudou, estavam tensos, impacientes e ameaçadores, mas quando vira as lágrimas dos olhos de Sophie toda a impaciência e as ameaças não estavam mais lá, na verdade, parecia bastante atordoado.
Ele largou o pescoço dela e se afastou. Por um momento ele parecia confuso, mas logo se recompôs.

— Você não sabe. — Ele decidiu. — Com certeza não sabe mais do que eu, está bem claro nos seus malditos olhos, droga.
Ela não conseguiu mais ficar em silêncio, algo nele fazia com que ela quisesse falar.

— Por que vocês fizeram isso com a terra? — Ela perguntou, esfregando seu pescoço.

— Nós apenas estávamos cumprindo ordens. — Disse ele
— De quem?

— Você não sabe mesmo o que nós somos? — Perguntou ele.
— Não.
— Nós somos anjos. – Respondeu. — Estávamos cumprindo ordens... do Céu. Por isso viemos para a Terra — Disse ele. Sophie arregalou ainda mais os olhos.

— De...Deus? Ele mandou vocês fazerem isso? Por quê?

— Não, Deus apenas queria que nós fizéssemos nossas próprias escolhas. Queria que nós parássemos de apenas cumprir ordens, ele queria acima de tudo que nós tivéssemos algum sentimento. Queria que nós começássemos a compreender os humanos — Disse ele. Sophie não entendeu.

— Compreender os humanos? Tipo uma pesquisa?
— Nós anjos não somos como os humanos, não temos sentimentos tão enraizados como vocês. Nós temos os sentimentos dentro de nós, mas nunca os usamos, por natureza nossos corpos bloqueiam qualquer tipo de sentimento, bom ou ruim, mas vocês humanos são movidos pelos seus sentimentos, ele queria que nós víssemos como é. Queria que nós fôssemos bons porque nós escolhemos ser assim e não apenas por cumprir ordens. E então ele mandou alguns anjos para a terra. O que está acontecendo, é apenas consequência das escolhas erradas desses primeiros anjos. Eles não sabem fazer escolhas, apenas cumprir ordens de seres superiores. Eles começaram a odiar os humanos, começaram a culpar os humanos por terem que sair do céu. Os corpos deles não conseguiram bloquear todos os sentimentos ruins que cresciam dentro deles. E Deus? Bom, ele sumiu. Não sabemos o que aconteceu, mas eu sei que o plano era vermos o quão maravilhosos os humanos eram, mas o plano deu errado assim que começou — Disse ele.

Ela não entendeu o que ele estava dizendo. Deus existia mesmo? Então havia um céu e anjos? Mas por que eles iriam fazer uma escolha que acabasse com a terra? Sophie ficou em silêncio novamente e ouviu passos do lado de fora do quarto. Três pessoas entraram, Beatriz, Loren e Erick. Erick deu um breve sorriso para Sophie enquanto entrava, o que fez o homem de olhos azuis erguer uma sobrancelha. Sophie percebeu que Samy não estava ali. O que será que aconteceu com ela? Pensou.

— Ian, já foi decidido o que vamos fazer com essa humana. – Disse Beatriz para o homem de olhos azuis. Então esse era o nome dele, pensou Sophie. Ian.
Ele ficou em silêncio esperando que ela continuasse. — O pai e o irmão dela foram possuídos como todos os outros. Não sei como ela fez aquilo. Samy não era fraca, parece que encontramos a garota certa. Então recebi ordens para que a levemos até Gadrel — Disse Beatriz, com seu tom superior.
Sophie olhou para Ian e depois para Erick. Ela havia matado Samy? Como? Ian se calou e simplesmente concordou com a cabeça. Erick parecia perturbado. O iriam fazer com ela? Ela nem ao menos sabia como fizera aquilo com Samy.

Loren pegou Sophie pelo braço e a fez levantar. Ela começou a chorar novamente. Só queria ver novamente seu pai e seu irmão, mas sabia que eles já estavam mortos.
Loren começou a empurrá-la enquanto saíam do quarto. Estavam em um enorme hospital cheio de corredores brancos com cheiro de morte.

Eles desceram uma enorme escadaria até chegar no que parecia ser o primeiro andar do hospital. Nesse andar havia quatro corredores iluminados e um corredor escuro. Não foi surpresa para Sophie quando Loren começou a empurrá-la justamente em direção ao corredor sem luz. Sophie começou a tremer e suas pernas começaram a vacilar. Loren a empurrou com agressividade para que ela continuasse, mas quanto mais ela lutava para que seus tremores parassem, maiores eles ficavam. Enxergando com dificuldade, ela conseguiu ver uma porta toda preta no final do corredor. Quanto mais eles se aproximavam daquela porta, mais fraca Sophie se sentia. Sua visão começou a ficar turva e ela começou a sentir que suas pernas não suportariam mais o peso de seu corpo. Quando Loren a empurrou novamente, Sophie pisou em falso e seu tornozelo se torceu, com a dor, ela desabou no chão. Loren resmungou um palavrão antes de se abaixar e puxá-la para cima para que ela voltasse a se levantar. Sophie percebeu que sua cabeça começara a girar e uma dor alucinante começou atrás de seus olhos, e voltou a desabar no chão.

Irritado, Loren a puxou com ferocidade.

— Ande logo humana, não sei ser paciente.

Loren tentou puxá-la novamente, mas uma mão estranha o impediu.

— Deixe que eu a levo. – Disse Erick empurrando a mão de Loren para longe de Sophie e a pegando no colo.

— O que está acontecendo aqui? – Perguntou Beatriz de mau humor. – Não temos o dia todo.

— Ela não está conseguindo andar. – Disse Erick. – Eu a levarei.

Beatriz concordou com a cabeça e continuou caminhando em direção a porta escura.

Erick a seguiu com Sophie no colo e logo atrás estava Ian e Loren os acompanhando.

Beatriz abriu a porta escura e todos entraram. Sophie ficou surpresa. Estava esperando um lugar escuro, desorganizado e cheio de materiais de tortura, mas encontrara apenas um quarto comum com somente uma pequena luz acesa ao lado de uma cama vazia. Do outro lado da cama, Sophie percebeu que havia uma outra porta e sua cabeça começou a latejar ao encarar a porta fechada. O que estava acontecendo com ela?

— Prenda a humana na cama. – Disse Beatriz. – Gadrel já deve estar vindo.

Erick colocou Sophie na cama, mas logo saiu da sala e foi Loren quem a amarrou.

Sophie não conseguia se concentrar em nenhum pensamento que vinha em sua mente. Seu corpo todo estava tremendo, seu tornozelo começara a inchar e seu estômago estava embrulhado. Mas nenhuma dor era comparada à que ela estava sentindo em sua cabeça.

Após Loren terminar de dar os nós nas cordas que prendiam Sophie e Beatriz se certificar que ela não conseguiria fugir, todos saíram da sala. Sophie não fazia ideia de quem era Gadrel, mas estava desconfiada de que ele seria a última criatura que ela conheceria.

Alguns minutos depois, ela começou a sentir uma presença no quarto. Sabia que ainda estava sozinha, mas sentiu como se alguém a estivesse observando. Sophie se remexeu na cama, desconfortável. Sentiu sua dor de cabeça chegar a um nível insuportável onde não conseguiu manter seus olhos abertos e começou a gritar de dor.

Após alguns minutos de completa agonia, a dor começou a aliviar e a presença que Sophie sentia no quarto, já não estava mais lá. Ela conseguiu ouviu passos do outro lado da porta de entrada do quarto. Será que o tal Gadrel havia chegado?

— Você não pode estar falando sério. – Sophie começou a escutar a conversa que vinha do corredor. — Ainda não sabemos o porquê deles quererem tanto a garota. – Era a voz de Ian, percebeu Sophie.

— Ian, se Gadrel chegar, nem teremos como descobrir. – Sophie percebeu que era Erick quem estava com Ian do lado de fora do quarto.

— De uma coisa eu sei, precisam dela viva. Caso contrário ela já estaria morta. – Disse Ian.

— Sim Ian, mas Gadrel pode deixa-la em um estado em que ela nem conseguirá mais falar. – Respondeu Erick. – Parece que eles precisam mesmo que ela esteja viva, mas parece que não importa se ela esteja fraca ou não.

Sophie arregalou os olhos e começou a tentar soltar seus pulsos das cordas. Não queria ser torturada a ponto de não poder nem abrir a boca para falar, se fosse para morrer que pelo menos fosse rápido.

— Isso irá complicar as coisas para o nosso lado. – Disse Ian.

— Quer dizer que irá me ajudar?

— Precisamos ser rápidos, Gadrel está perto.

Os dois anjos entraram rapidamente no quarto de Sophie. Erick começou a soltá-la das cordas e Ian estava parado ao lado da porta, vigiando o corredor.

— O que vão fazer? – Perguntou Sophie.

— Não vamos machucá-la. Depois explicamos. – Foi tudo o que Erick disse.

Ele a pegou no colo e os dois anjos começaram a correr pelo corredor vazio.

Notas finais
Obrigada por ler até o fim (: