Porto Maribel

5 A receita para o vexame: churrasco, cerveja e ciúme


Notas iniciais
Olá. Finalmente eu atualizei essa história. Pensei em excluir, mas decidi ir até o fim. O fato é que me bateu um bloqueio criativo, por isso fiquei meses sem postar. Mas a história é curta e provavelmente acabará antes do fim do ano. Boa leitura

A dor de cabeça não passou. Parecia um martelo golpeando-me a cada momento. Não pela droga em si, e sim pelo que Caio me dissera momentos antes. Preferi calar-me. Continuar com uma atitude insidiosa para com ele. Não tive nem a coragem de dizer que não sou ômega, mas alfa. Entretanto, sua emoção me deixou com o sentimento de culpa, e logo fiquei sem coragem para revelar a verdade.

Sim, fizemos sexo. Não, Caio não percebeu que não sou ômega. Talvez os betas não consigam distinguir a diferença. São afortunados por não terem um lado animalesco em seus corpos. E ainda me lembro... sim, lembro do sexo que tivemos. Apesar de estar drogado, seduzi Caio a ponto dele não rechaçar. Fiquei aliviado que não disse nenhuma besteira acerca de mim e de Vinícius.

— Júlio? — Sua voz invadiu as minhas divagações. Observei seu corpo ainda com a cueca boxer se aproximar de mim.

— Que foi?

— Sinto-me culpado. Acho que não devia ter feito sexo contigo.

A sensação de culpabilidade deveria ser minha, não dele. Mas é ele quem se desculpa. Sou o pior.

— Tudo bem. Gostei do sexo. Apesar do fato de que eu estava drogado... lembro muito bem.

Caio segurou a minha mão e deitou a sua testa sobre ela. Falou sobre o seu sentimento de culpa por transar com uma pessoa dopada, mas acalmei os seus ânimos.

— Deixa que eu cuido de ti por hoje. Não se esforce. O corpo de um ômega é débil num momento desse.

— Como sabe tanto sobre ômegas?

— Eu apenas procuro estudá-los. Quero um dia ajudar a essas pessoas.

Suspirei. Enquanto Caio tinha um bom coração, eu vendia pílulas para causar cio nos ômegas. Esse meu pecado não pode ser borrado. E se ele souber?

— Bom, meu traseiro tá um pouco dolorido. Tem como eu tomar algum banho?

— Claro. Há banheiro no meu quarto.

Senti invejinha. Na minha casa não existe um luxo assim.

Caio olhou para o chuveiro elétricou e regulou a temperatura. Agradeci e pedi a ele para sair.

— Que foi? Quer me ver pelado?

— Não é isso!! Desculpa.

— Brincadeira. Não sou tão tímido como pensa. Se eu fui capaz de ter sexo contigo, ver-me despido é fichinha.

Mas Caio não se atreveu a continuar no banheiro e fechou a porta sanfona. Despi-me. A água morna bateu no meu corpo. A melhor sensação do mundo. Meus músculos ficaram relaxados. Aproveitei e passei o seu shampoo. Realmente não dava para sentir muito feromônio. Apenas algo escasso que talvez era do seu pai. Betas não emitiam cheiro.

Pensei em tudo o que Vinícius dissera. Inescrupuloso feito ele, era capaz de tudo. Conheço os alfas dominantes da laia dele. São os piores. Preciso me livrar dele. Será que já foi embora?

Após a chuveirada, fui recepcionado por Caio com uma quantidade generosa de café da manhã. Era bolo, café, frutas e pão com presunto.

Pude ver a união naquela família. Seu pai era um homem justo e bondoso. Sequer lembrava aquele pescador com cara de cervejeiro.

— Você devia mostrar seu estúdio a ele, Caio. Não é lá que você grava?

— Meu pai tem razão, Júlio. Que tal você ver o meu trabalho como youtuber?

Isso me pegou de surpresa tanto quanto acordar na cama de outro cara. Antes, porém, precisei criar coragem e dizer o meu paradeiro aos meus pais.

— Acho que esqueci o meu celular naquele lugar.

— Quase. Recuperei ele pra ti — disse Caio com o meu celular.

— Obrigado.

— Não tem de quê.

Percebi que estava apagado. Caio me emprestou o seu carregador, aguardei algum tempo atéo aparelho recarregar pela metade. O susto veio depois que liguei. Mais de 50 chamadas perdidas.

— Onde você se enfiou? — Meu pai era escandaloso às vezes.

— Dormi na casa de um amigo.

Senti a sua frustração de longe. Papai era um alfa bem controlador. Mamãe era a única que tolerava esse temperamento dele.

— Custava avisar? A sua mãe sequer dormiu ontem.

— Estou na casa do Caio. Dormi aqui pois tava tarde para eu regressar. Olha, não se preocupa, tá bom? Diz pra mamãe que estou bem.

Fui direto ao ponto. Mesmo sendo os meus pais, não gostava dessa proteção exagerada.

Caio perguntou se eu me dava bem com a minha família. Talvez fui um pouco duro na ligação.

Enfim, passei toda a manhã na casa de Caio. Inclusive o pai dele pediu para me levar até o estúdio onde editava os vídeos para o seu canal no Youtube. Era na casa de um colega que ficava próximo dali. Conheci mais dois caras, também betas. E diferentemente de Caio, eles brincaram com o fato de eu ser supostamente ômega. Isso me deixou um pouco mal, mas não quis enfrentá-los, pois sequer eu era um. A minha mentira poderia ser revelada e o Caio me odiar por isso.

O ódio do Caio era a última coisa que eu queria na minha vida. Aparentemente, eu comecei a sentir um apreço a ele. Meu coração disparava, havia um frio na barriga (povo fala que são as mariposas na barriga) e a minha vontade era de permanecer ao seu lado. Era estranho? Sim. Sobretudo que ele nem era ômega, e sim beta.

— Tá muito pensativo — disse ao interromper meus pensamentos.

— Pensei numa coisa... Esquece!

Ele sorriu e voltou a me mostrar o seu trabalho como youtuber.

...

Depois daquele dia, nunca mais vi Vinícius na cidade. Porto Maribel aos poucos voltou ao normal, exceto o fato da pandemia ainda não cessar.

E os meses se passaram. Notícias sobre vacinas apareceram nos jornais. Disseram que 2021 seria o ano que tudo melhoraria.

Trabalhei no supermercado do papai. Ele voltou para a gerência, Sabrina foi para o caixa (mas logo saiu quando aceitou emprego na prefeitura) e eu como empacotador. Admito que era uma vida simples, mas era tudo o que eu tinha no momento.

Minha amizade com Caio subiu de patamar. Não éramos apenas coleguinhas, e sim amigos. Frequentava a sua casa e o estúdio de gravação. Esporadicamente ajudava o seu pai a pescar. Eram tempos bons. Deixei o meu lado frio e exigente que ganhei no RJ de lado e voltei a ser aquele cara caloroso.

...

Bares ainda eram fechados, mas nada se falava quando havia uma reunião familiar.

Fui convidado por Caio a ir numa confraternização em sua casa e pediu para fazer com toda a sua família. A única que aceitou o convite foi nada mais nada menos do que Sabrina.

Fomos para a casa de Caio. Alguns amigos seus eram vistos bebendo. Havia algumas mesas na calçada da frente da sua casa e uma caixa de som rolando todo o tipo de música de forró. Aquilo não era algo inusitado para mim, mas sequer imaginei que ele era esse tipo de pessoa. Pra mim o Caio era quase o Papa Francisco.

Ele me deu as boas-vindas. Sabrina conhecia alguns dos convidados e foi se enturmar.

— Parece que estou em outro país. Não conheço ninguém.

— Você passou um tempo fora da cidade. Talvez não recorde dos seus antigos colegas de classe. Talvez esteja vendo um e não reconheça — falou Caio me guiando para uma mesa.

A maior verdade daquela conversa era que a minha arrogância falara mais alto e assim decidi esquecer os meus colegas antigos. O meu engano foi achar que era superior só por ter ido ao Rio de Janeiro e esquecer as minhas raízes. Agora sofro apenas para conhecer pessoas da minha própria vizinhança.

— Preciso preparar o churrasco. Pode ficar sentado aí.

Obedeci aquele beta aparentemente comum. Fiquei sentado. Para o meu desânimo, ninguém além da minha irmã sentou à mesma mesa. Fiquei parecendo um tonto procurando por Caio durante aquela pequena aglomeração.

Sabrina percebeu o movimento dos meus olhos. Tal como uma raposa ardilosa, perguntou se eu estava apaixonado pelo anfitrião. Retruquei, pedindo a ela calar a boca.

— A mim não me engana, irmão. Seus olhos te entregam.

— Parece que você tem muito tempo para prestar atenção a esse irmão, não é? Também não tem amigos nessa gente?

— Minhas amigas possuem parceiros. Eles ficam juntos. Não quero ficar segurando vela para nenhuma delas.

Suspirei. Sabrina também tinha os seus motivos para ficar enojada. Apenas bebi em silêncio.

Mais uma rodada de churrasco e cerveja. Vi Caio preparar a carne na churrasqueira. Abanava o carvão com um papelão, produzindo uma fumaça cheirando carne. Em nenhum momento voltou para se sentar comigo.

— Ele faz sucesso, não é? — disse uma moça morena de cabelos cacheados e olhos castanhos claros.

— Olha só quem está aqui? Se não é Luana Cintra. Esse é o meu irmão.

A tal Luana estendeu o braço para me cumprimentar.

— Prazer, senhorita. Sou o Júlio Anderson.

— Pode me chamar de Luana.

— Mas... a quem você se referia anteriormente? Quem faz sucesso? — Perguntou Sabrina.

A morena apontou para uma rodinha de amigos. Havia umas dez pessoas conversando. Caio no meio. Vi duas mulheres se esfregando nele. Não gostei. Aquela imagem causou algo dentro de mim que não pude explicar. Meu estômago gelou, fiquei com vontade de ir até lá, mas seria apenas um vexame.

— Para um beta, o Caio faz o maior sucesso. Sei que Sabrina é beta. E você, Júlio?

— Ele é...

— Ômega — respondi, interrompendo Sabrina.

Luana ficou surpresa, haja vista homens ômegas eram raros. Sabrina apenas olhou para mim, esboçando um reação de incredulidade.

Momentos depois...

— Ainda bem que a Luana já foi. Mas o que diabos foi aquilo? Dizer que é um ômega?

— São dois motivos para eu ter feito o que fiz. O primeiro não é tão importante. Quero distância dessa Luana. Só pelo cheiro sei que é ômega, e sou um alfa gay. Eu me relaciono com outros alfas. O segundo motivo é que Caio pensa que sou ômega por causa de um mal entendido. E se você contar o meu segredo, te amarro num bote e te deixo à deriva.

Ela riu. A pior coisa é a gargalhada debochada da minha irmã.

— Não creio...

— Ora sua...

— Calma, mano. Eu não vou me meter na sua vida amorosa. Mas sabe que vai ser pior se a mentira permanecer por mais tempo, não é?

— Quando chegar o momento, revelarei o meu verdadeiro gênero para ele. Até lá, tenho que pensar numa forma menos dramática.

...

Minha cara estava formigando. Bebi cerveja demais. Não nego que sou fraco para bebidas, mas fiquei enlouquecido quando vi o Caio cercado daquelas mulheres. Meu sangue esquentou. Isso era um ciúme natural dos alfas. Porém, Caio nada tinha a ver comigo. Então por que esse ciúme?

— Pare com isso, Júlio. Vai ficar mais bêbado ainda.

— Silêncio! Aquele Caio se acha o Don Juan? Esqueceu que me convidou?

— Você deve tá louco. Ele tá ocupado com os amigos.

— Ocupado com os amigos? E me deixa de lado? Acha que eu vou engolir essa?

Não entendi o motivo de ser deixado de lado. Quero mais atenção do Caio. Mesmo com os apelos da Sabrina, eu não retrocedi. Se eu não fizesse nada... elas me roubariam...

Havia naquela churrascada um som alto de pagode. Mas sequer entendi a música. O meu objetivo era o Caio. Levantei-me e saí para a mesa onde estava aquele grupinho. Perguntei por ele, mas o rapaz não me respondeu. Daí enchi os pulmões e gritei:

— CAIO!!! CAIO. APARECE AQUI!! QUERO FALAR CONTIGO.

Por fim, apareceu. Carregava um engradado de Brahma. Ficou me encarando por um momento. Depois que me toquei que virei o centro das atenções não só no churrasco, mas na rua toda. Fiz merda?

Notas finais
Ihhh deu cagadinha. Que vexame kkk logo estarei postando o próximo capítulo :)