Por Você
18 Final - Parte I
Notas iniciais
Naquele dia o clima no colégio Ouran era diferente. Na entrada podia ver-se em alguns grupinhos de meninas suspirando felizes e cochichando sobre seus vestidos para o baile, seus pares, etc. Em outros grupos, também de garotas, percebia-se uma atmosfera de frustração, provavelmente derivada do fato de ainda não terem sido convidadas por ninguém, o que lhes limitava as opções a ir umas com as outras em pares. Nos grupos de garotos a situação não era muito diferente, alguns muito felizes pelas garotas que convidaram terem aceitado, outros tristonhos por terem seus convites rejeitados ou por terem tido vergonha de propor. Para esses, a opção também era ir com um amigo, e torcer para encontrar alguém interessante naquela noite.
Para os anfitriões o clima era de tensão e espera. Poucos detalhes faltavam, apenas coisas que não dependiam deles, como as flores para a decoração e o Buffet. Ficou combinado que não haveria expediente para o clube naquela tarde, afim de que todos pudessem se preparar devidamente para a noite e que apenas Tamaki e Kyouya passariam no salão à tarde, algumas horas antes do baile, para verificar se estava tudo nos conformes e não haver nenhuma surpresa desagradável.
Pois surpresas agradáveis com certeza aconteceriam...
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As aulas do período da manhã passaram arrastadas devido à ansiedade dos adolescentes. Quando o sinal tocou avisando que era hora de almoço, todos saíram alvoroçados, queriam que o dia passasse logo para que a noite chegasse o quanto antes.
Para os hosts não foi diferente, cada um em sua mente ansiava para que a noite chegasse logo, apenas Kaoru desejava que também a noite passasse logo e ele pudesse voltar a sua rotina. Não que esta fosse muito animada, mas preferia isso a ser obrigado a ver o irmão esbanjando carinhos com a Fujioka.
Cada vez mais esses pensamentos se enraizavam na mente do mais novo dos Hitachiin. Ele não queria ter raiva da garota de cabelos castanhos, apenas amava seu irmão mais do que devia, e isso, em sua opinião, estava se tornando algo nada saudável para si. Mas o gêmeo mais jovem já tinha ideia de algo que poderia fazer para resolver esse problema, ainda que fosse uma solução drástica que talvez fizesse sofrer tanto a si quanto ao seu amado irmão.
Resolveu então ir a pé para casa, a fim de organizar melhor seu planos.
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Hikaru estava empolgado, iria aproveitar a noite para se reaproximar de seu irmão. Quem sabe fazendo algo juntos, Kaoru percebesse suas intenções em retomar a parceria que tinham antes.
Recebera uma sms de seu irmão, avisando que este iria a pé para casa. Apesar de não entender o por quê, mandou apenas uma mensagem de ok, agradecendo mentalmente pela decisão do mais novo, pois acabou tendo uma ideia de fazer uma surpresa para o seu gêmeo.
Passou em uma loja de roupas finas onde seus pais costumavam leva-los para comprar vestimentas para ocasiões especiais, e resolveu experimentar um terno de corte moderno que viu no manequim. No entanto, preferiu um tom grafite, ao invés do preto que estava na vitrine. A vendedora, que Hikaru percebeu ser nova na loja, ainda lhe ofereceu outros modelos que ele fez questão de experimentar, mas apenas para ter a certeza de que o primeiro fora o que se ajustara melhor e que era, visivelmente, a melhor escolha.
A vendedora ainda lhe ofereceu alguns modelos de camisa, e o mais velho dos gêmeos acabou optando por duas do mesmo modelo, uma azul clara e a outra lilás. Escolheu duas gravatas também no mesmo tom das camisas. E quando a vendedora fez menção de fechar seu pedido, o ruivo avisou que levaria dois daquele terno. A moça ainda argumentou se ele não preferia escolher um outro modelo, ou outra cor, pois seria desnecessário ter dois ternos iguais. O rapaz riu, e antes que pudesse falar algo, uma outra vendedora da loja, mais antiga e que, por sinal, conhecia os Hitachiin, cochichou algo no ouvido da mais nova, que corou um pouco e pediu desculpas, ao que o rapaz sorriu e disse que não tinha problema, que era uma situação normal quando se tinha um irmão gêmeo. A garota ainda perguntou se ele preferia que embrulhasse algo para presente ao que o rapaz negou dizendo que não havia necessidade de desperdiçar embalagem nem tempo. Pagou com seu cartão de crédito e se despediu da vendedora beijando-lhe a mão. A moça corou imediatamente e ficou imaginando consigo que se um já era aquilo tudo, imagine dois, ao que a funcionária mais velha apenas sorriu observando, pois já estava acostumada aos modos galanteadores dos rapazes.
Hikaru andava com uma expressão divertida no rosto. Ele e Kaoru, ao contrário de Tamaki, não costumavam ser tão corteses fora do Host Club, mas no caso específico dessa loja eles abriam uma exceção, pois as vendedoras eram todas mulheres e extremamente simpáticas e solícitas. Não foram uma ou duas vezes que eles protagonizaram cenas yaoi (quando não iam com seus pais, obviamente) para agradar as funcionárias fangirls. Achara muito engraçada a maneira como a moça ficou envergonhada, e fez uma nota mental para trazer Kaoru um dia para que eles pudessem encenar para ela, ainda que houvesse o perigo dela passar mal com uma hemorragia nasal.
A verdade é que o bom-humor de Hikaru se devia exclusivamente a perspectiva de melhora na sua relação com o irmão à partir daquela noite.
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Chegou a casa já pelo meio da tarde, como não viu seu irmão em nenhum lugar, considerou que ele já estivesse no quarto escolhendo a roupa para o baile, então simplesmente subiu as escadas correndo com as sacolas, sendo repreendido pelas empregadas gêmeas que, com sua habitual inexpressividade, advertiram-no para que não corresse na mansão ou poderia se machucar.
Ignorando a bronca, correu até o seu quarto e abriu a porta de supetão, assustando o mais jovem, que se encontrava na frente do guarda-roupa aberto, aparentemente procurando algo.
– Nee Kaoru, nem precisa se preocupar com o que vestir, já comprei a roupa que você vai usar pra ir comigo no baile!!! – Disse o mais velho sorridente piscando maroto.
O mais jovem porem se assustou com a declaração. Não devido ao fato do mais velho ter lhe comprado uma roupa, isso era até relativamente normal, ainda que Hikaru não fosse muito afeito a dar presentes, mas sim com o restante da frase.
“Como assim ir com ele ao baile? Ele não ia com Haruhi? E de onde vinha esse comportamento tão diferente agora?”
Percebendo a hesitação no irmão, Hikaru desconfiou que algo estava errado, e sem rodeios questionou:
– O que foi Kaoru, por que essa cara? Vai me dizer que não quer ir ao baile? – perguntou contrariado.
Na verdade Kaoru realmente não queria ir desde o início, mas isso somente porque ele tinha certeza que seu irmão iria com a Fujioka, e que somente restaria a ele a companhia de seu amigo e a frustração de ver seu irmão feliz ao lado de outra pessoa, enquanto ele mesmo estaria com o coração em frangalhos.
– B-bom, na verdade eu não estava mesmo muito animado....mas então o Kouji-kun me pediu tanto que eu acabei concordando em ir com ele e – foi bruscamente interrompido pelo maior:
– O QUÊ? VOCÊ VAI COM AQUELE....AQUELE FEDELHO E NEM PRA ME CONTAR? – o mais velho dos Hitachiin estava visivelmente alterado, passava as mãos nervosamente pelos cabelos ruivos – Eu tinha certeza que nós íamos juntos, como sempre – falava agora num tom mais ameno para logo em seguida voltar a se irritar — Mas não, você prefere ir com seu novo amiguinho ao invés do seu irmão que passou só... deixa ver...toda a vida com você!!!
O mais velho andava de um lado a outro do aposento demonstrando gestual e verbalmente toda a sua raiva.
O mais novo, no entanto, estava surpreso com a atitude do irmão, mas não se deixaria levar pelo arroubo de nervosismo do outro, tentando manter a calma, disse:
– M-mas, eu achei que você ia com a Haruhi...Eu vi vocês conversando naquele dia! – Fora mais incisivo na última frase, deixando claro que havia percebido o carinho entre os dois no Host Club.
– Com a Haruhi? Não! Ela vai com o Tono-san...pelo menos eu acho que vai... – por um instante o mais velho ficou pensativo. “Será que a pequena havia chamado o loiro?” Logo, porém, voltou aos seus pensamentos de antes, e ainda nervoso reclamou:
– Eu não acredito nisso, eu achando que você ia ficar feliz em ir comigo, que podíamos voltar a ser como antes, mas não, você prefere ir com esse sujeitinho que acabou de conhecer! Vocês estão namorando por acaso? Devem estar né?! Pois saiba que eu não aceito! Eu não vou deixar você namorar aquele cara!!!
– Como assim não vai deixar?! Só você tem o direito de tentar ser feliz? – Kaoru se desesperou com as palavras do irmão. Em sua mente, ele compreendeu que além de não retribuir seus sentimentos, o mais velho jamais deixaria que ele fosse feliz com outra pessoa. Estaria sempre fadado a ficar á sombra dos relacionamentos do irmão. A realização disso se transformou em lágrimas que brotavam aos montes de seus olhos âmbar, ao mesmo tempo que sua voz saía num grito esganiçado – Por que só você pode ficar ao lado de quem gosta? Por que eu não posso ser amado também? – a medida em que o volume de lágrimas aumentava, sua voz diminuía, sôfrega – E-eu tentei! Eu juro que tentei! Eu fiz de tudo pra que você fosse feliz, Hikaru! Mas não dá....não dá mais, eu não consigo mais ficar perto de você...e-eu...eu não quero sofrer mais!!!
O gêmeo mais novo agora tinha as duas mãos nas laterais de sua própria cabeça, apertando-a nervosamente, como se dessa forma pudesse expulsar todo aquele sofrimento de dentro de si.
O ruivo mais velho, no entanto, assimilou as palavras do outro com um significado completamente diferente, e foi com tristeza que Kaoru pode perceber o olhar de assombro de Hikaru.
– Kaoru...! É isso, então? V-você...e-eu...Sou eu quem te faz sofrer? A minha presença é o problema? – o mais velho dos irmãos Hitachiin não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Sua expressão era de puro choque – Eu-eu nunca imaginei, Kaoru. Pra mim você sempre foi o melhor de nós, o mais calmo, o mais gentil, mais compreensivo... Tudo o que eu nunca poderia ser... – O mais velho aparentava um pesar em sua voz — Eu sempre fui o inconsequente, imaturo, impulsivo, mas eu sempre achei que nós nos completávamos, que você sentia por mim o mesmo que eu por você. E-eu achei que íamos ficar juntos pra sempre e que estaria bom pra você, como estaria pra mim.
Kaoru deu um soluço alto ao escutar as palavras de Hikaru, ele também sentia tudo aquilo, mas de uma forma completamente diferente, e não podia dizer ao irmão. Antes que pudesse falar algo em sua defesa, percebeu o semblante do mais velho mudar pra um sorriso irônico, ao mesmo tempo em que várias lágrimas brotavam de seus olhos.
– Nee, Kaoru... – disse com sarcasmo – você nunca poderia gostar de mim assim, não é? Com todos esses defeitos... Eu nunca fui bom o suficiente pra ser seu irmão gêmeo. Você queria alguém tão perfeito quanto você, não é? Sinto muito se só a nossa aparência é igual...
O gêmeo mais velho fez menção de se virar para sair do quarto, mas Kaoru interviu em meio ao choro:
– NÃO! V-você é perfeito! Eu nunca quis outro irmão! E-eu...eu só...droga! Por que só eu tenho que sentir isso?! – não conseguia seguir mais uma linha de raciocínio, a dor em seu peito era muito grande e o choro convulso já começava a lhe trazer dores de cabeça.
Ao ouvir as palavras do mais novo, Hikaru teve novo ímpeto de raiva e se aproximou do outro com fúria no olhar, dizendo:
– Sentir o que, “irmãozinho”? Ódio? Desprezo? É isso? Diga o que é que só você sente?
– A-amor – não havia mais como mentir com o irmão o encarando daquela forma.
– Amor? Não me venha com essa agora! – deu uma risada forçada, mostrando descrença — Que tipo de amor é esse que faz um irmão querer o outro longe de si, hein?! Me explica, Kaoru!!! – Hikaru gritava segurando o outro pela gola da camisa, os rostos bem próximos um do outro, os olhos âmbares raivosos encarando os seus pares chorosos, buscando neles algo que pudesse mostrar que estava errado em relação ao irmão, que Kaoru ainda era aquele garoto doce e que amava sua companhia. A fúria, porém, se transformou em choque quando, num rompante, Kaoru aproveitou-se da pouca distancia que os separava e, segurando as laterais do rosto do mais velho com as mãos e uniu os próprios lábios fortemente aos dele.
O mais novo sentiu que era a sua única chance. O mais velho já estava o odiando, e a única forma de explicar seu comportamento seria se declarar, o que faria com que o outro o odiasse ainda mais, então aproveitaria aquele momento para ter tudo que pudesse, provavelmente nunca mais teria a chance de provar daqueles lábios tão iguais aos seus, mas que tinham um encanto tão único para si.
Kaoru fechou os olhos quando os lábios se encontraram, foi um toque casto, sem língua, apenas sentia a textura da boca de seu irmão contra a sua, o formato, a temperatura da pele. Para o mais novo aquilo era muito mais do que ele podia sonhar em ter.
Mas nem tudo são flores e, depois de alguns segundos, o mais jovem percebeu que seu irmão não correspondia ao beijo e, quando abriu um pouco os olhos a fim de aprofundar o toque, pode ver que Hikaru tinha os olhos arregalados e o rosto totalmente lívido, numa expressão de total assombro diante da atitude do mais novo.
O gêmeo mais novo então afastou o irmão de si bruscamente pelos ombros, levando a mão direita a boca em seguida, tentando conter o choro enquanto se arrependia do ato.
– Hi-Hikaru...e-eu, me desculpe – levantou-se aterrorizado pela maneira com que o irmão o olhava e foi andando de costas até a porta, abrindo-a e saindo correndo quando percebeu que o mais velho fazia menção de ir até ele.
Hikaru não conseguia processar o que acabara de acontecer. Diante da reação do mais jovem ele simplesmente ficou estático, não conseguiu corresponder, mas também não pôde repelir o toque, mesmo porque não houve repulsa. Ficou vários minutos tentando assimilar as palavras e o gesto do irmão enquanto olhava para a porta por onde ele havia saído e, quando finalmente conseguiu compreender o que acontecia com seu gêmeo, levou os dedos da mão direita aos lábios, e murmurou:
– Kaoru...
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Hikaru passou horas procurando o irmão, vasculhou pelos lugares que os dois costumavam frequentar juntos: lanchonetes, sorveterias, lojas de jogos, parques etc. O desespero já tomava conta de si e ele se preparava para voltar para casa e dar queixa do desaparecimento do mais novo quando simplesmente avistou uma figura sobre uma ponte, os braços apoiados nas barras de ferro de segurança e com o corpo ligeiramente inclinado para frente.
O sangue de Hikaru pareceu congelar nas veias imediatamente.
Durante alguns instantes, o mais velho dos gêmeos não conseguiu sair do lugar. Ele havia conseguido reconhecer, depois de forçar um pouco a visão, seu irmão sobre a ponte e, assim que conseguiu sair do lugar, correu até lá.
Chegando ao alto da ponte, cerca de 20 metros de distancia de onde se encontrava seu irmão, o mais velho diminuiu o passo, pois não queria assustar o mais jovem e correr o risco dele fazer a besteira que ele imaginava que o outro estava prestes a fazer.
Ao se aproximar, com o coração aos pulos, a mente quase em colapso, o braço direito estendido com a mão trêmula aberta num pedido e a voz falha, Hikaru chamou:
– Ka-Kaoru...
O ruivo mais novo surpreendeu-se ao ouvir a voz do irmão. Suspeitou de que ele o procuraria de uma forma ou de outra, nem que fosse para lhe jogar na cara o seu ódio, mas não esperava a expressão desesperada que via na face do mais velho.
– Hikaru... – disse baixo, com um sorriso triste no rosto, no qual era possível ver as marcas recentes das muitas lágrimas que havia derramado durante aquela tarde.
O ruivo mais velho não disse nada, nem esperou que o mais novo continuasse sua fala, correu para ele e o abraçou forte, liberando todo o desespero que sentiu na forma de um choro sôfrego.
Kaoru apenas deixou-se ser abraçado pelo irmão. Ao menos ele parecia não odiá-lo ou se sentir enojado pela descoberta dos seus sentimentos. Isso o deixava um pouco aliviado, mas ao mesmo tempo o fazia ter mais certeza da decisão que tomara. E justamente por ter tomado essa decisão, foi ainda mais difícil quando escutou as primeira palavras de Hikaru, depois deste conseguir diminuir o choro:
– Não me deixe, irmão!
Kaoru abraçou o irmão de volta, um pouco surpreso, primeiro acreditou que ele pudesse, de alguma forma, ter adivinhado seus planos, mas em seguida, analisando a expressão de desespero na face do mais velho e as suas ações, conseguiu compreender o que se passava na mente do outro ruivo.
Engana-se quem, assim como Hikaru, acreditou que Kaoru chegara a pensar em dar cabo da própria vida. A ideia não combinava com a personalidade do mais jovem, e ele tratou logo de esclarecer isso ao irmão. Afastou-o um pouco de si, o suficiente para poder olhar seu rosto e enxugar as lágrimas que por ele corriam. Em seguida enxugou as próprias e viu o outro, agora mais calmo, se afastar um pouco, dando-lhe espaço para se movimentar á vontade, e começou, dizendo:
– Ne, Hikaru...você achou que eu fosse... – Não completou a frase, apenas fez um movimento com a mão indicando o movimento de pular.
Hikaru, ainda receoso, apenas movimentou a cabeça positivamente, e o mais jovem continuou:
– Eu nunca teria coragem suficiente pra fazer uma coisa dessas – encarou o horizonte tristemente, e depois voltou-se para o irmão – Ne, Hikaru, você disse que achava que eu era o melhor de nós porque você é impulsivo, inconsequente, mas a verdade é que você também é tudo que eu sempre quis ser e nunca consegui. Eu só nunca tive coragem para fazer tudo o que tinha vontade, dizer tudo que sentia... Tudo porque eu não queria magoar as pessoas... Porque eu não queria magoar você, Hikaru. Mas no final das contas não deu certo... eu acabei nos magoando do mesmo jeito.
– Kaoru, você me magoou mais por ter escondido algo tão importante de mim por tanto tempo...
– Eu, eu só não queria ser um obstáculo entre você e a Haruri! – Kaoru apertava a barra da camiseta que vestia com as mãos, gesto que o mais velho percebeu como sinal de nervosismo – Eu tive medo que você me odiasse, mas tive mais medo ainda que você se sentisse mal com ela por ficar pensando que me faria sofrer. Eu nunca quis ser uma sombra entre vocês dois!
Hikaru pensou em retrucar, mas percebeu que o outro continuaria seu raciocínio, então achou melhor esperar, contrariando sua personalidade impulsiva.
– Mas agora tudo vai ficar bem... Eu não vou mais atrapalhar vocês dois – novamente o ruivo mais jovem sorriu tristemente para o irmão – Eu já planejei tudo. A tia Sonomi e a Tomoyo-chan vivem sozinhas na mansão em Tomoeda e elas já nos chamaram várias vezes para passar um tempo lá. Tenho certeza que ela não vai se opor em me deixar ficar lá por alguns anos. Tem a universidade de Towa também, parece que o marido da tia Nadeshiko é professor, não vai ser difícil me adaptar...
– O quê?! Você vai pra Tomoeda?! Como assim, de onde você tirou essa ideia? – Hikaru agora segurava o irmão pelos ombros com um pouco de força – Você não pode me deixar!
– Hikaru, não faz isso comigo, por favor! – Os olhos do mais novo começaram a marejar novamente. Ele sabia que se o irmão pedisse ele acabaria cedendo. Mas ele tinha que ser forte, em nome de sua própria felicidade e da do irmão. – Eu sei que é egoísta, mas não dá! Eu amo você, adoro a Haruhi, mas não vou conseguir ser feliz vendo vocês dois juntos – sua voz tremia enquanto dizia as últimas palavras.
– Kaoru, me escuta: Eu e a Haruhi não estamos juntos, nunca estivemos, nem vamos estar! – Hikaru viu a surpresa nos olhos do irmão – Ela gosta do Tono-san, e ele dela. Faz um tempo que a gente percebeu que entre nós é só amizade...
Kaoru abaixou o rosto por alguns instantes, refletindo sobre as palavras do mais velho. Porém logo levantou o rosto numa expressão amargurada. Dizendo:
– Ainda assim é melhor eu ir embora.
– Mas por quê? Eu não entendo...
– Hikaru, não importa se é a Haruhi ou não. Uma hora ou outra você vai gostar de uma garota e vai namorar e quem sabe até se casar. Eu não sei se sou capaz de aguentar isso, mesmo por você. – O semblante do mais novo dos Hitachiin se mostrava cansado. Ele estava cansado de lutar contra o que sentia, cansado de mentir, cansado de sofrer... – O melhor a fazer é ficarmos um pouco distantes. Mas não se preocupe, eu vou só ao final do ano, e eu virei te visitar sempre, e nas férias também...
– NÃO! – foi cortado pela voz desesperada do mais velho, que o abraçou – Eu não quero ficar sem você nem um dia, nunca! Eu não vou namorar, nunca vou me casar, vamos ser só nós dois, eu prometo!
Kaoru ficou balançado pelas palavras do outro, mas não podia se deixar levar. Afastou o rosto do mais velho para olhá-lo nos olhos e, afagando o seu rosto, disse:
– Hikaru, eu não posso deixar que isso aconteça. Eu jamais poderia sacrificar a sua felicidade...
– Mas a minha felicidade é você, Kaoru! Não me abandona, por favor! Eu também não quero que você se case com ninguém, não quero que fique com outra pessoa, não quero dividir você. Eu...eu não sei quando isso começou, não sei o que é, mas eu quero entender, com você! – as frases saíam atropeladas pelos lábios do mais velho – Eu te amo tanto, eu posso ser o que você quiser, só não vai embora! Fica comigo, me deixa te fazer feliz... – disse a última frase mais baixo, bem próximo ao rosto do mais jovem.
Kaoru deu um suspiro ao ouvir a declaração do irmão. Queria resistir e ser firme em sua decisão, mas era tão difícil...
– Hikaru, e-eu...não sei...nós – acabou sendo interrompido pelos dedos do mais velho em seus lábios enquanto o mesmo sussurrou bem próximo deles, suplicante:
– Me deixa te amar, Kaoru.
O mais velho pode sentir o corpo do irmão amolecer em seus braços nesse momento e, vendo o rosto dele tão perto, os olhos muito vermelhos e brilhantes pelo choro além o rosto corado... a curiosidade por experimentar aqueles lábios novamente foi grande demais para suportar.
Ao sentir a boca de Hikaru pressionada a sua, o mais jovem achou que fosse desmaiar. Não podia imaginar que teria a oportunidade de sentir isso mais uma vez, ainda mais por inciativa do mais velho. Segurou-se como pode à roupa do mais velho, amassando um pouco o tecido da camisa do outro na altura das costas, e deixou-se levar pela sensação inebriante de ter os lábios tomados por aquele que já era dono de todos os seus pensamentos e sonhos.
Hikaru, por sua vez, não se contentou com apenas o toque dos lábios. Queria mostrar ao mais novo o quanto estava disposto a tentar amá-lo da mesma forma que ele o amava. Logo abriu um pouco os lábios, e com sutis movimentos de sua língua sugeria ao outro que fizesse o mesmo. Nem é preciso dizer que Kaoru sentiu sua mente entrar em pane. Estava sendo difícil se concentrar em corresponder as investidas de seu irmão e ao mesmo tempo pensar racionalmente sobre o que estava acontecendo.
Mas quem é que queria pensar racionalmente nessa hora?
O ósculo foi se aprofundando pouco a pouco, mas não de uma maneira libidinosa, e sim como uma forma de reconhecimento mútuo. Como se dessa forma ambos pudessem se entender melhor do que com palavras. Cada roçar das línguas, cada textura explorada, cada sorver de saliva eram apreciados minuciosamente, como se aqueles preciosos instantes nunca mais pudessem se repetir, o que, de fato, era verdade, pois em suas mentes, ambos percebiam o quanto cada momento que passaram juntos durante suas vidas até ali fora único e especial.
Em um determinado momento, Hikaru percebeu o irmão emitir um som abafado pelo beijo, quase como um gemido, e pode sentir seu próprio corpo responder com um arrepio a esse barulho. Imediatamente as cenas do sonho erótico que havia tido retornaram a sua mente numa torrente de imagens, sons e sensações. A sensação do corpo quente em seus braços, o sorriso triste, as palavras que ele não conseguia ouvir... Tinha certeza, naquele dia havia sonhado com seu irmão.
A realização o assustou um pouco, fazendo com que o beijo se partisse. No entanto, ao observar o rosto de Kaoru, com olhos fechados e respiração ofegante, teve vontade de beijá-lo de novo e voltar àquele mar de sensações que o afogava instantes antes. Infelizmente sua consciência se fez presente e ele acabou se lembrando do baile, que a essa altura já devia ter começado.
Puxou o mais jovem pela mão, que se sobressaltou ao abrir os olhos e logo sentir o repentino solavanco em seu corpo.
– Vamos, Kaoru! Ou vamos perder o baile. – O mais velho agora conferia as horas em seu relogico de pulso. – Merda! Estamos atrasados!
– Mas, Hikaru...e-eu, eu não... eu havia combinado com o Kouji...e agora? Talvez fosse melhor eu não aparecer e depois dar uma desculpa. – Kaoru estava receoso de encarar seu irmão. Já imaginava que ele não teria uma boa reação ao ouvir o nome do rapaz. Porém foi surpreendido pela atitude do mais velho.
– Olha Kaoru... Sinceramente eu esperava que você fosse lembrar dele depois disso tudo. – Deu um suspiro um pouco frustrado, mas continuou – Mas se você faz tanta questão, ligue pra ele e diga o que aconteceu. Pode contar tudo, eu não me incomodo. Se vocês são tão amigos eu tenho certeza que ele vai entender. Se você quiser eu posso falar com ele depois e confirmar – Hikaru apertava a região das têmporas com uma das mãos, indicando que estava se controlando bastante naquele momento, o que surpreendeu o mais novo, que não esperava um posicionamento tão maduro do outro.
– Contar tudo? Mas...Mas eu nem sei o que vai ser da gente agora. Nós precisamos conversar e- fora imterrompido pelo mais velho, que fez sinal com a mão para que ele se calasse, e em seguida sorriu sincero, dizendo:
– Depois nós conversamos sobre tudo o que você quiser. Agora eu quero que você volte pra casa comigo e vista a roupa que eu comprei pra você e vá comigo nesse baile. – Hikaru disse divertido e, ao ver a expressão de incredulidade na face do mais jovem, fez a melhor cara de cão abandonado que pôde ao dizer as palavras seguintes: Por favor?!
– Eu ahn... Droga! Tudo bem, vamos logo. – E deixou-se guiar pelas mãos do irmão de volta para casa.
Assim que chegaram lá Hikaru mostrou as roupas que havia comprado, e Kaoru, obviamente, adorou.
O mais velho resolveu tomar um banho rápido enquanto Kaoru digitava algo em seu celular, dizendo que acabara de ter uma boa ideia.
Hikaru estranhou um pouco, mas resolveu não perguntar nada, pois teriam tempo para conversar melhor depois que chegassem à festa.
Continua...
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