Poltrona 19

31 No controle


Notas iniciais
6h da manhã. Não, não estou acordando agora, estou indo dormir. Passei a noite acordada terminando de escrever o capítulo pra vocês, porque viajo segunda e aí não daria pra fazer isso, então vocês me espancariam. Me amem muito depois disso! Hahahaha Aconteceu algo maravilhoso que vocês sabem que me deixa extremamente feliz: mais duas lindas e amáveis recomendações! Enquanto eu escrevia, fiquei um bom tempo brisando sobre o quanto é surreal que a história já tenha recebido ONZE recomendações. ONZE. Isso é tão... incrível. Tão incrível quanto as palavras da Vic e da Dreamy Girl nas recomendações. Vic, aquele final em que você diz "Clica no link, e vai lendo. Tenta não se apaixonar pelo Gabriel e pela Isa. Tenta não se imaginar no lugar deles. Tenta não se encontrar nos personagens. Tenta não discutir sozinha sobre o futuro deles. Tenta, vai tentando. Duvido você conseguir" foi o mesmo que me desafiar a chorar. Obrigada por todas as coisas que disse e por compartilhar comigo suas reflexões! Dreamy Girl, não quero apenas te agradecer por todas as coisas lindas que disse, mas também por ter conseguido fazer algo épico. Você conseguiu arrumar um nome shipper aceitável para nosso querido casal: Isabelle e Gabriel. Meus caros, ela juntou os sobrenomes deles e criou NemiZier. Eu adorei, porque nunca tinha conseguido pensar em algo! Hahahaha Serei eternamente grata por isso! E claro, pela recomendação também! Enfim... boa leitura a todos! (Que sono)

Eu acordei com um barulho e percebi que era Nicolas sentado na cama, com as mãos na cabeça. Meu primeiro impulso foi me preocupar, então percebi que Gabriel não estava mais ali. Onde ele havia ido?

– Ta tudo bem? – perguntei ao Nicolas.

– Parece que um trator passou em cima do meu corpo repetidas vezes e minha cabeça... Nossa. Parece que estão tentando martelar parafusos em meus neurônios.

– O nome disso é ressaca. Mas você ta sentindo vontade de vomitar? Ou alguma outra coisa?

– Não, só to me sentindo muito fraco, preciso comer.

– Deve ser porque você já vomitou ontem. – deduzi.

– Eu vomitei ontem? – ele perguntou parecendo perplexo. – Quando? Meu deus, o que aconteceu? Eu não lembro disso!

– Não acredito que você perdeu a memória! – disse rindo bastante. – Qual a última coisa da qual se lembra?

– Nós estávamos dançando, um pouco depois do Renan ter pulado na piscina.

– Depois disso não aconteceu muita coisa. A gente só bebeu e dançou mais, aí a Bárbara foi embora, você começou a passar mal e eu e o Gabriel te trazemos embora.

– Foi mal. – desculpou-se Nicolas.

– Relaxa, não tem problema nenhum! – garanti. – Deixa só eu fazer uma pergunta, tem muito tempo que você ta acordado?

– Não, por que?

– O Gabriel dormiu aqui, mas... – não terminei a frase, apenas apontei para o colchão vazio ao meu lado.

– Ah. É, não sei...

– Enfim, vamos comer. – chamei me levantando. – Você precisa firmar esse estômago, mas só tente esconder a ressaca dos nossos pais.

– Ta bom.

Eu abri a porta do quarto e ouvi Nicolas xingar, com a mão na frente dos olhos.

– Isso é a luz do dia ou a luz da morte chegando? – ele perguntou tentando se adaptar.

– Ok, algumas instruções: Você precisa fingir estar bem, sem dores, sem sensibilidade com luz ou barulho e evita beber ou comer coisas geladas como se fosse sua última refeição da vida.

– Nossa, uma coca-cola bem gelada... – ele disse até lambendo o lábio inferior.

– É disso que eu to falando.

– Tentarei. – garantiu Nicolas rindo.

Nós fomos para a cozinha e eu me surpreendi ao ver no relógio que já eram quase quatro horas da tarde. Não costumo acordar tão tarde assim, mas se for parar pra pensar, quando fomos dormir o dia já havia amanhecido. Para a sorte de Nicolas, não encontramos ninguém em casa, apenas um bilhete de Lilian pregado na porta da geladeira, em que dizia:

Meninos,
Fomos ao shopping e voltamos logo. Se acordarem antes disso esquentem o almoço e se precisarem de algo, liguem.
Beijos.
* Tem sorvete no congelador.
* O Gabriel teve que ir pra casa
* Isa, você tem que ir pra casa da sua mãe hoje a noite.”

Li o bilhete em voz alta para que Nicolas ouvisse e descobri onde o Gabriel estava: em casa. Mandei uma mensagem para ele em que dizia “Jamais durma com uma garota e saia sem despedir”, apenas para provocar. Antes que eu terminasse a primeira frase do bilhete Nicolas já estava colocando a comida no fogo, mas ao descobrir que tinha sorvete, ele decidiu atacar o pote primeiro. Eu estava preferindo o almoço, então resolvi terminar de esquentar.

– Cara... Seu pescoço. – disse Nicolas enquanto eu colocava uma panela no fogo e imediatamente saí correndo até o espelho mais próximo. Meu pescoço estava com duas marcas roxas enormes.

– Eu to fodida!

– Ta mesmo. – concordou Nicolas, surgindo ao meu lado com o pote de sorvete em mãos. – Seus pais não vão curtir isso tanto quanto você deve ter curtido na hora que ele foi feito.

– Nicolas! – o repreendi envergonhada e ele gargalhou.

– Em que momento da noite vocês arranjaram oportunidade pra isso? Me diga que não foi no meu quarto.

– Do seu lado, idiota. – brinquei. – Foi na casa do Renan.

– Primeiro nós comemos, depois te ajudo a pensar num jeito de se livrar disso. – sugeriu Nicolas e eu fiquei surpresa que ele ainda quisesse almoçar, mas concordei.

Eu esquentei a comida, nós comemos e depois fui tomar um banho. Nicolas resolveu fazer o mesmo. Foi triste ver a tinta colorida sair dos meus cabelos, mas acho que ninguém me levaria a sério com cinco cores na cabeça. Depois de tomar banho, tentamos dar um jeito em meu pescoço. Nicolas jogou no google “como tirar um chupão do pescoço” e eu gargalhei, mas apareceram diversas coisas, como “3 Formas de Remover um Chupão” e “Métodos infalíveis para tirar marca de chupão do pescoço”.

Eu tentei todas as alternativas que lemos: coloquei gelo sobre as marcas por quinze minutos, tentei passar pente pelo local para ajudar na circulação, passei creme dental, fiz massagem, tudo. Confesso que ficou um pouquinho melhor do que tava antes. Mas com pouquinho, eu quero dizer, bem pouquinho. Então tive que tentar apelar para a maquiagem e mesmo assim, ainda dava para ver, mesmo que não estivesse mais tão chamativo. De qualquer forma, aquilo não bastaria.

Eu aproveitei que estava fazendo frio e vesti uma blusa com gola, daria para enganar todo mundo pelo menos hoje. Depois comecei a organizar minhas coisas porque eu voltaria pra casa da minha mãe. Não demorou muito para que meu pai e Lilian chegassem e eles nos encheram de perguntas sobre a noite. Eu menti que havíamos chegado bem mais cedo do que de fato chegamos e nos limitamos a dizer que a festa foi muito boa. Então meu pai me fez uma pergunta que me pegou de surpresa:

– Isabelle, você saberia me explicar por que o tanque de gasolina estava praticamente zerado quando eu peguei o carro?

Tudo que eu consegui pensar foi: fodeu. Eu realmente não estava esperando por aquela pergunta e até me senti burra por isso. Eu devia ter pensado em algo tão simples assim.

– Nossos amigos não tinham como ir embora e a Isa acabou levando geral pra casa. Ainda pegou uma graninha com eles, que teriam de pagar taxi. – respondeu Nicolas me salvando e eu respirei aliviada.

– Ah sim. – foi tudo o que papai disse. Não soube se ele havia acreditado, mas ele resolveu ignorar o assunto e não seria eu a impedi-lo.

Depois daquilo tive de me despedir de Nicolas e Lilian porque meu pai me levaria embora. Fui praticamente chorando porque aquela semana havia sido incrível, mas quem quase chorou mesmo foi minha mãe quando percebeu que eu havia chegado em casa.

– Olá, ser humano que me pariu! Cheguei! – gritei ao atravessar a porta e de repente vi minha mãe vir correndo da cozinha, vestindo um avental e com um pano de prato pendurado no ombro. Aquela foi uma das cenas mais chocantes que já vi em toda minha vida. Ela me deu um abraço apertado enquanto dizia que sentiu minha falta e mesmo que eu quisesse dizer que também senti, só consegui dizer outra coisa. – O que diabos esta acontecendo aqui?

– Como eu sabia que você voltaria pra casa hoje, decidi fazer algo pra você comer.

– Isso funcionou? – perguntei assustada. Eu só conseguia imaginar algo torrado em uma panela, com marcas de chamas pelas paredes, que ela teve trabalho para apagar com o extintor de incêndio, apenas para não pagar mico chamando os bombeiros.

– Sim! – ela respondeu tirando minha mochila das costas e colocando sobre o sofá. – Vem, senta na mesa que vou te servir!

Muitos podem achar que é exagero, mas em dezessete anos de vida, eu realmente posso afirmar que minha mãe não nasceu para estar dentro de uma cozinha. O impressionante foi que ela conseguiu fazer algo que prestasse. Ela fez uma carne com batata que vai ao forno e eu comi duas vezes, enquanto ouvia ela perguntar insistentemente sobre como foi minha semana. Meus pais sempre se deram muito bem, mas acho que no fundo minha mãe tem ciúmes dele comigo, porque ao contrário dela, ele sempre foi o tipo de adulto legal e liberal. Eu tenho a impressão de que ela faz essas perguntas apenas para investigar se eu gosto mais de ficar na casa dele do que com ela.

– Então o Gabriel dormiu lá duas vezes? – indagou mamãe após eu ter contado tudo, aparentando não ter gostado nada de tal coisa. – E seu pai deixou?

– Sim. – respondi indiferente e dei um gole em meu suco. Estava me divertindo com o pensamento de que ela estava se remoendo por dentro, com a ideia de sua filha adolescente ter dormido junto com um cara.

– Vocês dormiram juntos no mesmo quarto?

– Na mesma cama. – respondi segurando a risada e vi sua expressão de choque. Ela nem sequer conseguiu responder, então resolvi parar com esse joguinho. – Relaxa mãe, to só brincando com você. Na primeira vez ele dormiu no escritório do papai e na segunda acabamos mesmo dormindo juntos, mas foi no quarto de Nicolas, porque chegamos da festa, ficamos conversando e acabamos pegando no sono.

– Ah sim. Isabelle, posso te fazer uma pergunta?

– Sim.

– Você é...?

– Nem termine! – ordenei me levantando da cadeira. Eu tinha certeza que ela iria perguntar se eu sou virgem e eu não estava nem um pouco afim de responder essa pergunta ou debater esse assunto com minha mãe. – To indo dormir, amanhã tenho aula cedo. Boa noite. Adeus. – dito isso sai correndo pro meu quarto e tranquei a porta. Ta aí uma das coisas mais constrangedoras da vida, ter de falar sobre sexo com seus pais. Enquanto eu puder evitar isso e deixá-los acreditando que eu ainda sou virgem, assim será.

Eu coloquei um pijama e procurei por um caderno de capa vermelha jogado dentro de minha mochila. Me sentei em minha escrivaninha e o abri na próxima página em branco, começando a escrever. Eu tinha algumas coisas importantes para contar naquele diário. Quando terminei já haviam se passado horas, então apaguei a luz do quarto e deixei que apenas a luz do poste na rua iluminasse o caminho até a cama. Ao me deitar, peguei meu celular e digitei uma mensagem.

“Gabriel Fornazier, meu diário já se cansou de seu nome.”

Eu mandei a mensagem, mas percebi que ele havia desativado a opção de mostrar quando foi a última vez que visualizou o whatsapp. O que estava ativado quando mandei mensagem para ele mais cedo e o que significava que ele havia visto, mas não respondeu. Não soube o que aconteceu, mas resolvi deixar para perguntar no dia seguinte e fui dormir.

Segunda-feira tudo voltou ao normal em minha rotina – ou quase tudo. Começando por chegar ao segundo horário no colégio, mas quando entrei na sala avistei o lugar de Gabriel vazio. A decepção em meu rosto foi visível, porque eu estava louca para vê-lo, mas não tive muito tempo para pensar nisso, porque houveram algumas mudanças. Ao meu lado costumava se sentar uma garota, mas quem estava em seu lugar era Renan e em sua frente, Bárbara. Eu coloquei minha mochila sobre a mesa olhando para eles com um olhar curioso.

– Fazer tudo diferente por uma semana, lembra? – disse Bárbara e eu sorri. – Então se eu sento no primeiro lugar da fileira, acho que o fundão é uma boa ideia.

– Sabe que eu concordo? – respondi me sentando.

– Eu aproveitei essa migração, para também vir me sentar perto dos migos. – disse Renan. – E carreguei duas pessoas comigo: Douglas e Tainá. – completou apontando para um cara e uma garota sentados na fileira ao lado. Já sabia quem eles eram, mas nunca conversamos.

– Prazer, eu sou Isabelle! E esse é o clube da Luluzinha. – disse apontando para meus amigos.

– Não, esse é o clubinho do Bruno. – corrigiu Bruno.

– Clubinho dos bêbados. – disse Gustavo.

– Clubinho dos desequilibrados e bêbados que topam as idiotices do Bruno. – complementou Carol e todos rimos.

A aula começou e eu percebi que Bárbara não abriu os materiais. Ela estava visivelmente perdida e sem saber o que fazer. Ri sozinha.

– Não precisa foder suas notas, Bárbara. – avisei. – Pode estudar a vontade. Só tente não fazer disso sua vida essa semana, porque é o que geralmente faz.

– Ok. – ela respondeu grata e abriu todos os materiais correndo. Não consigo entender como alguém pode gostar de estudar, mas acho que no caso dela é apenas rotina, um costume que ela segue desde criança. É a vida com a qual ela se adaptou, ela não sabe como é ter uma rotina diferente.

Peguei meu celular e Gabriel ainda não havia me respondido, mas pior ainda era a agonia de não saber se ele viu minhas mensagens ou não. Resolvi mandar mais uma: "Matando aula, Fornazier?". E pra não ficar feito uma maníaca abrindo a janelinha dele de cinco em cinco minutos, como se ele fosse estar acordado às 8h da manhã, já que não apareceu na aula, resolvi tentar me distrair com outra coisa.

Aproveitei a onda da Bárbara de fazer coisas diferentes e resolvi começar a atualizar minhas redes sociais. Postei no instagram uma foto de sábado em que estava todos os meus amigos, uma que tiramos no estacionamento do supermercado e observei a velocidade com que as pessoas a curtiam. Meu número de seguidores havia aumentado consideravelmente esse mês, assim como o número de pessoas me adicionando no facebook. Ta aí uma coisa pra qual nunca tive muita paciência: facebook. Um monte de gente tentando fingir que é mais feliz que o outro, tentando pagar de moralista e sendo falso pra caralho. Acho que dá pra viver bem sem isso.

Segui com minha manhã normalmente, mesmo que tenha sido chato vivenciar meu primeiro dia de aula sem o Gabriel, já que ele nunca havia faltado. No intervalo juntamos praticamente todo mundo que estava na festa para comentar sobre tudo que havia acontecido e eu fiquei feliz em perceber que Bárbara estava se esforçando para ser o mais sociável possível. E sóbria. Até as meninas estavam ali, Leticia e Amanda

– Percebe que você é a ponte entre tantas pessoas diferentes? – perguntou Bárbara se sentando ao meu lado. – O grupinho de Gabriel, suas amigas, Renan, eu... Tantas pessoas que provavelmente nunca teriam tido uma ligação, se não fosse por você.

Isso me deixou pensativa por longos minutos. Talvez seja verdade, talvez não. Lembrando da forma com que conheci cada um deles e de em que momento houve um vínculo entre todos, percebi que eu fui mesmo a causa. Mas a parte mais assustadora da vida é nunca saber como será o dia de amanhã. Poderia acontecer em algum outro momento, em algum outro lugar, de alguma outra forma.

– A vida é imprevisível. – disse por fim e o sinal indicando o fim do intervalo tocou.

Um dia em Vênus equivale a 243 dias terrestres, o que para mim foi o mesmo que aquela segunda-feira. Tive a sensação de que aquele foi o dia mais extenso de todos, principalmente porque Gabriel nem sequer deu sinal de vida. Na terça eu fui pro colégio já disposta a fazer mil perguntas para ele, mas dessa vez eu não fiquei apenas chateada ao entrar na sala, eu fiquei preocupada. Gabriel não estava lá novamente. Eu quis engolir meu orgulho e tentar ligar pra ele, mandar mensagem ou qualquer coisa, mas se ele quisesse falar comigo, ele teria feito isso. Admitir isso pra mim mesma foi a pior parte.

Na quarta eu já nem sabia se queria vê-lo, mas eu quase explodi de raiva ao me deparar mais uma vez, com seu lugar vazio. O que diabos aconteceu? Eu fiquei tão irritada que não queria falar com ninguém ou sequer olhar pra cara de alguém. Quase fingi estar passando mal apenas para ir embora, mas pensar que Gabriel estava tendo tanto controle sobre meu humor, me deixou mais irritada ainda e eu permaneci na aula.

No intervalo, comecei a pensar que Gustavo ou Bruno deveriam saber o porquê de ele não estar aparecendo no colégio. Afinal, eles são os melhores amigos dele, mas eu simplesmente não tinha coragem de perguntar qualquer coisa, então tentei conter minha curiosidade. Falhei. Enquanto voltávamos pra sala, acabei questionando Gustavo.

– Guga, você sabe por que o Gabriel não anda vindo pra aula? – perguntei.

– Acho que ele não ta se sentindo bem, algo assim. – ele respondeu, deu um sorriso e puxou assunto com Carol no mesmo instante. Por se tratar de Gustavo, eu percebi que ele quis evitar o assunto e fiquei mais irritada do que eu já estava.

Quando chegamos na porta da sala, não entrei, fiquei no corredor esperando Bruno aparecer. Eu decidi que também o questionaria e veria o que ele responderia. Se a resposta batesse com a de Gustavo, então era verdade. Se não, era mentira. Bruno apareceu ao lado de duas garotas e se despediu delas, ao parar na minha frente.

– Ta fazendo o que aí sozinha, loira? – indagou Bruno.

– Tava falando no telefone. – menti e já fui direto ao ponto. – Bruno, aconteceu alguma coisa com o Gabriel pra ele não estar aparecendo no colégio?

– Não sei, mas que eu também queria estar na minha cama, eu queria. – ele respondeu e entrou na sala. Deixando-me para trás confusa, até que a professora de Geografia aparecesse ordenando que eu entrasse.

Ele não deu a mesma resposta que o Gustavo, mas também não disse algo que eu poderia considerar como diferente, ele simplesmente disse que não sabia. Eu fui embora do colégio naquele dia completamente chateada, irritada e frustrada. Tudo ao mesmo tempo. Quando cheguei em casa, fui direto para o meu quarto e joguei minhas coisas no chão, peguei meu celular e liguei para o Gabriel. Chamou, chamou, chamou...

Sua chamada está sendo encaminhada para caixa de mensagem e estará sujeita à cobrança após o sinal.

Eu chutei minha mochila com raiva e mandei uma última mensagem para ele: “Espero que tenha morrido”. Taquei meu celular sobre a cama e o vi rolar até cair sobre o chão. Não me dei ao trabalho de pegá-lo, apenas coloquei Coldplay para tocar no som e aumentei o volume, então me joguei sobre a cama e enfiei minha cabeça debaixo do travesseiro, rezando para essa semana acabar logo. Coldplay é a única coisa que pode salvar meu humor. Ou destruí-lo de vez.

Quando acordei na quinta-feira, não estava disposta sequer a respirar. Me arrumei lentamente, com toda a paciência que eu nunca tive e até daria tempo de pegar carona com minha mãe, mas neguei. Eu pretendia chegar ao colégio no último horário se fosse possível. Por isso tomei meu café da manhã calmamente e sai de casa com o ânimo de uma criança para tomar vacina.

Ao fechar o portão e me virar para o lado, vi alguém encostado no muro, com o pé na parede e as mãos dentro dos bolso da calça. Gabriel estava usando um moletom do Blink 182 e mesmo com o frio que estava fazendo, estava com os cabelos molhados. O olhei de cima a baixo e guardei minhas chaves no bolso da mochila, enquanto passava por ele sem ao menos dar “oi”.

– Tem bastante tempo que eu to aqui na porta te esperando, sabia? – disse Gabriel e eu continuei andando. – E eu acordei cedo pra caralho pra passar aqui antes.

– É mesmo? Que pena. – rebati irônica. – Tem uns quatro dias que to querendo saber se você ta vivo.

– Vivo sim, inteiro não... – ele respondeu e de repente surgiu ao meu lado, levantando a mão direita enfaixada. Eu fiquei preocupada, mas olhei de volta para a frente e fingi não me importar.

– O que aconteceu?

– Tombo de skate. Alguns bons dias sem aula. – respondeu Gabriel indiferente e minha preocupação sumiu, dando lugar para a raiva retornar.

– Era difícil responder uma mensagem? Atender o celular? Dar sinal de vida?

– Tecnicamente, é bem difícil sim digitar com a mão esquerda.

Eu não respondi, apenas o ignorei. Ele havia feito isso por quatro dias mesmo.

– Eu tive uns probleminhas também... – admitiu Gabriel.

– Que tipo de probleminhas?

– Nada demais! – ele respondeu e eu fui atravessar a avenida, mesmo vendo que o semáforo havia aberto, então Gabriel me puxou abruptamente para trás, me olhando com desaprovação. – Como foi sobreviver a quatro dias sem mim? – indagou dando ênfase a palavra “sobreviver”, como se eu precisasse de seus cuidados para conseguir tal proeza.

Novamente apenas o ignorei. Se ele acha que vai aparecer tanto tempo depois e ainda fazer esse joguinho estúpido, está muito enganado.

– As coisas lá em casa não ficaram bem depois de sábado... – ele finalmente começou a explicar. – Minha mãe tava viajando e voltou, então meu pai contou tudo e enfim. Houveram mais brigas, depois eu quebrei dois dedos, fui parar no hospital, tava estressado e não tava com cabeça pra nada. Como quebrei os dedos da mão direita nem fazia sentido ir pro colégio. Aí eu também perdi meu celular dentro de casa e eu sei que isso não é desculpa, mas eu confesso que não queria falar com ninguém. Só tava querendo um tempo de tudo. Desculpa.

Dessa vez eu novamente não respondi, mas apenas por puro orgulho e birra. Ele finalmente ficou quieto e em silêncio, aparentemente sem saber o que fazer. O deixei pensando por todo o resto do trajeto que eu ainda estava brava, até chegarmos na esquina do colégio. Eu estava gostando daquele joguinho, então parei e me virei para ele.

– Não vou ao aniversário do Bruno. – menti. Ou não. Eu ainda não havia falado com minha mãe, mas não estava disposta a perder essa festa. Só queria testar sua reação.

– Por que? – ele perguntou quase gritando.

– Por que ta alterando a voz? A gente ta no meio da rua. – respondi com o tom de voz mais calmo que consegui. Isso pareceu irritá-lo ainda mais.

– Você ta fazendo isso por birra?

– Não to afim de ir.

Gabriel saiu andando e me deixou para trás. Eu soltei uma risada e continuei parada no mesmo lugar. Quando ele atravessou a rua e viu que eu não havia o seguido, levou a mão até o cabelo e o puxou com raiva. Então andou de volta em minha direção e começou a falar antes mesmo de chegar perto de mim.

– Dá pra você parar de agir feito criança? – ele pediu visivelmente irritado e eu ri.

– Sério que isso é tão irritante assim pra você? – perguntei me aproximando dele e ouvi o sinal do colégio tocar. O segundo horário estava começando. Delicadamente o empurrei até o muro atrás de si e me coloquei entre suas pernas. – Te irrita tanto assim não ter o controle?

– Quem disse que eu não tenho o controle?

– Eu.

– Você esta no meio das minhas pernas nesse exato momento. – observou Gabriel em tom provocativo.

– Mas você não vai fazer nada se eu não quiser.

– A questão é que você quer. – ele afirmou aproximando o rosto do meu e o empurrei de volta para trás, dessa vez com força. O olhei séria e com as sobrancelhas arqueadas, então ele bufou. – Talvez, só talvez, eu não tenha o controle de tudo... – admitiu Gabriel frustrado. Eu abri um largo sorriso satisfeita.

– Senti sua falta, Gabriel. – confessei e o beijei. Foi só então que eu percebi que eu não tinha apenas sentido sua falta, eu estava era prestes a enlouquecer com sua falta. Quando nos desgrudamos, eu literalmente soltei uma ameaça. – Se você se atrever a sumir de novo, eu juro que quebro o resto dos dedos da sua mão.

Ele sorriu, mas foi minha vez de sair andando. Quando entramos no colégio, eu já comecei a morrer de tédio só de pensar no discurso que ouviríamos a seguir. Fomos até a secretaria e uma mulher morena usando óculos, nos olhou de forma reprovadora.

– Já recolhemos as listas dos alunos atrasados, o segundo horário já começou. – disse a mulher antes de sequer falarmos algo.

– Ok. – respondeu Gabriel e saiu andando em direção as catracas. O olhei curiosa, mas o segui.

– Opa, quem deixou vocês entrarem? – indagou a mulher.

– O contrato que meu pai assinou quando me matriculou. – respondeu Gabriel sem nem olhar para ela, passando sua carteirinha pela catraca e eu fiz o mesmo. Senti vontade de rir, porque não deveríamos estar entrando sem assinar a lista, mas foi ela quem quis bancar a chata.

– Nós iremos comunicar aos pais de vocês o quão atrasados chegaram. – avisou a tia chata e ignoramos. – E só entrem na sala ao fim do horário.

– Minha mãe não vai gostar nada disso. – reclamei me sentando em um banco do pátio e Gabriel se sentou ao meu lado.

– Fala que foi minha culpa.

– Seus pais não vão grilar também?

– Meus pais não tão nem aí pro que eu faço da vida.

– Sua mãe é igual seu pai? – perguntei sem querer ter de falar algo como “o idiota, estúpido e odiável do seu pai”.

– Não, minha mãe é uma perua amável. – respondeu Gabriel sorrindo. – Mas eles de fato não ligam pro que eu faço. Acho que minha mãe confia em mim ou ta sempre ocupada demais, sei lá, ela só espera que eu dê sinal de vida em algum momento do dia. Quando ligam do colégio a empregada diz que eles não estão mesmo se estiverem, então nem dá nada.

– Seus pais trabalham muito?

Ele deu uma risada fraca e me olhou.

– Eles são quase piores que os pais do Gustavo. – respondeu Gabriel. Eu me lembrei de quando Gustavo contou sobre sua vida na aula de Literatura, quando confessou que seus pais eram viciados em trabalho e que por isso ele cresceu tão sozinho. Se isso já me parecia cruel, eu não conseguia imaginar que os pais de Gabriel pudessem ser pior.

Antes que eu pudesse enchê-lo com mais perguntas, o senti abaixar meu casaco no rumo do pescoço e dar uma risada. Eu sabia do que se tratava, eram as marcas que ele deixou no meu pescoço. Já estavam finalmente desaparecendo, mas eu ainda precisava esconder.

– Quatro dias e isso ainda não saiu?

– Você precisava ver no domingo, seu idiota. Fiquei desesperada.

– Eu vi! Quando me levantei pra ir embora. – contou Gabriel. – Você tava dormindo tão bem que nem quis te acordar. Mas se quiser, posso deixar umas marcas do lado de cá também, pra ficar igual.

– Há-Há. Como você é engraçado!

Eu me aconcheguei no banco e observei o pátio vazio e silencioso, sem ninguém além de mim e Gabriel.

– Eu gosto desse lugar, vou sentir falta daqui. – confessei.

– Eu não.

– Do lugar, não do colégio. – concertei a frase. – Eu sempre achei esse pátio vazio um dos melhores lugares pra passar o tempo. Esses bancos de madeira, as árvores sempre jogando folhas em nós por causa do vento e é sempre tão fresco. Vazio fica tão calmo. Como se o ambiente precisasse de um momento de paz para absorver a quantidade de lembranças depositadas nele.

– Eu não acredito que você consegue refletir até sobre o pátio do colégio. É só o lugar em que eu rezo pros professores explodirem entre uma aula e outra.

– Você faz ideia de quantas memórias já se passaram nesse lugar? Esse é o nosso último ano aqui, mas já foi o último ano de outra turma e será o último ano de uma outra turma. Anos diferentes, pessoas diferentes, amizades diferentes, pessoas diferentes, histórias diferentes, memórias diferentes. Um simples pátio e milhares e milhares de lembranças. Você não se imagina voltando aqui algum dia e lembrando da sua época? De quando você era “O Gabriel Fornazier”? Conhecendo o novo Gabriel Fornazier?

– Jamais existirá um novo Gabriel Fornazier. Quando eu sair desse colégio ele simplesmente perderá a maior lenda que já passou por ele.

– Você é inacreditável. – disse rindo e ele me acompanhou.

– Não, não me imagino voltando aqui algum dia. – disse Gabriel quando finalmente calamos. – Não sei lidar com o passado.

– Nem eu. – admiti encostando a cabeça em seu ombro.

– Não sei lidar com muitas coisas.

Essa é a grande verdade da vida. As vezes acho que não sei lidar com diversas coisas, nas outras vezes penso que não sei lidar é com nada. Nós permanecemos em silencio por um longo tempo, apenas perdidos em nossos próprios pensamentos.

– Melhor irmos pra porta da sala, porque quando o sinal tocar vai ser tipo como se tivessem aberto as portas do inferno. Ou explicando melhor, vai ser o intervalo. – disse Gabriel se levantando.

– Costumo dizer que é como se tivessem aberto as portas de um galinheiro.

– Ok, você ganhou. – disse Gabriel gargalhando. – Mas você sabe que acabou de se auto-ofender, né? Porque você também faz parte desse galinheiro.

– Eu sou a dona desse galinheiro. E você é o galo que fica tentando demarcar território.

– Tentando não, eu demarco.

Nós subimos e esperamos na porta da sala. Fiquei triste por ter perdido o segundo horário porque era Língua Portuguesa, mas em compensação comecei a pensar seriamente em chegar todos os dias nesse horário. Pensa que divertido perder dois horários e já chegar ao colégio na hora do intervalo. Pena que se eu dissesse isso pra minha mãe, ela também acharia divertido as marcas de mão que deixaria na minha cara.

Quando o sinal finalmente tocou e entramos na sala, Bruno praticamente pulou em cima de Gabriel e durante todo o intervalo ficou fazendo perguntas sobre os dedos quebrados dele. Se ficariam tortos e bizarros, se eles continuariam a “funcionar” – com essa exata palavra – e se doeu muito porque ele ia tentar quebrar também. Ele curtiu a ideia de ficar sem escrever ou ir ao colégio. E quando ele disse isso, eu tive que comentar:

– É inacreditável que você irá fazer dezoito anos.

– Eu me pergunto diariamente quando foi que a mente dele parou de acompanhar a idade. – contou Gustavo.

– Com uns 14 anos. – deduziu Carol. – Quando garotos só pensam em peitos. Porque é basicamente em torno disso que a vida dele gira.

– A vida é um peito fera. – disse Bruno e todo mundo o encarou. – Porque eu gosto de peitos e gosto da vida, então é uma boa comparação. A vida é um peito fera. – foi com esse comentário que fechamos nosso intervalo com gargalhadas. O Bruno é inacreditável.

Os próximos horários foram bem chatos, a não ser pela aula de literatura. Eu gosto cada vez mais desse professor e da forma com que ele leciona, mas confesso que as vezes fico brisando sobre o que diabos a mãe dele tinha na cabeça quando escolheu seu nome e da onde vem esse nome bizarro. Pasmem, meu professor se chama Akira.

– Apesar de o Pré-Modernismo não constituir uma escola literária e apresentar individualidades muito fortes, é possível perceber alguns pontos em comum entre as principais obras pré-modernistas. São em geral obras inovadoras, apresentando uma ruptura com o passado, com o academismo. Como se pode perceber através da linguagem chocante de Augusto dos Anjos, repleta de palavras “não poéticas" cuspidas, vomitadas, que era uma afronta à poesia parnasiana ainda em vigor. – explicou Akira. – Alguém poderia me dizer uma das principais características das obras desse período?

– Ligação com fatos políticos, econômicos e sociais, diminuindo a distância entre realidade e ficção. – respondeu Gabriel e eu olhei um pouco perplexa para ele.

– Muito bem pontuado, senhor Fornazier. – afirmou o professor. – O pré-modernismo no Brasil apresentava um inconformismo diante da realidade brasileira, apresentando um temário diferente daquele usado pelo romantismo e pelo parnasianismo... – ele continuou a explicar, mas não estava mais prestando atenção. Estava encarando o Gabriel, que sorria fingindo que não estava vendo.

– Você é uma caixinha de surpresas. – afirmei.

– Faz parte do meu charme! – ele respondeu finalmente me olhando e eu revirei os olhos, voltando a prestar atenção no professor.

– O Modernismo teve início em meio à fortalecida economia do café e suas oligarquias rurais. – dizia Akira. – Porém, a industrialização chegava ao Brasil em consequência da Primeira Guerra Mundial e ocasionou o processo de urbanização e o surgimento da burguesia. O número de imigrantes europeus crescia nas zonas rurais para o cultivo do café e nas zonas urbanas na mão de obra operária. Nessa época, São Paulo passava por diversas greves feitas pelos movimentos operários de fundamentação anarquista.

“O objetivo do modernismo era o rompimento com o tradicionalismo, a libertação estética, a experimentação constante e, principalmente, a independência cultural. No Brasil, o desejo era mostrar um Brasil de verdade, com suas favelas, seu povo sofrido, marginalizado, sem os idealismos românticos. E qual foi o marco simbólico do início oficial desse movimento literário e artístico aqui?”

– A semana de arte moderna. – respondi.

– Exatamente! – disse o professor. – E em Portugal?

– A publicação da revista ORPHEU. – respondeu Gustavo.

– Mas esse fundão ta espetacular hoje! – elogiou Akira e nós rimos. – E para entendermos melhor o modernismo e suas fases, vocês farão um trabalho divertidíssimo sobre esse momento que foi a libertação da arte da reprodução nada criativa de padrões europeus e que deu início à construção de uma cultura essencialmente nacional. Vocês falarão um pouco sobre alguns dos principais personagens desse movimento e suas obras. Se dividam em grupo de cinco pessoas e passem os nomes para o representante de sala, que pegarei com o mesmo na próxima aula e faremos o sorteio desses personagens para cada grupo.

– Não temos um representante de sala. – disse Bárbara.

– Como assim? Vocês precisam de um representante, até mesmo para discutirem questões importantes para vocês. Como os trotes, horários culturais, formatura, viagem... Vocês não começaram a ver nada disso?

– Não. – a sala respondeu praticamente em uníssono.

– Pessoal, o mês de fevereiro já se foi, estamos em março. Daqui a pouco vocês estarão entalados de trabalhos, depois vêm os testes e aí a semana de provas. Vocês vão piscar e o tempo vai ter passado. Se vocês não correrem atrás de tudo que querem, a única coisa que vão fazer no terceiro ano é morrer de estudar.

– Então vamos decidir o representante agora. – sugeriu Gustavo.

– Boa ideia! – concordou o professor. – Vamos fazer a votação... Quem quer se candidatar?

Houve um alvoroço na sala. Alunos apontando um para o outro, fazendo graça, querendo foder com a vida do amiguinho. Acabou que uma garota sentada na frente em minha fileira, chamada Nicolle, foi colocada na lista por livre e espontânea pressão de todos os seus amigos. E apenas uma pessoa de fato se candidatou, Tatiane. Fiquei imaginando ela dando recados constantemente, ou querendo decidir nossas vidas e acabei me imaginando pulando de um viaduto.

Quando voltei a prestar atenção na conversa do pessoal, eles estavam tentando convencer Gustavo ou Bárbara a se candidatarem. Bruno estava em pé de frente para o Gustavo, com uma régua na mão, basicamente tentando apresentar todos os motivos pelos quais ele deveria se candidatar, mas tudo que ele dizia eram coisas como:

– Levanta a porra dessa mão imediatamente, antes que eu enfie essa régua em lugares onde o sol não bate e você não irá gostar nada disso. – ameaçou Bruno.

Eu gargalhei e comecei a prestar atenção na conversa de Carol e Bárbara. Carol parecia estar tentando a convencer a se candidatar e eu pensei que ela de fato seria a pessoa mais correta para tal coisa. Ela é a aluna mais responsável e inteligente da sala. Então resolvi ajudar.

– Bárbara, lembre-se do desafio... Se essa é uma coisa que você não faria, então você deve fazer.

– Na verdade não quero pegar mais uma responsabilidade pra mim, Isa. Ser representante vai requerer uma dedicação ainda maior da minha parte e isso vai ser até o fim do ano, aí tem o vestibular e não vai me sobrar tempo nem pra respirar. Eu quero medicina, preciso do máximo de tempo possível pra estudar. Sem contar que pra ser representante precisa ser comunicativa, eu sei que isso seria ótimo pra mim trabalhar minha personalidade como vocês tanto querem, mas o que precisamos pra essa função, é alguém de fato capaz de ser convincente e tudo mais, porque graças a você, agora eu quero que o terceiro ano seja inesquecível.

– Inesquecível... – repetiu Gabriel e olhamos para ele. Então ele levantou a mão e mesmo no meio de todo aquele caos, o professor conseguiu o enxergar.

– Quer se candidatar, Gabriel? – indagou Akira e a sala ficou em silêncio. Seria bem curioso Gabriel Fornazier se candidatando a representante de sala, mas com certeza ele ganharia com 100% dos votos.

– Nunca. – respondeu Gabriel. – Eu quero indicar a Isabelle. – ele completou apontando para mim. Eu fiquei tão indignada que quase me engasguei com o vento.

– Você ficou maluco? – perguntei quase gritando.

– Isabelle, pensa comigo... – disse Gabriel se virando para mim. – Você é a pessoa perfeita. Não é você que tem essa obsessão por fazer as coisas se tornarem inesquecíveis? Cada momento único e blábláblá? Você não quer que o terceiro ano seja memorável?

– Sei lá... Tudo dá errado pra mim nesse colégio. Era pra eu ser da sala dos meus amigos esse ano, eram pras coisas serem diferentes.

– Ei! – protestou Bruno. – Achei que nós fossemos seus amigos!

– Vocês são! – garanti após dar uma risada e ele fingiu estar ofendido.

– Essa é a sua chance de fazer dar certo e fazer as coisas saírem do seu jeito, Isa. – Gabriel tornou a dizer. – Todas as coisas que acontecerão esse ano, só vão acontecer uma vez e eu te conheço bem o suficiente pra saber que você não quer que nada dê errado.

Eu sempre quis ter uma formatura inesquecível. Dessas repletas de momentos clichês, onde mesmo que eu não goste de ser o centro das atenções, eu seria a oradora da turma. Apenas para fazer um lindo discurso, daqueles que fariam todos os alunos chorarem e refletirem sobre sua própria vida, ou sobre o quanto o ano que se passou foi especial. Eu faria percebê-los o quanto seria importante o momento em que receberíamos o diploma e jogaríamos nossos chapeuzinhos para cima. Faria abraçá-los seus amigos, como se fosse a última vez e teríamos a melhor formatura de todos os tempos.

Já faz um tempo em que me desiludi desse sonho, principalmente quando fui separada de minhas melhores amigas. Me lembro perfeitamente de que no primeiro dia de aula do terceiro ano, só conseguia pensar que era o primeiro dia de aula do pior ano de nossas vidas, ao contrário do melhor. Mas agora, eu tenho novos amigos e os antigos continuam presentes na minha vida com a mesma importância. Talvez de fato, ainda dê tempo de fazer esse ano ser inesquecível. Talvez eu possa fazer as coisas darem certo.

Eu olhei para Gabriel, olhei para o professor e então disse algo do qual esperei não me arrepender:

– Eu me candidato.

– Ótimo! – disse o professor anotando meu nome no quadro, logo abaixo do de Nicolle e Tatiane. – Mais alguém?

Ninguém mais se candidatou e então o professor começou a votação. Existem 35 alunos na minha sala e quando o professor terminou de perguntar aos 35, em quem eles votariam, eu fiquei chocada ao saber que recebi 21 votos. 21 votos significava que 60% da sala havia me escolhido. Que insanidade.

– Isabelle, é a nova representante da sala, com vinte e um votos e Nicolle é a vice representante, com oito votos. – anunciou o professor e o pessoal me parabenizou. – Agora, Isabelle, que tal você ir conversar com a Rosangela? Pra sugerir pra ela que vocês façam uma reunião a respeito de todas as coisas, principalmente a formatura. Imagino que o resto das turmas não tenha elegido representantes ainda, então ela deve tomar alguma providencia.

– Agora? – perguntei meio perdida. Mas eu ainda nem processei a informação de que vou ser responsável por uma turma inteira, professor.

– Sim! Porque vai ser praticamente impossível você encontrá-la disponível para conversar no fim da aula.

– Ta bom. – respondi, mas ainda demorei um pouco para me levantar. Eu estava meio desnorteada. Chegaria na diretora e falaria o que? Céus, eu não devia ter topado nada disso.

– Não se esqueçam de entregar a lista com os grupos definidos para a Isabelle, porque pegarei com ela. – ouvi Akira dizer antes de sair da sala.

Segui rumo à diretoria tendo a certeza de que Rosangela gargalharia quando soubesse que sou a mais nova representante do Terceiro D. A garota que só se mete em confusão, assumindo responsabilidades. Ela com certeza acharia que é algum tipo de pegadinha. Ao chegar na porta de sua sala, a avistei sentada atrás de sua mesa lendo uns papéis em suas mãos. Dei duas batidas na porta para que ela me visse e então ela levantou a cabeça. Tenho certeza do que foi que ela pensou quando me viu ali: O que essa garota aprontou dessa vez?

– Licença, Rosangela. Posso entrar?

– Entre! Fique a vontade. – disse Rosangela apontando para a cadeira em frente sua mesa. Eu obedeci e me sentei nela. – Aconteceu alguma coisa?

– Não, eu vim só conversar. Você teria um tempo?

– Claro! Do que se trata?

– Eu estava conversando com a turma e me elegeram como representante da sala. – contei e ela não conseguiu esconder sua feição de perplexidade, o que de certa forma até me causou vontade de rir. – É, por incrível que pareça... Então fiquei responsável de vir tratar com você sobre alguns assuntos. Como os trotes, o primeiro mês de aula já acabou, então seria interessante já começarmos. E também a formatura, imagino que levará tempo para fazer uma coisa bem feita, então é melhor já começarmos a organizar.

– Claro! Vamos fazer assim, preciso de um representante de cada turma e marcamos uma reunião para discutirmos isso com todos. Você poderia passar nas salas pedindo para que eles decidam esses representantes até amanhã no primeiro intervalo?

– Posso sim.

– Ok, peça para que te notifiquem os nomes e me avise no terceiro horário. A reunião deve ocorrer após o segundo intervalo, mas aí eu te confirmo quando me trouxer os nomes.

– Sim, senhora.

– Fico feliz que esteja se comprometendo com assuntos sérios, Isabelle.

– Obrigada! – agradeci me levantando. – Nos vemos amanhã.

Eu acho que estar me comprometendo com esses dois assuntos, significa garantir algo bem feito para duas coisas que eu considero muito importantes. Mas sai da diretoria tremendo e pensando: no que diabos eu me meti? Teria de passar em todas as salas e dar um recado na frente de todos os alunos. Eu morreria de vergonha.

Subi as escadas criando coragem e respirei fundo ao chegar no terceiro andar. São seis turmas do terceiro ano e por uma questão de TOC, caminhei até o fim do corredor para ir no Terceiro F primeiro. A porta da sala estava aberta e consegui enxergar o professor de Química explicando algo em frente ao quadro. Não sabia como chamar sua atenção, então fiz a mesma coisa que na sala da diretoria. Dei duas batidinhas na porta e ele olhou em minha direção.

– Posso ajudar, senhorita Nemitz?

– Posso dar um recado da diretora para a turma? – pedi e ele assentiu. Entrei na sala apenas o suficiente para que todos os alunos pudessem me ver e comecei a falar. – A diretora pediu para que vocês se organizem e decidam o representante e vice representante da turma, para que comece a ocorrer reuniões a cerca das atividades do terceiro ano. Os nomes deverão ser passados para mim até amanhã antes do primeiro intervalo. Estarei no Terceiro D. Alguma pergunta?

Ninguém se manifestou, então agradeci, sai da sala e repeti a mesma ação no Terceiro E. Em minha sala nem dei o recado, porque já havíamos escolhido, por isso eu estava ali perdendo aula de Literatura. Pensando bem, isso pode ser até bom, já que devo perder bastante aulas nessas reuniões. Ao chegar no Terceiro C, meu coração parou por alguns segundos. Era a sala de Arthur e Leandro. E Bianca. A porta estava aberta, mas a professora não me notou ali porque estava concentrada conversando com os alunos. Era Marise, professora de Língua Portuguesa.

– Professora, Isabelle Nemitz está na porta. – avisou uma garota sentada no primeiro lugar. Eu não fazia ideia de quem era, mas não me assustei tanto. Levando em consideração minha briga com Bianca e o fato de que ela era daquela turma, todo mundo devia mesmo me conhecer. Houve um pequeno alvoroço na turma e Marise olhou para mim sorrindo.

– Entra, querida! – ordenou Marise sorridente, se levantando e caminhando em minha direção. – Em que posso ajudar?

Eu entrei na sala com receio, sem coragem de olhar para os alunos. Lembrei do que havia aprontado com o Arthur e o peso na consciência bateu com força.

– Só preciso dar um recado da diretora. – expliquei.

– Fique a vontade!

– Pessoal... – disse me virando para eles e meus olhos se cruzaram diretamente com os de Arthur, sentado no meio da sala, ao lado de Leandro e duas carteiras atrás de Bianca, que por acaso estava me olhando com a maior cara de puta impaciente. – Preciso que vocês façam uma votação e decidam o representante e vice-representante da turma, para que comece a ocorrer reuniões a cerca das atividades do terceiro ano. Os nomes deverão ser passados para mim, sem falta, até amanhã antes do primeiro intervalo. Eu estarei no Terceiro D. Alguma duvida? – perguntei e Leandro levantou a mão.

– Com que frequência matarei a saudade de você se eu me candidatar? – ele perguntou sorrindo e me fez rir.

– Não sei. – respondi. – Mas não é como se minha sala não fosse aqui do lado ta, senhor Leandro.

– Não me dou muito bem com a galera da sua sala, sabe como é. – ele respondeu e eu fiz uma careta para ele.

– Mais alguma pergunta?

Ninguém se manifestou. Não sei nem porque pergunto isso, já que é uma ordem bem simples. Acho que é só porque não sei como terminar o recado. Eu agradeci a Marise e olhei para Arthur uma última vez antes de sair da sala. Sorri, mas ele permaneceu sério. Ah, o amor adolescente é mesmo lindo, Lilian! – Querem fazer a votação agora? – ouvi a professora perguntar enquanto eu saia.

Caminhei até a porta do Terceiro B e senti meu coração acelerar, eu tinha certeza que não estava preparada para encarar o que aconteceria a seguir. Bater de frente com um passado que vai me matar de saudade. A porta estava fechada, então bati e esperei que abrissem. Após alguns minutos ela se abriu e quem apareceu por trás dela foi Miguel, o professor de Biologia. Minha primeira reação na verdade foi ficar totalmente sem reação, olhando para a cara dele sem dizer nada. Depois me veio uma vontade sobrenatural de rir, imaginando como Leticia estaria reagindo àquela aula.

– Em que posso ajudar? – ele perguntou sério.

– Eu tenho um recado da diretora para a turma.

– Pessoal, a Isabelle tem um recado da Rosangela para vocês. – anunciou Miguel abrindo mais a porta, dando espaço para que eu entrasse.

No momento em que entrei e meus olhos bateram nos alunos presentes, minha respiração falhou e meus olhos se encheram de lágrimas. Saudade e nostalgia são os dois maiores pontos fracos da minha personalidade e os dois me atingiram em cheio. Eram todos rostos conhecidos, pessoas com quem convivi diariamente durante dois anos da minha vida. Pessoas que fizeram parte da minha história.

Avistei meus amigos sentados naquele mesmo lugar de sempre, no canto esquerdo da sala – para quem está olhando de frente para as carteiras –, no fundo. Exatamente onde eu e o pessoal sentamos. Aquele sempre foi o nosso lugar. O lugar mais longe possível do professor, o mais longe possível das patricinhas e dos nerds, o melhor lugar para fazermos bagunça e principalmente passarmos cola. Não há saudade mais dolorosa do que daquilo que já fomos.

De repente senti saudade até mesmo dos nerds sentados nas primeiras carteiras do canto direito da sala, que para ser sincera, para mim pareciam todos iguais. Eu nunca sabia diferenciá-los e sabia apenas que um deles se chamava Leopoldo, então os apelidei de “Os Leopoldos”. Depois disso nunca mais conseguimos os chamar de outra coisa e o engraçado é que eu nem sei qual é o verdadeiro Leopoldo. Eles eram sempre quietos na deles, não atrapalhavam ninguém, eram sempre educados, então eu tinha simpatia por eles e por isso seria até aceitável a saudade.

Agora absurdo mesmo foi perceber que senti falta até das patricinhas. Sentadas logo atrás dos nerds, com as mesmas caras de nojentinhas. Sempre com os cabelos impecáveis, as unhas bem feitas, reclamando sobre tudo, intercalando canetas de cinquenta cores diferentes em seus cadernos e jogando charme pros meninos. Elas implicavam comigo de todas as formas possíveis e mesmo assim sorri ao enxergá-las.

– Ai meu deus, que saudade! – admiti com os olhos cheios de lágrimas e sorrindo ao mesmo tempo.

– Volta pra nós! – gritou Alexandre.

– Só uma perguntinha... – disse Ana, uma das patricinhas. – Desde quando você dá recados da diretora? Ao invés de recebê-los?

– Você continua irritante, que saudade disso! – confessei e todos riram. – Acreditem se quiser, sou representante de sala agora! – contei e dessa vez praticamente a sala inteira gargalhou.

– Isso me ofendeu.

– Você, Isabelle? Você? – indagou Vitor e eu percebi que havia muito tempo que não conversávamos. – Se isso não for zoeira, eu tenho certeza que a galera da sua sala enlouqueceu. Aliás, teve uma votação?

– Sim, teve! E eu ganhei com 60% dos votos.

– Inacreditável. – afirmou Leticia.

– Quem diria... Justo você. – disse Pedro. – Aliás, essa sala ficou um saco depois que você saiu daqui, sério. Ninguém debatendo com professor, ninguém xingando os coleguinhas, ninguém roubando comida.

– Eu ainda não sei como vou fazer na semana de provas sem você pra me passar cola. – comentou Alexandre.

– Puta que pariu, eu não tinha pensado nisso. – rebateu Pedro.

– Estão todos perdidos sem mim.

– E o recado era qual mesmo? – perguntou Miguel mostrando que eu estava tomando tempo de sua aula. Sua pergunta me fez voltar para a realidade e eu olhei imediatamente para a Leticia, que entendeu pelo meu olhar e sorriso, o que eu estava pensando. Ela fechou a cara na mesma hora e eu tive de segurar minha vontade de rir.

– Meus lindos, preciso que façam uma votação e decidam o representante e vice-representante da turma, para que comece a ocorrer reuniões a cerca das atividades do terceiro ano. Os nomes deverão ser passados para mim, sem falta, até amanhã antes do primeiro intervalo. Para quem não sabe, agora faço parte do Terceiro D e é lá que me encontrarão.

– Eles são mais legais que nós? – perguntou Amanda.

– Muito mais. – brinquei. – Mas não se preocupem, essa sala tem um espaço reservado no meu coraçãozinho sentimental que está chorando.

– Nós sabemos. – afirmou Leticia e eu ri.

– Então vamos fazer essa votação logo ao invés de ficar proseando com Isabelle Nemitz. – anunciou Miguel. – Obrigado pelo recado!

– Tchau, meus lindos! – gritei saindo da sala dando tchauzinhos com as duas mãos.

Antes de sair dei uma última olhada em todos e observei a Novata sentada ao lado de Amanda, exatamente onde eu me sentava. Ela estava quieta, apenas me observando. Naquele momento tive vontade de dizer o quanto ela era sortuda, por ter a chance de viver minha antiga vida. Ela não faz ideia de em que situação a vida a colocou: ela jamais vai sentir tanta saudade de algo, como desse ano.

Ao sair de lá dei o recado para a última turma e voltei para a sala, no exato momento em que o sinal tocou. Assisti ao último horário desejando ter dado todos os recados naquele momento e não na aula de Literatura. Porque eu gosto de Literatura e agora estava ouvindo o professor de Física falar sobre fórmulas que eu não quero aprender a usar.

Quando a aula finalmente acabou me entregaram a lista com os grupos do trabalho de Literatura definidos e foi quando vi que meu nome estava no grupo de Carol, Gustavo, Bruno e Gabriel. Nosso primeiro trabalho juntos, isso vai ser engraçado. Fiquei preocupada com quem Bárbara faria, mas ela esclareceu que já tem grupo definitivo para trabalhos, umas garotas nerds que sentam na frente. Fez todo sentido.

Enquanto conversava com Bárbara, o pessoal acabou saindo antes de nós e fiquei revoltada por não conseguir me despedir de Gabriel, porque não o encontrei na saída. Mas enquanto ainda estava na rua do colégio já indo para casa, senti alguém passar o braço por cima do meu ombro e era exatamente ele, com um pacote de jujubas na mão.

– Onde você pensa que vai sem mim? – ele perguntou e enfiou umas cinco jujubas de uma vez na boca.

– Pra casa, talvez?

– Sem mim? Não mesmo.

– Ah, desculpa se não fui informada de que era pra lá que você ia. – disse ironicamente e tomei o pacote dele. – Adoro jujubas!

– Tenho quatro dias perdidos para recuperar. – ele explicou sorrindo. – E não ouse roubar minhas jujubas. – completou tentando pegar o pacote de volta, mas não deixei.

– Vou ficar com isso daqui. – avisei. – E saiba que eu ainda não estou totalmente de boa com você.

– Tudo bem... – respondeu Gabriel sorrindo e encostou a boca em meu ouvido para sussurrar a próxima frase. – Quando estivermos no seu quarto, te faço mudar de ideia.

Notas finais
Pessoal, prometo que assim que eu acordar respondo os comentários de todos, porque agora eu to meio que dormindo de olhos abertos. Beijinhos da K e até o próximo! NemiZier... Hahahahahaha