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Juliet

A claridade do dia incomodava os olhos dela, o verão estava se aproximando. Em breve, ficaria insuportável ficar naquela caverna, ela abrigava poucos mágicos manipuladores do gelo, de modo que era difícil driblar as altas temperaturas.

Para piorar a situação, Juliet, os soldados e o príncipe eram obrigados a usarem capuzes na floresta. Era a única forma de se parecerem com os bárbaros que circulavam pelo local, além de espantar um ou dois camponeses.

Bom, eles não eram exatamente bárbaros, é o que Naomi diria a ela se estivesse ali. Eram apenas homens que conseguiram fugir dos campos de mineração espalhados pelo país, logo no primeiro ano de administração de Ariel. Desde então, se autodenominaram Eixo e se ocupavam roubando de camponeses descuidados e planejando ataques contra Eclipse.

Eles nunca conseguiriam tomar a cidade, mas eram bons em assustar os homens do ditador.

Ela odiava a ideia de ter que se juntar ao Eixo, no entanto, eles precisavam de seus cavalos e de sua proteção se quisessem chegar em segurança ao Reino de Júpiter. Caso contrário, os espiões de Ariel descobririam que havia uma comitiva tentando sair do território.

O acampamento deles não ficava tão longe e as tendas se espalhavam pela floresta. Havia homens afiando espadas, treinando e xingando uns aos outros. Juliet poderia ser uma comandante exilada, sendo obrigada a viver com seus soldados dentro de uma caverna, mas jamais os deixariam largados daquela forma.

A tenda do Mestre Lo, chefe do Eixo, era a maior do que as outras e protegidas por dois soldados. O mestre em si era um homem de meia-idade, com cabelos negros grudados na cabeça e vestia uma roupa bela demais para ter sido conseguida através de um contrabandista.

— Ora, ora, então a grande comandante Grinnan conseguiu fisgar o príncipe Kyoto. — Juliet havia acabado de explicar seu plano para Lo, que sorria para eles com uma surpresa fingida — E agora quer ir além, uma aliança com Júpiter.

— Nem todos pensam tão pequeno como você, mestre. — A comandante praticamente cuspiu as palavras, aquela tenda fedia a ovo podre.

— Acha mesmo que Júpiter irá querer essa aliança? Eles já desistiram de Luanda há muito tempo, Ariel os expulsou. Além disso, vocês estão mortos para o continente inteiro! Quem acreditará em suas ressurreições?

— A rainha de Júpiter me conhece — retrucou Juliet. — Ela sabe que Ariel não me mataria facilmente.

— E você acha que ele também não sabe disso? Me’vi sabe que você está viva, Grinnan, e na primeira oportunidade que tiver, irá caçá-la. Eu não vou arriscar a vida de meus homens por uma causa perdida.

O príncipe levantou e os soldados rapidamente ficaram ao seu lado, protegendo-o. — E quem disse que a sua causa também não está perdida?

Lo encarou o rapaz de baixo para cima e ajeitou sua postura.

— O príncipe tem voz! — exclamou Lo. — É o seguinte, Vossa Alteza, diga para a sua comandante que o código de honra e justiça que ela tanto defende não existe para Ariel Me’vi.

Juliet apertou os lábios, se segurando para não voar no pescoço do mestre. Felizmente, os anos de cativeiro pareciam ter trazido a Connor uma capacidade maior de autocontrole do que ela.

— Não podemos perder tempo, mestre — rebateu o príncipe. — Precisamos de cavalos para fazer nossa viagem e os seus soldados precisam de treinamento mágico, porque se bem me lembro, um deles foi humilhado em praça pública por não conseguir fazer algo tão simples como convocar uma chama.

O mestre fuzilou Connor com o olhar. A comandante não sabia ao certo se Lo possuía alguma habilidade especial, mas preferiu não ficar muito tempo para descobrir.

— Qual é a sua palavra final?

Lo tensionou o maxilar e revirou os olhos.

— Podem levar quantos cavalos precisarem, mandarei alguns de meus homens preparem suprimentos para a viagem. Acho bom conseguirem essa maldita aliança!

— Sábia decisão, mestre. — Juliet sorriu, debochada, o que serviu para irritá-lo ainda mais. — Minha coronel virá em breve com o pagamento.

Quando eles estavam saindo da tenda, Mestre Lo lançou sua última carta na manga. — Grinnan, ensine ao príncipe a ter bons modos. Ser cativo de Ariel fez esse menino perder a noção do perigo.

Connor o encarou, mas permaneceu calado. No entanto, um vento frio fez Juliet e os soldados se arrepiarem.

— Vamos logo — sussurrou o príncipe para a comandante, ainda encarando o mestre.

Ela assentiu e a sensação de frio foi embora.

*

Já estava na hora da refeição quando eles voltaram, soldados, mágicos e crianças estavam sentados na margem do lago. Juliet encontrou Lia e Jimmy no meio do amontoado de gente, os dois pareciam conversar tranquilamente. O garoto já carregava uma espada no quadril.

Naomi ficara encarregada em treinar Lia e segundo a coronel, a ruiva era uma excelente aluna. Ela estava conseguindo controlar seus dons sem causar nenhum acidente.

Aquela era uma ótima notícia, o teste de Lia assustara Juliet, a ideia era que o chá calmante tranquilizasse o corpo e mente dela, mas quase despertou uma fúria que poderia tê-los matado.

— Nunca vi alguém como ela — disse Naomi. — Nunca pensei que veria alguém com tantas habilidades.

Juliet mordeu sua pasta esverdeada.

— Sim, é assustador. Faz décadas desde que o Reino de Luanda foi se estabelecendo e as pessoas passaram a nascer com apenas uma habilidade, ou com nenhuma. Por exemplo, o Rei Georgie.

A menção ao pai fez o príncipe sorrir, a dinastia Kyoto era constituída por mágicos manipuladores do gelo, mas o falecido monarca nascera sem nenhuma habilidade.

— Falando nele, Naomi, pegue o diário, por favor — disse para a coronel que obedeceu imediatamente. — Lá tem um presente para você, Alteza.

— Como assim? — perguntou Connor, hesitante.

— Aquela cópia é diferente da que está no palácio, contém minhas próprias anotações e as de seu pai. Há páginas em específico que ele nunca me deixou ler, dizia que eram dedicadas apenas para você.

Connor suspirou, Jimmy havia contado a Juliet que o príncipe se descontrolara ao ver o livro de Georgie na biblioteca, disse que fora expulso do palácio por causa dele. A comandante ainda não tinha tido coragem de perguntar o que houvera naquele dia.

Naomi voltou com o diário de couro, o príncipe começou a folhear quase que imediatamente e pareceu ter encontrado algo especial, já que um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Obrigado, Juliet — murmurou ele, a comandante sentiu seu coração apertar novamente.

— Não há de que, Alteza.

Tantas coisas ainda precisavam ser esclarecidas a respeito de Connor e Juliet sentia que jamais o conheceria completamente bem. Talvez isso não fosse tão ruim assim, ela gostava de imprevisibilidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.