Polly

21 Dia da Caça


Notas iniciais
Peço mil desculpas pela demora! Como sabem, eu escrevo duas fics ao mesmo tempo e isso às vezes me deixa confusa haha. Mas ai está o capítulo. É um prelúdio para o próximo que será com certeza o mais importante! E é isso... estamos quase chegando ao fim! Boa leitura!

“Presente”!

“Ela respondeu mais uma vez à chamada, com sua voz grossa demais para uma garota de doze anos. Aliás, tudo nela é avançado demais para sua idade. Incrível como maturidade e inocência estavam presentes nela. Mas ela era assim. Essa era Pollyana. ”

Assim começavam as primeiras páginas do pequeno caderno de Marcus. As folhas estavam amareladas e algumas até rasgadas. As datas não mentiam. Ele havia escrito aquilo depois de tudo. Uma lembrança perigosa da época em que pensava exercer algum poder sobre mim.

Agora ele estava amarrado a uma velha cama de madeira. Escondido entre uma mata de araucárias, longe de todas as pessoas que o apoiavam. Algumas em sua maioria já destruídas. Fora difícil no início. Marcus havia engordado. Mas seu peso agora não era nada para mim, não como eram aos meus doze anos. Eu preferia montanhas rolando sobre meu corpo a ter que sentir o seu peso novamente.

Prossegui a leitura, usando luvas para não contaminar aquela prova. Marcus havia escrito sua própria condenação, e agora sob meu poder iria ser usada sabiamente. E até pensei que meu asco por ele não poderia aumentar, mas a cada parágrafo, eu me sentia cada vez mais convicta em matá-lo.

Eu estava sentada de frente para a cama, observando o momento em que Marcus despertaria. Por ironia do destino, eu usava um casaco xadrez vermelho, tal qual a pequena saia do uniforme escolar. Aquela imagem iria perturbá-lo, com certeza. Aos poucos, percebi que o efeito dos calmantes estava passando, e então, vi seu olhar confuso novamente para mim.

– Vejo que finalmente acordou. – Saudei-lhe com uma espécie de riso contido.

Marcus usava de um esforço sobre humano para se livrar das cordas, fazendo a cama ranger. Quando seus olhos fitaram o conteúdo em minhas mãos (minha arma e seu pequeno diário de recordações), seu rosto se tornou rubro instantaneamente.

– Não era para você ler isso.

– Oh! Está se sentindo tímido agora? Você não é assim Marcus, não tente me enganar.

Por um momento ele desistiu de lutar contra as cordas. A cama agradeceu em silêncio, tão velha que poderia desabar com todo aquele esforço. Tinha sua beleza, apesar de tudo. Sua cabeceira parecia um labirinto de madeira prestes a se desprender. Que decadência em comparação a enorme casa deixada a ele por herança.

– Vai me manter preso a essa cama todo o momento? Vai me alimentar aqui, ou pretende me matar de fome e sede? – Ele me enfrentou, embora eu pudesse sentir o medo em seus olhos.

–Não. Pretendo te matar antes. – Respondi-lhe sorrindo.

– Assim como matou Edith? – Ele acusou.

Por um momento quase pensei que ele poderia se importar com ela. Mas eu sabia o que ele estava tentando fazer.

– Não tente por a culpa em mim, Marcus. Edith se matou e você ajudou.

Ele desistiu do seu argumento, convicto de que aquela era a verdade. Havia destruído a vida da única mulher que se importara com ele.

– Por que está fazendo isso, Polly? Onde está aquela pequena garota que eu conheci? Eu sei que ainda existe um pouco dela dentro deste monstro que eu vejo agora.

A forma como aquela frase, cada palavra dela, fora proferida, fez meu corpo inteiro ser possesso por um ódio demoníaco. Era como se ele ainda fosse o exemplo a ser seguido, dando-me uma lição de moral. Uma entonação de voz tão fraternal que insultava mais que qualquer xingamento. Sem controlar, explodi o peso da minha mão em seu rosto com uma força sobrenatural. Atordoado pela surpresa, Marcus cuspia sangue.

– Como você tem coragem de dizer isso?! Aquela garota? Sabe onde ela está? Morta! Você a matou, Marcus! A garota que você tanto venerava morreu e isso foi o que sobrou dela! O suficiente para vingá-la. E não só a ela! – Dessa vez despejei-lhe um golpe com a arma. Uma fila de sangue corria de sua testa, no mesmo lugar onde ele havia me machucado.

Marcus me encarou mais uma vez. Era a primeira vez em que se sentia surpreso.

– Você sabe sobre Anna?! – Seu rosto se tornou ainda mais rubro. Era possível que sentisse vergonha, como um traidor desmascarado.

– Aliás, ela me guiou até aqui, sabia? Não, não sabia. Você a subestimou, Marcus.

Ele parecia fitar o vazio, perdido. Eu prossegui.

– Como você pôde? Já não bastou o que fez comigo? Por que você faz isso, Marcus?

Apesar de saber que não havia explicação para aquele comportamento doentio, eu queria que ele se sentisse culpado.

– Ela me lembra você. – Aquela foi a sua única resposta, dita sem a coragem de encarar os meus olhos. Senti a culpa ferir o meu corpo como pontadas de espada.

“Não é a sua culpa, é culpa dele”. Eu repetia o mantra em minha mente, mas não parecia funcionar. Embora eu soubesse desde o início que a semelhança era óbvia, me recusava a assimilar os dois destinos semelhantes. Percebendo meu desespero interno, ele finalmente conseguiu me encarar novamente. Aqueles terríveis olhos cor de âmbar que me fizeram afastar Klaus.

– Você é um monstro. – Cuspi.

Um sorriso desanimado e nada feliz brotou em seu rosto.

– Deveria ter conhecido o meu pai. – Ele murmurou,

A “terrível” história que Edith nos contara. E mesmo sabendo de todos os castigos, de todas as sessões de espancamento, mesmo sabendo que ele era apenas uma criança e que talvez a sua doença tenha começado ali, era impossível para mim, sentir pena de Marcus. Por mais que seu antecessor tivesse sido pior, aquele a minha frente era o meu pior monstro.

Todos os dias eu agradecia aos céus por Klaus não herdar aquela genética destrutiva.

– Não conheci o antecessor, mas conheci o seu filho.

Mais uma vez consegui abalá-lo. Mas dessa vez era de uma forma diferente, era como se eu conseguisse chegar ao seu ponto mais fraco.

– Você não falou nada sobre mim, ou falou?

Por algum motivo Marcus parecia temer que o filho soubesse a verdadeira natureza do pai.

– Não, ele não merece isso.

Ele respirou, aliviado.

– Se se importa tanto com o seu filho, por que abandonou a mãe dele? Por que você é tão doente assim, Marcus?

Seu silêncio perdurou por tanto tempo que pensei que não obteria resposta.

– Agi como melhor pai do mundo, privando-o de ter um pai como eu. – E foi a primeira vez que concordei com algo que ele dissera.

– Por favor, não me diga que você fez o mesmo com a mãe dele.

Marcus voltara a situação de afastar o olhar, envergonhado. Eu esperava que ao menos dessa vez ele não tivesse agido como monstro. Klaus não merecia isso.

– Digamos que tenho certa dificuldade em entender o que é consentido ou não.

Aquilo não era uma novidade para mim. Não só Marcus, como a maioria das pessoas pensava assim. Percebi que mesmo sob tortura Marcus jamais me diria se a mãe de Klaus foi uma de suas vítimas, embora que no fundo eu soubesse. Aquele golpe de realidade havia destruído as minhas forças.

– Por que ainda não me matou, Polly? – Marcus me indagou, como se esperasse e temesse por isso.

– Pretendo terminar seu pequeno livro antes. – Estendi-lhe o livro. Todas as vezes que eu fazia, o rosto de Marcus queimava no inferno da vergonha. Não como se despissem seu corpo, mas como se despissem a sua alma. Algo bem mais íntimo.

***

“Eu sei que sou a escória da humanidade. Sei que minha natureza doentia teve seu início ainda quando me era permitido aproximar de ninfetas, mas à medida que o tempo lhes roubava o charme ingênuo, roubava também o meu fascínio. Edith jamais me perdoaria se pudesse invadir meus pensamentos mais secretos. Onde a noite, quando ela me buscava, eu fechava os olhos e imaginava-lhe décadas mais jovem. E sempre lembrava-me dela. Não sei se em algum momento de sonhos lascivos cheguei a repetir seu nome, e se repeti, minha cúmplice jamais mencionara. Não sei se a venda da paixão havia lhe impedido de enxergar a verdade, mas no fundo ela deveria saber. A quantidade de remédios se tornava maior a cada dia, e eu pressentia que eles a dominariam num torpor eterno.

Edith cometera um erro grave ao investigar minha vida. Descobrira, por intermédio dos comentadores profissionais da vida alheia, que o bom filho a casa torna. Meu coração foi tomado pelo maior medo de toda a minha vida: ser como o meu pai e ferir o meu filho.

Por isso, não pude ser seu pai e ele jamais poderia ser meu filho. Agora sei que se chama Klaus. É um nome que me intriga, pois parece algo se partindo. Espero de verdade que minha genética ruim não tenha lhe contaminado, e que ele carregue consigo todas as qualidades de sua mãe.

Eu temia que o pior ocorresse. Polly encontrasse Klaus, e ambos viessem até mim. Ter a imagem de minha Polly desfeita com a mulher que ela se tornara, e ver o meu filho temer o monstro que lhe dera origem era o pesadelo que assombrava minhas noites de insônia. Pior ainda, se Klaus encontrasse em Polly o mesmo fascínio que encontrei em sua puberdade. O mulato não gostaria nada disso, com certeza. Mas são hipóteses terríveis, e eu não posso deixar que se concretizem. Eu preciso me esconder.

As páginas que prosseguiam a narrativa de Marcus estavam rasgadas. Imaginei, pelo percurso da sua história, que este era o tempo em que ficara escondido em casa de Anna. Apesar de querer ter mais essa prova contra ele, eu estava mais feliz em não compartilhar o seu prazer com aquele crime, mesmo em palavras.

O dia havia se arrastado e a fria noite de agosto se iniciara. Todas as vezes em que eu o deixava sozinho, Marcus debatia-se na cama como um touro. Quando levei até ele um pouco de água e pão, ele me olhou surpreso.

– Pretende me matar envenenado? – Ele acusou, mesmo sabendo que não era a verdade.

– Não. Você sabe que não será desse jeito e não será agora.

Coloquei a bandeja como a água e o pão velho acima de Marcus, que suava com todo o esforço. Sob o seu olhar desconfiado, depositei o pequeno livro preto em seu criado mudo. Observei que dentre todas as gavetas, havia uma fechada a chave.

– Vai me soltar para comer?

Eu neguei veemente.

– Não faria lá muita diferença. Já não sinto mais os meus braços. – Ele murmurou sentindo-se vencido. Percebi que com muito esforço ele conseguia digerir um pouco de água e mordiscar alguns pedaços do pão. Vê-lo derrotado daquele jeito consumia minha sede de vingança com prazer.

– O que tem nessa gaveta? Quem sabe eu te deixo com as mãos livres se me contar.

Era óbvio que não cumpriria minha promessa, mas era prazeroso brincar com o poder. Nem um pouco assustado, Marcus me respondeu sorrindo de maneira perversa.

– Se você soltar as minhas mãos, vai desejar não saber o que tem nessa gaveta.

Ele me lançou um de seus olhares misteriosos e me deu mais um de seus enigmas. Seria o resto do seu diário? Sentia a velha curiosidade consumir o meu raciocínio, mas nada vinha em minha mente.

– Diga-me. Como ele é? – Apesar da sua pergunta vaga, eu sabia que ele se referia a Klaus.

– Ele é incrível. Apesar de ter os seus olhos, não se parece em nada com você. Dá aulas de inglês no Bertha, e todas as garotas o amam, mas felizmente ele não é um monstro como você. É dotado de tantas belezas e qualidades, que não consigo imaginar que o seu sangue corra pelas veias dele. Assim como também não consigo acreditar que a sua mãe, pelo visto muito bonita, tenha tido algo com você. Mas prefiro não pensar o pior.

Apesar de odiar ter que deixá-lo aliviado, Klaus merecia ser tratado com honestidade.

– Pelo visto estavam bem íntimos. Edith me contou que vocês eram...

– Namorados. – Completei. Aquela mentira era terrível, mas por um momento eu havia me deliciado com a ideia. – Sim, é verdade. Estávamos bem íntimos.

– Eu prefiro não saber os detalhes. – Marcus resmungou, os olhos fechados como se tentasse não imaginar tal absurdo. Notei o tom possessivo em sua voz.

Percebi ali uma forma de torturá-lo, apesar de imaginar toda uma farsa. Algo que jamais passara e jamais passaria de beijos. O olhar de Marcus assombrara todas as chances que Klaus poderia ter tido comigo, mas naquele momento, seu platonismo me serviria de bom grado. Jamais compartilhei sentimentos íntimos com ninguém além de Ian, e com certeza não conseguiria. Mas por um momento minha vergonha se dissipara para alimentar o ódio e a tortura.

– Ah não? Está sentindo ciúmes? Inveja do seu bastardo que deu a mim coisas que você jamais poderia dar? Como prazer, por exemplo?

– Por favor, não faça isso. – Ele implorava, os olhos fechados e o rosto beirando a loucura.

– Não quer imaginar as mãos do seu filho percorrendo o meu corpo? Aposto que nada te machuca mais do que saber que ele percorreu e provou todo o meu corpo. Que ele despertou em mim coisas que você jamais poderia. Algo feliz e consentido, uma coisa com a qual você sempre sonhou e nunca obteve.

– Por favor! – Ele grunhiu um som que enfim me fez silenciar.

Não sei até que ponto fui convincente, embora só conseguisse pensar em Ian durante aquela narração. E me senti suja por corromper aquela doce memória num momento tão perverso como esse. Estava começando a me descontrolar daquela situação, e mesmo o sofrimento de Marcus não valeria aquilo.

***

Esperei durante a noite que Marcus se cansasse de se debater e adormecesse. Talvez fizesse isso para manter os braços vivos, ou como única estratégia no desespero. Quando o barulho da madeira sendo puxada cessou, caminhei até o seu quarto. Ao me certificar de que estava dormindo, comecei minha busca incessante pela chave daquela gaveta.

Como era de se esperar, Marcus escondera aquela chave com a sua alma. Mas ambos não eram mais um mistério para mim. Escondida em um caixote, embaixo de pastas e casacos pesados, ali estava. Corri para abri-la, e o que encontrei lá não poderia me surpreender.

Alguns livros cobriam um desenho meu. O maníaco desenha detalhadamente cada parte do meu pequeno corpo em um uniforme de colégio, já praticamente detonado. Aquela imagem só tinha mais o que acrescentar em meu asco. Mas não iria ter fim. Não agora.

Ao ler todas aquelas páginas, por um momento desejei que Klaus descobrisse toda a verdade. Embora este fosse o golpe definitivo para a tragédia de Marcus, eu jamais seria capaz de machucar o inocente com a verdade. Entretanto, uma sensação estranha roubava a minha concentração em finalmente matá-lo. Sentia que algo estava por vir.

Sentia também que, apesar de vasculhar toda a sua vida, seu passado e a sua casa, Marcus escondia algo de mim. Poderia estar à milhas de distância ou debaixo do meu nariz, mas seja lá o que viesse, eu deveria estar preparada.

Notas finais
E então... Acham que Polly tem razão? Será que ela não deixou nada escapar? Esperando ansiosa pelos comentários! Sério fantasmas, eu também sou uma criatura das trevas. Não tenham medo de aparecer ;)