Polly
20 Toca do coelho
Notas iniciais
Meu corpo inteiro doía, cansado. O machucado em minha testa ainda latejava sob o curativo mal feito por mim. Noites sem dormir começavam a cobrar o seu preço. Além do inchaço em meu rosto, dois arcos roxos contornavam os meus olhos. Um cadáver estaria mais atraente que eu naquele momento. Mas apesar de estar completamente destruída, era difícil dormir com o pandemônio em minha mente.
Queria entender como Anna descobrira o paradeiro de Marcus. Talvez pelo fato de ela não conseguir se pronunciar, ele tenha lhe confiado segredos que jamais contaria a ninguém. Fui acometida pela curiosidade; queria saber o que aquela pequena garota conhecia.
Mas tão repente, meus pensamentos mudaram de foco, e pela primeira vez eu pensei no que eu faria depois de tudo isso. Havia tempos desde a última vez que eu trabalhara. Contraí uma dívida com Nina que talvez eu passasse a vida inteira pagando. Havia magoado Ian, e depois lhe deixei confuso com apenas três estúpidas palavras. E Klaus, o que eu diria a ele depois de tudo isso? Que seu pai estava morto? Ele nunca me perdoaria se soubesse de todo o meu plano.
Todos dizem que após a vingança o que nos acompanha é um enorme vazio. Eu nunca havia sentido medo disso até aquele momento. Qual seria o preço que eu pagaria pela minha vingança? Sem resposta, acabei me entregando ao sono.
***
Uma claridade vinda da janela me despertou. O dia estava ensolarado e mais quente. As poucas horas de sono não foram suficientes para devolver uma aparência mais viva. Nada que um café reforçado não resolvesse. Tomei um longo banho quente, e contornei as imperfeições de meu rosto agora não mais inchado. Tirando o curativo, o resultado estava bom.
Quando desci a mesa já estava posta. Anna estava melhor pela manhã. Já não ameaçava chorar, estava com uma expressão lívida. Quando me viu chegar, mostrou a cadeira ao lado dela. Ao me sentar e sorrir para ela, percebi que estava começando a melhorar as coisas.
Sua mãe me serviu uma enorme xícara de café com leite, acompanhando bolos e torradas. Devorei tudo com um apetite de dar inveja a Amanda. Percebi que o pai de Anna me olhava com desaprovação. Eu lhe devolvi com um olhar desafiador. De repente, um plano maluco me invade a mente. Algo nada mais justo para Anna e a melhor vingança para mim. Sim, eu precisava fazer isso.
– Está gostando daqui, Polly? – Pergunta a mãe de Anna. Só agora eu percebi que ela não parava de falar.
– É um lugar muito bom, mas não planejo passar essa noite.
Percebo que ela fica um pouco desapontada.
– Mas já? Por que a pressa?
– Preciso visitar um amigo. Sabe qual caminho eu posso tomar até a “Toca do coelho”?
Ela faz uma carranca. Posso perceber que o lugar é um grande concorrente deles, e pelo visto está ganhando. Marcus soube bem onde se esconder.
– Eu explico o caminho a ela. – O ex delegado logo se pronuncia, talvez contente em me ver longe dali.
Atenta, escuto cada detalhe que ele me dá e percebo que em menos de duas horas chegarei ao meu destino. Trato ali mesmo o preço da minha estada e logo me levanto pronta para arrumar as malas.
– Chamarei um táxi para a senhorita. – Ele gentilmente me expulsa.
Dou uma rápida olhada para Anna. Ela está mais confiante do que nunca. Percebo que ela vem até mim e me abraça. Aquilo me pega de surpresa.
Seus pais nos olham incrédulos, e parecem não acreditar quando ela se oferece para me ajudar com as malas. Sei que deveria consultá-la sobre o que estou prestes a fazer, mas tenho medo de que ela me impeça. Ela não deve sentir vergonha de algo que não teve culpa. Entretanto, se ela não deve sentir, por que eu ainda não criara coragem para contar ao meu pai?
Bem, são pais completamente diferentes.
***
Peguei minha única mala e escondi a arma debaixo da blusa. Temia qualquer surpresa então estava preparada para tudo. Anna me deixou com os desenhos, mas me entregou um novo. Nele, eu me confundia com a Alice. Usava um vestido vermelho, mas essa não parece ser a sua cor original. Na mão direita eu levava uma faca, e na outra, a pele de um coelho. Anna desenhava tão bem que era de arrepiar.
Dei-lhe mais um abraço antes de partir. O táxi já me esperava na cerca. Deixei apenas a minha mala e pedi que esperasse alguns minutos. Eu não poderia partir sem fazer isso.
Esperei que Anna voltasse ao casarão e procurei o seu pai. O ex delegado estava ocupado cuidando de um belo cavalo negro. Olhou-me desconfiado quando percebeu a minha presença.
– Pensei que já tinha ido embora. – Ele cuspiu rispidamente.
– Tinha que resolver uma coisa antes. Primeiramente elogiar a sua filha.
– Parece que ela gostou de você. – Notei uma certa inveja em sua voz
– O senhor ama a sua filha?
A pergunta o deixou abalado.
– Que tipo de interrogatório é esse? Claro que amo minha filha! – Apesar da resposta imediata, eu não acreditava totalmente na palavra de alguém que vendeu sua honestidade.
– Sabe que sua filha possui um talento artístico curioso? Deixe-me mostrar algumas coisas.
O pai de Anna correu os olhos em cada desenho, um por um. E por mais bruto e confuso que seu rosto demonstrava, era notável o choque que aquelas imagens fortes causavam.
– Isso é adulto demais para a idade dela.
Apesar da gravidade da situação, eu precisei rir.
– Acha inadequado? Acho que o senhor não entende a arte e as coisas que ela expressa. Bom, eu vou explicá-la a você. As cores preto e vermelho, que como você pode perceber, predominam nos desenhos, demonstram violência e medo. Cores que como você pode ter percebido, eu também uso. A garota com olhar de medo, um olhar que você deve ter percebido em meses, é a sua filha. Ela está com medo, e está com vergonha. Veja como ela se esconde nesse lençol branco, com uma pequena mancha de sangue. Você deve lembrar de sua esposa brigando por Anna ter manchado o lençol com tinta, ou talvez com a menarca. Mas não é nenhuma nem outra. É a perda de sua inocência. Sabe quem a roubou? Reconhece essa silhueta? Pois bem, acho que não preciso dizer mais nada.
A medida que eu vou dizendo, o semblante do homem ao meu lado se empalidece. Desespero, vergonha, ódio, e vários sentimentos se misturam em seu olhar estupefato. Ele mal consegue pronunciar as palavras.
– Seu nome não é Amanda. Eu conheço você. Quem é você?
– Há muito tempo eu precisei da sua ajuda. Assim como a sua filha, eu não conseguia me comunicar. Eu tinha vergonha e medo do que este homem seria capaz de fazer. Outras pessoas interviram por mim. Você ficou do lado dele. O homem chegou todo machucado, você logo achou que era chantagem. Ele tinha um álibi, isso moldou seu pensamento. Estranhou a propina enorme que ele lhe oferecia, mas achou que fosse apenas um professor com medo de perder a profissão com um julgamento de mentira. Você confiou nele. Deixou-o livre. Recebeu-lhe em sua casa. E ele destruiu o resto de infância que sua filha poderia ter tido.
Foi quando eu percebi que chorava, e que a culpa não era minha. A lei, que estava nas mãos dele, falhou comigo. E como consequência, falhou com a sua filha. Eu queria poder sentir pena dele apenas como pai, mas o sentimento de dever cumprido era melhor. Aos poucos eu estava desmascarando-o e me vingando de todas as pessoas que lhe ajudaram.
– Com licença, eu tenho assuntos a cumprir agora. Vou te deixar com esses desenhos, espero que eles lhe assombrem a noite, junto da sua culpa. Garanto que senti o impulso de espancá-lo quando lhe reconheci, mas acho que jamais lhe causaria tanta dor quanto agora.
E com aquelas palavras, eu abandonei um pai perdido e com nojo de si mesmo. Aproximei-me do táxi. Havia uma grande chance de eu chegar ao esconderijo antes do coelho. E dessa vez o terreno estaria bem preparado.
***
A morte de Edith serviu para alguma coisa no fim. Com a receita de seus remédios, eu podia comprar a quantidade certa para aplicar um boa-noite Cinderela. Durante o caminho, fiz várias paradas com o taxi. Uma na farmácia, onde pude comprar bastantes calmantes. Um mercado ao lado chamou minha atenção. Entrei e encontrei algo que eu sabia exatamente como fazer, embora há muito tempo não comesse. Biscoitos idênticos ao que ele me ensinara. Não resisti a comprar, seria bom relembrá-lo.
Comprei a corda mais forte que o mercado poderia me oferecer. O ideal seria uma algema, ou uma mordaça. Porém, dificilmente encontraria uma loja especializada nesses artigos com determinados fins bem diferente dos meus.
Quando voltei o taxista me olhou desconfiado. Entretanto, os longos anos de serviço devem ter lhe ensinado a nunca fazer perguntas indiscretas. Discrição era o segredo para não ser pego. E era isso que eu estava pretendendo ser.
***
Pelo visto eu não era a única a tentar ser discreta. O chalé, ou que quer que fosse o “Toca do coelho”, era mais escondido que tudo. Uma estrada estreita subia íngreme até a entrada, bem no alto. O caminho era decorado pela natureza por pedras e árvores de araucárias. O taxista se recusou a me acompanhar, então tive que seguir o percurso sozinha. Por sorte minha mala não estava tão pesada. Não tanto quanto a minha consciência.
Então era isso. Assim que eu chegasse ao esconderijo eu poderia surpreender ou ser surpreendida. Eu esperei tanto por aquele momento, então por que sentia medo? Por que havia esse pressentimento ruim? Seja lá o que fosse eu precisava afastar ao máximo da minha mente conturbada. O que viria a seguir precisava de minha total concentração.
Quando a subida chegou ao fim eu estava ofegante. A primeira coisa que procurei foi por câmeras junto ao enorme portão de ferro. Não havia nenhuma, talvez porque ele queria privacidade tanto quanto eu. O portão estava trancado, mas era possível escalar. Com facilidade joguei as malas e depois foi a minha vez. Eu parecia estar prestes a pisar em um terreno minado.
Precisava admitir que o chalé era charmoso. Araucárias circulavam ao redor do chalé totalmente amadeirado. O cheiro amadeirado lembrava o seu perfume, muito forte. Respirei fundo e todo aquele cheiro me inundou, o que não me deixou nada calma. Retirei minha arma da mala e coloquei junto ao peito, caso ele esperasse por mim. Relutante, caminhei até a varanda. Uma rede atrapalhava a entrada. Aquele parecia ser o seu canto de reflexão. Um pequeno caderno azul repousava na rede. Peguei de imediato, pois poderia ter algumas anotações importantes.
Encarei a porta a minha frente. Com certeza ela estava trancada. Mais uma vez, nenhum sinal de câmeras. Não queria arrombá-la, por isso muito cuidado e um cartão de crédito me ajudaram a entrar.
A casa era escura e a poeira fazia parte da mobília. Com certeza não havia ninguém aqui,o que me deixou mais tranquila. Uma cortina cobria a fraca luz do sol que invadia timidamente a sala. Liguei as luzes e dessa vez pude me guiar. O chalé era ainda mais bonito por dentro, com direito a uma lareira. Na certa, era alugado sempre. Parecia um bom lugar para fugir de todos, ter uma noite romântica ou matar alguém. Eu queria a mais infeliz das opções.
Com muito cuidado, explorei o resto do lugar sorrateiramente. Abri a porta do quarto com a arma a altura de qualquer cabeça. Não havia ninguém por lá. Nada no banheiro, além de uma banheira enorme. E por último lugar, a cozinha. Procurei por bebida, com certeza encontraria. Peguei o wisky mais caro e despejei o remédio forte de Edith em uma taça. Preocupei-me com a quantidade. Não queria que ele tivesse uma morte rápida como a dela (apesar de seu sofrimento me atormentar até hoje). Os biscoitos seriam uma belíssima lembrança para ele. Despejei o conteúdo em uma bandeja, e levei para o seu quarto.
Meu corpo inteiro se arrepiou assim que eu entrei em seu quarto. Talvez fosse por medo, uma lembrança vindo a tona, ou talvez apenas o vento frio que invadia pela janela e puxava as cortinas para uma dança. O banheiro ficava escondido atrás de uma “porta armário”. Era um bom lugar para esconder as minhas coisas. Uma corda. Munição extra. Eu era maluca por carregar essas coisas, mas estava experiente em me esconder.
Olhei para a bandeja que o esperava. De repente uma ideia absurda, infantil e completamente inútil me veio a cabeça. Peguei dois blocos de papel e uma caneta em cima de sua escrivaninha e escrevi as frases famosas de Lewis Carrol: “Coma-me”; “beba-me”. Aliás, as pessoas suspeitavam que Lewis fosse pedófilo. Talvez seja interessante a essa situação. O biscoito relembrava a época em que ele se sentia grande e invencível sobre mim. A bebida que eu preparava iria lhe dopar, fazê-lo se sentir tão pequeno quanto uma ervilha.
Escondi-me em seu banheiro, deixando a porta estreitamente aberta. Ele não poderia me ver, mas eu sim. Ainda tinha o pequeno caderno de anotações dele. Por sorte, estava de luvas e minhas digitais jamais seriam encontradas por aqui. A curiosidade, uma antiga amiga, guiou minhas mãos me fazendo folhear as páginas. Rapidamente soube do que se tratava, e eu não poderia desejar nada melhor. Ele era esperto, um gênio da manipulação, mas sua fraqueza era o papel e a caneta. E ninfetas, acima de tudo.
Antes que eu pudesse ler, ouvi o som de passos apavorados se aproximando. Meu coração acompanhava o som dos passos, cada vez mais rápidos. Minhas mãos trêmulas seguravam a arma, e eu implorei que meu controle não me abandonasse naquele momento que eu havia esperado tanto.
Ele entrou no quarto. Ainda usava paletós surrados. Seus cabelos estavam mais brancos, e parecia ter ganhado peso. Despejou sua bagagem em cima da cama, suspirando profundamente. Mas seu breve momento de paz se dissipou quando ele se deparou com meu singelo presente. Um espelho denunciava o seu rosto derrotado. Mais rugas haviam aparecido durante todos aqueles anos, ou talvez fosse por culpa do momento. Trêmulo, ele levantou as mãos, como um bandido preso em nome da lei.
– Você ganhou. – Ele sussurrou para mim e sua voz era tão diabólica quanto antes.
Com a arma empunhada, abri a porta e me aproximei dele. Seus olhos estavam fechados, e eu sei que ele lutava para não perder a imagem da Polly criança. Mas eu iria tirar isso dele, assim como varias coisas que ele tirou de mim. Encostei a arma em seu pescoço, o temeroso cano gélido. Eu sei que corria o risco de ter a arma roubada, mas Marcus não saberia como. Ele sempre fora atrapalhado.
– Abra os olhos. Olhe pra mim. – Eu ordenei, passando a arma pelo seu pescoço.
Relutante, ele me obedeceu. Olhou para mim e a decepção ficou marcada em seu rosto. Por mais estranho que pudesse parecer, tê-lo sob meu controle era prazeroso. Esse era o sabor da vingança, afinal de contas.
– Agora coma e beba. Temos muito que conversar.
Eu ordenei e nunca poderia imaginar o quanto era gratificante ter aquela vida medíocre sob meu controle.
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