Notas iniciais
Mais um pra vcs.

Acordei, mas acordei em um lugar diferente. Estava tudo preto, escuro, aquele não era meu quarto. Continuei andando e comecei a ouvir gritos, era a voz do Mikey, gritos de socorros. Vi ele em um lugar todo cinza, que cheirava a mofo, tentei me aproximar, mas ele não podia me ver. Um guarda se aproximou dele e lhe chutou a barriga. Tentei parar o guarda, mas minhas mãos não podiam o tocar. Tentei gritar, ele não podia me ouvir. De repente tudo desapareceu, tudo ficou preto de novo, pessoas começaram a aparecer, mas não podiam me ver, quando eu as tocava elas caiam e desapareciam. De repente tudo começou a ficar preto e vazio de novo, comecei a me sentir sufocado, cai no chão, e antes que algo pudesse acontecer tudo ficou totalmente preto e escuro de novo.

Acordei em um susto, mas desta vez estava no meu quarto, havia sido um pesadelo, um pesadelo que realmente me assustou. Olhei para o relógio ao lado da cama, 03:25 da manhã. Levantei-me da cama sem fazer barulho para não acordar o meu baixinho e desci as escadas nas pontas dos pés para não acordar ninguém da casa. Cheguei a cozinha e avistei os longos cabelos lisos que pertenciam a Elisa, ela estava tomando um café e pareceu não me ver. Até que percebeu a minha presença.

- Oi Gee. — Falou.

- Oi Lis. — Falei. — O que faz acordada a essa hora?

- O menino aqui não me deixa dormir. — Respondeu, colocando a mão na barriga.

- Kevin, deixa a Lis dormir. — Falei, e ri. — Como se ele pudesse me ouvir.

- Às vezes pode. — Falou. — E você, o que faz aqui a essa hora?

- Pesadelo. — Respondi.

- Quer falar sobre ele? — Perguntou.

- Não sei. Prefiro tentar não lembrar dele. — Falei, pegando um café e tomando.

- Foi com o Mikes, não foi? — Perguntou.

- Foi. Na verdade, mais ou menos. — Respondi.

- Entendo que não queira falar sobre isso. — Falou. — Acho que é hora de subir.

- Acho que ficarei aqui mais um pouco. — Falei.

- Tudo bem. Boa noite. — Falou.

- Boa noite. — Falei.

Elisa subiu e eu me sentei no sofá da pequena sala, eu não conseguiria dormir, a minha preocupação com o Mikey estava a cada minuto maior. Se realmente sequestraram ele, e se realmente foi gente do governo, a policia dessa cidade vai encobrir qualquer pista que exista, eles nunca entregariam um deles. Comecei a chorar um pouco quando essa ideia me pareceu a unica que se encaixava. Logo ouvi passos e enxuguei minhas lágrimas, eu não podia deixar que ninguém me visse chorando no meio da sala, eu tinha que ser forte como todos. Os passos aumentaram e eu vi o corpo pequeno do Frank descendo as escadas.

- Tudo bem chorar na minha frente. — Falou.

- Oi meu baixinho. — Falei. — Eu sei, eu sei.

- Não queria que eles te vissem assim, né? — Perguntou.

- É. — Respondi. — Eu estou tão preocupado com o Mikes, com tanto medo. — Falei.

- Eu também. — Falou. — Gee, eu sei que é difícil, mas pensa que ele tá bem, pensamento negativo atrai coisa negativa.

- Eu sei baixinho, mas... não são só pensamentos, são os fatos. — Falei. — Mas eu estou tentando.

- Então continue. — Falou e se sentou do meu lado. Ele me abraçou, começou a fazer um tipo de carinho na minha cabeça e deixou que eu chorasse, encharcado seu pijama. — Está tudo bem em chorar.

Adormeci ali mesmo depois de muito chorar, acordei e olhei para o relógio, hora de ir para a escola. Para a minha surpresa minha mãe já estava acordada, tomando um café na cozinha, com a Elisa e com o Louis, o baixinho ainda dormir no sofá. Entrei na cozinha e tomei o café da manhã antes de me arrumar.

- Hey Lis. Hey Louis. — Falei.

- Hey Gee. — Falou Louis.

- Bom dia Gee. — Falou Elisa.

- Bom dia mãe. — Falei, dando um beijo na bochecha dela.

- Bom dia filho. — Falou minha mãe. — Ei, precisa ir para a escola hoje?

- Tenho um trabalho valendo nota hoje. — Respondi.

- Eu queria que você ficasse por aqui me fazendo companhia, mas tudo bem. — Falou minha mãe. Elisa colocou em minha xícara um pouco de café, agradeci.

- Tia, eu fico, não me importo. — Falou Elisa.

- Obrigada Lis, você tem feito muito. — Falou minha mãe. — Gee, se puder, dá mais uma olhadela pela rua?

- Sim mãe. — Falei. Ela ainda tinha esperança que eu achasse o Mikey em uma dessas olhadelas. Subi e me vesti o uniforme, peguei minha mochila, passei pela cozinha dando um tchau a todos, passei pela sala e dei um beijo na testa do baixinho que ainda dormia, e sussurrei um "eu te amo".

Fui andando pelo caminho da escola, e dando uma olhadela para que eu pudesse achar o Mikey em qualquer beco daqueles, mas nada dele. Cheguei a escola e entrei na sala antes que o sinal tocasse, e para minha surpresa, Ray já estava lá.

- Hey cara. — Falou.

- Hey Ray. — Falei. — Chegou cedo hoje.

- Cara, minha mãe tá um porre hoje, nem eu to aguentando, vim logo para esse inferno aqui que é melhor que o de lá. — Falou. — E essa cara triste ai?

- Ah cara, longa história. — Respondi. — O que aconteceu lá?

- Ela brigou com meu pai ontem, ai hoje tá descontando em tudo e todos. — Respondeu. — Mas conta ai, o que aconteceu contigo?

- Cara, ontem eu, minha mãe, o Frank e o Mikey fomos para o parque, chegamos lá encontramos minha prima Elisa e o marido Louis, brincamos e conversamos, ai minha mãe foi com o Mikey para o balanço, ela se afastou dois minutos do Mikes para falar com um policial que chamou ela e quando voltou o Mikes tinha sumido. — Respondi.

- Mas cara, que horrível. — Falou. — Já foram na delegacia? Já procuraram em tudo?

- Claro cara. O delegado disse que ia esperar 24 horas, se ele não aparecesse, eles iam colocar policias na rua a procura dele. — Respondi. — Eu apenas tenho medo que tenha sido um desses policias do governo que tenha feito isso.

- É, cara, mas ele vai aparecer, vou procurar ele pela minha vizinhança também. — Falou.

- Obrigado, cara. — Falei.

O sinal tocou e os restantes dos alunos entraram e sala, e o professor também, começando sua aula chata. E assim foi, quase cinco horas de aulas chatas e recreio chato, até a hora de ser liberado. Sai da escola e dei mais uma olhadela pelo local, perguntei a quem passava, nada dele, a minha esperança de achar meu irmão com vida, estava desaparecendo.

Cheguei em casa e me sentei no sofá. Frank não estava ali, na verdade, ele não estava em casa. Percebi que nem ele, nem Elisa estavam. Queria saber onde foram. Louis estava na cozinha, arrumando a mesa, entrei lá.

- Onde está a Lis? — Perguntei.

- No mercado com o Frank. Compras para o almoço. — Respondeu.

- E minha mãe? — Perguntei.

- Deitada. — Respondeu.

- Quer ajuda? — Perguntei.

- Não, obrigado. — Respondeu.

Voltei-me para a sala, a espera do meu baixinho que parece ter se dado bem com a minha prima. Ela era gente boa, a maioria das pessoas se davam bem com ela, então não me admira ele. Fiquei entretido com a tv por alguns minutos até que eles chegaram. Minha prima carregava algumas sacolas nas mãos, e o Frank carregava a maioria, que pareciam estar pesadas para ele.

- Quer ajuda? — Perguntei, e ri.

- Quero. — Respondeu. — Não ri, seu bolo fofo.

- Rio sim, seu anão de jardim. — Falei. Peguei algumas sacolas de suas mãos, e selei nossos lábios em um beijo rápido. Fui em direção a cozinha, com o baixinho me seguindo, coloquei as sacolas que realmente estavam pesadas em cima da mesa. — Aqui está.

- Obrigada Gee. Obrigada Frank. — Falou Elisa. — Farei o almoço e já chamo vocês.

- Foi nada. — Falei. — Okay.

- Foi nada Lis. — Falou Frank. — Tudo bem, precisar de ajuda só chamar.

Sentei no sofá e Frank sentou do meu lado, me abraçando, começou a fazer de novo um tipo de carinho na minha cabeça, que pra falar bem a verdade, me dava sono, um soninho muito bom.

- Vou acabar dormindo assim. — Falei.

- Dorme não. — Falou. — E então, está melhor?

- Na verdade não. — Falei.

- A gente vai achar ele, não se preocupe. — Falou.

- Vamos, vamos sim. — Falei. Frank selou nossos lábios, dessa vez em um beijo lento e perfeito. Nos separamos quando o ar fez falta.

- Ei. — Falou.

- O que? — Perguntei.

- Só não esquece que eu te amo. — Falou.

- E você não esquece que eu te amo mais, baixinho. — Falei. Selei nossos lábios de novo, dessa vez em mais um beijo rápido.

Ficamos vendo tv até a hora do almoço. Depois voltamos a ver, do mesmo jeito que estávamos. Não vi minha mãe pela tarde toda, ela estava cansada. Quando a noite chegou um policial apareceu em nossa porta para perguntar se o Mikey havia aparecido, dissemos que não, o policial disse colocariam policiais nas ruas à procura do Mikey. Eles iriam o encontrar, não importa em que lugar ele estivesse.

Depois que o policial foi embora, voltei a ver tv com o Frank. Até que começou um filme que parecia agradar a todos, com muito esforço minha mãe desceu para ver também, ela estava fraca, normal para uma mãe que tem o filho desaparecido assim.

Vimos o filme e quando acabou nos sentamos na cozinha para conversar. A Elisa e o Louis haviam decidido que não iriam embora enquanto o pequeno Mikey não fosse achado, tinham que ajudar a minha mãe, e cuidar de mim e do Frank.

Depois da conversa, nós subimos e fomos dormir. Deitei-me na minha cama ao lado do Frank, que estava com uma expressão preocupada.

- O que foi baixinho? — Perguntei.

- É a sua mãe. — Respondeu.

- O que tem a sua sogra? — Perguntei.

- Ela está abatida demais, tudo bem que o filho dela está desaparecido, mas sei lá... — Respondeu.

- Sei lá o que? — Perguntei.

- Ela parece que está doente. — Respondeu. — Sei lá, pode ser só impressão minha.

- É, pode ser só impressão sua mesma. — Falei. — Também temos que levar em conta que o filho dela está desaparecido.

- Com possibilidades de estar morto. — Falou. Eu suspirei em desaprovação a sua fala. — Vamos lá Gerard, vamos ser realista. Eu sei que é a pior hipótese, mas temos que levar em conta tudo que está acontecendo.

- Você tem razão. — Falei.

- Temos que ter esperança? Temos. Mas sei lá, temos que ser realistas também, é ruim, mas é assim que tem que ser. — Falou.

- É, você tá certo, é verdade. — Falei.

- Gee... desculpa. — Falou.

- Não foi nada, eu também penso assim as vezes. — Falei.

- Boa noite Gee. — Falou. — Te amo bolinho fofo.

- Boa noite Frank. Também te amo meu anãozinho de jardim. — Falei. Selei nossos lábios em um mais um beijo rápido, logo nos separamos e adormecemos.

Acordei com o barulho da porta batendo, forte. Olhei para o despertador, 04:20 da madrugada. Levantei da cama e abri a porta, era a Elisa.

- O que houve Lis? — Perguntei, coçando os olhos.

- Acorda o Frank e se veste que a gente tá indo pro hospital. -Falou.

- Mas o que houve? — Perguntei, preocupado.

- A tia tá passando mal, anda logo garoto. — Falou, saindo da minha porta.

Subi na cama e fiquei chamando o Frank na tentativa de acordá-lo, mas não deu certo. Parti para o plano "B". Arranquei suas cobertas, e comecei a fazer cocegas nele. Ele acordou rindo.

- O que foi? Que horas são? — Perguntou.

- Acorda e se veste, estamos indo pro hospital. — Respondi, começando a me trocar.

- O que houve? — Perguntou, se levantando.

- Minha mãe tá passando mal. Anda logo. — Respondi.

Terminamos de nos arrumar e descemos, todos esperavam a gente lá em baixo. Andamos em direção ao carro do Louis, minha mãe andava apoiada na Elisa. Entramos no carro, elas e Frank no banco de trás, e eu no da frente, muito preocupado.

- O que ela tem? — Perguntei.

- Está com tontura, e de vez em quando dá uns desmaios. — Respondeu Elisa.

- Desde que horas isso? — Perguntei.

- Desde as duas. A gente estava na cozinha e ela deu o primeiro desmaio. — Respondeu Elisa.

Seguimos em direção ao hospital mais próximo, que falando bem a verdade ficava longe, até que chegamos.

Notas finais
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