Poltrona 19

30 Você desistiria de mim?


Notas iniciais
CHEGUEI PARA ALEGRAR O CORAÇÃO DE VOCÊS! (minha mãe diz isso em praticamente todo lugar que ela chega e me irrita de um tanto que vocês não fazem ideia) (mas é porque eu implico com tudo que ela faz) Estou eufórica porque recebi mais DUAS RECOMENDAÇÕES! O agradecimento especial da vez vai para Audrey Whovian que me fez chorar de rir. Obrigada por gostar tanto de Poltrona 19, mesmo que com a "falta de movimentos pélvicos" HAHAHAHAHA essa parte foi sensacional. Obrigada mesmo, linda! E também tenho que agradecer a Fanfics Sagas que com palavras objetivas, encheu a história de elogios que me deixaram orgulhosa. Gratidão! Agora sem delongas, boa leitura!

Nós havíamos acabado de transar e tudo que eu queria era dormir. Gabriel se deitou ao meu lado e eu me virei de bruços, sentindo o cansaço pesar sobre meu corpo. Ele parecia se sentir da mesma forma, visto que fechou os olhos e em questão de segundos, parecia estar quase adormecendo. Observei os traços de seu rosto e percebi que estava sorrindo involuntariamente. Do lado de fora da casa tocava Kings Of Leon, mas eu não queria pensar no lado de fora daquele quarto. Eu queria permanecer ali, pelo resto da noite. Se possível, dormir com o Gabriel. A questão é que não podíamos, o pessoal sentiria nossa falta e eu não queria de fato estar perdendo o resto do jogo. Não agora, que eu estava me sentindo perfeitamente bem.

Eu queria saber qual seria o desafio de Leticia, queria desafiar alguém, sem contar que eu ainda tinha um compromisso com Nicolas e Barbara. Respirei chateada e me virei para o lado oposto de Gabriel, disposta a me levantar, mas senti ele me abraçar e me puxar para trás.

– Você não ta pensando em sair daqui, né? – ele perguntou com a boca colada em minha orelha. Eu ate soltei uma risada antes de responder.

– É exatamente isso que iremos fazer. – respondi dando ênfase ao plural na frase.

– Não... – resmungou Gabriel. – Uma coisa importante que você precisa saber é que Gabriel Fornazier nunca consegue se manter acordado depois do sexo. Nunca.

– Pra tudo na vida tem uma primeira vez. – respondi e tirei os braços dele de volta de mim. Me levantei da cama e comecei a procurar pelas minhas peças de roupa espalhadas pelo chão, vestindo cada uma delas. Gabriel nem se moveu na cama. – Isso é sério? – perguntei já devidamente vestida e calçando um de meus sapatos.

– Muito sério. – ele respondeu e deu uma breve risada. – E não aceito julgamentos, é cientificamente comprovado que o cérebro dos homens praticamente apaga após o orgasmo. Então, boa noite.

Eu parei em frente a um espelho e vi o quão desengonçada estava. Ajeitei minhas roupas, passei minha mão pelos meus cabelos, na tentativa de arrumá-los e me dei por satisfeita. Eu precisava mesmo era de um banho. Quando olhei para meu pescoço, vi que ele já estava todo vermelho, cheios de marcas. Rezei para que ninguém percebesse ou perguntasse. Foi então que olhei para trás e me aproximei de Gabriel para averiguar uma coisa. Suas costas e braços estavam cheios de arranhões. Fiz uma careta pensando no quanto ele me xingaria e aproveitei para cutucá-lo.

– Anda Gabriel, levanta.

– Por que você não pode ser igual o resto das garotas e pedir pra dormir de conchinha, ao invés de me obrigar a levantar?

– Porque o resto das garotas são chatas, tediantes, sem graças...

– Eu não vou levantar.

– Ta bom. – respondi e comecei a andar pelo quarto, dessa vez juntando as peças de roupa dele. Quando estava com todas em mãos, caminhei até a porta e a abri, parando na saída. – Eu e suas roupas te esperamos lá fora, mozão. – disse zombando e vi Gabriel levantar o rosto abruptamente para me olhar. Então, eu ergui minhas mãos mostrando as peças e sorri divertida.

– Você não é maluca... – disse Gabriel visivelmente com medo. E eu mandei um beijo para ele, antes de sair desfilando pelo corredor, ao som de seus gritos ordenando que eu voltasse imediatamente com suas roupas. Ri bastante, mas quando estava quase chegando na cozinha, ele me alcançou enrolado no edredom e tomou as roupas de mim, saindo a passos largos e pesados. Ri mais ainda.

Abri a geladeira de Renan procurando por algo para comer e encontrei um pudim. Procurei por uma colher, que encontrei na gaveta do armário e peguei um pedaço para experimentar. Aquilo estava maravilhoso.

– Se fodeu, Renan. – disse em voz alta, tirando a travessa da geladeira e me sentando no chão abraçada com o pudim.

Gabriel apareceu na porta da cozinha já vestido e me olhou estranhando o fato de eu estar sentada no chão. Mas quando viu o que eu tinha em mãos, abriu um largo sorriso.

– Tem como essa noite ficar melhor? – perguntou vindo se juntar a mim. – A propósito, você fica melhor sem roupa. – ele completou sorrindo e eu não consegui segurar minha risada.

– Pegue sua própria colher, tem na gaveta do armário. – ordenei antes que ele se sentasse. – E a propósito, você também.

Ele pegou a colher, se sentou ao meu lado e sorriu.

– Diga algo que eu não sei. – respondeu convencido e nós rimos, então começamos a devorar o pudim, sem peso na consciência. – Você falou com seus pais sobre o aniversário do Bruno?

– Ainda não, esqueci completamente.

– Vai ser numa chácara mesmo, que meus pais liberaram pra gente e carona não vai ser problema. Os pais do Gustavo se disponibilizaram, os da Carol também, minha mãe também, isso não vai ser desculpa. Eu só não vou pode ir antes, porque serei eu a levar o Bruno, mas a gente se encontra lá.

– Vou dar um jeito de ver isso e te aviso o mais rápido possível. Quanto isso vai me custar?

– Nada. – respondeu Gabriel. – A gente deixa quite pelos serviços prestados hoje. – ele completou rindo e eu dei um tapa fortíssimo em seu braço. Ele reclamou que doeu, mas não parou de rir.

Havia um pudim quase inteiro ali e nós comemos tudo, mas é claro que Gabriel comeu a maior parte. Fiquei com dó imaginando Renan abrindo a geladeira com ressaca, pensando em saboreá-lo e encontrando uma bandeja vazia. O que aconteceria, já que Gabriel com toda sua maldade, a guardou de volta para ele não ver que havia acabado.

As pessoas de bom coração podem até pensar que foi punição, mas estávamos preparados para sairmos dali e voltarmos a programação normal da noite, quando rodei a maçaneta da porta e ela não abriu. Tentei de novo desesperada e a porta continuou fechada.

– Gabriel, ta trancada.

– O que? – ele perguntou ainda mais desesperado que eu. – Não pode estar trancada! – completou me fazendo sair da frente e tentando inutilmente abrir a porta, o que claro, não aconteceu. Ele deu um chute na mesma e se virou, saindo andando para fora da cozinha. – Não podemos ligar pra ninguém, precisamos apenas dar um jeito de sair daqui.

– Por que não podemos? – perguntei o seguindo.

– É meio obvio o que duas pessoas ficam fazendo trancadas numa casa sozinhos por tanto tempo. – respondeu Gabriel tentando abrir a porta da sala. Também estava trancada.

– Janelas? – sugeri.

– Você é um gênio! – ele afirmou andando novamente, rumo ao corredor.

– Por que não a da sala? – perguntei olhando para uma enorme cortina, que com certeza estaria tampando uma janela.

– Tem muita gente aí! – gritou Gabriel, já fora do meu campo de visão. Sai correndo atrás dele e o encontrei tentando abrir a janela do quarto onde eles estavam assistindo meu show com o Arthur. Preferi não pensar nisso naquele momento, eu ainda estava feliz e não queria atrapalhar isso.

A janela não abriu, então Gabriel tentou no quarto em que transamos e por último, no quarto dos pais de Renan. Estavam todas trancadas. Ele me olhou visivelmente desesperado.

– Retiro o que eu disse, não é um gênio.

– Idiota. – xinguei e ele sorriu. – Tive uma ideia nada brilhante.

Voltei para o corredor e segui até o banheiro. Quando entrei no mesmo, me certifiquei de que não somente não era brilhante, como era loucura. Havia uma janela grande o suficiente para que alguém magra como eu passasse, mas as probabilidades de eu acabar me machucando de alguma forma eram de 99,9%.

– Você é maluca? Esquece. – disse Gabriel prevendo meus planos. – Eu vou dar um jeito.

– Não existe outro jeito.

Ele bufou e caminhou até a janela, abrindo-a. Era basicamente uma portinha que se empurra para frente. Aberta, percebi que seria muito mais complicado do que imaginei.

– Não. – afirmou Gabriel me puxando pelo braço para fora dali. – Se você for de cabeça vai morrer caindo do outro lado e pra ir com os pés primeiro, é praticamente impossível.

– Eu sento no seu pescoço pra você me levantar na altura necessária, depois sento na janela e pulo.

– Você machucaria as costas pulando ou bateria a cabeça na janela. – ele explicou. – Isso não vai acontecer.

Ele encostou na parede do corredor e ficou pensativo. Eu juro que até tentei pensar em uma solução, mas nada me veio a cabeça. Ou eu simplesmente estivesse considerando a hipótese de continuar trancada ali. Não, Isabelle.

– Eu ligo pro Renan, invento alguma coisa, quando ele vir, eu distraio ele e você sai da casa. Pode ser?

– Isso é bem mais inteligente que tentar passar por um cubículo e me jogar de lá.

– Vou entender isso como um sim. – respondeu Gabriel e me puxou pra ele. – Ou podemos voltar para o quarto... – completou sussurrando em meu ouvido. – A escolha é sua.

– Liga logo pro Renan.

– Minha escolha teria sido melhor. – ele respondeu fingindo cara de decepção, mas pegou seu celular e ligou.

Quando ele ligou para Renan e contou que estava trancado dentro de sua casa, Renan gargalhou muito. Ele perguntou o que tinha acontecido, mas Gabriel disse que explicava depois que ele o tirasse dali e eu achei melhor ele ter uma boa desculpa. Eu não precisaria inventar nada porque disse que iria dar uma volta, então poderia estar por qualquer lugar, mas Gabriel precisava.

Quando ele desligou o celular, saiu de perto de mim procurando por algo e pegou um objeto qualquer em cima de uma prateleira, então saiu de volta em direção ao banheiro. Eu apenas o segui tentando entender o que ele estava fazendo.

– É, até que essa janela vai servir pra alguma coisa. – disse Gabriel fazendo uma careta pra ela. – Me desculpa por isso, Renan.

Dito isso ele simplesmente arremessou o objeto contra a janela e a quebrou. Eu fiquei completamente chocada.

– Você é maluco, Gabriel?

– Eu precisava de uma desculpa pra trazer ele aqui pra dentro, pra você sair. – explicou Gabriel. – Vou contar que vi que algum imbecil quebrou a janela.

– Imbecil que no caso é você.

– É. – concordou Gabriel me puxando pelo braço até a sala. – Se esconde atrás do sofá, quando eu passar com ele para o corredor, você corre e sai. Nos encontramos lá fora.

Ele me deu um selinho e foi para a cozinha. Eu obedeci e me escondi atrás de um dos sofás. Que fase! Comecei a rir de mim mesma pela situação, mas após alguns minutos, comecei a ouvir vozes e elas foram ficando mais altas, então calei a boca e comecei a espionar pela lateral do sofá, até ver Gabriel e Renan passando. Quando eles entraram no corredor me levantei correndo e sai em disparada para fora da casa. Foi nesse momento em que pensei que se Renan tivesse levado alguém com ele, eu teria me fodido.

Comecei a procurar pelo pessoal e percebi que já não tinha mais um sequer ser humano sóbrio naquele lugar. Avistei o pessoal próximo a piscina e ao me aproximar, vi que Gabriela estava toda molhada, enquanto o pessoal gargalhava.

– O que está acontecendo aqui? – perguntei ao me juntar a eles.

– Olha você aí! – disse Carol ao me ver. – Gabriela acaba de cumprir seu desafio.

– Que foi?

– Pular na piscina e fingir que estava se afogando. Foi o maior alvoroço.

– E sabe o que eu descobri? – perguntou Nicolas. – Que eu não sei pra quem ligar caso alguém esteja se afogando. Pra um hospital? Pro bombeiro?

– Ligaram pros dois! – contou Bárbara. – Agora a Gabi ta ligando pra todos os lugares possíveis dizendo que foi engano. Acho que o Renan ta fodido. Trote é crime.

– Ops...

– Pois é! – respondeu Bárbara. – Eu tinha esquecido desse detalhe quando lancei o desafio.

– Foi você? – perguntei perplexa e disparei a rir.

– Ops... – ela respondeu e eu gargalhei mais ainda.

– E o que o Caio fez?

– Roubou as quatro rodas de um carro. – respondeu Gustavo. – O carro é da Tatiane, vulgo hiena da nossa sala. Ou de sei lá quem trouxe ela. Eu que mandei e estou bem satisfeito.

– Qual o motivo do seu ódio por essa garota?

– No começo do nosso namoro, ela agarrou o Gustavo e quase destruiu tudo. – contou Carol. – Ela estava muito bêbada e disse que eu não era boa pra ele, me xingou, caçou briga comigo. Tretas e mais tretas.

– Ok, ela merecia era o carro destruído.

– Pensei nisso... – disse Gustavo. – Mas eu não sei se o carro é dela e eu quero foder é ela, não outra pessoa. Pelo menos assim ela não tem como ir pra casa.

– Faz sentido.

Gabriel apareceu acompanhado de Renan e eles entregaram uma toalha e um casaco pra Gabriela, que começou a se secar.

– Me digam que vocês filmaram isso, pelo amor de Deus. – disse Gabriel se juntando a nós.

– Óbvio que sim. – respondeu Bruno. – Onde você estava?

– Trancado dentro da casa do Renan, já que eu fui no banheiro e vocês decidiram sair da casa.

– Mas você saiu de lá dizendo que ia pegar bebida, cara! – rebateu Bruno.

– É, mas eu decidi ir no banheiro antes e de repente vocês não estavam mais lá, a porta tava trancada e eu não tinha bateria no celular! – inventou Gabriel e o pessoal gargalhou. Pareceram ter acreditado. – Eu tive sorte porque lembrei que durante o desafio da Isabelle, a Luiza tinha pegado o carregador do Renan emprestado e depois deixou lá. Eu peguei o negócio e tive que esperar minha bateria carregar pelo menos o suficiente pra merda do celular ligar. Mano, eu tentei todas as portas! Vocês são uns filhos da puta!

O pessoal gargalhava cada vez mais e eu fiquei chocada com a habilidade do Gabriel para inventar uma história daquelas ou de se atentar a detalhes como um carregador.

– Tem certeza que você não quer uma roupa emprestada, Gabriela? – perguntou Renan, vendo Gabriela tremer de frio enrolada no casaco que ele pegou pra ela.

– Tenho! Eu não vou vestir roupa de homem numa festa! – respondeu Gabi e nós rimos muito. Mulheres...

– Agora é a sua vez né, Leticia? – perguntou Heitor. – Eu lembro que era depois de você.

– Sim. – respondeu Leticia fingindo um choro e Bruno entregou a garrafa para que ela girasse. Nós formamos uma roda e ela a girou. Ficamos observando em silêncio até a garrafa apontar para Gabriel. Ri sozinha. Olha a vida sendo irônica de novo. – Não me faça voltar a te odiar! – ela disse olhando para o Gabriel. Esse por sua vez deu uma risada divertida.

– Acho que é hora de me vingar de todos os seus insultos. – brincou Gabriel. – Espero que você goste de caras mais velhos!

– Oi? – perguntou Leticia confusa.

– Vamos dar mais uma volta de carro? – deduziu Luiza e Gabriel assentiu. Lá vamos nós!

Nós fomos para os carros e Gabriel avisou pro pessoal que iríamos para um barzinho no Centro, bem próximo da boate em que o Henrique teve de acionar o alarme de incêndio. Mais uma vez dei risada lembrando disso. Fiquei bem curiosa praa saber se ainda teria movimento por lá, mas muito provavelmente não. Eu tinha me esquecido que Gustavo e Carol estavam brigados, por isso me assustei ao ver o Gabriel pedindo as chaves, mas novamente achei melhor não discutir. Só quase morri de infarto por um breve momento porque não me lembrava de onde diabos estava minha bolsa, até Leticia a estender em minha direção e me lembrar que eu havia deixado com ela para cumprir meu desafio. Quando nós entramos no carro, Leticia começou a perturbar Gabriel com um monte de perguntas, me fazendo rir.

– O que você vai me desafiar? – indagou Leticia praticamente pendurada no banco dele, para que pudesse enxergar seu rosto e obrigá-lo a responder.

– Você já vai descobrir! – respondeu Gabriel.

– Não, eu quero saber agora. Por que estamos indo pra um bar? E o que caras mais velhos tem a ver com isso?

Gabriel deu uma risada e eu ri junto.

– Você tem musica aí? – ele perguntou pra mim. – A voz dela ta começando a me irritar!

– Eu definitivamente não gosto de você! – afirmou Leticia bufando e se jogando para trás, enquanto eu ligava o som. Coloquei um pen drive que eu tinha gravado pro meu pai para tocar, o que significava que tinha música boa, já que eu escolhi. Já começou com The Killers.

– Mas você já ficou com ele. – intrometeu Bárbara.

– Como você sabe disso? – perguntei olhando para trás.

– Eu preciso lembrar da história de que sei tudo que acontece naquele colégio? Ou com pessoas daquele colégio?

– É, não. – respondi.

– Eu já fiquei com as três... – disse Gabriel sorrindo. – Eu sou o cara, né?

Eu olhei para ele com cara feia e dei um soco em seu braço, que foi seguido por mais tapas das meninas.

– Você é um imbecil! – afirmei.

– Idiota. – completou Amanda.

– E vagabundo. – finalizou Leticia. Gabriel apenas riu e começou a cantar “Somebody Told Me”.

Quando chegamos até o tal bar que Gabriel havia falado, estacionamos o carro e encontramos o pessoal em frente ao mesmo. Era um barzinho com música ao vivo que sempre está cheio. Um ambiente legal, com mesas do lado de dentro e do lado de fora. Observando o pessoal que estava sentado nas mesinhas do lado de fora, avistei alguém conhecido. Fiquei o encarando por um tempo, até que me lembrasse de quem era.

– Gente, olha o nosso professor de Biologia tomando umas! – praticamente gritei apontando para ele, que não sei como não escutou.

– É, eu vi ele aí quando nós viemos cumprir o desafio do Henrique, tinha até comentado com os meninos. – disse Gabriel. – Eu só não tinha certeza de se ele ainda estaria aí, mas que bom que está.

– Espera... – disse Leticia com cara de pânico. – Me diz que esse desafio não tem nada a ver com ele, por favor.

– Eu te desafio a beijar o Miguel, nosso professor de Biologia.

– Eu vou te matar, Gabriel! – disse Leticia pausadamente, enquanto nós gargalhávamos. Essa eu pagava pra ver.

– Na hora que eu tive de beijar aquela coisa que eu não quero citar o nome... – disse Bruno. – Você ficou se intrometendo, então é minha vez. O bar ta cheio e a gente ainda tem muita coisa pra fazer, então não vai dar pra entrar, pegar uma mesa e tomar umas até você criar coragem não, ok? Se quer uma dica, vai lá, o agarre e pronto. Vamos embora.

– Depois vocês querem que eu olhe com que cara pra ele na aula?

– Com essa mesma horrorosa de sempre. – brinquei e ela fez careta pra mim, então passei meu braço por cima de seu ombro. – Vamos lá, eu vou com você. Ele é gatinho! – disse e ela deu uma risada.

– Não me deixem fora dessa! – disse Amanda, pegando meu outro braço e passando por cima de seu ombro. – Se quiser até dou uns pegas nele também.

Nós rimos e caminhamos até a entrada do bar, deixando o pessoal para trás. Ouvi alguém dizer que iria filmar dali, então seria melhor ainda pra gente. Assim que entramos, começamos a caminhar até a mesa de Miguel. Ele estava sentado com mais quatro pessoas: duas mulheres e dois caras. Todos eles pareciam ter vinte e poucos anos, eu tenho certeza que ninguém passava dos trinta. Só desejei que ele não fosse casado ou que estivesse com alguma daquelas mulheres.

Quando estávamos chegando na mesa dele, percebi que não tínhamos um plano. Ele nos avistou e nos reconheceu, então sorriu e acenou. Amanda disse um “heeeeey” e aí já não tinha mais volta. Seria no improviso. Miguel se levantou para nos cumprimentar e a primeira foi Amanda, depois Leticia e em seguida eu.

– Nemitz! – disse Miguel animado e o cumprimentei com um beijo no rosto.

– Não é todo dia que eu encontro meus professores as 3h da manhã em bares, sabia? – brinquei.

– Professores também tem vida social, sabia? Eu também bebo, também me divirto, também sou um ser humano.

– Professores também namoram? – perguntou Amanda indo direto ao ponto e todo mundo ficou chocado. Tanto eu, quanto Leticia e o Miguel.

– Claro! – respondeu Miguel rindo.

– E o professor ta solteiro? – Amanda tornou a perguntar.

– Sim. – ele respondeu extremamente sem graça, mas eu me senti aliviada por não estar acabando com o relacionamento de ninguém.

Leticia olhou para mim, olhou para Amanda, respirou fundo e olhou para Miguel.

– Por favor não me odeie, não me reprove em Biologia e não faça a diretora me expulsar do colégio. – ela disparou a dizer e ele olhou para ela confuso. Então num impulso pelo qual nem eu estava esperando, ela segurou seu rosto com as duas mãos e o beijou. Eu fiquei tão chocada que levei a mão até minha boca.

De início, Miguel pareceu ter ficado sem reação, mas de repente vi ele levar as mãos até os ombros de Leticia e soube que seria para empurrá-la, mas quando ele tentou fazer isso educadamente, Leticia não deixou.

– Quem é ela? – ouvi uma voz perguntar e olhei para a direção da mesa em que ele estava. Um dos caras que havia perguntado.

– Por incrível que pareça, uma aluna dele. – respondeu Amanda rindo e o pessoal pareceu perplexo, mas começaram a rir junto e até eu me rendi. Porém, logo em seguida, Miguel conseguiu afastar Leticia.

Ela olhou com pavor para ele, enquanto ele parecia estar numa mistura de confusão e choque, então ela disparou a falar novamente.

– Nós somos adolescentes sabe, fazemos coisas malucas... – ela disse pegando no braço de Amanda e logo em seguida no meu. – Ás vezes entramos em jogos idiotas que nos desafiam a fazer coisas estúpidas. – completou nos puxando para trás. – Desculpa! – concluiu e quase que correndo, nos puxou para fora de lá, enquanto Miguel continuava com a mesma cara de: O que diabos aconteceu aqui?

Quando saímos do bar e nos juntamos ao pessoal, eu e Amanda disparamos a rir, enquanto Leticia teve um surto. Ela ficava dizendo coisas como “eu to fodida, agora ele vai implicar comigo pelo resto do ano, já eram minhas notas, vou reprovar em biologia, reprovar de ano, já era minha vida”, o que nos fazia rir mais e mais. Então por fim, quando ela finalmente pareceu ter se acalmado, olhou pra gente e começou a rir junto.

– Épico! – afirmou Amanda e todos concordamos.

– Épico vai ser minha cara de constrangimento segunda na aula dele. – garantiu Leticia.

– Quem falta agora? – perguntou Luiza. – Eu ainda não desafiei ninguém.

– O Heitor e o Renan. – respondeu Bruno.

– Eu posso desafiar o Heitor e o Heitor desafia o Renan, o que vocês acham? – sugeriu Luiza. – Mas já vou avisando Heitor, que meu desafio será tenso.

– Por mim, tudo bem. – ele respondeu e o pessoal concordou.

– Te desafio a passar na frente de um carro da polícia, fumando um beck de maconha.

– Por que vocês ficam cada vez mais malucos? – indagou Carol indignada.

– Luiza, isso vai dar merda. – repreendeu Gabriel. – Não podemos deixar.

– Relaxem, eles não vão prender ele por causa de um beck de maconha, vão no máximo passar medo.

– E se não? – rebateu Heitor. – Eu não posso parar na cadeia não, cara.

– Eu ligo pro meu pai e me responsabilizo por tudo. – respondeu Luiza. – Ele é policial.

O Heitor ficou pensativo e todo o resto do pessoal ficou em silêncio, porque o clima ficou tenso. Para mim, aquilo parecia meio insano pra uma brincadeira, mesmo que tenhamos feito coisas insanas a noite inteira. Durante todas essas coisas, fizemos tudo para nos mantermos longe de confusão e o que Luiza pediu, era basicamente, para ele entrar em uma.

– Onde vamos achar um carro de polícia? – ele perguntou enfim.

– Tem um na porta da boate em que o Henrique causou.

Por incrível que pareça, Heitor aceitou, mas dava para perceber que ele estava morrendo de medo. E com toda razão. Nós fomos a pé até a boate, que ficava a uns três quarteirões dali e quando chegamos na esquina da rua, de fato enxergamos uma viatura. Então bolamos um plano. Eu e Luiza, quem todo mundo fez questão de incluir na parada, porque foi dela a ideia estúpida, desceríamos a rua e pararíamos perto da viatura, de onde Luiza iria filmar tudo. Logo em seguida, Heitor faria o mesmo com um beck de maconha que o Gustavo deu pra ele.

O pessoal desejou sorte e lá fomos nós rumo a algo que tinha 99% de chance de dar merda.

– Eu acho bom tudo dar certo ou quebro a sua cara, Luiza. – avisei enquanto descíamos a rua. Ela deu uma risada, mas eu a olhei séria. Eu estava falando sério.

Quando paramos próximas a viatura com dois policiais encostados nela e fingimos estar conversando, provavelmente esperando nossos pais ao sairmos de alguma festa, o que seria o normal, vi Heitor começar a descer a rua com o beck aceso. Minha respiração falhou por ele. De acordo com a lei, levar ele pra delegacia por causa daquilo seria mesmo idiota, mas policial sempre adora causar com adolescente.

Ao passar na frente dos policiais, não deu outra. Eles pararam Heitor. Fodeu. Um deles simplesmente tomou a parada da mão do Heitor e o mandou encostar no carro, enquanto eles falaram muita merda pra ele. Fizeram uma revista enquanto o chamavam de “playboyzinho desgraçado” e coisas do tipo, além de o ameaçarem por “estar achando que a gente de trouxa”, como um deles disse. Eu estava quase indo lá mandar eles irem se foder. Fiquei muito irritada e muito nervosa. Mas no fim das contas, sabe o que aconteceu? Eles ficaram com o beck e mandaram o Heitor vazar dali, depois de esculacharem o garoto. Sabe de uma coisa? Eu tenho raiva de todo e qualquer policial.

Heitor subiu a rua de volta e nós fomos atrás dele. Quando chegamos até o resto do pessoal, achei que ele fosse estar tão nervoso quanto eu e que a vibe ia estar estragada, mas o que aconteceu tava longe disso. Ele tinha ficado com tanto medo de acabar sendo detido, que tava gargalhando de alívio e agradecendo a todos os santos que existem por isso não ter acontecido. Eu juro que só conseguia pensar “essa galera é inacreditável”. O pior é que fez até bem pro ego dele, porque o pessoal não parava de falar sobre como ele foi corajoso de aceitar aquela merda, enquanto voltávamos para os carros.

Eu ainda estava tensa, porque não havia acontecido qualquer merda, mas pouco a pouco fui relaxando, apenas observando as risadas de todo mundo. Quando chegamos aos carros, Heitor avisou que era pra voltarmos a casa de Renan, que lá seria o desafio dele. Era o último desafio da noite, então imaginei que não sairíamos mais de lá. Que bom, acho que depois dessa, não quero mesmo mais adrenalina.

Ao chegarmos no Renan fomos direto ao bar, como solicitado pelo Heitor, que entrou para dentro do mesmo e já foi direto ao ponto.

– Renan, você esta finalmente fazendo dezoito anos e está sóbrio em sua própria festa... Isso não é nada legal. – disse Heitor. – Aliás, estamos todos meio sóbrios, então, vamos dar um jeito nisso. Acho que esse desafio será o mais fácil e mais fodido da noite, ao mesmo tempo. Alinhem-se em frente ao balcão e Renan, venha para o lado de cá.

Todo mundo se entreolhou curioso, mas obedecemos. Estava louca para descobrir o que estava passando pela cabeça de Heitor. Quando estávamos todos alinhados, ele começou a colocar copos em cima do balcão, dois em frente cada um de nós, inclusive ele, mas na frente de Renan ele colocou apenas um. Então ele começou a encher os copos de gelo, mas não encheu o do Renan.

Heitor pegou uma garrafa de vodka e começou a encher todos os copos. A medida que as garrafas iam acabando, ele ia pegando mais.

– Alguém sabe me falar quantos ml tem uma dose de tequila? – perguntou Heitor já enchendo seus copos.

– 50 ml? – deduzi.

– Exatamente! – respondeu Heitor. – Pois bem, quantos copos seguidos de tequila você acha que conseguiria virar, Isabelle?

– No máximo uns três. – respondi sincera. – É muito forte!

– Compreendo. – disse Heitor guardando a ultima garrafa de vodka, ao terminar de encher todos os copos, o que pelo visto não envolvia o de Renan. Então, ele tirou uma garrafa de tequila de debaixo do balcão, pegou o copo de Renan e começou a enchê-lo. – Esses copos tem 300 ml. O que seria o mesmo que virar seis copos de tequila.

Ele terminou de encher o copo de Renan, guardou a garrafa de tequila e olhou para o aniversariante da noite.

– O copo de Renan tem 300 ml de tequila, o restante de nós tem mais ou menos 400 ml de vodka nesses dois copos, por causa do gelo. E aqui está meu desafio, Renan. Te desafio a virar esse copo de tequila, antes que algum de nós termine de virar nossos dois copos de vodka.

– Virar? – indagou Renan encarando o copo em sua frente.

– Não necessariamente, você faz o que quiser, mas se perder tempo, alguém termina antes de você. – explicou Heitor. – E se alguém terminar antes de você, você terá que pagar a consequência.

Eu gargalhei. O Heitor foi muito esperto! Ele estava sendo justo, porque um copo de tequila com certeza era muito pior que virar dois de vodka. Tequila é horrível. Um copo daquilo já te faz querer colocar tudo pra fora. Já a vodka é até aceitável. E como a intenção é que seja um desafio, o pior tinha que ficar pro Renan. E sinceramente, eu duvido que ele consiga e se você acredita no contrário, experimente tentar virar um copo de 300 ml de tequila, sem sal, limão e absolutamente nada. Deixo aqui o meu desafio, só não me culpe pelas consequências.

– Eu topo. – aceitou Renan. Ele é maluco.

– Então vamos lá... – disse Heitor. – Quando eu falar já. Preparados?

Eu olhei para o rosto de todo mundo e ninguém parecia preparado, mas pelo sorriso de Bruno e Gabriel, eu percebi que tinha pelo menos duas pessoas ali dispostas a não deixar Renan vencer aquele desafio. Eu era a terceira. Todos nós assentimos e então, Heitor gritou “já”.

O que se seguiu foi uma cena tão engraçada, que infelizmente não me deixou conseguir virar nem o primeiro copo de vodka, porque disparei a rir. Todo mundo virando os copos ao mesmo tempo, até que surgiam tosses e xingamentos. Mas mais engraçado ainda, é que pela cara de Renan, parecia que ele estava tentando engolir fogo. Ele fez caretas, engasgou, quase cuspiu tudo, repugnou, mas não desistiu.

Porém, mesmo que eu tenha admirado a persistência de Renan, de repente Nicolas bateu os dois copos vazios no balcão e encostou a testa no mesmo. Os dois copos estavam vazios. A cara que Renan fez para ele foi pior que a cara que ele fez enquanto bebia a própria tequila. E todo o resto, absolutamente todo mundo, ficou em estado de choque.

– Meu jesus amado! – gritou Nicolas levantando a cabeça. – Isso é o capiroto em forma de líquido!

Nós gargalhamos e Bruno chegou a pegá-lo no colo, surtando. Eu esperava que qualquer um ali conseguisse terminar primeiro, menos Nicolas, então minha reação interna foi mais ou menos a mesma que a de Bruno. Eu juro, estava completamente chocada e ao mesmo tempo, admirada.

– Preparado pro strip, Renan? – provocou Gabriel e o pessoal gargalhou mais ainda.

Bruno não brinca em serviço. Em um momento ele estava ali e no outro não mais. Estava tocando música e de repente, não mais. Estava rolando uma festa e de repente, Bruno estava em pé em cima do bar, gritando loucamente em um microfone. A propósito, da onde saiu aquela merda? Renan ainda estava se recuperando da tequila e do nada já estava sendo puxado pra cima do bar. E aí meus caros, eu presenciei uma das cenas mais engraçadas de toda a minha vida. Renan fez mesmo um striptease, para uma festa inteira, que devo ressaltar ser sua festa, ou seja, todos ali o conheciam, ao som de “Do I Wanna Know?” do Artic Monkeys.

Eu acho que aquele foi o momento em que mais gargalhei na noite inteira e olha que eu gargalhei muito durante a noite. Por ver o Renan tirar a roupa até ficar só de cueca, por ver Gabriel quase sufocando Nicolas em um abraço agradecendo euforicamente por aquilo enquanto chorava de rir, por ver Nicolas também chorando de rir, por ver a galera gritando e filmando tudo. Eu simplesmente ri até que me faltasse ar. E pobre Renan, quando acabou, foi carregado e arremessado na piscina apenas de cueca, por seus amigos.

Acabaram os desafios, mas a noite mais épica de toda a minha vida continuou e Renan ainda conseguiu curtir sua festa. Nós bebemos, dançamos e rimos até cinco horas da manhã, quando Bárbara teve de ir embora, por não conseguir mais enrolar sua mãe. Eu a levei até o carro, rindo do quanto ela estava bêbada. Ela cantava alguma música do One Direction, gritava e ria. Seria impossível esconder de sua mãe que ela estava bêbada, então nem tentei.

– Me mande notícias assim que acordar. – pedi abrindo a porta do carro para que ela entrasse. Sua mãe estava com uma cara nada agradável. – E boa sorte!

Ela se segurou na porta, sorriu e se jogou em meu pescoço me dando um abraço apertado.

– Obrigada pela melhor noite da minha vida! – agradeceu. – O meu desafio ainda será cumprido e vocês vão se surpreender.

– Tenho certeza disso! – respondi e ela me soltou, para então entrar no carro. Antes de fechar a porta pude ouvi-la dizer para sua mãe “Nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho, que hoje eu passei batom vermelho”. Eu disparei a rir pela milésima vez, enquanto voltava para dentro.

Encontrei Gabriel, Nicolas e Renan sentados no gramado e me sentei perto deles. Renan já estava vestido, mas ainda estava molhado. Ele se jogou para trás e olhou pro céu.

– Melhor aniversário da minha vida. – afirmou Renan. – Noite mais épica de todas.

– Concordo. – disse Nicolas. – Mas temos um pequeno problema... – completou com a mão no estomago. – Eu. Preciso. Vomitar.

Dito isso ele nem esperou uma resposta, apenas se curvou para o lado e vomitou no gramado. Nossa reação foi rir, mesmo que eu tenha ficado preocupada.

– Essas são as provas de que foi realmente épica. – disse Gabriel dando um tapinha em suas costas, ainda rindo.

– Você ta bem? – perguntei me aproximando.

– To morrendo de vergonha, me desculpa por isso.

– Ta tudo bem, Nic. Como disse o Gabriel, isso significa que consegui te fazer beber o suficiente. – brinquei e ele riu. – Acha que precisa vomitar mais?

– Não sei, meu estomago ta péssimo.

– Vamos levar ele lá pra dentro, coloca ele pra vomitar no banheiro, é melhor. Eu ajudo. – disse Renan.

– É uma ótima ideia. – concordou Gabriel.

Os dois carregaram Nicolas até o banheiro da casa de Renan e eu fiquei extremamente agradecida. Nicolas estava visivelmente bêbado e pediu desculpas um milhão de vezes por estar estragando a festa e eu tive que responder um milhão de vezes que ele não estava estragando nada. Ele de fato, não estava. Isso acontece com todo mundo em algum momento da vida e era completamente compreensível, levando em consideração o tanto que ele bebeu e pela primeira vez. Sem contar que eu já tinha ido sabendo que isso poderia acontecer, não me importava ter de cuidar dele.

Ele vomitou mais algumas vezes e depois avisou que estava bem, só muito cansado, então eu decidi que era hora de ir embora. Avisei para Gabriel, que não saiu de perto de nós em momento algum e ele simplesmente se negou a me deixar ir embora sozinha com Nicolas. É claro que ele não teve de insistir por mais que cinco minutos, até me convencer a deixá-lo nos levar embora. Por mim ele ia e ainda dormia na minha casa. Na minha cama, de preferência.

Gabriel ajudou Nicolas a ficar em pé e enxaguar a boca na pia. Então fomos para o carro e depois de conseguirmos deitá-lo no banco de trás, nos despedimos do pessoal, que resolveu ir embora também. Quando entramos no carro, Nicolas já havia apagado. Estava fazendo frio, então usei meu casaco que estava jogado sobre o banco para cobri-lo. Ao ver isso, Gabriel pegou uma outra blusa que também estava lá e me pediu para vestir. Era a blusa que tinha pegado emprestado com o Henrique no desafio de Rafaella, o que parecia ter acontecido há uma eternidade. Comentei que havia esquecido de devolver, mas ele contou que a blusa é dele e aí eu pensei seriamente em nunca mais devolver.

Assim que Gabriel começou a dirigir, liguei o rádio e estava tocando uma música do Jason Mraz.

– Eu adoro ele. – contei me referindo ao cantor e me sentei de lado no banco, de modo que pudesse ficar olhando para Gabriel. Então estiquei minhas pernas e coloquei sobre seu colo. Ele olhou pras minhas pernas e depois me olhou de canto de olho, eu só ri.

– Jason Mraz? – perguntou Gabriel em duvida.

– Sim e a música é “Love Someone”.

– Acho que já ouvi. Por que gosta dele?

– Não sei, talvez por causa da voz que ele tem ou da melodia. É aquele tipo de música que você ouve e te dá paz, sabe? Calma, tranquilidade. De fato não sei, mas gosto da sensação.

Gabriel deu uma risada pra dentro, dessas que o ar sai pelo nariz e paramos em um semáforo, então ele usou minhas pernas para me puxar pra perto dele, me fazendo quase cair de costas no banco por ter me pego de surpresa. Eu fiquei praticamente pendurada em meu banco e enquanto ria da situação, ele puxou meu rosto e me beijou. O semáforo deve ter aberto e fechado umas cinco vezes, até que resolvêssemos nos separar e mesmo assim, ainda usei minha mão que estava em sua nuca para manter seu rosto próximo ao meu.

– Gosto mais dessa sensação. – afirmei sorrindo e ele sorriu também, antes de me dar um selinho e eu finalmente deixá-lo voltar a dirigir.

Quando olhei para o céu novamente, pareceu que em questão de segundos ele havia começado a clarear. Já dava para ver resquícios do domingo começando, naquela iluminação acinzentada que eu adoro e me fez sorrir ainda mais abertamente. Fiquei observando as ruas vazias até perceber que Gabriel não estava fazendo o caminho da minha casa e então paramos em frente a uma padaria.

– Me acompanha num café, senhorita Nemitz? – convidou Gabriel.

– Claro, senhor Fornazier. – respondi. – Mas espero que eles tenham leite. – completei e ele riu. Ele sabe que não gosto de café. Apenas do cheiro.

Descemos do carro e deixamos os vidros da frente um pouco abertos, apenas o suficiente para que entrasse oxigênio para o Nicolas, que parecia estar tendo a melhor soneca de sua vida. Quando dei a volta no carro e encontrei com Gabriel, ele segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Foi quando eu tentei disfarçar, mas acabei sorrindo feito uma idiota apaixonada. Era a primeira vez que aquilo acontecia. Nós entramos no estabelecimento e Gabriel pediu um café para si e um leite quente achocolatado para mim.

Nos sentamos numa mesa para esperar e nem assim soltei sua mão, muito pelo contrário, deitei minha cabeça em seu ombro e fiquei concentrada no cheiro de seu perfume que de alguma forma ainda estava impregnado em sua pele, enquanto ele assistia a algum jornal numa pequena televisão pendurada na parede. Quando a mulher apareceu com nossos pedidos, ficamos comentando sobre tudo que havia acontecido aquela noite enquanto tomávamos nossas respectivas bebidas.

Ultimamente, quase sempre quando estou com o Gabriel, sinto vontade de fazer com que o tempo pare e esse foi mais um desses momentos. A brisa fria da manhã fazendo com que meu leite quente se tornasse ainda mais gostoso e ficar tão próxima de Gabriel ainda mais aconchegante. Nossas risadas invadindo o ambiente e de alguma forma lhe contagiando com nosso humor e nossas mãos entrelaçadas, fazendo com que eu me sentisse tão segura.

Quando terminamos, Gabriel pegou um hidrotônico que pediu para eu dar pro Nicolas no dia seguinte e pagou toda a conta. Voltamos para o carro e dessa vez sim fomos para minha casa. Foi bem difícil carregar um Nicolas semiacordado do estacionamento até nosso apartamento, mas nos rendeu boas risadas. Tivemos que tentar acordá-lo, mas ele andava sem nem abrir os olhos e praticamente pendurado em mim e no Gabriel, o que dificultou para que eu abrisse a porta.

Nós deitamos Nicolas na cama e eu tirei seus sapatos, enquanto Gabriel foi até a cozinha. Ele voltou trazendo um grande copo de água e tirou uma cartela de remédio de dentro da carteira, então pegou um comprimido e mesmo que Nicolas estivesse inconsciente, fez com que ele o tomasse junto com a água. Devia ser algo para ajudá-lo com a ressaca, por isso agradeci.

– Foi a melhor noite da minha vida. Eu amo vocês – disse Nicolas sorrindo e mesmo que a frase tenha saído toda embolada, deu para entender. Eu sorri enquanto o cobria e me certificava de que ele estava bem.

– Também amo você. – respondi o dando um beijo na testa, mesmo sabendo que ele já havia voltado a dormir.

A cama de Nicolas é uma bicama, então puxei a cama debaixo para poder me sentar e descansar.

– Ei, pode ir pra casa agora. – avisei para o Gabriel, que estava encostado na porta do guarda-roupa observando tudo com um sorriso no rosto. – Obrigada por tudo!

– Ta me mandando ir embora? – indagou brincando e caminhou até mim, para se sentar ao meu lado. Eu apenas sorri, ele sabia a resposta, não precisava que eu dissesse em voz alta. Ele pegou a cartela de remédios que estava em cima da cama e a guardou de volta na carteira.

– Por que você anda com uma cartela de remédios na carteira? – perguntei.

– Porque quando não estou bêbado, estou de ressaca. Esse é o lema da minha vida. – explicou Gabriel e deu uma risada. – Ou quase isso. Mas falando sério... Homens costumam carregar muitas coisas dentro da carteira.

– Tipo o que? Pensava que era só camisinha.

– Isso também! – ele respondeu ao abrir a carteira novamente e tirar uma de lá de dentro. – A propósito, se quiser usar...

– Gabriel...

– Coisas importantes. – disse Gabriel rindo e voltando ao assunto, colocando a carteira sobre o colo.

– Posso ver? – perguntei e ele fez uma careta. Percebi que a pergunta havia o deixado desconfortável, porque ele não respondeu, não assentiu, não fez nada. Só ficou parado encarando o objeto em sua perna, em silêncio.

Por mais que eu não quisesse tê-lo deixado desconfortável, eu sabia que se ele não deixasse, teria dito não, então com bastante medo e receio, levei minha mão lentamente até a carteira, para ele ver o que eu estava fazendo e a peguei. Ele não disse nada, então a trouxe até mim e a abri. Encontrei dinheiro — bastante dinheiro -, alguns cartões de crédito, documentos, camisinha e então, dentro de algumas seções de plástico, encontrei algumas coisas.

A primeira delas foi uma foto da família de Gabriel. A segunda foi um papel dobrado, que abri com o olhar de Gabriel acompanhando cada mínima ação dos meus dedos. Era um desenho de sua família, inclusive Alice, feito por uma criança. Nele estava escrito “A melhor família do mundo. Te amo! — Babi”, com a caligrafia de quem está aprendendo a escrever. Eu sorri e dobrei de volta o papel, colocando-o em seu lugar. A próxima coisa que encontrei também foi um papel, mas no instante em que toquei nele, Gabriel pôs a mão em cima da minha, me impedindo de pegá-lo.

– São esse tipo de coisas. – ele disse depressa, mas sem olhar nos meus olhos. Estava tremendo novamente. – Lembranças, cartinhas da minha irmã, fotos...

– E algo mais que você não quer que eu veja. – conclui.

– Não gosto de quando faz isso. – disse Gabriel com a voz baixa e encostou a testa no meu ombro.

– Isso o que?

– Quando remexe no meu passado e se envolve mais nisso.

– Mas eu nunca sei quando estou remexendo no seu passado, Gabriel! Porque eu não sei qual é seu passado ou o que você deixou no passado e o que faz parte do seu presente!

– Me desculpa. – pediu Gabriel. – Você tem essa mania de tentar concertar tudo ao seu redor e eu já te pedi um milhão de vezes pra não tentar isso comigo. Mas sempre que eu percebo que você está prestes a fazer exatamente o que não gosto, como pegar minha carteira, a abrir e remexer no meu passado, eu não te impeço. Porque eu não posso deixar você me ajudar, mas não é como se eu não quisesse.

– Por que não pode?

– Não posso.

– Sabe o que o seu irmão me disse? – perguntei e ele negou com a cabeça. – “Ou vocês são amigos ou não são. Não vai dar pra ser as duas coisas ao mesmo tempo” e então ele justificou dizendo “O Gabriel não entrou nessa com boas intenções”. E eu não queria remoer isso na minha cabeça, principalmente porque eu estou feliz pra caralho, mas você não me ajuda a parar de fazer isso. Por que? Porque ele também disse “Quando você quebrar a cara nesse envolvimento, você vai abalar o emocional dele” e ligando os pontos, tudo que eu consigo pensar é que: Você não quer que eu seja boazinha com você, pra você não ter pena de mim, quando me der um pé na bunda.

Então, ele levantou a cabeça, olhou pra frente e assentiu. Ele assentiu.

– Você está concordando com o que eu disse? – perguntei incrédula e novamente, ele apenas assentiu. Mas antes que eu começasse mais um escândalo, ele começou a se explicar.

– Era pra ser só uma ficada, entende? Era pra gente ficar, transar e eu cair fora. Você ia ser só mais uma garota que eu já peguei, nada demais e aí a gente podia virar amigos ou sei lá o que, porque o pessoal gostou de você. E acontece de amigos se pegarem, seria absolutamente normal! Não estava nos meus planos que a gente fosse se envolver e eu não estou preparado pra isso, pra um relacionamento ou o que for que você espera de mim. Então sim, Isabelle, eu não quero que você seja legal comigo, porque eu posso acabar fugindo a qualquer momento e aí, eu vou me sentir absolutamente mal com isso.

– E você não acha que seria muito mais fácil me dizer isso? Dizer que você não ta preparado pra um relacionamento? Que você quer que a gente vá com calma? Por que se não você vai acabar involuntariamente fugindo? Não é tão mais fácil explicar isso do que ficar nessa de códigos que me confundem e intrigam? – rebati. – Eu acho que eu sou bem grandinha pra ter uma conversa civilizada e entender esse tipo de coisa! Não sou nenhuma garotinha de quinze anos que ta planejando nosso casamento e então se você não me pedir em namoro logo, vou fazer um boneco de vodu seu. – brinquei e ele deu uma breve risada. – Era tão mais fácil, Gabriel.

– Desculpa. – ele pediu novamente e eu assenti. Me senti com um peso nas costas a menos ao esclarecer tudo isso.

– Passa a noite aqui... – pedi, me deitando no colchão.

– Já ta de dia. – respondeu Gabriel brincando e eu revirei os olhos. – Eu preciso ir embora.

– Não, fica, por favor! Apesar de que vou dormir aqui, por preocupação com o Nicolas.

– Você sabe que seu pai vai chegar a qualquer momento e eu sinto de verdade que a gente ta abusando do senso de humor dele.

– A gente ta no quarto do Nicolas, Gabriel. A gente não ia transar com ele do lado.

– Mas ele não estava aqui pra saber o que a gente fez ou não, antes de parar no quarto do Nicolas.

– Por favorzinho. – implorei. – Eu e você, juntinhos, vai! Você não reclamou que eu não pedi pra dormir de conchinha? To pedindo agora!

– Você não presta! – respondeu Gabriel rindo e se levantou. Cheguei a acreditar que ele estava indo embora, mas ele apenas tirou os sapatos e saiu do quarto em seguida. Continuei deitada tentando ouvir qualquer barulho que entregasse o que ele estava fazendo, mas em questão de segundos ele voltou trazendo dois travesseiros e uma coberta, que havia pego em meu quarto.

– Bem esperto você. – elogiei e no instante seguinte ele tacou todas as coisas em cima de mim. – E nada romântico.

– Não sei nem o significado dessa palavra. – ele respondeu rindo e apagou a luz, mas deixou a porta aberta.

Gabriel se deitou comigo e nos aconchegamos no pequeno colchão, que me pareceu mais confortável que qualquer cama espaçosa sem o Gabriel. Eu deitei sobre seu braço e o fiz prometer que me acordaria caso ele começasse a doer ou ele quisesse mudar de posição. Sou cismada com esse tipo de coisa, o que o fez rir bastante. Quando já estávamos em silêncio há um tempo e eu cheguei a pensar que ele já havia dormido, ele fez uma pergunta que me pegou de surpresa.

– O que te faz desistir de alguém?

– Como assim? – perguntei confusa.

– Alguém já te fez algo tão ruim que te fez desistir? Justo você que nunca desiste de ninguém?

– Não. – respondi sincera e ficamos em silêncio novamente por longos minutos.

– Você desistiria de mim?

– Por que ta me perguntando isso?

– Porque algo me diz que quem vai acabar fugindo em algum momento, é você.

– Eu não desistiria de você, Gabriel. – afirmei olhando para ele e ele me deu um último e longo selinho, antes de me desejar boa noite e dessa vez, nós dormimos.

Eu acordei ouvindo algum barulho, mas antes que pudesse sequer abrir os olhos, percebi que se tratava de uma conversa e permaneci quieta. As vozes eram do meu pai e de Lilian, que provavelmente estavam chegando em casa agora. Quantas horas são? Por quanto tempo estou dormindo? Ainda sentia o corpo de Gabriel colado ao meu e quis me encolher sob os braços dele, porque estava fazendo muito frio.

– Eles devem ter chegado da festa, ficado conversando, até que pegaram no sono. – disse Lilian e percebi que sua voz estava muito próxima, então senti a coberta ficar mais pesada e percebi que ela havia jogado outra por cima de nós. No mesmo instante já me senti mais quente. Te amo, Lilian.

– Provavelmente! – respondeu papai. – Esses dois vão acordar com o corpo todo dolorido, dormindo espremidos. To até com dó!

– Até parece... Eles são novos e estão apaixonados, vão acordar é de sorrisinhos bobos. – rebateu Lilian e eu tive que me segurar para não rir.

– Eu gosto dele, é um bom rapaz! – afirmou papai. – Mas assim como em todo amor adolescente, ele vai partir o coração dela e isso vai partir o meu.

– Esses são o tipo de coisas das quais não podemos livrá-los e nem deveríamos... – respondeu Lilian. – Porque sinceramente, não acho que exista algo mais bonito que o amor adolescente. No final das contas, o coração partido não é nada perto da gratidão por ter vivido algo tão intenso.

– Você sempre vendo o lado positivo das coisas. – rebateu papai. – Vem, vamos deixá-los dormirem.

Ouvi o barulho da porta se fechando e no mesmo instante respirei fundo, como se estivesse segurando a respiração por todo aquele tempo. Senti Gabriel me puxar para mais perto e abri os olhos. Ele também acordou e estava me encarando. Sorri e levei a mão até os seus cabelos. Em resposta a isso, ele se encurvou e encaixou a cabeça na volta do meu pescoço.

Não sei por quanto tempo ainda permaneci acordada, mas peguei no sono fazendo cafuné em Gabriel e me dando o prazer de sentir coisas mínimas. Como sua respiração batendo contra a pele em meu pescoço, ou seu braço em volta do meu corpo, com sua mão quente colocada propositalmente sob minha camiseta, de modo que ele pudesse acariciar minha cintura e nossas pernas enroscadas.

Notas finais
Gente, eu acho que isso vai soar feito bronca de vó, ms preciso dizer uma coisa! rs Nessa festa que durou longos capítulos, aconteceram muitas insanidades e coisas engraçadas. Mas pelo amor de deus, não vão se inspirar nisso e sair fazendo loucuras por aí que vão acabar levando alguém pra cadeia, ta bom? Obrigada! Hahahahahaha Alguém aí vai estar pelo Rio de Janeiro do dia 29 de setembro ao dia 6 de Outubro? Estarei por lá pegando uns cariocas! Hahahaha A propósito, tem alguém aí de Minas Gerais? CADE O POVO QUE FALA UAI? Hahahaha Beijos de amor e luz!