Ponto de Fusão
11 Capítulo 10
10
Lia
Jimmy começou seu treino com a Coronel Tel'Aviv próximo a uma cachoeira subterrânea, aquilo era mais do que Lia conseguia imaginar. Uma cachoeira subterrânea? Os antigos homens eram realmente surpreendentes.
Lia passou a manhã — ou o mais próximo possível disso, considerando que ela estava em uma caverna — na biblioteca que seu primo tanto falara. De fato, os livros ali contidos eram fascinantes, volumes que nunca chegaram ao Reino do Sol.
Um deles contava detalhadamente sobre a destruição do velho mundo, escrito por Rayan Benett, reconhecido pelos reinos do continente como o homem que salvou mais vidas durante a devastação das guerras. Quatro, mais precisamente. As duas últimas aconteceram em um curto espaço de tempo, sendo quase impossível diferenciá-las.
Benett dizia que os antigos homens foram os primeiros mágicos, embora tais habilidades não viessem de seus corpos, eles aprenderam com os séculos a dominarem elementos da natureza. Alguns usavam tamanho conhecimento para trazer a paz e reverter danos que os humanos infligiam ao planeta.
Infelizmente, as guerras vieram e a Terra reagiu à altura com terríveis tempestades, verões infernais, furacões e outros tipos de desgraças cujos nomes Lia não era capaz de pronunciar. A humanidade quase fora extinta, no entanto, a mesma natureza que os atacou, foi a mesma que os salvou.
De repente, ela folheou o livro até chegar na última página e encontrou o que queria. Ali continha uma ilustração do mapa do velho mundo.
O tataraneto de Rayan, Sal Benett, desenhou um novo onde continha os três reinos do continente: Luanda, Júpiter e Marte. Luanda ficava na ponta, onde antes se chamava Portugal. Júpiter nascera das ruínas da Espanha, enquanto Marte da Suíça.
— Você é igualzinha ao Jimmy — disse uma voz.
Lia ergueu os olhos e encontrou o príncipe encostado na entrada da biblioteca. Como estava sentada no chão, aquela visão o fez parecer um gigante diante dela.
— Ele é igual a mim — ela o corrigiu. — Nasci primeiro do que ele.
Isso a fez se lembrar das provocações do primo, uma delas, Jimmy dizia que Lia era apenas um rascunho e ele, a obra de arte.
— Juliet quer vê-la, disse que está na hora do teste.
O livro vacilou nas mãos de Lia, ela não queria admitir, mas temia àquele teste. Temia ser uma mágica, porque significaria que seu pai teria mais um motivo para ir atrás dela e a ruiva seria completamente incapaz de proteger sua mente das invasões em seus sonhos.
No entanto, ela assentiu e seguiu o príncipe.
*
Juliet os esperava sentada na margem do lago, parecia perdida em seus próprios pensamentos. Lia estava curiosa para conhecer todos na caverna, incluindo Connor, mas a comandante parecia carregar histórias que dariam centenas de livros.
Ela percebeu a presença dos dois, não sorriu, mas sua expressão era tranquila.
— Sente-se. — Juliet apontou para que Lia sentasse entre ela e Connor. Em seguida, lhe entregou uma caneca com chá.
Lia engoliu seco, não sabia muito de poções mágicas além do que estava escrito nas histórias infantis. Só podia torcer para que a comandante não lhe desse algo feito com pernas de aranha ou sangue de morcego.
Entretanto, quando o líquido quente chegou aos seus lábios, ela levou um susto tão grande que quase engasgou. — É chá de camomila!
— E você pensou que fosse o quê? — Juliet questionou.
A ruiva preferiu não responder e tomou todo o chá. A comandante segurou uma de suas mãos e orientou o príncipe a fazer o mesmo.
— Agora, concentre-se — disse ela para Lia.
A garota respirou fundo e forçou-se a não se incomodar com o olhar fixo de Juliet sobre ela, a comandante parecia analisar até o jeito que Lia respirava.
— O que há no Reino do Sol? — perguntou. Ela estava ao seu lado, mas sua voz era baixa e suave.
A imagem veio imediatamente, Lia visualizou a praia, a imensidão azul na sua frente. Ela queria tanto dar um mergulho que sentiu vontade de chorar. Então, a caverna apareceu novamente, mas seus pensamentos focaram no lago, como se ele estivesse tentando chamá-la.
— Água — disse ela, tendo uma súbita lembrança de Jimmy tentando pescar com seu tio e caindo no mar — e peixes, esse lago está cheio deles.
Imediatamente, a água assumiu a forma dos animais, que davam belos saltos e brincavam entre si. Juliet e Connor seguiram o olhar dela e ficaram boquiabertos, isso fez Lia sorrir.
— O que mais tem lá? — perguntou o príncipe.
— Luanda é tão fria, diferente de lá — balbuciou. — Eu sinto o frio em você também.
Era verdade, ao contrário de qualquer outra pessoa, a pele de Connor era gelada e seus instintos rejeitavam o toque, implorando para que ele a soltasse. Contudo, um estalo em sua mente a fez compreender.
Ele permaneceu quieto, fitando-a com curiosidade.
— O calor da ilha, eu o sinto em mim também.
Suas mãos começaram a formigar, a temperatura de seu corpo começou a subir. Juliet e Connor soltaram-na, soprando suas próprias mãos. Foi quando Lia viu seus dedos fumegando e diminutas chamas dançavam entre eles, entretanto, a visão daquilo fez seus olhos pesarem e fecharem contra sua vontade.
Ela se viu na sala de jantar do palácio, por um segundo, pensou que se tratava de uma lembrança, mas então viu Connor segurando uma jarra de vinho. Parecia feliz, seus olhos brilhavam enquanto ia em direção à mesa com quitutes. Até Lia se sentia daquela forma.
Entretanto, ele derrubou a jarra no chão.
— Ah, céus! — disse uma voz feminina que Lia não conhecia.
— Desculpa, não sei o que aconteceu — balbuciou o príncipe.
— Está tudo bem, eu te ajudo! — Lia se ofereceu.
Ele a encarou fixamente e por algum motivo, ela sentiu que cometera um grave erro. Antes que pudesse prever, Connor avançou contra Lia, jogando-a contra parede. Então, o ambiente esfriou, o frio ameaçava sufocá-la e o príncipe se preparou para socá-la, o punho completamente congelado.
Subitamente, ela acordou de volta à margem do lago, as mãos pinicando. Estava suando tanto que seus cabelos estavam grudados no pescoço.
Juliet segurava a garota pelos ombros.
— Meu Deus, você está bem?!
Lia encontrou Connor de pé numa distância segura, ele deve ter ficado assustado com as chamas.
— Estou sim — ela mentiu. — Por quê? O que houve?
Connor abriu a boca para falar, mas Juliet o interrompeu.
— Alteza, é melhor o senhor ir — ordenou a comandante. — Não posso correr o risco em colocar sua vida em perigo novamente.
— Como quiser — Connor murmurou — fique bem, Lia.
— Liakánda, o que aconteceu aqui foi muito grave. — O olhar de Juliet era cortante. — E não pode se repetir novamente.
Ela tirou do bolso um anel preto fosco e colocou no polegar de Lia.
— O que é isso? — perguntou.
— Metal negro, para que não haja mais descontrole.
Ótimo, a ruiva tinha a sensação de que uma bigorna fora jogada contra as suas costas, aquilo era o pior dos cenários que imaginara. Seja lá que tipo de poder possuía, se tratava de algo tão desastroso que seria obrigada a usar um anel de metal negro até que tudo se resolvesse.
No entanto, ela tinha uma preocupação ainda maior: se aquela visão iria se concretizar da mesma forma que o sonho, então aquele príncipe reservado, observador, mas com ternura em seus olhos, iria se deixar levar pela raiva. Raiva de Ariel.
Ela não podia repreendê-lo, foram anos sendo prisioneiro, Connor não seria humano se não nutrisse sentimento de vingança. E para o azar de Lia, ela era o mais próximo do ditador que o príncipe tinha a seu alcance.
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