Porto Maribel
4 A mentira imperfeita
No fim do dia, no conforto do banheiro, tomei um banho morno. Passei o shampoo de camomila nos meus cabelos loiros e um tanto compridos que teimavam ficar um pouco abaixo da minha sobrancelha. Eu sempre gostava de tomar o meu chuveiro com as madeixas para trás. Eu me imaginava como se fosse algum cantor finalista do The Voice. Passei o sabonete sobre o meu corpo um tanto musculoso por causa do meu genes de alfa. Como a vida é boa. SÓ QUE NÃO!
Carai, eu sou um merda! Fiz aquele trabalho sujo no Rio de Janeiro para assim ganhar uma grana e pagar o meu aluguel, mas contribuí para o sofrimento de pessoas como aquele pobre ômega de antes. Fiquei com a consciência pesada depois que Caio revelou que odiava pessoas que maltratavam os ômegas. Fiquei completamente envergonhado, haja vista eu também fiz parte desse tipo de grupo de pessoas odiáveis.
Não sei por que eu não queria perder o começo da minha amizade com ele. No começo a sua índole me parecia duvidosa, porém sei que era um bom homem.
Saí do banho, renovado e pronto para descansar. Pensava muito no que poderia acontecer se Caio soubesse da minha ligação com Vinícius e o remédio rosinha. Não, prefiro não pensar nisso agora.
...
Meu pai melhorou da covid e voltou a gerenciar o mercadinho. Minha irmã agradeceu aos céus pelo coroa ter se recuperado totalmente e assim voltar ao caixa. A preguiçosa não queria ter que voltar a trabalhar no caixa. Entretanto, papai nos surpreendeu e nomeou a minha irmã como a mulher do empacotamento.
— Mas dá no mesmo! Nem para ser relações públicas!
— O Sérgio tá fazendo estágio para isso. Ele fez faculdade e precisa desse emprego.
Tentei dar a minha opinião, mas me mandaram calar a boca. Dei meia volta, Sabrina me puxou pela gola da camisa.
— Vem aqui, seu safado.
— Vai me dar esporro às 8 da manhã? Dá uma trégua.
— Por que esse puxa-saco não pode trabalhar de empacotador? Ele passou anos na farra no sudeste e agora não quer trabalhar pesado porque dói a unha.
O meu celular tocou várias vezes, interrompendo a discussão entre pai e filha. Pedi para atender. Papai assentiu.
Atrás de umas prateleiras, atendi ao telefonema. Entendi que era o meu amigo Hélio. Quis saber das novidades, mas a sua voz estava meio alterada, meio frágil.
— Que foi? Porque cê tá falando assim?
— O tal Vinícius veio até a minha casa e vasculhou tudo. Colocou tudo abaixo. Cara, ele tá doido atrás de ti. O que foi que você fez?
— Acho que peguei dinheiro dele sem ele saber hehe.
Hélio me apelidou de tudo quanto era nome, exceto de santo. Respondi a ele para que mantivesse a tranquilidade e que não falasse o meu endereço ao homem.
Após a ligação, fiquei nervoso e voltei para casa. Abri a minha mala e retirei um montante de cinquenta mil reais que havia recebido de um pagamento da venda de comprimidos. Não repassei o dinheiro ao Vinícius, por isso a loucura dele em me encontrar. Observei um saco plástico enrolado numa cueca minha. Dentro havia comprimidos. Sim, eu pensava em vender isso por aqui. Peguei todas as drogas e joguei no vaso sanitário.
— O que você tá fazendo aqui?
— Caio! Eu tava desentupindo a privada?
— Sem o desentupidor?
— Mas esqueça isso. Hehe. O que você faz aqui?
Ele se aproximou de mim e pôs a sua mão em meu ombro. Falou acerca dos barcos de pesca ancorados no porto.
— Estou te convidando a ir comigo pescar.
— O quê?
...
Há muito tempo não via um barco pesqueiro tão grande. Nem se compara ao antigo que o meu pai tinha. Enfim, para o meu azar não pude negar a proposta. Pedi licença ao meu pai e ele assentiu. Seu espírito de pescador corria em suas veias.
Encarei a minha sina. No píer, andei até chegar ao São Luís Pescador. Um nome brega para um barco ainda mais brega. Não era por nada, mas a embarcação não era das melhores.
— Ué? Vai ficar aí parado? — Disse ele ao mexer na rede junto com outros pescadores.
— Claro que não.
Zarpamos. Logo o continente ficou cada vez mais distante. Viramos um típico Piratas do Caribe Tabajara quando começaram a falar "bombordo, estibordo, milhas náuticas" e por aí vai. Fiquei observando o oceano na murada do convés. Caio apareceu ao meu lado.
— Tá gostando?
— Mais ou menos. Eu não sou totalmente o menino da cidade como você pensa. Talvez antes de você se interessar por perca, eu já fazia isso com o meu pai.
— E desde quando parou de se interessar? Olha, não é porque seu pai é pescador que você automaticamente vai ser. Mas pelo pouco que sei sobre a seu respeito, posso afirmar que você deu meia-volta, dando cavalo de pau na sua vida. Se um dia pescou, não parece.
As palavras de Caio me fizeram pensar. Quando parei de me interessar por tudo de Porto Maribel? A minha sanha em ser alguém apartado das suas raízes me deixaram arrogante? Talvez sim, talvez não.
— Não quero falar sobre isso. — Rechacei quaisquer possibilidades de iniciar uma conversa acerca do meu passado.
— Tudo bem. Não quero que você faça aquilo que não gosta. Só que é bom de vez em quando voltar para as origens. O rapaz da cidade grande passar um tempo com a família onde o Judas perdeu as botas. Talvez encontrar os amigos, novos amigos ou melhor.
Nossos olhares se cruzaram por alguns segundos. Senti-me quente. Era como se borboletas voassem dentro do meu estômago.
Nossos corpos se aproximaram. O que será daí para frente? Entretanto, nosso momento a sós acabou quando um do pescadores chamou-o para a cabine.
Sabia que não seria fácil voltar a pescar. Não devia ter aceitado o convite.
— Se ficar até o fim do dia, darei uma recompensa.
Fiquei curioso pela recompensa. Mas não pude ficar parado. Tive que ajudar. Os homens soltaram a rede ao mar. Estávamos a cerca de 30 quilômetros da costa.
— Que houve? Já desistiu antes de começar? — Perguntou Caio ao me ver sentado no convés.
— O sol tá de sacanagem. Muito quente. — Senti algo na minha cabeça. Era o boné que ele usava.
— Pode me devolver depois. Agora levanta. Tenho uma surpresa.
Levantaram a rede. Vi uma montanha de peixes. Foi a primeira vez que vi tantos peixes serem capturados de uma vez só.
— Temos quase duas toneladas. Nosso dia de sorte — falou o capitão.
Eles comemoraram. Rolou até uma cervejinha. Peguei uma.
Todo aquele cardume fora colocado no típico freezer na parte de baixo do convés. Era onde uma sala enorme cheia de gelo ficava. Caio me explicou para que servia.
— Daqui pra baixo é onde fica a quilha.
— O que é quilha?
— Basicamente a espinha dorsal do barco. Vamos.
Retornamos para a superfície. Os pescadores ficaram sentados no convés enquanto batiam um papo interessante. Aproveitamos que o tempo estava nublado para refrescarmos com os ventos vindos do Atlântico leste.
— E aí, garoto? Gostou da experiência? — perguntou o capitão. Assenti. — Então beba mais cerveja. Aqui no mar não existe lockdown nem máscaras. Vamos aproveitar.
Brindamos. Caio sentou ao meu lado. Senti algo estranho.
— Que foi?
— Nada.
Um dos pescadores alertou algo relacionado a uma ilha. Fomos olhar. Segundo o capitão, era a ilha em que um coronel português escondeu tesouros na época colonial.
— Podemos ver? — sugeri.
— Acha mesmo que ainda há um tesouro de mais de 200 anos naquela ilha? Esqueça. O governo já havia retirado antes mesmo da independência. — Respondeu o capitão.
— Não é isso. Eu costumava pescar com o meu pai nessa ilha. Queria apenas relembrar esses tempos.
Caio sorriu para mim. Senti-me quente. Não posso acreditar que estou gostando desse cara. Sempre fui assim. Só me envolvo com pessoas que eu, a princípio, não quero.
A ilha da pedra do caranguejo, nome dado por mim desde pequeno, era uma minúscula porção de terra. Acho que tinha a área de dois quarteirões. Eu dava esse nome por causa duma pedra em formato de casco de caranguejo que ficava na única praia.
— Caio, os peixes não apodrecem?
— O gelo preserva. Vamos. Foi você quem pediu.
Descemos do barco. Estávamos na ilha. Sete homens. Aproveitamos para relaxar um pouco antes de retornarmos ao porto.
— Eu tenho lembranças boas. Fui eu quem dei o nome dessa ilha por causa daquela pedra.
— Então vamos até ela. Se isso te faz ter boas recordações, melhor darmos uma paradinha lá, não é? — Caio me incentivou.
Fomos os únicos a sentar na pedra. Os demais ficaram mais longe conversando.
— Que foi? — Percebi que Caio me olhou de relance.
— Nada demais. Estava apenas admirando a sua beleza. Sabia que você está bem diferente daquele em que conheci?
— Claro. Qualquer um se irritaria com aquela pegadinha. Não foi nada engraçada.
— Eu sinto muito. Sempre fui criado de maneira mais liberal possível. Fui daquelas crianças sapecas que empinavam pipa, rodava pião, brincava de pega-pega e ralava o joelho.
— Falando assim parece até parece alguém fofo.
Ele riu.
— Você é comprometido? — Ele me surpreendeu com a pergunta.
— Por que pergunta?
— Um cara lindo como você estar solteiro é uma pena. Sabia que eu sou bissexual? — Mais surpresas.
— Verdade? Qual a sua preferência? Homem ou mulher?
— Ômegas. Bom, eu nunca namorei um, mas acho que tais pessoas são valiosas. O governo pode discriminar, mas acho que é algo completamente... criminoso. Fazer isso com pessoas inocentes e que precisam de ajuda, deixam-me puto da vida.
— Você fala como se houvesse um ômega especial na tua vida?
— Na realidade não. Aprendi com a minha família o respeito mútuo. Meu pai foi o que mais me ensinou valores. Sabe o capitão ali? Ele é o meu pai.
— Não brinca!
— Foi ele quem me ensinou a respeitar e a amar o próximo. E disso saiu a minha curiosidade nos ômegas. Um dia quero ter o poder político para mudar a realidade deles.
Conheci um pouco mais acerca da vida de Caio. Não foi fácil lidar com uma pessoa tão exemplar como ele. Sou um lixo humano na sua frente. O pior era que eu realmente estava gostando dele. Como fazer com que esses sentimentos parassem de crescer em meu coração?
— A duplinha dinâmica! Desçam das pedras. Vamos voltar.
Pouco tempo depois, todos estávamos de volta ao barco no retorno ao porto. Ficamos dentro do convés, no que posso considerar como uma cozinha embutida naquele barco. Não havia espaço, mas cabia alguns de nós. Os únicos que estavam ausentes era o capitão e o imediato.
— Percebi que os dois se levam bem. Vai rolar romance? — perguntou um dos pescadores. Fiquei corado com a pergunta.
— Pare de pressioná-lo. O meu amigo acabou de voltar do Rio de Janeiro. Peguem leve.
Agradeci a Caio por me ajudar. Mas os homens estavam com a bola toda ao me perguntarem.
— E qual é o seu subgênero? Todos nós aqui somos betas. Mano, queria eu ter nascido alfa — disse um dos percadores.
— Dizem que os alfas são bem inteligentes e astutos. Suas qualificações são superiores desde o berço — falou o outro pescador.
— O senhor Leimar é alfa, não é? Como é conviver com um? — Indagou um terceiro.
Caio novamente se meteu entre mim e eles, e repreendeu-os. Agradeci por isso, mas prefiro que não me defendesse tanto como se eu fosse uma criança débil.
O rádio tocou. O capitão chamou todos para ir ao convés. Fomos. O barco estava para atracar no cais.
— Vamos levar os peixes para vender aos mercados da cidade, sobretudo no mercado do seu pai. — Falou Caio com um sorriso agradável no rosto.
Entrementes, os empregados de uma terceirizada pagos por papai foram buscar os peixes. A maioria seria vendida pelo mercado da minha família.
Ajudei a por os animais dentro de caixotes de plástico com muito gelo. Foram dezenas.
— Não precisa fazer isso, senhor Júlio...
— Vamos, homens. Eu não sou tão fraco quanto pareço. Esqueceram que tenho músculos?
— Mas o seu pai nos paga para isso.
— Eu gosto de ajudar.
Coloquei algumas caixas dentro de um caminhão baú de porte médio. Em pouco tempo enchemos com caixas. Pedi para eles irem sem mim.
— Vou a pé se necessário. Agora podem ir.
Eles foram. Continuei no cais, ajudando Caio e o seu pai.
— Obrigado por tudo, Júlio. Você foi de grande ajuda. Tomara que possamos ter outro encontro desses no futuro próximo.
— Ah, Caio, não foi nada.
— Espera a gente. Vamos de carro e passaremos perto da tua casa. — disse o capitão.
Agradeci. Por fim despedi-me dos demais pescadores e acompanhei pai e filho até a picape.
O veículo era de quarto portas, portanto deu para ficar confortável no assento traseiro.
— E então, garoto. O que te fez voltar ao Porto Maribel? Estudos, necessidades médicas, financeiro.
Não podia falar o verdadeiro motivo ao capitão. Enrolei.
— Estava com problemas financeiros e não tinha mais ninguém a recorrer. Decidi voltar pois era a escolha mais fácil.
O carro parou e eu desci um quarteirão de distância de casa. Agradeci pela carona. Caio pediu que trocássemos nossos números.
— Até um outro dia, Júlio.
— Até.
Atravessei a pista e caminhei pela rua até chegar na minha casa de frente ao mar. Mamãe conversava com uma amiga no portão.
— Oh, filho. Como foi a pescaria?
— Muito bem. Que carro é aquele? — apontei para um veículo sedan prata parado metros adiante.
— Um amigo seu do Rio de Janeiro veio te visitar.
— Um amigo do Rio? Cadê ele?
Mamãe me puxou pelo braço e me levou até a sala de casa. Olhei com desespero a fastidiosa presença de Vinícius sentada no sofá enquanto tomava café com o meu pai.
— Há quanto tempo, amigo? Foi um pouco difícil te encontrar, mas finalmente estou aqui.
Não pude sequer pronunciar o seu nome. Meu desejo era apenas fugir dali. Como ele soube da minha casa?
— O que houve, amigo? Vai ficar aí parado? Eu dizia ao seu pai acerca da nossa brilhante amizade no Rio.
...
O impacto de ver Vinícius sentado na sala de casa e conversando amigavelmente com o meu pai me arrebatou de tal maneira que eu sequer raciocinava para falar algumas palavras. Fiquei perplexo, porque nunca havia contado aos meus amigos cariocas, incluíndo Hélio, sobre o endereço dos meus pais.
Papai falou o meu nome de maneira contundente após eu ficar alguns segundos em silêncio.
— Sente-se mal, filho? — Mamãe indagou.
— Não é nada.
— Já é a quarta vez que lhe chamo. Esse não é o seu amigo?
Vi um sorriso malicioso dele em seu rosto. Não podia contar a verdade. Papai continuou a me olhar.
— Ele é... Olhe, estou cansado. Acho que foi a maresia que me deixou assim.
— Cuidado, amigo. Não devia se esforçar. Posso falar contigo a sós? Os senhores podem me dar licença para eu sair um pouquinho e ter um diálogo mais privado com o meu amigo? Preciso falar de um assunto mais privado com o Júlio.
— Tudo bem. Sinta-se à vontade — respondeu mamãe.
Assenti. Chamei Vinícius ao lado de fora enquanto a minha família continuou sem saber o que fazer.
— Desenrola. O que faz aqui e como achou esse lugar?
— Quanta agressividade. Nem pra dar boas vindas ao seu amigão do peito. Cê sabe muito bem o motivo de eu estar aqui. Quero o meu dinheiro.
— Você está louco. Do que você fala?
Ele puxou o meu antebraço e pediu para eu abrir a mão. Colocou um papel sobre e falou para eu ler o endereço que havia escrito.
— Você trocou de chip, por isso não consegui entrar em contato. Aí está o endereço da pousada que estou hospedado. Vá ainda hoje com o dinheiro ou seus pais saberão do trabalho que teve como traficante.
Minha voz falhou. Ele tinha razão ao me ameaçar. Fui longe demais servindo ao mercado negro de drogas. Esse provavelmente é o meu karma.
— Que horas?
— Passe por volta das 19 horas. Vá sozinho e com o meu dinheiro. Nada de gracinhas.
Vinícius não estava só. Um homem o esperava de dentro do carro. Provavelmente um cúmplice. Já não bastava a milícia me procurar... agora esse maníaco. Como pude ser tão tolo a ponto de acreditar em suas palavras?
— Diz a verdade. Quem é o gato? — Sabrina me surpreendeu por trás.
— Eu já disse. Ele é um amigo. Agora vê se não se mete onde não é chamada.
Deixei-a bufando para trás e voltei para casa.
À noite não tive escolha a não ser sair para a tal pousada em que Vinícius se hospedara. E, claro, iniciaram as perguntas e tentativas de se extrair qualquer informação útil da minha parte.
— Não quero que se preocupem comigo. Ligarei se por acaso eu não retornar.
— Mas filho... isso tem a ver com aquele seu amigo?
— Não, mamãe. Preciso ir.
Fui a pé até o local onde peguei um uber na direção da pousada.
...
Nada é tão ruim que não possa piorar. O local em que a pousada estava localizada era um bairro periférico, perto de uma comunidade carente em que facções se apoderaram da vida do cidadão comum. Tal localidade ficava quase à beira mar. Apenas a areia da praia separava as casas do oceano, o que causava uma invasão de areia nas ruas e casas.
Logicamente o motorista do uber não entrou na favela por medo ou preconceito. Parou numa avenida. De um lado o mercado central da cidade e do outro a comunidade.
— Desculpe, querido. Nenhum motorista entra na favela do Barroso. Vai ter que ir a pé e com a sua segurança apoiada em Jesus. Boa sorte.
Eu levava uma quantia enorme de dinheiro numa mochila. Estava prestes a entrar numa favela perigosa. Respirei fundo. Nem me preocupei primeiro, pois o dinheiro sequer era meu.
O carro que eu vi antes parou do outro lado avenida e buzinou.
— Vai pra onde? — questionou o homem que acompanhava Vinícius.
— Levar o dinheiro...
— Entra. Ele não quer correr o risco de perder cinquenta mil reais para um bando de pé rapados de favela.
Fiz assim como ele me disse. Subi no carro e fomos por uma outra parte da favela. Havia uma rua mais movimentada que cortava essa comunidade. A pousada ficava uma distância considerável, mas precisávamos passar por aquele incomum caminho.
— Chegamos. Saia.
A pousada era tão medíocre quanto o Vinícius. Localizada sobre um conjunto de lojas no térreo. Lembrou-me certas localidades cariocas. Entramos por uma entrada simples ao lado de uma pequena papelaria. Subimos as escadas e fomos para o andar residencial. Vinícius apareceu na porta, parecendo um cafetão trajado numa camisa social listrada e brilhante. A cor vinho era demasiada cafona e lembrava um cara que trabalha com o jogo do bicho.
— Sem mais delongas, Vinie. Eu vim para você me deixar em paz.
— O que mais quero é te deixar em paz. Pode não acreditar nas minhas intenções nobres. Você.
— Sim, chefe?
— Fique aqui em fora, por enquanto. Quero privacidade com o meu Julinho.
Entrei apenas com a companhia daquele alfa de merda. A minha vontade era sair dali o mais rápido possível.
Dentro do apartamento havia duas mulheres, aparentemente prostitutas, sentadas no sofá da sala. Uma delas tentou se aproximar de mim, mas logo recuou quando soltei o meu olhar 43 assassino.
— Esqueçam, meninas. Da fruta que vocês chupam, ele engole até o caroço.
— Vejo que tá rolando muita orgia por aqui... além de maconha. Você não toma jeito. Não tem um pingo de vergonha nessa sua cara?
— Na Bíblia tá dizendo que um homem não vive só de pão. Cannabis não é ingrediente do pão, por isso tá sussa. Vamos, saiam.
— Ah, não. Pensava em dar um tapinha. — Lamentou a prostituta loira.
— Você nem foi para cama conosco. — Cobrou a morena.
Franzi o cenho. Definitivamente não era a cara dele se envolver com putas pagas com o dinheiro do tráfico. Talvez tais putas sejam da própria comunidade. Que decadência. E olha que cheguei a gostar dele.
— Estou com o meu melhor amigo aqui, e vocês irritando pra caralho. Melhor saírem antes que vocês ganhem outro tipo de tapa.
Ambas saíram irritadas. Vinícius sempre foi autoritário. Puxou-me pelo braço e tentou me abraçar. Desvencilhei-me.
— Que foi? Nem parece que já nos vinculamos no passado. Ainda estou com saudades daquele tempo de alfa com alfa.
Retirei o bolo de dinheiro da mochila e entreguei a ele.
— Quando eu imaginei que podíamos ter um relacionamento saudável, você vai e estraga tudo. Cansei de ver você levando homens e mulheres ao seu apartamento enquanto eu estava lá. Sabe, pessoas que não são iguais a você tem uma característica chamada dignidade. Cansei, Vinícius.
— Tá diferente daquele Júlio que eu conheci que, por mais que fosse alfa, abria as pernas para mim. Mas eu não te culpo. Faria o mesmo. Sou um predador do sexo. Escorpiano, meus poros exalam cheiro do sexo mais selvagem. Nunca fui feito para essa merda de relacionamento feliz para sempre. Isso só existe na ficção.
Minha vontade era de ir embora dali sem carona, sem nada! A atitude egoísta dele me deixou em um completo nojo com uma mistura de nostalgia.
— Vou embora.
Mas o colega dele entrou no apartamento, ficando na frente da porta. Pedi para ele sair dali, porém ele negou.
Vinícius apareceu por trás de mim, abraçando-me. Quis me soltar, embora minha força não era o sifuciente para me livrar daquele agarro. Então senti uma picada dolorosa no meu braço direito. Uma seringa!
— O que você fez? — olhei o furo no meu braço.
— Acredita mesmo que para mim é suficiente vê-lo nessa atitude emponderada de merda? Quero ao menos relembrar o passado.
— Você me drogou?
Senti a minha mente girar. Meus pensamentos lógicos não funcionavam, minha visão ficou embaçada. Fiquei sentado no sofá e cada vez mais perdendo a consciência.
...
Hum?
Luz...
Muita luz...
O que houve? Em que momento da minha vida eu perdi completamente a consciência? Para piorar, eu levava uma rajada de claridade na cara. A luz do sol esquentou meu rosto. Como existe pessoa que dorme nesse sol?
Posicionei o meu braço ao meu lado da cama, senti algo macio, quente e não parecia ser um travesseiro. Olhei bem e... era um homem deitado ao meu lado. Sentei-me abruptamente, fazendo-me sentir uma dor no meu traseiro! Pisquei algumas vezes para assim me despertar definitivamente da sonolência.
— Merda. Não posso acreditar nisso.
Caio acordou também repentino. Seus olhos ficaram arregalados por não crer que nós fomos à cama. Confessei que lembrava apenas pequenos flashes, e ele confessou que se lembrava de tudo.
Mas como o Caio e eu ficamos nesse estado? Por que chegamos a esse ponto? Ele se levantou rapidamente e vestiu a roupa.
— Eu sinto muito. Sinto mesmo.
— Quero apenas água. Se não for incômodo...
Ele saiu do quarto. Nesse momento eu pude perceber que estava em sua casa. Seu quarto não era do tamanho do meu, porém aconchegante. Uma cama, um guarda-roupa, um ventilador, um banquinho, uma mesinha com cadeira gamer e um computador. Era definitivamente um quarto de um cara normal.
Não quis admitir, mas o sexo com ele foi melhor do que imaginava. No entanto, não sabia exatamente como fui parar lá. Lembrava perfeitamente até o momento em que fui drogado por Vinícius.
— Aqui está a sua água.
— Obrigado. — Por causa da minha boca seca, bebi como se fosse uma pessoa com sede no deserto. — Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— Por que eu estou na sua casa?
Então ele me respondeu de uma maneira tão didática que seria impossível não entender. Segundo ele, viu-me entrar na pousada com o capanga de Vinícius, pois naquele momento estava fazendo uma entrega com o seu pai na comunidade. Ele achou estranho e decidiu me seguir, sobretudo depois que viu as duas prostitutas saírem e falarem sobre mim. Quando eu estava prestes a ser violado, bateu com tudo na porta. Tanto ele quanto o pai dele entraram e me salvaram. Vinícius sequer resistiu.
— Quem era aquele cara. Um ex-namorado?
— Parecido. Mas foi muito perigoso você entrar assim. Ele tinha um segurança.
— Entrei pois achei ser o certo. Não podia ficar de braços cruzados vendo um alfa violando um ômega.
Minha ficha caiu segundos após ele falar "ômega". Quem era esse ômega que ele falou?
— Nã-Não entendo. De quem você fala?
— Você. Não é um ômega? Tu mesmo afirmou isso.
Sério? Engasguei-me com a água e quase cuspi o que tinha na boca. O ômega era eu?
Fale com o autor