Possuídos

4 Capítulo Três


Notas iniciais
Boa leitura! Quem está lendo esse capítulo que é um anjo

No fim do corredor escuro, viraram rapidamente à direita para um dos quatro corredores iluminados. Por sorte, não havia ninguém, quando estavam no meio do corredor, próximo a janela aberta, Loren e Beatriz apareceram. Beatriz foi a primeira a perceber que era Sophie que estava no colo de Erick e começou a correr em direção à eles, Loren a seguiu.

— Saia pela janela! – Gritou Ian. – Salve a garota.

Ao invés de obedecer, Erick colocou Sophie sentada no chão do corredor. Ela teria aproveitado a oportunidade para fugir dali, mas com seu tornozelo torcido ela não conseguia fazer nada a não ser ficar parada assistindo o que acontecia a seu redor.

— Espere aqui. – Disse Erick.

Sophie se segurou para não revirar os olhos e dizer: “Para onde eu iria?”

Então Ian e Erick fizeram algo que surpreendeu Sophie.
Erick segurou Beatriz, e Ian deu um belo cruzado de direita em Loren que acabou caindo no chão. Ian se aproximou dele e começou a desferir um soco atrás do outro até que Loren estivesse sem consciência. Beatriz se soltou dos braços de Erick, ela ergueu a mão em direção a Ian e ele caiu de joelhos no chão se contorcendo, mas Erick tocou na parte de trás do pescoço de beatriz com um movimento estranho e ela desabou no chão sem consciência. Ian se levantou.

— O que foi isso? – Perguntou Ian.

— Uma coisinha que eu aprendi com os humanos. O toque de Spock – Disse Erick.

— Como assim? – Quis saber Ian.

— Aprendi isso com um filme, acho que se chamava Jornada nas Estrelas. Bem interessante aliás, mas como o golpe é ficção, os humanos não conseguem realizá-lo. Enfim, quando se aplica esse golpe, atinge os pontos neurais do humano, nossa ligação com o corpo que estamos usando fica comprometida. O humano fica desacordado e a criatura dentro dele perde sua conexão com o cérebro por algum tempo.

Ian pareceu bem interessado no golpe e ia perguntar mais, percebeu Sophie. Então ela soltou uma tossida falsa, para ver se chamava a atenção dos dois anjos para a situação inusitada em que estavam.

— Temos que ir. – Disse Erick voltando a atenção para Sophie.

Sophie abriu a boca para perguntar para onde eles iriam leva-la, mas Ian começou a andar rapidamente em sua direção. Ian segurou Sophie pela cintura com força, o que a fez corar como uma idiota.

— Gadrel está aqui, vamos agora! – Disse ele.

Ele fez suas asas se materializarem e Erick fez o mesmo. Sophie percebeu que as asas de Ian eram pretas, e as de Erick eram brancas e se perguntou por quê. E então, eles pularam pela janela aberta.

Sophie não sabia descrever o que estava sentindo, nunca ficara tão longe do chão antes.
Ela sentia as mãos firmes de Ian em sua cintura, e lembrou que estava usando apenas um top preto e um short jeans sujo na noite em que fora pega e ficou envergonhada. Após muitos minutos de silencio e constrangimento, eles pousaram em uma área bem afastada da cidade. Encontraram uma casa abandonada, praticamente caindo aos pedaços, e se instalaram lá. Sophie se lembrou de seu pai e de seu irmão. Passara meses vivendo assim com eles. Escondidos. Com medo. Mas agora ela sabia que seria diferente, não estava com seu pai tampouco com seu irmão, estava com dois anjos. E nem sabia os motivos que os levaram a salvá-la e ajuda-la, não sabia sequer se estavam mesmo ajudando.

— Por que vocês fizeram aquilo? Por que me salvaram? — Ela perguntou.
Sophie olhou para Ian esperando a resposta, mas foi Erick quem respondeu.

— Aquelas criaturas que estavam no hospital não eram anjos. — Disse ele, e deixou Sophie ainda mais confusa.

— Espera, se eles não eram anjos o que eles são?

— Bem, eles são anjos, mas são anjos-demônios, eles desobedeceram a Deus, não foram mais leais a ele. E agora estão se transformando em demônios... Aos poucos. — Explicou Erick, se sentando em um sofá velho que havia na casa. Ian ficou parado em pé no meio da sala.

— Por que vocês estavam ajudando eles? — Sophie quis saber.

— Quando eu caí, eu vi que eles trabalhavam com possessão e eu fiquei completamente admirado com isso, e quis muito trabalhar com isso também, eu sempre estudei o comportamento humano e já havia tido experiências com possessão antes, então eles me aceitaram na equipe. Eu não sabia que eles eram o que são. Eu apenas queria ajudar os anjos jovens a se adaptarem bem ao seus novos corpos. Descobri o que eles são quando estava passando em um corredor vazio no hospital em uma noite e acabei ouvindo conversas estranhas e fui lá ver o que era. — Ele parou por um momento para pegar fôlego e continuar. — Eu vi Samy mostrando suas asas, então eu soube o que eles eram.

— Mostrar suas asas? — Sophie não entendeu.

— Sim, quando os anjos estão virando demônios, as asas deles ficam pretas, e quando o processo de transformação estiver pronto, elas caem e não precisam mais delas para voar. — Explicou Erick olhando para Ian, que estava em pé, imóvel, olhando para fora da janela.

— Então, Ian é um anjo-demônio? — Ela se lembrou das enormes asas negras de Ian.

— Sim, Ian queria trabalhar com possessão como eu quando decidiu cair, eles aceitaram, mas Ian também descobriu o que eles eram, então deram uma escolha a ele, ou ele renegava Deus e se juntava a eles ou eles acabariam com a vida dele. — Contou Erick. Sophie não acreditou, Ian não parecia um traidor.

— Ele traiu Deus? — perguntou Sophie.

— Não! — Gritou Ian. Sophie olhou para ele com olhos assustados. — Ela não precisa saber. — Disse ele olhando para Erick.

— Por quê? Eu vou acabar morrendo de qualquer jeito, eu sou apenas uma humana. — Disse Sophie.

— Eu não reneguei a Deus, mesmo todos vendo assim, eu não fiz isso para salvar minha vida. Era a única opção que eu tinha para continuar vivo e impedir eles. — Disse Ian finalmente tirando os olhos da janela e olhando para Sophie.

— Eu era o único anjo que sabia dos planos deles antes de Erick descer à Terra e também descobrir, e era meu dever continuar vivo e tentar impedi-los, e essa era a única maneira de fazer isso. — Explicou Ian. – Eu estava sozinho e quando tentei falar com os anjos, eles não me escutavam. Disseram que não escutariam um traidor. Quando Erick desceu, os anjos o escutaram, mas os anjos-demônios já recrutaram mais da metade dos anjos caídos.

Sophie, já não sabia mais no que pensar, a seis meses ela estava vivendo com sua família normalmente como todos os seres humanos, e de repente, seu planeta é tomado por anjos e anjos-demônios, sua mãe é morta por eles, vive por meses como foragida, se escondendo em lugares abandonados com seu pai e seu irmão e agora estava novamente fugindo de todo mundo, mas agora com dois anjos. Sua vida não tinha como piorar, ou tinha?

— Quais os planos dessas criaturas? — Perguntou ela, e pelos olhos de Ian ela percebeu que sim, sua vida poderia piorar. E muito.

— De domínio. Quando os demônios descobriram que Deus mandou os anjos caírem para ver como é ter sentimentos e poder de escolha, não sabemos como, mas eles conseguiram sair do inferno e fizeram os primeiros anjos caídos mudarem de lado. Por dois ou três meses, o que estava dentro dos humanos eram anjos, mas agora quase todos que vivem na terra são anjos-demônios. — ele parou, e olhou para Erick. — Erick não sabia disso quando caiu.

—Todos os anjos estão contra a vontade de Deus? – Quis saber Sophie.

— Não exatamente, eles não teriam mudado de lado se estivessem em suas formas santas, mas estavam em seus hospedeiros, estavam tomados pelos sentimentos humanos. Estavam com raiva por terem que deixar o céu. Assim ficou mais fácil para os demônios convencerem os anjos a se rebelarem e aqueles que não se rebelaram acabaram morrendo, mas ainda há anjos no planeta e humanos também, mas são poucos humanos. — Disse Ian agora se sentando em uma cadeira velha ao lado do sofá. — Tanto os anjos, quanto os demônio precisam estar em um hospedeiro para que sobrevivam na terra, e pelo visto os anjos acharam que Deus estava apenas brincando com eles mandando-os para cá, foi esse argumento que os demônios usaram para convencer os anjos a trocarem de lado.

— Mas como eles deixaram Erick continuar anjo? E se ainda há anjos no planeta, por que você não pediu ajuda para eles? — Quis saber Sophie.

— Erick foi um dos últimos a cair. Ele não quis se virar contra Deus, mas eles ainda precisam dele, pois ele tem conhecimentos sobre possessão que eles não conhecem. Como por exemplo, quando um anjo não aceita se colocar contra Deus, Erick sabe como tirar o anjo de dentro de seu corpo hospedeiro para que eles possam colocar um deles dentro do corpo e assim, não perder o hospedeiro. — Explicou ele. — Erick os ajudava ou era morto.

Sophie queria saber como se matava um anjo, mas ela estava assustada demais para perguntar mais sobre essa história. E Deus? Se ele realmente existia, por que ele não resolvia logo isso?
Ela ficou em silêncio. Não iria perguntar mais nada, já estava assustada demais.

— Não há muitos anjos na Terra. Os que sobraram estão lutando para salvar o planeta e poderem retornar ao céu, outros estão se escondendo. Tentei pedir ajuda para alguns, mas eles me acusam de traição e não me escutam. Os demônio barraram as portas do céu. Como eles não podem entrar, ninguém poderá sair, não temos nenhum tipo de ajuda. Estamos em guerra e estamos perdendo.


Ela se levantou e caminhou até a janela. Debruçou-se sobre ela e ficou olhando para o lado de fora mesmo não tendo nada para se olhar, eles haviam se instalado em um lugar deserto onde a única coisa que havia ao redor era muito mato.
Sophie sempre fora uma mulher forte, e sobreviver até ali com tudo o que havia acontecido em sua vida era uma prova disso, mas olhando para o nada ela se lembrou que seu pai, seu irmão que tinha apenas dez anos de idade e sua mãe, estavam possuídos por seres com poderes que ela nem imaginava que existisse. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, ela rapidamente passou sua mão no rosto para secá-los, odiava demonstrar fraqueza. Odiava se sentir tão sozinha.
Ela ouviu Erick se levantando do sofá e caminhando em sua direção. Ele pôs suas mãos nos ombros dela, virando-a de frente para ele, e a abraçou. Ela precisava daquele abraço e ficou muito agradecida por Erick ter lhe dado. Sophie se afastou lembrando-se que sua primeira pergunta ainda não fora respondida.

— Por que me salvaram? — Perguntou.
Erick abaixou a cabeça para olhar nos olhos dela. Quanta dor havia naqueles olhos, ele pensou. Os humanos e seus sentimentos eram algo que ele não compreendia bem.
— Quando Samy não conseguiu entrar em você, nós percebemos que você era diferente dos demais humanos. Eu deduzi que deve ter algo diferente em toda a sua família, mas principalmente em você. — Explicou Erick, e antes de ele continuar, Ian se aproximou também interessado em saber sobre essa parte da história.

— Bem, aparentemente sua mãe fora a única hospedeira que conseguiu manter Beatriz em seu corpo. Beatriz havia possuído outros humanos antes dela, mas eles não duravam nem uma semana e ela tinha que trocar de hospedeiro dentro de quatro dias, mas quando ela encontrou sua mãe, viu que havia encontrado sua hospedeira ideal. Beatriz já é um demônio, sua transformação já está completa e aparentemente os demônios poderosos como Beatriz precisam de hospedeiros poderosos e sua mãe era uma lutadora. — Erick parou para que Sophie e Ian assimilassem o que ele acabara de dizer.
— Qual sua teoria? — perguntou Ian.
— Creio que Sophie seja abençoada por Deus. Por isso eu a ajudei. E graças aos céus você me ajudou a ajudá-la — Disse Erick. Ian arregalou os olhos, mas Sophie não entendeu. O que Erick queria dizer com isso?
— E o que isso quer dizer? — Perguntou Sophie.

— Há uma história entre os anjos sobre isso. — Começou Erick. – A história é de um ser abençoado que é equilíbrio entre o bem e o mal e que toda a criação corre o risco de desaparecer porque um outro ser, um dos favoritos de Deus, foi tomado pela inveja. Na história, as escolhas desse ser abençoado define o destino de todos os seres criados por Deus, mas não diz o que ele é. Poderia ser qualquer um, até um humano. — Erick encarou Sophie. — Aparentemente Deus não desistiu da terra, ele escolheu alguém para que salve seu planeta, caso minha teoria esteja correta, é claro. — Disse Erick, fazendo Sophie arregalar ainda mais seus olhos.

— E vocês acham que sou eu? Eu sou apenas uma humana, não tenho poder algum. — Disse Sophie.

— Não sabemos. — Disse. — Não sabemos nem se estou certo, mas Deus talvez escolheu você para dar fim a tudo isso, Sophie, nenhum humano consegue resistir a um anjo ou demônio como você fez, Deus a ajudou. Os demônios estavam atrás de uma garota, talvez seja por causa da minha teoria.

Por que eu? Pensou Sophie. Ela só não podia ser possuída por demônios. Grande coisa. Além disso, ela não fazia nada em especial, não voava nem cuspia fogo, pelo menos achava que não. Por que Deus a escolhera? Talvez Erick estivesse errado.

— Parece bobagem... — Erick começou a se explicar para Ian.

— É uma bobagem. — Disse Ian. — Uma grande bobagem. Essa história não é verdadeira Erick. Muitas histórias foram inventadas após a queda do primeiro anjo. Foi por isso que decidiu salvá-la?

— Ian, ela matou Samy sem sequer erguer uma mão! — Disse Erick. — Mesmo que minha teoria esteja errada...

— Errada? — Interrompeu Ian. — Sua teoria se baseia em contos de anjos Erick.

— Não importa. Há algo diferente em Sophie. Se descobrirmos, ela pode nos ajudar a abrir as portas do céu para que os anjos nos ajude a vencer essa guerra.

— Abrir as portas? — Falou Ian incrédulo. — Sabe quantos demônios estão barrando aquelas portas? São muitos Erick. Eu não acredito em sua teoria, mas gostaria que ela fosse verdade.

Eles ficaram em silêncio, cada um com seus pensamentos e medos. Após algumas horas tendo pensamentos estranhos e assustadores, Sophie conseguiu adormecer.

Sophie acordou com dor no pescoço, porque dormira no sofá. Ela logo percebeu que havia acordado muito cedo, e que Erick e Ian ainda estavam dormindo, talvez por eles estarem dentro de corpos humanos, eles tivessem necessidade de dormir, pensou. E aparentemente eles estavam exaustos na noite passada, pois Erick havia dormido sentado na cadeira e Ian estava sentado no chão encostado na parede dormindo de boca aberta. Ela se deu conta que os achava incrivelmente normais dormindo e muito bonitos também, e queria ficar ali admirando eles, pois por mais que parecessem apenas dois humanos comuns dormindo, ambos irradiavam uma beleza pura e angelical, mas Sophie percebeu que estava faminta quando seu estômago soltou um sonoro ronco e provavelmente os dois estariam também quando acordassem. Sophie sentiu tremenda alegria por poder fazer algo por seus salvadores. Algo que mostrasse sua gratidão por tudo que fizeram e arriscaram para mantê-la viva. Ela abriu a porta da casa com muito cuidado para não fazer nenhum barulho e foi procurar alguma fruta no meio daquele matagal todo. Sophie encontrou algumas abóboras pequenas, um pouco maduras demais e fez uma careta, ela detestava abóbora, mas talvez anjos gostassem então ela pegou uma mesmo assim. Encontrou também algumas maçãs, que estavam meio verdes, mas eram melhores do que abóboras. Havia três maçãs em condições de serem comidas no pé e decidiu pegar as três. Sophie olhou em volta, parecia que em algum momento da vida, aquele lugar foi um rancho com plantação de abóboras bem cuidadas e um grande pomar. Após alguns minutos observando as árvores, ela percebeu que estava se arriscando muito, não podia ser vista por ninguém, então decidiu voltar.
Quando entrou na casa deu de cara com um anjo e um anjo-demônio muito zangados.
— Onde você estava? Acabamos de acordar e não encontramos você. – Disse Erick. – Pensamos que tinha sido pega.
Sophie olhou de Erick para Ian.

— Eu...Eu estava com fome, e pensei que vocês também estariam quando acordassem então vi que havia alguma plantação no meio desse mato todo e fui procurar algumas frutas para nós, mas tudo que encontrei foi essa abóbora e essas três maçãs. — Disse Sophie mostrando o que havia encontrado.
Erick pegou as frutas do braço de Sophie. Ian se aproximou dela e agarrou seu braço.

— Nunca mais faça isso. — Disse Ian dando um leve aperto no braço de Sophie e o soltando em seguida. – Não gosto de ser babá de uma humana, mas até que Erick saiba o que você é e se pode ou não nos ajudar a derrotar os demônios, devo te manter segura.
Erick que não ouvira o que Ian acabara de dizer para Sophie, estava sentado comendo uma das maçãs que Sophie trouxera. Sophie pegou a abóbora, foi até a cozinha velha da casa e abriu os armários procurando por uma faca, abriu uma das gavetas e encontrou o que queria. Pegou a faca e a limpou em seu short e então abriu a abóbora e voltou para a sala.
— Vocês querem? — Ela ofereceu. Ian recusou, aparentemente Ian gostava tampouco de abóbora quanto Sophie, pois fez uma careta enquanto olhava a abóbora. Erick aceitou um pedaço.
Sophie comeu uma maçã, Ian comeu outra e Erick comeu quase a abóbora toda.
— Vou buscar mais comida e roupas, acho que você não está muito confortável com a que está usando. — Disse Ian.

Sophie corou. Estava mesmo desconfortável com aquelas roupas que mal tampavam seu corpo.

— Ian, não acha arriscado sair? Você pode ser visto. — Falou Erick.
— Cuide dela, eu volto em poucos minutos. — Disse Ian.
Erick ia protestar, mas Ian já havia saído.

Notas finais
Obrigada por ler ♥